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TÍTULO DO ARTIGO AUTOR/
ANO RESULTADOS
Conclusão
Uso e diversidade de plantas medicinais em uma comunidade quilombola no Raso da Catarina/BA Gomes e Bandeira, 2012
No seu itinerário terapêutico, a comunidade estudada conhece e depende estreitamente dos recursos vegetais para suas práticas médicas tradicionais, seja por questões culturais, econômicas ou pela dificuldade de acesso à medicina convencional.
Vivenciando o racismo e a violência: um estudo sobre as vulnerabilidades da mulher negra e a busca de prevenção do HIV/aids em comunidades remanescentes de Quilombos, em Alagoas Riscado, Oliveira e Brito, 2010
A desigualdade de gênero e o racismo apresentam-se como fatores marcantes do itinerário terapêutico relacionados ao acesso das mulheres aos serviços de saúde.
Utilização de serviços de saúde por população quilombola do Sudoeste da Bahia, Brasil
Gomes et
al., 2013
Os resultados apontaram a subutilização de serviços de saúde pelos quilombolas, pela dificuldade de acesso, demonstrando a necessidade de melhorar a prestação de serviços de saúde a essa população.
Fonte: Os autores (2016).
Principais doenças, padecimentos e fontes terapêuticas
Nos estudos realizados no Brasil, as principais doenças identificadas foram: do aparelho respiratório, hipertensão arterial, diabetes e cefaleia: Mota e Dias (2012); hipertensão, diabetes e hipercolesterolemia: Santos e Silva (2014); hipertensão e diabetes: Riscado; Oliveira e Brito (2010); verminoses, diarreia, falta de ar, infecções, doenças do sistema digestivo e respiratório: Gomes e Bandeira (2012); convulsão febril, crise asmática, desidratação e queimadura: Siqueira, Jesus e Camargo (2016); problemas de saúde variados: Gomes et al. (2013); doenças sexualmente transmissíveis: Silva et al. (2010) e doença não citada: Vieira e Monteiro (2013). Observa-se que a hipertensão e diabetes são citadas por três estudos, que relatam ainda o tipo de tratamento utilizado.
Nos estudos realizados em Luanda e Louga, destacaram-se as doenças que extrapolam o corpo físico: perturbações mentais, delírio, encantamento, má-sorte, espírito do mal, males somáticos, psicossomáticos, falta de dinheiro, falta de sorte e infelicidade conjugal (VIEGAS; VARANDA, 2015; NDIAYE; SARLI, 2014). Chama a atenção o fato de “perturbação mental” ser considerada uma doença mística em Louga. Sobre o modo de interpretar as causas dos padecimentos, Menéndez (2009) explica que o saber dos conjuntos
sociais sobre os processos de saúde/doença/atenção foi desenvolvido como parte de processos sócio-históricos, que constituem as interpretações sobre as causas dos padecimentos, as formas de atenção e os critérios de aceitação das mortes por doenças e outras causas.
Segundo Menéndez (2009), em toda sociedade, são geradas atividades de atenção às diferentes variedades de padeceres, que vão desde as doenças crônicas até as consequências das violências, passando pelas pequenas dores da vida. Assim, os sujeitos e grupos sociais produzem e reproduzem representações, práticas e experiências sobre pesares, angústias, mal-estar e medos que os afetam.
Nos estudos analisados, observou-se que os processos terapêuticos envolveram diferentes modos de atenção e cuidado nos setores familiar, popular e profissional, confirmando o que é postulado por Kleinman (1980), sendo que a busca de solução do que os afligia em cada setor dependia muito da disponibilidade em termos de acesso, da confiança, segurança, fé, acolhimento, entre outros motivos. Além disso, são relatadas diferentes fontes terapêuticas, como rituais religiosos, uso de recursos naturais e medicamentos alopáticos (Figura 2).
Figura 2 – Principais fontes terapêuticas dos quilombolas.
Fonte: Os autores, através do Software Atlas.ti 7.1.8. (2016).
Em um quilombo na Bahia, evidenciou-se que, além dos recursos naturais e dos medicamentos alopáticos, também sobressaíram as medidas físicas para diminuição da temperatura, como o banho com álcool e a imersão em água fria (SIQUEIRA; JESUS; CAMARGO, 2016). A religiosidade apareceu como pano de fundo, pois as mães
buscavam rituais religiosos em função da doença que acometia suas crianças, almejando tanto a resolução do problema como uma orientação divina acerca do modo como deveriam proceder. A religiosidade também foi referida no estudo realizado em Luanda, porém citada como fonte principal de atenção à saúde: os líderes das igrejas explicaram o seu poder de cura pela atuação do “divino” por meio de rituais performáticos específicos (manipulação de símbolos, cânticos, rezas, danças e transes) (VIEGAS; VARANDA, 2015).
