6. Mapas conceituais
2.1 Do determinismo racionalista à complexidade
Procuro condensar análises das concepções teóricas que apóiam a pesquisa, relacionando os conceitos à prática docente em cursos de formação de professor, realizados em ambientes virtuais de aprendizagem. A idéia visa a demonstrar como as abordagens complexas e eco-sistêmicas podem contribuir com projetos educacionais emergentes, articulados com estratégias metodológicas centradas na multidimensionalidade humana.
A concepção newtoniana revela que o universo é governado por leis imutáveis19. Esse modelo reducionista foi tão relevante para as ciências, que vimos sua repercussão também transitar pela Literatura Brasileira, no período do Naturalismo, no final do século XIX, principalmente com Aluísio Azevedo, nas obras O Mulato e O Cortiço.
A trama em O Cortiço propõe uma análise em torno das relações humanas, com grande carga de questões sociais conflituosas e degradantes envolvidas, destacando a problematização de tipos humanos que se confrontam: dos que vivem à margem da sociedade e daquele que detém o poder econômico. Suas personagens são constituídas de pessoas comuns, excluídas, reconhecidas como “o lixo humano”, malandros, mendigos. “Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do cortiço, jornaleiros de baixo salário, pobre gente miserável, que mal podia matar a fome com o que ganhava”20 (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. p. 43).
Problemas trágicos e todos os vícios inimagináveis, realidade de uma comunidade decadente, vitimada pelas circunstâncias. “Lá no cortiço, de portas adentro, podiam esfaquear-se à vontade, que nenhum deles, e muito menos a vitima, seria capaz de apontar o criminoso (...)” (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. p.
87)21. Submetido às leis universais, o homem, enquanto integrante de um sistema social específico, estava a cumprir o processo de vida dentro de padrões fechados,
19 CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 2001.
20 Idem.
21 Trecho extraído <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00021a.pdf>. Acessado em 11/05/2007.
rígidos, componente que vai confluir na lei de causa e efeito ou no princípio da causalidade22, no previsível e absoluto, onde tudo está predeterminado.
O fluxo dessas idéias, apesar das contribuições relevantes para a vida planetária, no que se refere ao planejamento e à organização do saber, vem limitar, com toda sua arrogância, a compreensão da dinâmica da vida e das relações humanas, em função da primazia racionalista, da natureza disciplinar e fragmentária sobre o conhecimento. Limitação que não permite a expansão da criatividade.
A interpretação dessas correntes científico-filosóficas acarretou impactos em vários aspectos da vida comum, inclusive na educação formal. Há, nesse sentido, um vasto repertório de pesquisas que demonstram a problemática: as condições técnico-pedagógicas e administrativas da escola não se percebem como extensão umas das outras, como setores complementares; a avaliação da aprendizagem mensurada, quantitativamente; a própria concepção de espacialidade das salas de aula, cuja arquitetura é projetada na estrutura de quatro paredes, dando-nos a impressão de que professor e aluno são sujeitos cativos, onde somente ali é possível ensinar e aprender. Além disso, há conteúdos desarticulados, que escapam do contexto. Ecleide Furlanetto (2000, p.92) nos lembra:
“(...) encontramos muitas vezes uma prática pedagógica que afasta o professor do aluno, distancia o aluno de seus colegas e ambos do conhecimento. Existe também uma distância entre teoria e prática muito presente nesse dinamismo que se mostra na escola encobrindo as relações entre o que está sendo estudado e a própria vida”.
Os efeitos dessa massa de valores na educação vão mais além do que está aparente, eles reforçaram no homem sentimentos e ações excludentes e antiéticas,
22 Significa que todo efeito tem uma causa e que, nas mesmas circunstâncias, a mesma causa produz sempre os mesmos efeitos. Disponível em <http://ocanto.esenviseu.net/lexicon/dtermins.htm>.
Acessado em 11/05/2007.
como a competitividade no universo do trabalho, o preconceito pelas culturas, a hostilidade ao mundo natural. Essas emergências representam o álibi das mudanças indispensáveis à educação, mudanças que devem começar naturalmente pela formação do professor.
Uma formação adequada poderá refletir positivamente na atuação docente e esta, no processo de aprendizagem. Que seja uma formação isenta de pudor, quando necessário mobilizar as dimensões temporais e espirituais. Maria Cândida Moraes (2003) propõe:
“(...) urgência de uma reforma paradigmática nos processos de construção e de reorganização do conhecimento, uma reforma do pensamento (Morin, 2000) e uma profunda transformação na educação (Moraes, 1997). Isto para que possamos enfrentar a complexidade de nossa realidade atual e dar conta dos problemas mais pertinentes relacionados às questões tecnológicas, ambientais, ecológicas, éticas e sociais”.
Para corrigir os problemas criados pela e para a humanidade, e evitar futuros equívocos, o cenário dos cursos de formação de professor deve ser erguido sobre propostas metodológicas flexíveis e abertas, onde seja possível perceber a natureza complexa da existência. “O modo como nos tornamos propensos (pela educação e pela cultura) a pensar é que vai determinar as práticas do dia-a-dia, tanto no plano individual quanto no social”, segundo Humberto Mariotti23.
E para falar de complexidade, convidaria ao debate alguns pesquisadores cujas obras contribuíram, de alguma forma, com seus pressupostos. Chamaria a teoria autopoiética, de Humberto Maturana e Francisco Varela, por trazer conceitos que nos auxiliarão no entendimento de concepções que serão mais tarde resgatadas, quando das reflexões sobre o ambiente educacional.
