EFEITOS DA AQUISIÇÃO DE EMPRESAS NAS RELAÇÕES DE TRABALHO
I. Sobre o art 379.º, 2, do CT
3. Caução e seguros de responsabilidade dos administradores
Na sequência do art. 174.º do CCom.54, prescreve o n.º 1 do art. 396.º do CSC que a
responsabilidade de cada administrador de sociedade anónima deve ser caucionada por alguma das formas admitidas por lei (v. o art. 623.º do CCiv.), naimportância que for fixada no
estatuto social, mas não inferiora 5 000 euros55.
A favor de quem é prestada esta caução? A favor tão-só da sociedade, ou também dos outros sujeitos perante os quais os administradores podem responder (credores sociais, sócios e terceiros, incluindo pois os trabalhadores)? Parece resultar do art. 396.º estarmos diante de urna garantia de obrigações de indemnização dos administradores para com a sociedade. Com efeito, compete aos sócios fixar no estatuto social a importância (igual ou superior ao mínimo
53O Ac. da RL de 30/3/95, CJ, 1995, t. II, pp. 98, ss., decidiu que “pela indemnização por danos ilicitamente
causados aos direitos de personalidade de terceiro pelo funcionamento de um bar pertencente a uma sociedade comercial, são responsáveis, solidariamente, o gerente dessa sociedade, que o dirigia e mantinha em actividade (art. 483.º, n.º 1, do Código Civil e 79.º, n.º 1, do Cód. Soe. Comerciais) e a própria sociedade (arts. 6.º, n.º 5 deste Código e 500.º, n.º 1 do Cód. Civil)”.
54O revogado art. 174.º dizia: “Os directores caucionarão sempre a sua gerência na forma estabelecida nos
estatutos e, no silêncio destes, pela que for determinada em assembleia geral, sem o que não poderão entrar em exercício”.
55Este dever vale também para os directores de sociedades anónimas (art. 433.º, 2) e os gerentes das
sociedades em comandita por acções (art. 478.º). Nas sociedades de outros tipos poderão os estatutos estabelecer o dever de caução.
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legal) da caução (n.º 1), a eles competindo também dispensá-la (excepto nas sociedades
abertas) através de deliberação ou do estatuto social (n.º 3)56; por outro lado, a caução pode
ser substituída por um contrato de seguro “a favor da sociedade” (n.º 2)5758.
Diferentemente sucede com o seguro de responsabilidade civil dos administradores, pelo qual urna entidade seguradora se obriga, mediante retribuição (o prémio do seguro), a
pagar a indemnização devida pelos administradores não só à sociedade mas também a
terceiros (incluindo trabalhadores)59.
Em matéria de seguros dos administradores destaca-se a experiência dos países anglo- saxónicos, onde se encontra fortemente divulgada a figura do “directors and officers insurance” (abreviadamente “D & O insurance”). É um seguro que cobre despesas em que incorreriam, quer os administradores e executivos por causa de acções judiciais de responsabilidade (despesas processuais e/ou indemnizações), quer a sociedade que legal ou estatutariamente estivesse obrigada a reembolsar aqueles de tais despesas60. Tem-se
56V. tb. o art. 433.º, 2.
57O seguro de caução é regulado pelo DL 183 / 88, de 24 de Maio, alterado pelos DL 127 / 91, de 22 de
Março, e 214 / 99, de 15 de Junho.
Segundo o art. 6.º, 1, o seguro de caução cobre, directa ou indirectamente, o risco de incumprimento ou atraso no cumprimento das obrigações que, por lei ou convenção, sejam susceptíveis de caução, fiança ou aval. Entendeu o Ac. do STJ de 11/3 /1999, CJ (ASTJ), 1999, t. I, pp. 157-158, que o seguro de caução tem finalidade idêntica à garantia bancária e, pese embora o nome, não é um verdadeiro e próprio seguro.
58Orientação similar parece indicar RAÚL VENTURA, Novos estudos sobre sociedades anónimas e sociedades em nome colectivo, Almedina, Coimbra, 1994, p. 200: “Apesar disso, propus no Projecto aquilo que veio a
ser o actual art. 396.º C.S.C. É que não pareceu correcto retirar aos accionistas portugueses uma garantia (...)” – itálico nosso.
59Este seguro diferencia-se do seguro de caução, que, como vimos, cobre apenas o risco de incumprimento
(ou atraso no cumprimento) de obrigações susceptíveis de caução, fiança ou aval. Tanto o seguro de responsabilidade civil como o seguro de caução integram o ramo “não vida”. Todavia, pertencem, neste tronco comum, a ramos diversos: o primeiro ocupa o ramo “responsabilidade civil geral”, o segundo integra o ramo “caução” – v. o art. 123.º do DL 94-B/98, de 17 de Abril.