Em outro estudo realizado no Estado da Bahia, os autores registraram que o modo de administrar os medicamentos tradicionais tem como principal via a oral, especialmente em forma de chá, seguido do sumo e “garrafada (a planta fica imersa na água ou no álcool, comumente chamado pelos erveiros de vinhar na água ou no álcool) (MOTA; DIAS, 2012). No quilombo Casinhas, localizado na Estação Ecológica Raso da Catarina, Bahia, o uso de plantas medicinais por alguns quilombolas se constitui em uma das poucas alternativas de atenção à saúde (GOMES; BANDEIRA, 2012). Já em Louga (Senegal), a automedicação com medicamentos alopáticos foi a escolha mais comum entre os doentes (NDIAYE; SARLI, 2014).
Ferreira e Espírito Santo (2012) observaram que os itinerários terapêuticos de moradores do complexo de favelas de Manguinhos no Rio de Janeiro tinham os remédios caseiros (chás, banhos de ervas e xaropes) como a primeira escolha diante de sintomas identificados como doença. Ainda, os medicamentos alopáticos mais citados foram os analgésicos, porém os calmantes (remédios para os “nervos”) também eram apreciados. Não menos importante como opção terapêutica era o recurso à benzedeira, à bênção do padre ou à oração do pastor.
Itinerários Terapêuticos dos Quilombolas
Os resultados das pesquisas revisadas confirmam a teoria de Kleinman (1980), quando diz que o itinerário terapêutico é constituído pela interação dos setores familiar, popular e profissional (Figura 3). Segundo o autor, os indivíduos e suas famílias buscam atenção à saúde nestes três setores sem necessariamente seguir um mesmo percurso ou hierarquia. Essa prática foi evidenciada nos estudos analisados, configurados na Figura 04.
O itinerário terapêutico em Luanda envolve principalmente os rituais religiosos representados pelas igrejas neotradicionais, que vêm crescendo em número e importância. Assim, os autores evidenciaram no estudo que uma das características preponderantes dessas igrejas é a
atenção às questões de doença e cura, na sua dimensão fisiológica, mental ou espiritual. Os fiéis dessas igrejas explicaram seus percursos devido à eficácia e centralidade da medicina tradicional e das igrejas neotradicionais, em contraponto à ineficácia da biomedicina perante determinados males (VIEGAS; VARANDA, 2015).
Figura 3 – Itinerário Terapêutico de Quilombolas
Fonte: Os autores, através do Software Atlas.ti versão 7.1.8 (2016).
Situação semelhante à estudada em Luanda foi identificada em Almeidas (Goiás), onde os quilombolas conhecem a eficácia dos remédios caseiros e acreditam nela, remetendo aos costumes da cultura local, por mais que busquem o tratamento no setor profissional. A associação entre saúde e religião é apresentada com ênfase e importância pelos moradores desse quilombo, que mobilizam o apoio de entidades religiosas ou buscam a resolução dos seus problemas de saúde
na religião e posteriormente nos serviços oficiais de saúde (SANTOS; SILVA, 2014).
Segundo Rabelo (1994), no ritual de cura, o doente é persuadido a redirecionar sua atenção a novos aspectos de sua experiência ou a perceber esta experiência segundo nova ótica. A cura consistiria, assim, não no retorno ao estado inicial, anterior à doença, mas na inserção do doente em um novo contexto de experiência. A autora reforça a relevância da religiosidade nos processos de atenção à saúde, afirmando que, no Brasil, há uma pluralidade de cultos religiosos que oferecem serviços de cura, com um rico repertório de imagens e símbolos que expressam distintas visões de mundo e oferecem a seus participantes posições e/ou papéis específicos neste mundo. Cada qual visa, por meio de seus rituais, reconstituir a experiência dos indivíduos de modo a conformá-la a estes papéis.
Assim, a religiosidade e seus cultos perpassam o percurso dos quilombolas na busca de atenção e cuidado à saúde nos setores familiar, popular e profissional, que pode se dar de modo simultâneo ou não.
