2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2 O Processo de Envelhecimento Humano
2.2.2 Causas e Consequências do Envelhecimento Humano
A investigação científica tem elegido a temática do processo de envelhecimento humano e as mudanças a ele associadas como um dos temas de maior interesse, na procura de respostas acerca de quais as dimensões das mudanças, principais causas e consequências e áreas passíveis de intervenção para retardar ou mesmo travar esse processo (Figueiredo, 2007). Para a autora, uma questão fundamental que está ainda para ser resolvida seria identificar que modificações associadas ao envelhecimento são típicas ou normais e quais são os processos atípicos ou patológicos.
Aqui cabe salientar, a distinção entre envelhecimento primário, ou normal, que reflete o limite intrínseco de longevidade celular do envelhecimento secundário, ou patológico, que ocorre devido aos efeitos cumulativos das agressões ambientais, traumatismos e doenças. Além disso, há ainda o conceito de envelhecimento terciário, ou padrão de declínio terminal, caracterizado por mudanças súbitas em diversas capacidades cognitivas e funcionais (Paúl, 1997).
Segundo Kirkwood (1988 apud Paúl, 1997), o envelhecimento é um processo cujo resultado é óbvio, mas cujo mecanismo permanece desconhecido. Sabe-se que as causas do envelhecimento são de origem endógenas e exógenas: A esperança de vida máxima do ser humano é determinada geneticamente e é pouco afetada pelas condicionantes exógenas (Fontaine, 2000; Paúl, 1997). Os aspetos exógenos referem-se aos condicionantes do meio físico e social em que o indivíduo envelhece.
Todo organismo multicelular possui um tempo limitado de vida e sofre mudanças fisiológicas com o passar do tempo. A vida de um organismo multicelular costuma ser dividida em três fases: a fase de crescimento e desenvolvimento, a fase reprodutiva e a senescência, ou envelhecimento (Quadro 1).
Quadro 1 – Fases da vida de um organismo multicelular
Fases Características
Primeira fase: Crescimento
Ocorre o desenvolvimento e crescimento dos órgãos especializados, o organismo vai crescendo e adquirindo capacidades funcionais que o tornam apto a se reproduzir
Segunda fase: Reprodutiva
Caracterizada pela capacidade de reprodução do indivíduo, que garante a sobrevivência, perpetuação e evolução da própria espécie
Terceira fase:
Senescência É caracterizada pelo declínio da capacidade funcional do organismo Fonte: Adaptado de Fontaine (2000, p.27)
As transformações associadas ao envelhecimento são percebidas nas três dimensões de funcionamento do indivíduo: biológico, psicológico e social.
Ao nível biológico, o envelhecimento é um processo irreversível e involutivo, que se
manifesta progressivamente ao nível das células, órgãos e aparelhos, e seus efeitos, nos indivíduos são bastante heterogéneos e está centrado na perda da capacidade funcional do indivíduo (Motta et al., 2005).
As respostas individuais ao processo de envelhecimento biológico são alvo de numerosas pesquisas na tentativa de compreender as condições de decadência e bem-estar dos idosos. Para Fontaine (2000), algumas pessoas mostram-se resistentes ao envelhecimento, chegando mesmo a mostrar melhor desempenho com a idade, ao passo que outras declinam ao sofrerem um processo patológico.
Para Figueiredo (2007, p.32), o processo de envelhecimento biológico, ou senescência, refere-se às transformações físicas que reduzem a eficiência dos sistemas orgânicos e funcionais do organismo, traduzindo-se numa diminuição progressiva da capacidade de manutenção do equilíbrio homeostático que, em condições normais, não será suficiente para produzir perturbações funcionais. A senescência, portanto, não é sinónimo de doença, mas sim um processo normal de deterioração biológica geral que aumenta a vulnerabilidade do indivíduo, com implicações na diminuição da capacidade de adaptação do organismo face às alterações do meio ambiente.
O conceito de capacidade funcional é particularmente útil no contexto do envelhecimento biológico. Envelhecer mantendo todas as funções não significa problema quer para o indivíduo quer para a comunidade; quando as funções começam a deteriorar é que os
problemas começam a surgir (Kalache et al., 1987). Sem dúvida, a perda da capacidade funcional gera a incapacidade para a prática das chamadas, Atividades da Vida Diária (AVD) e Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD).
