4 TRILHA METODOLÓGICA
4.2 CENÁRIOS DA PESQUISA
A pesquisa etnográfica pressupõe a presença do pesquisador no campo para que, de forma interativa, ocorra apreensão da realidade sociocultural dos informantes, pois, como refere Geertz (2013), o ponto de partida da etnografia é uma “descrição densa”. Portanto o etnógrafo inscreve o discurso social: ele o anota. Ao fazê-lo, ele o transforma de acontecimento passado, que existe apenas em seu próprio momento de ocorrência, em um relato, que existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente.
Ainda sobre o local do estudo, Minayo (2008) destaca que o contexto ou local do estudo simboliza um recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada a partir das concepções teóricas que fundamentam o objeto de investigação. Esse processo de conhecimento da realidade faz parte dos princípios éticos e metodológicos da pesquisa qualitativa, objetivando a reestruturação do projeto de pesquisa antes de ir ao contexto para desenvolver o estudo, com a finalidade de garantir a possibilidade do seu desenvolvimento. Essa aproximação inicial é caracterizada como a
fase exploratória da pesquisa.
Minayo (2008) defende que esta fase representa um momento de interação com o contexto. É a fase em que o pesquisador se aproxima do contexto e dos informantes do estudo para conhecê-los e fazer-se conhecer, negociar todo o processo e dar início à colheita de dados. É uma fase que propõe modificações, se necessário, da pergunta de pesquisa, delimitando melhor o problema, definindo os instrumentos de colheita de dados e decidindo sobre o local do estudo e a população (informantes do estudo). É também o momento oportuno para formalizar a pesquisa.
Conhecer o campo de pesquisa e imergir nele é condição fundamental na obtenção de subsídios para analisar o objeto de estudo desta investigação. Portanto, desenvolvemos esta pesquisa de campo em uma área de Proteção Ambiental, denominada de APA do Rio Curiaú, que é constituída por seis quilombos, que são legalmente reconhecidos, localizados no Município de Macapá, Capital do Estado do Amapá, quais sejam: Curiaú de Fora, Curiaú de Dentro, Casa Grande, Curralinho, Extrema e Curiaú Mirim (Mocambo). O estudo ocorreu nos anos de 2012 a 2017, e a pesquisa de campo foi desenvolvida no período de março a dezembro de 2015.
A capital do Estado do Amapá é Macapá e está localizada às margens do Rio Amazonas, sendo que não possui interligação por via rodoviária ou ferroviária com outras capitais brasileiras, o acesso ao município só é possível por via fluvial ou aérea e constitui a única capital brasileira cortada pela Linha do Equador.
O Projeto Político do SUS no Estado do Amapá obteve, nos últimos anos, avanços significativos e importantes, entretanto insuficientes para sua efetiva implantação. Todos os 16 Municípios do Estado encontram-se habilitados na Gestão Plena da Atenção Básica, de acordo com o Decreto 7.508, de 28 de junho de 2011 (BRASIL, 2011).
Quanto à prestação dos serviços de saúde à população no município de Macapá, a Tabela 1 traz a sua descrição desses serviços prestados à população (BRASIL, 2016). Neste âmbito, cabe ressaltar que a saúde no Amapá se configura como um dos grandes problemas que desafiam o governo e afligem a população.
Tabela 1. Distribuição dos Estabelecimentos de Saúde no Município de Macapá/AP, Brasil, 2016.
Atendimentos prestados Nº
Central de Gestão em Saúde 2
Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos Estadual
1
Central de Regulação do Acesso 2
Central de Regulação Médica das Urgências 1
Centro de Atenção Psicossocial 3
Centro de Saúde/ Unidade Básica 33
Clínica/ Centro de Especialidade 54
Consultório isolado 114
Cooperativa ou empresa de cessão de trabalhadores na saúde 1
Farmácia 3
Hospital Especializado 3
Hospital Geral 4
Laboratório de Saúde Pública 1
Posto de Saúde 14
Pronto Atendimento 1
Pronto Socorro Geral 1
Secretaria de Saúde 2
Unidade de Apoio Diagnose e Terapia (SADT Isolado) 40
Unidade de Atenção à Saúde Indígena 1
Unidade de Vigilância em Saúde 2
Unidade Móvel de Nível pré-Hospitalar na área de Urgência 7
Unidade Móvel Terrestre 1
Total 291
Fonte: Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde - DATASUS (BRASIL, 2016). No que diz respeito à economia do município de Macapá, a agropecuária é uma das atividades que sobressaem no setor primário. No setor secundário, a industrialização desenvolve-se lentamente, tendo o comércio como setor mais promissor, e, no setor terciário, a administração pública, apesar de não ser o maior empregador, ainda é o maior responsável pelo capital circulante no município, movimentando vários segmentos da economia amapaense.