23 Disponível em <http://www.geocities.com/pluriversu/introdut.html>. Acessado em 07/11/2007.
Para os biólogos chilenos, os sistemas vivos ou unidades dinâmicas (indivíduo, a escola, a família, uma indústria de brinquedos, um grupo de estudos, entre outros) constituem uma oorrggaanniizzaaççããoo aauuttooppooiiééttiiccaa, que se autoproduzem ou se auto-organizam, e se apresentam de natureza invariável, imutável. Significa dizer que uma escola, por exemplo, sempre será uma instituição de ensino. Mas cada estabelecimento de ensino possui uma esesttrruuttuurraa peculiar, que o torna único e se diferencia de outros, seja pela proposta pedagógica, pela localização geográfica ou pela cultura dos indivíduos que dele participam. Há, enfim, uma série de fatores que singularizam um sistema autopoiético. Essa eessttrruuttuurraa, no entanto, passa por ininterruptas mudanças desencadeadas das interações mútuas entre seus componentes e o ambiente. A cumplicidade entre os pares se estabelece para preservar sua organização ou para que a escola não se desintegre, não deixe de existir, ao que os cientistas denominam aaccooppllaammeennttoo eessttrruuttuurraall. Para Moraes (2003, p. 86), “(...) As transformações estruturais ocorrem de acordo com as circunstâncias presentes”. Em se tratando do dedetteerrmmiinniissmmoo esesttrruuttuurraall, entendemos que, durante o fluxo dialético das interações, o sujeito e o meio exercem influências recíprocas, no entanto, o movimento de interação que ocorre entre eles “não determina quais serão seus efeitos” (MATURANA e VARELA, 2001, p. 108) ou, ainda, não presume as reações dos sujeitos que integram aquele sistema dinâmico. E a partir das inter-relações, a unidade autopoiética elabora sua história, isto é, sua oonnttooggeenniiaa.
A auto-organização corresponde ao processo de mudanças estruturais que ocorrem no interior de uma unidade dinâmica (ou sistema vivo, sob a ótica da autopoiese24), ocasionadas pelas emergências que surgem das relações com o meio. Essas mudanças não implicam na perda das especificidades e características
24 Para seus autores, Maturana e Varela, Autopoiese significa auto-organização ou, ainda, é toda organização (todos os sistemas vivos e/ou dinâmicos), que produz continuamente a si mesma, através de ininterrupta produção e renovação de seus componentes.
próprias do organismo (unidade dinâmica), ao contrário, vêm a ser um movimento que, ao se reconstruir, nega o determinismo, abdica do imutável, legitima a flexibilidade e a identidade de seus componentes.
Do ponto de vista social, a verificação do estado de impermanência da estrutura de uma organização autopoiética conflui para o enfraquecimento das idéias deterministas, defendidas no mundo científico ocidental. O pensamento complexo, nesse sentido, vem reforçar o caráter transitório do contexto dos sistemas vivos.
Etimologicamente, segundo Edgar Morin (2003, p. 43),
“(...) a palavra “complexidade” é de origem latina, provém de complectere, cuja raiz plectere significa trançar, enlaçar. (...) A presença do prefixo “com” acrescenta o sentido da dualidade de dois elementos opostos que se enlaçam intimamente, mas sem anular sua dualidade”.
Complexidade, para Morin, lembra Moraes (2003, p. 200), “indica uma tessitura comum, pois complexo significa aquilo que é tecido em conjunto”. Uma ação de interdependência e de atribuições recíprocas entre sujeitos em torno de um objeto ou de um projeto comum, em circunstâncias onde são resguardadas as individualidades e reconhecida a transitoriedade dos processos. A complexidade pode ser compreendida como um pensamento que reúne diferenças e diferentes, organiza e reorganiza contraditórios, articula sujeito e objeto de forma contextualizada, que liga e religa conceitos. Movimentos que, em função das circunstâncias, podem ocorrer simultaneamente.
Para Morin (2003, p. 44), complexidade é uma rede constituída de componentes heterogêneos, indissociáveis, “que apresentam a relação paradoxal entre o uno e o múltiplo”. Uma teia composta de elementos de natureza diferente, de aspectos antagônicos, como a ordem e a desordem, a síntese e a análise, a
eliminação e a construção, condições que devem ser pensadas juntas, porque complementares. No pensamento complexo, o mundo é visto de forma sistêmica, um todo interconectado com suas partes.
Moraes (2004, p. 189) não só amplia como aprofunda a explicação:
“Pensar o complexo é tentar compreender a dinâmica presente nas partes constitutivas do todo, descobrir como elas se relacionam. É perceber os fenômenos em suas relações e conexões. Pressupõe, portanto, ver o objeto relacionalmente, ou seja, de maneira ecológica e relacional, inserido num contexto histórico, afetivo e sociocultural”.
O desafio de vivenciar a complexidade em cursos de formação para a docência se acentua pela necessidade de atenuar as forças da supremacia da objetividade, porque, isoladamente, é evasiva. O desafio será, ainda, privilegiar propostas e atitudes que confluam para a unidade e não mais para a fragmentação.
Uma formação que possibilite, porque fundamental, a reflexão do processo complexo do conhecimento e dos vários aspectos interdependentes ou relacionados durante sua construção. Uma formação docente nutrida de fontes teóricas humanizantes apresenta maiores possibilidades de tornar a mediação pedagógica mais consistente.