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CAPÍTULO IV – REFORMA DO ENSINO MÉDIO E DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL

5.2 CEEP Pedro Boaretto Neto – Missão: Formar Profissionais de Excelência

Na cidade de Cascavel, localizada na região Oeste do Paraná, o Centro Estadual de Educação profissional Pedro Boaretto Neto localiza-se na região central, e atende alunos das cidades vizinhas. Nessa escola entrevistamos a diretora auxiliar que, na época da implantação do programa de reforma do ensino médio e profissional, trabalhava na coordenação pedagógica. Como foi destacado pela entrevistada, a implantação não foi m processo tranqüilo, pois houve resistências por parte da escola, mas também interesse por parte de alguns segmentos da comunidade.

Como podemos observar na entrevista, neste centro permaneceram apenas os cursos técnicos de nível pós-médio. Foram criados os cursos de Eletromecânica, Gestão, Eletroeletrônica e Segurança no Trabalho. Com a redução do número de alunos, muitas críticas foram feitas à direção da escola, por deixar ocioso um espaço escolar tão grande. Sapelli apresentou os números que indicam a redução da quantidade de alunos com conseqüente ociosidade de um grande espaço:

“Em 2002, com o encerramento gradativo das atividades do ensino fundamental e médio, parte do espaço deste Estabelecimento ficou ocioso. Antes da extinção dos cursos técnicos, o Colégio chegou a ter 2.300 alunos. Em 1999 o colégio tinha 681 alunos de ensino fundamental e 1071 de ensino médio e ensino profissional, totalizando 1752. Em 2002 contava com 365 alunos de 6ª a 8ª Série, 401 do ensino médio e 326 do ensino profissional (nível pós-médio) totalizando apenas 1092 alunos. Em 2003 foi extinta a Educação Básica e o Colégio (considerando uma das maiores e melhores estruturas da região no conjunto das escolas estaduais) conta com apenas 376 alunos nos cursos profissionalizantes de nível pós-médio e 27 alunos nos cursos profissionalizantes de nível básico, totalizando 403 alunos”.

Esse não foi o único problema enfrentado pela escola. Como foi comentado pela diretora entrevistada, entre os problemas enfrentados para encaminhamento dos novos cursos pós-médios estava a falta de infra-estrutura da escola. De acordo com ela, havia sido formada, de maneira experimental, no ano de 1998, uma turma de curso profissional pós-médio de Eletromecânica. Os professores desse curso ainda eram remanescentes dos cursos de Eletrotécnica, Edificações e Técnico em Contabilidade, que funcionavam anteriormente pela Lei 5692/71. No entanto, por falta de laboratórios que permitissem o desenvolvimento de aulas práticas, o curso foi transferido para o SENAI para ser concluído pelo alunos naquela instituição.

Analisando a perspectiva de formação, desde a implantação e implementação do PROEM, e a formação de centros regionais com vistas ao desenvolvimento econômico, percebemos que houve uma grande exibição da plataforma política e educacional do Governo Lerner, cuja expressão ficou muito mais visível na proposta que em sua concretização. A abertura de cursos pós-médios foi feita sem que houvesse equipamentos nas escolas, comprometendo dessa forma, a qualidade dos cursos.

A proposta dos novos cursos com base no PROEM, e nas informações da diretora entrevistada, segue os moldes do ensino pós-médio totalmente de acordo com a formação flexível, como comentado no segundo capítulo desta pesquisa.

Pretendia-se com a reforma paranaense formar, nesses cursos pós-médios, um empreendedor, ou seja, um profissional que tivesse condições de gerir o próprio negócio. Por isso, conforme o entendimento da direção da escola o “curso técnico é um curso fim” e o aluno a ser formado tem que ser autônomo.

Esse argumento demonstra a proximidade da escola com o mercado, com as necessidades da iniciativa privada, não apenas na intencionalidade da formação, mas também na proposição dos cursos pós-médios que seriam implantados. Como foi explicado pela diretora da escola, o

CEEP Pedro Boaretto Neto deveria atender o setor secundário da economia, no entanto, por necessidade das Associações Comercial e Industrial de Cascavel, a escola passou a oferecer cursos também para o setor terciário da economia.

No estudo de Santos, Pereira & Santos (2004) foi observado que os cursos técnicos da área de prestação de serviços foi resultado de discussões que envolveram:

“Representantes da escola, comunidade, ACIC – Associação Comercial e Industrial de Cascavel, AMIC - Associação das Micro Indústrias, SEBRAE, AMOP – Associação dos Municípios do Oeste do Paraná, lideranças políticas e empresariais da região, de Cascavel além de segmentos como universidades, Sindicatos de trabalhadores, de patrões e empregados” (SANTOS, PEREIRA e SANTOS, 2004, p. 21).

