6. Mapas conceituais
2.4 Formação de professores em rede de aprendizagem
2.4.2 Cenários e redes de aprendizagem integrada
Entendo como uma autonomia que preserva a identidade e vai se configurando a partir das circunstâncias geradas nas interações, dos vínculos estabelecidos entre os pares, no respeito às diferentes idéias e histórias que cada um traz consigo. Uma autonomia construída das inter-relações, que pode emergir da incerteza, do imprevisto, da contradição, das divergências, mas sempre com a intervenção parceira docente.
professores como intelectuais transformadores. Para o autor, a “categoria intelectual” inspira a existência de um fundamento teórico que conduz o profissional em suas atividades pedagógicas, como também elucida sobre o seu papel desempenhado por meio de posturas que tornam legítimos os interesses políticos, econômicos e sociais. Essa categoria aponta ainda os contextos e ações de natureza ideológica como fundamentais, para que os trabalhadores da educação se percebam como intelectuais. A função do profissional como um intelectual transformador visa a uma prática reflexiva e crítica e, ainda, sob esse enfoque, julgo que a atividade do homem é justificada e permeada pela dimensão mental.
Os estudos de Maurice Tardif (2002) mostram que os saberes docentes não se reduzem a processos cognitivos ou atividades mentais unicamente, eles compõem-se de outros saberes construídos e mobilizados em operações complexas de interação entre indivíduos. São saberes acolhidos e gerados ao longo de sua vida pessoal/profissional, na relação com as culturas, no ambiente familiar e educacional, nos cursos de formação, no contexto universitário, no pluralismo ou diversidade de conhecimentos. O pesquisador procura “situar o saber do professor na interface entre o individual e o social, entre o ator e o sistema, a fim de captar a sua natureza social e individual como um todo. (...) baseia-se num certo número de fios condutores” (Ibid. p. 16). A intenção, com isso, é entender que o saber do professor tem o ser humano como campo de trabalho.
Por analogia à matéria anterior, de acordo com a psicologia budista que avança numa outra perspectiva, nossa consciência tem a função de colher, experimentar, guardar e preservar as sementes ou informações que surgem das experiências. Esse processo denominado consciência armazenadora (HANH, Thich Nhât, 2002) nos leva a supor que a qualidade de vida deve ser proporcional à
qualidade de informações acumuladas. Contudo, essas sementes armazenadas vão se transformando, considerando as escolhas e necessidades do indivíduo; vão se modificando nos estados emergentes que se cumprem na convivência, por meio dos fluxos dos níveis de percepção. A Carta da Transdisciplinaridade30, sobretudo no Artigo 13, reconhece como legítima a reflexão em torno da consciência armazenadora, conforme o texto a seguir:
Artigo 13: A ética transdisciplinar recusa toda atitude que se negue ao diálogo e à discussão, qualquer que seja sua origem – de ordem ideológica, cientificista, religiosa, econômica, política, filosófica. O saber compartilhado deveria levar a uma compreensão compartilhada, baseada no respeito absoluto das alteridades unidas pela vida comum numa única e mesma Terra.
Desde o início desta pesquisa, há uma pretensa tentativa de mostrar alternativas para as mudanças que desejamos na educação, a partir de um novo projeto de perfil docente, com respaldo em sua formação. Nesse percurso, estamos na companhia de pressupostos teóricos que se manifestam e se recolhem, proposital, visível e alternadamente, entretanto, um deles mantém-se fiel e constante: o pensamento complexo. Às vezes secreto, às vezes subitamente revelador. Essa compreensão nos permite dar continuidade à analise acerca da formação de professor e recuperar um dos pontos citados no objetivo deste trabalho:
a criação de cenários e redes de aprendizagem integrada. Para isso, no entanto, busco inspiração nas investigações de Moraes & Torre (2007), a partir do texto Proyecto Escenarios y Redes de Aprendizaje Integrado para una Educación de Calidad (ERAIEC).