No quilombo Kalunga, localizado na região do cerrado no nordeste do Estado de Goiás, a assistência à saúde é realizada pelas equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF), porém há precariedade dos serviços de saúde, número reduzido de unidades de saúde, equipes e profissionais, especialmente médicos, dentistas e enfermeiros (VIEIRA; MONTEIRO, 2013). Situação similar foi observada nas comunidades quilombolas em Alagoas, onde as mulheres alegaram dificuldade de acesso aos postos de saúde, acarretada pela distância e pela falta de recurso financeiro para pagamento de transporte. Ainda nessa pesquisa, algumas mulheres afirmaram nunca terem realizado exame ginecológico por sentirem muita vergonha, embora tenham sido informadas pela agente de saúde de sua necessidade (RISCADO et al., 2010).
A revisão sistemática realizada por Freitas et al. (2011) reforça que uma característica marcante nas comunidades quilombolas é a ausência de serviços de saúde locais, fazendo com que, ao surgirem doenças, seus habitantes sejam obrigados a percorrer grandes distâncias em busca de ajuda. Para os autores, a grande problemática está em oferecer saúde integral combinada com a manutenção das crenças e tradições destes grupos, ressaltando que muitos povos quilombolas ainda se utilizam de práticas alternativas e usam plantas consideradas por eles como medicinais.
Em um quilombo no sudoeste da Bahia, as cinco comunidades selecionadas apresentaram cobertura pela ESF, porém apenas três dispunham de uma unidade básica de saúde em seus territórios. Nas
demais comunidades, os procedimentos de saúde eram realizados nas escolas ou na casa do agente comunitário de saúde (GOMES et al., 2013). O mesmo sucedeu em Alagoas, onde as mulheres alegaram dificuldade de acesso aos postos de saúde reforçada pelo preconceito e a falta de um atendimento humanizado dos profissionais de saúde, constatando o racismo institucional (RISCADO et al., 2010). Em dois quilombos no Estado de Goiás, as redes sociais de parentesco, vizinhança e os costumes tradicionais conduzem aos diferentes caminhos terapêuticos e formas de sobrevivência, porém há dificuldades de acesso aos serviços públicos de saúde (SANTOS; SILVA, 2014).
As evidências encontradas por Mota e Dias (2012) nos quilombos em Helvécia e Gomes e Bandeira (2012) no Quilombo Casinhas, ambos no Estado da Bahia, corroboram com os achados do estudo realizado por Silva et al. (2010) em quilombos de cinco regiões do Brasil, que constataram que a maioria das pessoas utilizava os serviços públicos no nível da atenção básica, mas tinham dificuldades no atendimento relacionadas à distância da residência, aos horários de atendimento, longas filas, entre outras barreiras.
Explorando o itinerário terapêutico em Louga, os autores identificaram que o paciente segue um complexo itinerário, uma vez que é determinado por diferentes fatores dentro de uma sociedade em que o apego a valores culturais e tradicionais ainda é muito forte, principalmente em matéria de saúde. Nesse contexto, os especialistas nativos fazem parte do setor popular, afirmando serem curadores e terem legitimidade para prescrever remédios (plantas ou minerais) para o doente. Além disso, como citado acima, a automedicação também é uma prática constante entre a população investigada (NDIAYE; SARLI, 2014). Nos quilombos no sul da Bahia, o atendimento médico é precário e, quando os moradores necessitam de assistência, recorrem aos postos de saúde da rede pública existentes na sede municipal e em cidades vizinhas. Diante desse cenário, o uso de plantas medicinais, mencionado anteriormente, constitui-se em uma das poucas alternativas de promoção da saúde (MOTA; DIAS, 2012). O mesmo ocorre no quilombo Casinhas, localizado na Estação Ecológica Raso da Catarina (Bahia), onde os quilombolas conhecem e dependem dos recursos vegetais para suas práticas de cuidados tradicionais, seja por questões culturais e econômicas, seja pela dificuldade de acesso ao setor profissional, como já enfatizado (GOMES; BANDEIRA, 2012).
Chama a atenção o fato de os estudos atrelarem itinerário terapêutico à dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Esse recorte pode levar a erro de entendimento por salientar a hegemonia do setor
profissional, dando pouca ênfase para os setores familiar e popular. Menéndez (2009) salienta que o modelo biomédico tende a estabelecer uma relação de hegemonia/subalternidade em relação às outras formas de atenção não biomédicas, no sentido de excluí-las, ignorá-las ou estigmatizá-las.