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1.4.1 Procedimentos de pesquisa

O procedimento utilizado para a coleta de dados desta investigação se deu através de narrativas gravadas e transcritas. Todas constituídas por cinco blocos de tópicos-guias sobre o tema articulado em relação à questão de pesquisa. (1º) Formação profissional específica; (2º) Experiências e desenvolvimento profissional; (3º) Formação continuada na prática; (4º) Campo de trabalho e políticas públicas e (5º) Organização do trabalho pedagógico e postura reflexiva.

As narrativas de vida com base na História Oral, como metodologia qualitativa, estão centradas na entrevista gravada, e consideram o papel do entrevistador, o papel do entrevistado e a necessidade de um gravador (ATAIDE, 2006). É uma das formas para colher dados, ela tem um conceito maior, a interação propriamente dita que acontece no andamento da coleta. Nessa compreensão, a narrativa de vida caracteriza-se pelos questionamentos básicos, fundamentados em conjecturas e teorias relacionadas da temática em questão. Nesse processo o depoente nem sempre é visto como alguém disposto a colaborar com a pesquisa. Às vezes, o silêncio num relato oral serve para captar o que não está explícito e, em alguns casos, o que não é possível dizer.

1.4.2 Análises

Para investigar a formação, a prática e as políticas públicas como processos construtivos da identidade profissional do pedagogo, a partir da narrativa dos sujeitos da pesquisa, utilizamos como procedimento de análise a hermenêutica. A análise hermenêutica configura-se a partir da intenção em compreender os signos

de uma fala, assim como de um texto. Isso significa dizer que interpretar e compreender implica em analisar os fenômenos apontados pelos sujeitos através de suas narrativas. É concatenar um novo discurso no discurso. Dialogar e/ou ler é apropriar-se do sentido da fala. Nesse sentido, a interpretação é um conceito-chave em hermenêutica. Para Gadamer, é interpretação-compreensão.

Ao eleger a linguagem como meio privilegiado da experiência humana do mundo, a Hermenêutica opera com um conceito de linguagem, onde esta não é transparente e óbvia, na qual os sentidos não estão dados previamente, mas se constituem numa relação dialógica de interpretação. Para Gadamer (1993), a linguagem é o meio universal em que se realiza a compreensão da mesma.

Assim, todo compreender é interpretar, e toda interpretação se desenvolve em meio a uma linguagem que intenciona deixar falar o objeto e ao mesmo tempo a forma de linguagem de seu intérprete. Para o autor, "a linguagem é onde se encontram o eu e o mundo" (GADAMER, 1993, p. 467). A linguagem é, aqui, o meio onde se realiza a simultaneidade entre a análise e a aplicação, entre a interpretação e compreensão, e também entre o eu e o mundo. Ou seja, entre sujeito e objeto. Desse modo,

La interpretación no es un acto complementario y posterior al de la compreensión, sino que compreender es siempre interpretar, y em consecuencia la interpretación es la forma explicita de la compreensión (GADAMER, 1993, p. 378)8.

Apesar do significativo papel do sujeito intérprete e sua pré-compreensão como condições fundamentais do ato de interpretação, é importante enfatizar que as condições da interpretação não podem ser subjugadas à mera subjetividade do pesquisador. Mas sim, entendida a partir de sua condição histórica e de inserção num contexto específico. Gadamer chama atenção para a importância da historicidade da compreensão como princípio hermenêutico, pois aquele que se dirige a um texto, como intuito de interpretá-lo à base de sua pré-compreensão, apenas busca legitimar suas próprias ideias.