A proximidade da escola com o setor privado possibilitou não apenas a definição de curso, mas também o tipo de profissional a ser formado, e o projeto de escola. Esse encaminhamento conjunto de escola e iniciativa privada permitiu, conforme a entrevistada, a construção de uma metodologia de trabalho, conforme podemos verificar no trecho a seguir:

“Então na verdade a gente construiu tudo isso. Então a gente tinha um embasamento legal que era a LDB que nos dizia alguma coisa sobre a educação profissional, aí tinha a 04/99, do Conselho Nacional de Educação, e depois a gente foi construindo, mediante aquele pouco que a gente recebeu sobre competências e habilidades, alguma coisa assim de uma matriz curricular, o mínimo que deveria ser contemplado. E depois a gente foi analisando, como é que só isso? Não, são poucas horas! A gente tinha lá em fundamentos os próprios profissionais das áreas, a associação comercial nos auxiliou muito em função disso também, a gente se reuniu com eles várias vezes, porque eles também têm uma noção de mundo de trabalho diferenciado, nós temos o olhar pedagógico, então a gente uniu essas duas coisas para a gente construir alguma coisa realmente que tivesse qualidade. Então na verdade a gente construiu isso”.

O atendimento do mercado encontra justificativas aí nessa troca de informações para elaboração de propostas de cursos. Conforme a direção da escola, é sua “missão”, “formar profissionais com excelência”.

Ressaltamos porém, que os cursos do setor terciário não surgiram apenas como decorrência da sugestão de membros da comunidade local. Foram cursos elaborados pela PARANATEC por consultores contratados e apresentados prontos às escolas para serem implementados. Assim, cursos pós-médios a exemplo dos de Gestão e Informática como foi comentado por Sapelli (2003, p. 115) foram abertos em grande quantidade. Acreditamos que essa questão não está relacionada apenas à formação para um outro setor de atividade, como é o setor de serviços, mas também a uma espécie de inculcação ideológica empreendedora unida à facilidade de encaminhamento e implantação das propostas destes cursos que exigiam apenas sala de aula, e equipamentos de baixo custo.

O enfoque de mercado nos cursos foi reforçado pela forma de contratação dos professores. Segundo informações da diretora entrevistadas, os professores dos cursos pós- médios vinham da iniciativa privada e eram selecionados pela própria escola; a seleção resumia- se a uma análise de currículo e à entrevista., e passou a ser coordenada pela PARANATEC, possibilitada pelo modo de funcionamento dos cursos pós-médios organizados por módulos, provocando grande rotatividade de professores que trabalhavam apenas a quantidade de horas requeridas pelos módulos das propostas de curso que estavam sob sua responsabilidade. Nesse sentido entendemos que a lógica da flexibilização do trabalho docente caracterizou-se pela forma escancarada com que se fez a reforma do ensino médio e profissional paranaense.

Com essa forma de trabalho foi secundarizada, ou melhor abolida, qualquer perspectiva de trabalho integrado nos cursos técnicos pós-médios, assim como, se impossibilitou qualquer reflexão pedagógica em torno da proposta do curso, no seu todo. Como avaliar ou planejar

atividades de um curso, se os professores responsáveis pelo seu encaminhamento não estão na escola?

Esse problema, ou seja, a da rapidez com a qual o professor passava a atuar no CEEP, foi ressaltado pela diretora a qual relatou que quando o contrato de trabalho era enviado pela PARANATEC à escola para que o professor assinasse e desse início à sua atividade na escola, esse professor já tinha terminado as atividades referentes ao módulo pelo qual era responsável e havia saído da escola.

Um outro fator que contribuiu para a rotatividade dos professores no CEEP foi o baixo salário pago a esses profissionais. O pagamento era feito por hora/aula e girava em torno de R$ 4,70. Isso contribuiu para que a atividade representasse apenas um complemento, um ‘bico’, para o profissional liberal que vinha ministrar os cursos técnicos pós-médios97.

Sem formação pedagógica, esses profissionais tiveram problemas no encaminhamento do ensino, e na sua relação com o aluno, como foi mencionado pela entrevistada; de acordo com o qual os professores contratados para trabalhar na educação profissional tinham saber técnico específico da área de formação, mas não tinham formação docente.

As reclamações a respeito dos conhecimentos apresentados pelos alunos quando se propunham a realizar o pós-médio também foram relatadas pela diretora entrevistada. Segunda ela, quando foram iniciados os cursos pós-médios, os alunos que vieram fazê-los estavam, já há algum tempo, afastados da escola e por isso tinham dificuldades na apreensão de conceitos básicos. Por isso, as reclamações eram tanto dos alunos que não conseguiram acompanhar os

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Sapelli (2003, p. 117) comentou que houve no CEEP Pedro Boareto Neto pagamento de mensalidade por parte dos alunos, cuja justificativa era para complementação salarial dos professores dos cursos técnicos pós-médios. No início essa espécie de “contribuição voluntária” mensal era de “R$ 20,00 e R$ 30,00 mensais nos cursos de Gestão e Eletromecânica. Em 2003 os custos do Curso de Eletromecânica era de R$ 400,00 a serem pagos de forma obrigatória por cada aluno.

professores, quanto também dos professores que não conseguiram estabelecer um ponto de partida para iniciar o trabalho com os alunos.

5.3 CEEP Francisco Carneiro Martins – A Comunidade Financiando a implantação e a