Dos problemas da humanidade já temos conhecimento, das fragilidades dos sistemas educacionais também, o momento requer ações, urgentes. Ações lúcidas
30 Localizar a íntegra do documento no AAnneexxoo 44.
que tenham como sua melhor e única referência o homem, com seus valores e suas dores, ontológico e antropológico; solicita atitudes ‘decentes’, que cuidem da vida ambiental deste planeta. A meta agora é desfazer a sensação de imobilidade e assumir compromissos na implementação das mudanças desejadas. As possibilidades existem. O documento mencionado acima, elaborado por Moraes &
Torre (Ibid.), é um estudo consistente do ponto de vista científico, que apresenta opções de caminhos que poderão nos levar a transpor a obsessiva fragmentação dos saberes, a transgredir a dualidade cartesiana e a desmontar os postulados deterministas ainda hegemônicos.
Considerando que “No podemos seguir educando con métodos del ayer a jóvenes que ya viven en el mañana” (TORRE, ibid.), a educação e a formação docente deverão reformular suas bases didático-pedagógicas, de modo a atender a essa ‘nova’ feição de aluno, conectado com as inovações tecnológicas e muito bem familiarizado com o ciberespaço por meio das redes virtuais de computadores. Para isso, no entanto, o educador deverá experienciar um grande processo de transformação pessoal, que irá reverberar nas esferas social e profissional. Moraes
& Torre (Ibid.) convidam o educador para colaborar com a concretização da reforma do pensamento e da consciência e para uma maior abertura do coração. Essa reconstrução implicará no desenvolvimento de um amplo projeto acadêmico centrado em estratégias metodológicas apoiadas em pesquisas que visem à criação de cenários e redes de aprendizagem integrada, estes compreendidos como ambientes de interação social e vibracional.
Nesse instante, surge um novo e importante elemento de análise relativo ao universo educacional: perceber esse espaço como um campo de vibração. Mesmo não tendo propriedade para dissertar sobre o assunto, porque se trata de um
fenômeno explicado pela física quântica, ousaria conjecturar superficialmente que o campo vibracional contém matéria, que é a própria energia condensada (MORAES &
TORRE, ibid.) – homem, objetos, animais, plantas, constituintes do reino mineral – manifestando-se em vibrações ou freqüências energéticas indeterminadas que ocorrem num fluídico movimento em rede. O nível (ou qualidade) de vibração está intrinsecamente relacionado à freqüência da matéria emitida no espaço/campo. Em outras palavras, a forma como a matéria interfere no ambiente é que vai determinar a qualidade da freqüência vibracional. Há uma constante e ininterrupta interação entre as energias a potencializar a ação nos espaços vibracionais, criando outros estados energéticos e produzindo uma sucessão de campos diferentes. A complexidade implicitamente se repete, levando-nos a compreender melhor a dinâmica entre a relação da matéria e o campo vibracional.
Nessa linha de pensamento, Moraes & Torre (Ibid.) nos lembram da existência de um grupo de cientistas envolvidos em pesquisas dessa natureza:
“Una comunidad virtual que apuesta por un nuevo paradigma en el que lo macro y lo micro están interconectados y que lo que observamos como materia no es sino energía concentrada, en la que a nivel subatómico estaría constituida por vacíos informados o Campo Punto Cero. Incluso nuestras mentes operan siguiendo procesos cuánticos, según Zohar y otros importantes científicos. En tal sentido pensar y sentir – todas las funciones cognitivas superiores - tienen que ver con la información cuántica pulsando simultáneamente a través de nuestros cuerpos y nuestros cerebros.
La percepción se produce por interacciones entre partículas subatómicas del cerebro y el mar de energía cuántica que nos rodea”
(McTaggart, o.c.,23).
Para levar à prática, a proposta de formação docente se fertiliza nos terrenos da ecologia dos saberes na base epistemológica do pensamento eco-sistêmico, sob o olhar da complexidade e da transdisciplinaridade. Entretanto, outros estudos científicos e de diferentes áreas do conhecimento fornecem subsídios na
fecundação de todo o escopo teórico, como a física quântica, a biologia, a neurociência, a química orgânica, a antropologia cultural, entre outras.
De acordo com as abordagens sistêmicas e eco-sistêmicas, as Instituições de Ensino Superior (IES) são concebidas:
“(…) en términos de redes de información y energía, el espacio del aula como escenario de interacción de los agentes formadores, como circunstancias y campos energéticos y vibracionales, la institución como un campo organizacional en el que confluyen informaciones, materias, energías y lenguajes de diferentes procedencias, y el Programa como una guía o ruta que nos orienta en el camino, pero nunca un rail de única dirección” (MORAES & TORRE, ibid.).