Para Gadamer (1993), o trabalho do pesquisador só alcança sua verdadeira possibilidade quando as opiniões prévias, com as quais inicia a pesquisa, não sejam

8 A interpretação não é um ato complementar e posterior à compreensão, sendo que compreender é

sempre interpretar e, portanto, a interpretação é a forma explícita da compreensão (Gadamer, 1993, p. 378).

arbitrárias, e sabe também ser necessário não dirigir-se diretamente ao texto a partir da opinião prévia que lhe é própria. Mas, examinar expressamente as narrativas quanto à sua legitimação, ou seja, quanto à sua origem e legitimação. Desse modo, o pesquisador que deseja compreender determinados fenômenos, deve deixar que o texto mesmo lhe diga alguma coisa. O intérprete deve pensar e ponderar para escutar o texto, propor um sentido após o outro, para que o texto brote, ou seja, passe a existir trazendo os fatos nele amalgamado.

1.4.3 Considerações de caráter ético da pesquisa

Em meio às considerações éticas pertinentes à realização desta pesquisa investigativa, esclarecemos que a mesma seguiu todas as orientações disponibilizadas pelas normas da Associação de História Oral em pesquisa. Dentre as orientações destacadas, encontra-se no (anexo G) a Carta Cessão, apresentada aos sujeitos da pesquisa para a devida autorização do uso de suas narrativas, na elaboração da referida Dissertação de Mestrado, vinculada ao (PPGE/UFSM). Os sujeitos dessa pesquisa foram contatados e entrevistados pelo autor de forma individualizada. Eles foram informados das condições de sigilo quanto à sua identidade. A entrevista ocorreu a partir do tempo disponível do sujeito, sendo a condição de sua participação de forma livre, de maneira que cada sujeito pudesse se posicionar e se manifestar de acordo com suas intenções e disponibilidades, além de ficar livre para deixar de participar do estudo caso assim o desejasse. As informações obtidas foram e serão utilizadas única e exclusivamente para esta pesquisa, e acessadas unicamente pelo pesquisador responsável, da mesma forma que, seus nomes verdadeiros foram substituídos por pseudônimos.

2 A FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA COMO PROCESSOS

CONSTRUTIVOS DA IDENTIDADE PROFISSIONAL DO PEDAGOGO

Desde os clássicos gregos, chegando aos dias de hoje, identidade, formação, profissão e trabalho são temas de estudos e discussões que permeiam o campo educacional, compreendido nesse contexto de investigação como espaço político e científico em torno da formação inicial e continuada de educadores e formadores.

Para acompanhar as compreensões empíricas dos sujeitos da pesquisa, nos fundamentamos em pesquisadores com referência no contexto temático investigativo, autores como: (Nóvoa 1991, 1992, 2000, 2009; Saviani 2007, 2008; Libâneo 2001, 2006, 2007; CUNHA, 2012). Pesquisadores que debatem tais categorias a partir de concepções diferentes, por falarem em contextos teóricos díspares, mas coerentes com a realidade do campo educacional. E nesse entrelace teórico, apontam que a formação, assim como a identidade profissional, são atravessadas e construídas por determinados fatores como a escolha profissional, formação inicial e continuada, a prática pedagógica, a história de vida, o significado da profissão, o pensar crítico-reflexivo, as políticas públicas, bem como o reconhecimento social da profissão de educador. Sendo, também, a formação identitária um processo contínuo, dialético e singular. Marca assim, a compreensão que somos sujeitos constituídos historicamente, por isso, a necessidade de trabalharmos numa perspectiva da Pedagogia Histórico-Crítica.

O princípio filosófico que embasa a Pedagogia Histórico-Crítica é a interpretação da realidade; a visão de mundo; a prática articulada à teoria; a organização do homem em sociedade para a produção da vida e o caráter histórico sobre a organização que ele constrói através de sua história, baseada na experiência.

No decorrer do trabalho, identificamos, na compreensão dos sujeitos da pesquisa, que esse processo é constante e com diferentes sentidos e significados para cada indivíduo. Da mesma forma que, a concepção sociológica de profissão, caracteriza-a por algumas atribuições, na qual o principal atributo é pertencer a um conjunto de pessoas que exercem a mesma ocupação especializada. Assim, ser pedagogo é pertencer a um grupo particularizado, com identidades singulares em constante transformação.