60V. ROBERT C. CLARK, Corporate Law, Little, Brown and Company, Boston/Toronto, 1986, pp. 668-669,
ROBERT W. HAMILTON, The Law of Corporations in a Nutshell, West Publishing Company, 2000, pp. 524, 532-533.
Em textos normativos, vejam-se, a título de exemplo, o § 145 da DGCL, epigrafado “Indemnification of officers, directors, employees and agents; insurance”, e os §§ 8.51, 8.52, 8.56, 8.57 do MBCA. Prevê o § 8.57 do MBCA que “a corporation may purchase and maintain insurance on behalf of an individual who is a
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reconhecido que o “D & O insurance”, além de proteger os administradores e executivos, é igualmente vantajoso para a sociedade, que paga o respectivo prémio – sobretudo por possibilitar que ela atraia pessoas mais qualificadas para a administração (pessoas que, sem o
seguro, muitas vezes nãose sujeitariam a riscos vários de litigância e responsabilidadecivil)61.
Note-se, entretanto, que o seguro não cobre todo e qualquer prejuízo causado pelos administradores; cobre os resultantes de actuação negligente, não os provocados por actos
dolosos, por exemplo62.
Fora dos países anglo-saxónicos, os seguros de responsabilidade civil dos administradores estão menos vulgarizados. Mas, seguindo o modelo do “D & O insurance”, são
cada vez mais frequentes em alguns destes países63.
Em Portugal, pelo que pudemos apurar, são praticamente desconhecidos.
Entre nós (mas não só), não deixa de ser um problema a admissibilidade destes seguros – quando os prémios são pagos pelas sociedades –, em face de uma disciplina legal que visa (também) prevenir comportamentos não diligentes dos administradores e que expressamente proíbe cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade (art. 74.º, 1, do CSC). Contudo, estes óbices são superáveis:
a) a pressão das regras da responsabilidade sobre os administradores, embora diminuída, mantém-se – especialmente porque são excluídos da cobertura do seguro
certos comportamentos (os dolosos, por exemplo )64;
director or officer of the corporation (...) against liability asserted against or incurred by him in that capacity or arising from his status as a director or officer, whether or not the corporation would have power to indemnify or advance expenses to him against the sarneliability under this subchapter”. “Liability” significa, para os efeitos desta disposição, “the obligation to pay a judgement, settlement, penalty, fine (including an excise tax assessed with respect to an employee benefit plan), or reasonable expenses incurred with respect to a proceeding” - § 8.50(5).
61 V. CLARK, ob. cit. pp. 673-674, HAMILTON, ob. cit., p. 525.
62Para diversos exemplos de riscos excluídos, v. últs. AA. cits., pp. 669-670 e 533-534, respectivamente. 63V., p. ex., ELENA F. PÉREZ CARRILLO, La administración de la sociedade anónima, Marcial Pons, Madrid,
1999, pp. 229, ss., MEINRAD DREHER, Der Abschluss von D & O – Versicherungen und die aktienrechtliche
Zuständigkeitsordnung, ZHR, 2001, pp. 294-295.
64V., p. ex., KLAUS HOPT, in AktG – Grobkommentar, 4. Aufl., 11. Lieferung, de Gruyter, Berlin, New York,
1999, p. 226 (informa o A., ibid., pp. 225-226, que a maioria dos autores considera ser admissível a sociedade pagar o prémio do seguro), DREHER, ob. cit., p. 310; v. tb. as considerações de DIOGO LEITE DE CAMPOS, A responsabilidade do administrador e o seu seguro, in A responsabilidade civil profissional e de
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b) o seguro não exclui ou limita propriamente a responsabilidade dos administradores – diminui sim o risco de os administradores pagarem as respectivas indemnizações;
c) a sociedade, apesar de pagar o prémio, também é favorecida pelo seguro (como referimos a propósito da experiência norte-americana) – favorecidos sendo também os credores sociais e terceiros;
d) se os administradores fossem obrigados a pagar o prémio do seguro, seria natural que a sociedade os tivesse de reembolsar da respectiva importância, designadamente através de aumento das retribuições65;
e) a admissibilidade de a sociedade pagar o prémio tem ainda a seu favor o art. 396.º,
2, do CSC: os encargos do seguro de caução podem ser suportados pela sociedade na parte em que a indemnização exceda 5000 euros.