O Estado do Amapá, uma das 27 unidades federativas do Brasil, é o penúltimo Estado em número populacional do país, com uma estimativa de 766.679 habitantes distribuídos em 16 municípios, ficando à frente somente do Estado de Roraima. Está situado a nordeste da região Norte, no escudo das Guianas. Tem como limites a Guiana Francesa a norte, o
Oceano Atlântico a leste, o Pará a sul e oeste e o Suriname a noroeste, ocupando uma área de 142.814.585km2.É um dos mais novos estados do país e o segundo que mais possui áreas protegidas em seu território (BRASIL, 2016).
O Estado está constituído por 16 municípios, conforme mostra o mapa na Figura 1 (Macapá, Porto Grande, Ferreira Gomes, Serra do Navio, Pedra Branca do Amaparí, Calçoene, Laranjal do Jarí, Vitória do Jarí, Mazagão, Cutias do Araguarí, Itaubal do Piririm, Santana, Oiapoque, Tartarugalzinho, Amapá e Pracuúba). Influenciado pelo clima equatorial, o estado apresenta duas estações bem definidas: verão (com menor índice pluviométrico) e inverno (com maior índice pluviométrico).
Figura 1. Mapa de delimitação dos 16 municípios do Estado do Amapá/AP, Brasil, 2008.
Fonte: Atlas das Unidades de Conservação no Amapá – SEMA/IBAMA, Amapá, Brasil, 2008. O Amapá é o estado com maior índice de preservação ambiental do país, sendo que cerca de 97% de sua cobertura vegetal é preservada. Desta, 56% são áreas demarcadas, das quais 85,9% constituem Unidades de Conservação (entre reservas federais, estaduais) e 14% são
reservas indígenas. Entre as Unidades de Conservação, situa-se o Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, maior parque de reserva florestal do planeta, com 3,8 milhões de hectares, o qual tem grande relevância por apresentar um elevado número de espécies endêmicas e possuir, em seu entorno, diferentes grupos étnicos – índios, ribeirinhos e castanheiros (BRITO et al., 2011).
O estado abriga uma grande diversidade de culturas indígenas, com uma população de 6.800 habitantes representada por oito diferentes etnias, distribuídas em 49 aldeias: Apalaí, Wayana, Tirió, Waiãpi, Palikur, Galibi, Galibi-Marwono e Karipuna. Estes grupos ocupam áreas ecológicas variadas e suas aldeias estão distribuídas em áreas descontínuas. No estado localizam-se as áreas indígenas Waiãpi, Uaçá, Galibi e Juminã, todas demarcadas e homologadas (BRITO et al., 2011). O mapa da figura 02 ilustra essas unidades de conservação e áreas indígenas:
Figura 2. Mapa de localização das Áreas indígenas e Unidades de Conservação do Estado do Amapá, Brasil, 2015.
No Estado do Amapá, 62% do seu território estão sob modalidades especiais de proteção. São 19 unidades de conservação (UCs), 12 das quais federais, 5 estaduais e 2 municipais, totalizando 8.847.135,56 hectares. Há uma equilibrada distribuição por categoria, sendo 8 unidades de proteção integral e 11 de uso sustentável, as primeiras ocupando quase 60% do total da área protegida. A maior parte das UCs no Amapá é de jurisdição federal, considerando que se emancipou da condição de Território Federal somente em 1988. Elas estão localizadas em trechos dos territórios de pelo menos 15 dos 16 municípios amapaenses e estão bem distribuídas sobre a superfície do estado, garantindo uma expressiva representatividade ecossistêmica (AMAPÁ, 2015).
Além das aldeias indígenas, no estado é reconhecida a existência de quilombos, sendo atualmente cerca de 138 já mapeados, porém apenas 40 foram certificados pela Fundação Cultural Palmares e estão em processo de titulação pelo Incra. O Quadro 2 apresenta a relação dos quilombos, seus respectivos municípios e data de certificação pela Fundação Cultural Palmares (BRASIL, 2017).
Quadro 1. Quilombos em Processo de Titulação no Incra; Brasil, 2017.
MUNICÍPIO