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O conflito é um processo natural da sociedade, podendo ser um fator positivo de mudança e desenvolvimento pessoal e social. Entretanto, se não é regulado no sentido de sua resolução adequada, pode engendrar ações de violência em seus diferentes tipos. Os conflitos são resolvidos conhecendo-se suas causas e compreendendo sua formação e seu desenvolvimento (BELMAR, 2005, p. 111).

O pesquisador ao entrar no cotidiano profissional do sujeito da pesquisa, de certa forma, acaba participando dos conflitos desse cenário, sejam eles de ordem social e/ou profissional. Isso se dá, justamente, pelo fato do educador fazer parte do contexto social numa dimensão pessoal e profissional. Na compreensão dos sujeitos da pesquisa, com relação a essa perspectiva, é incoerente perceberem-se fora dessa conjuntura, como um profissional idealizado. A perspectiva romântica da figura missionária do educador não se concebe mais. No entendimento do educador Cezar “Ele tem uma vida social tão complexa quanto os demais e não se desata dessa complexidade quando exerce seu trabalho” (CEZAR).

Compreendemos, então, que ele é um indivíduo com problemas de toda ordem para enfrentar, porém com a responsabilidade social do educar. É assim que, por um lado, parte da sociedade e dos legisladores por uma questão de respeito e reconhecimento os considera. Por outro lado, ao percebê-lo como um profissional com a missão e/ou dom para cuidar de crianças, estarão restringindo seu lugar social, negligenciando-o e colocando-o à margem de um princípio fundamental que determina a base moral, ética e cultural da sociedade, a educação.

Na fala do educador Marcos, pode se analisar uma preocupação com a função social do pedagogo na perspectiva social da família. Na sua experiência como educador, pensa que é fundamental a sociedade compreender que o pedagogo é um dos principais articuladores na construção da base educativa e cultural, pois trabalha com o principal meio, a criança. Da mesma forma, precisa entender que também é responsável e tem o compromisso de avaliar a sua própria

contribuição no processo histórico da construção social, levando em consideração que a educação da criança e a valorização dos princípios éticos e morais é um compromisso social e, portanto, de todos. Se a responsabilidade for atribuída só à escola e ao educador, geram-se conflitos determinantes para desencadear uma série de incertezas acerca do trabalho educativo.

O professor na sala de aula tem que fazer tudo, ele é psicólogo, até dos pais, inclusive; ele tem que educar, não no sentido de oportunizar conhecimento e desenvolver o aprendizado. Eu falo no sentido de educação mesmo, valores que não são trabalhados em casa. Isso a gente é cobrado. O aluno chuta o colega, é o professor que não ensina; o aluno reprova, porque o professor não ensinou. Mas não percebem que a criança pode ter uma dificuldade, estar passando por algum transtorno. Então, acredito que se está atribuindo muita responsabilidade além da função do professor (MARCOS).

A partir desse entendimento, evidenciamos que o cotidiano da prática educativa acaba permitindo que o profissional da educação acompanhe, compartilhe e troque experiências com o seu meio profissional. Com isso, adquire experiências sobre as mais complexas metamorfoses das representações simbólicas do ser educador, da compreensão de escola e da concepção de aluno, no amplo contexto do campo educacional onde cada um está inserido. Esse espaço é determinado e constituído por aspectos educacionais, comportamentais, culturais, políticos e econômicos. Tais fatores sociais podem intervir significativamente nas expectativas quanto à satisfação e à segurança no exercício da profissão, tornando o cenário escolar um lugar de conflitos cada vez mais presentes no dia a dia do educador.

Com base nesses aspectos, Gomes apresenta algumas reflexões sobre a imagem contemporânea do educador, do aluno e da escola:

A antiga imagem de um professor como símbolo da autoridade e da providência moral tem sido substituída pela imagem de um adversário a ser derrotado pelo aluno; a imagem da escola como ambiente seguro, onde crianças e jovens poderiam desenvolver os valores morais e democráticos é substituída pela imagem de um território conflagrado; a imagem do aluno como aprendiz dócil a ser encaminhado para a vida em sociedade é substituída pela imagem de um aluno rebelde, problemático, portador de todos os vícios e de nenhuma virtude. Os extremos dessas “representações” não deixam dúvidas de que as expectativas em relação à escola, alunos e professores mudaram radicalmente. A representação de “ser professor” assume outros sentidos para os quais nem sempre os candidatos ao magistério estão devidamente preparados (GOMES, 2008, p.4).

Por este viés, o campo profissional do pedagogo pode ser comparado a um labirinto. Percorrer suas complexas vielas estreitas e muitas vezes sem saídas é um desafio constante. Ao se perceber parte desses emaranhados, corre o risco de se deixar abater pela insegurança e a insatisfação, comprometendo o desempenho de uma prática comprometida e responsável com o ensino, a aprendizagem e a construção de conhecimentos. Apesar dessas contrariedades, apontadas por Gomes (2008), e provocadas pelas multiplicidades culturais, o educador Cezar argumenta que:

Apesar dos crescentes conflitos acerca da profissão de educador é possível experimentar uma postura de autovalorização e autoestima. Os profissionais da educação, marcados pelos constantes e imprevisíveis conflitos, ainda são reconhecidos e respeitados como profissionais indispensáveis no processo formativo e educativo de uma sociedade. As mudanças culturais e de comportamento dos alunos e da lenta mudança nas estruturas organizacionais e curriculares das escolas não inviabilizam a construção de projetos inovadores e transformadores (CEZAR).

Nessa perspectiva, o educador tem seu papel social posto em xeque-mate diante dos conflitos no contexto escolar. Caso não se qualifique e assuma a responsabilidade de fazer a diferença, mesmo enfrentando as dificuldades da profissão, terá que carregar, de forma velada, o estigma do fracasso perante a sociedade. Ser reconhecido e se reconhecer como um profissional com credibilidade, responsabilidades e comprometimento social, também é uma consequência da postura crítico-reflexiva do educador diante das impossibilidades. Da mesma forma, compreenderá o aluno como um sujeito em processo de transformação, com seus problemas e desafios a serem enfrentados. E a escola, um exemplo de espaço a ser conquistado como ambiente acolhedor e de ampliação da moral, da ética, da construção de conhecimentos e da liberdade humana. Nesses entrelaces de perspectivas e possibilidades, é fundamental, pois, pensar o ensino, a aprendizagem, a ação e a transformação como processos essenciais para ampliar a qualidade da educação.

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