As AVD, conforme Okuma (1998, p. 55), são chamadas de:
Atividades de autocuidado ou de cuidado pessoal, estão relacionadas às atividades de cuidados pessoais básicos, como vestir-se, banhar-se, levantar-se da cama e sentar-se numa cadeira, utilizar o banheiro, comer e caminhar uma pequena distância.
Já, segundo Del Duca, Silva e Hallal (2009, p.797),
As AIVD são também denominadas de habilidades de mobilidade ou de atividades para manutenção do ambiente. Elas englobam tarefas mais complexas muitas vezes relacionadas à participação social do sujeito, como por exemplo, realizar compras, atender ao telefone e utilizar meios de transporte.
Para a OMS (2009), a capacidade funcional (tal como a força muscular e o rendimento cardiovascular) aumenta na infância, atinge o máximo no início da idade adulta e a determinada altura entra em declínio. Para Kalache e Kickbush (1997), o grau de declínio é determinado essencialmente por fatores relacionados com o estilo de vida, bem como com fatores externos sociais, ambientais e económicos (Figura 2).
Figura 2 – Manutenção da capacidade funcional ao longo da vida Fonte: Kalache & Kickbusch (1997)
Spirduso (1995 apud Andreotti e Okuma, 1999, p. 48) estabeleceu a classificação da capacidade funcional de idosos em cinco categorias hierárquicas (Quadro 2).
Ao nível psicológico, a grande preocupação centra-se na demência e na perda da
autonomia. A autonomia é a habilidade de controlar, lidar e tomar decisões pessoais sobre como se deve viver diariamente, de acordo com suas próprias regras e preferências (Fontaine, 2000). Portanto, a perda de autonomia leva o idoso a ser rapidamente excluído do trabalho, das funções de produção, manutenção e transmissão de conhecimentos (OMS, 2005). Nestas circunstâncias, ele tende ao isolamento e ao isolar-se torna-se cada vez mais dependente.
Para a OMS, as políticas e programas devem focar nos processos capacitadores que recuperam a função e aumentam a participação dos idosos em todas as atividades da
sociedade. Manter a autonomia e independência durante o processo de envelhecimento é uma meta fundamental para indivíduos e governantes (OMS, 2005, p. 13).
Quadro 2 – Classificação da capacidade funcional de idosos
Classificação Descrição
Idosos Fisicamente Dependentes
Precisam melhorar as funções necessárias à realização das atividades de
autocuidado (Ex.: alimentar-se, banhar-se, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se de um lugar para outro e caminhar)
Idosos Fisicamente Frágeis
Precisam aprimorar as funções necessárias à realização de atividades básicas e instrumentais da vida comum diária (Ex.: cozinhar, limpar a casa, fazer compras) Idosos Fisicamente
Independentes
Pessoas que devem aprimorar e manter as funções físicas que lhes dá independência, uma vez que são sedentárias
Idosos Fisicamente Ativos
Mantem um nível ótimo de capacidade física e funcional. Sua idade cronológica não condiz com a biológica, ou seja, aparentam ser mais jovens.
Idosos Atletas Aqueles que são engajados em atividades esportivas e competitivas. Necessitam de treinamento manterem as capacidades motoras em altas condições.
Fonte: Andreotti e Okuma (1999, p. 48)
Ao nível social, a velhice é percebida como uma fase de perda de estatuto social,
relacionado normalmente à entrada na reforma (Fonte, 2002). Reformar na sociedade atual é perder estatuto social e económico que leva à diminuição do círculo de relacionamentos do indivíduo (Caldas & Thomaz, 2010). Para Fonseca (2012, p.77), o desenvolvimento regular de uma atividade, que seja, simultaneamente, gratificante para o próprio e útil para os outros e para a sociedade, constitui uma das principais formas de ajustamento pessoal e de preservação da saúde mental. Portanto, para o autor, a reforma pode converter-se num momento particularmente sensível para o bem-estar psicológico e social dos indivíduos. Em decorrência do envelhecimento da população mundial, pesquisadores de várias disciplinas no âmbito das ciências biológicas, psicológicas e sociais tem despendidos esforços e recursos na busca de descobrir as virtudes da velhice, como prolongar a juventude e envelhecer com boa qualidade de vida individual e social (Andreotti & Okuma, 1999).