A proposição pode ser justificada pela ecologia dos saberes, expressão encontrada na obra de Boaventura de Sousa Santos, segundo Moraes & Torre (Ibid.), cuja idéia diz respeito às universidades, no sentido de perceber “a existência de conhecimentos plurais”, para proporcionar o encontro entre os saberes científicos e os humanísticos. Tem o propósito de valorizar o saber procedente de diversas culturas e tradições integrando-o ao acadêmico. Trata-se, dessa forma, de uma mudança na estrutura conservadora da educação superior, quando a demanda indica o caminho inverso do tradicional: levar outros conhecimentos e saberes do povo para dentro da universidade e relacioná-los às ciências. Certamente, a pretensão não é subestimar as ciências, mas, sim, agregar condicionantes dos costumes e experiências do homem comum, antes ignorados, aos científicos.
O exercício da ecologia dos saberes pode ser a própria prática do pensamento complexo. Vem a ser um pensamento ecologizado, como recomendam Moraes & Torre (Ibid.):
“(...) que religa, relaciona, reintegra e nos ajuda a religar as diferentes dimensões humanas implicadas nos processos de construção do conhecimento, processos estes produtos de uma organização funcional e operacionalmente complexa e que, por sua
vez, exige um pensar mais complexo, articulado, capaz de reconhecer interdependências processuais, a multidimensionalidade da realidade humana, um pensamento capaz de afrontar antinomias e os paradoxos que se apresentam ao se pretender conhecer a realidade”.
Há, nessa perspectiva, uma dinâmica que se realiza no contexto dos princípios ou operadores cognitivos da complexidade e dos pilares do pensamento transdisciplinar, analisada no capítulo 5 desta pesquisa.
A materialização da ecologia dos saberes como uma proposta de mudança na formação docente universitária implica na criação de cenários e redes de aprendizagem integrada, com inspiração derivada das fontes teóricas da transdisciplinaridade, da complexidade e do pensamento eco-sistêmico. Os cenários e redes de aprendizagem integrada, de acordo com Moraes & Torre (Ibid.), significam espaços diferenciados de aula – físico-temporais e virtuais – para o desenvolvimento de estratégias diferenciadas que utilizem recursos pedagógicos também diversificados, como materiais audiovisuais, impressos, tecnológicos etc. Os autores avançam mais nas idéias, sugerindo a metodologia de projetos que incorporem o estudo de várias disciplinas para proporcionar o desenvolvimento de valores e habilidades. “A tolerância, a convivência, a colaboração, a atitude crítica, criativa e a busca da auto-aprendizagem permanente são as ferramentas mais eficazes para a transformação pessoal, profissional e social” (MORAES & TORRE, ibid.).
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3° CAPÍTULO PANORAMA DOS PROGRAMAS DESENVOLVIDOS
NA DIVISÃO DE TECNOLOGIA DE ENSINO
A Divisão de Tecnologia de Ensino (DITE), órgão vinculado ao Departamento de educação (DED), da Secretaria de Estado da Educação (SEED)31, foi criada em 1994 para desenvolver projetos didático-pedagógicos voltados para o uso das tecnologias da informação e comunicação (TIC), nas escolas públicas do estado de Sergipe. Em sua estrutura comportam dois Núcleos de Tecnologia Educacional (NTE), localizados em Aracaju, para atender à demanda do ProInfo, e estão sendo criados mais oito, em outros municípios do estado. Os NTE funcionarão nos Centros de Tecnologia Educacional (CTE), distribuídos por região, perfazendo um total de dez.
Estão integrados em sua agenda programas desenvolvidos pelo Ministério da Educação (MEC), como o Programa Nacional de Informática Educativa (Proinfo), TV Escola, Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento à Comunidade (Gesac), e, no ano de 2007, foi incorporado o Tô no Mundo, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP). Em âmbito estadual, funcionou o projeto Alfabetização com o Uso da Multimídia, extinto no ano de 2007, e em atividade o Rádio-Educ/SE.