Esta categorização é uma extensão da descrição intimista, abordada anteriormente,
à medida que também descreve determinado momento narrativo. A diferença principal
entre as duas categorias se estabelece no fato de que, na descrição intimista o foco está no cenário e nos aspectos simbólicos que compõem os personagens. Os movimentos são paralisados para que o texto possa contemplar os signos expressivos dos cenários retratados. Já nas cenas de apoio o foco não está no cenário, mas na cena em si, na encenação de uma maneira mais ampla. Ao invés de paralisar a dinâmica narrativa, esta se torna, apenas, mais lenta, a fim de que todos os atos e movimentos da cena sejam visualizados pelo leitor. Nas reportagens analisadas, as cenas de apoio aparecem com frequência na abertura das reportagens, mas também em ilhas no decorrer do texto.
Das categorias identificadas na análise de Brasileiros, as cenas de apoio são as que apresentam maior variedade na utilização de ferramentas estético-textuais. Pode ocorrer descrição, narração em primeira ou terceira pessoa, interlocuções, humor, dentre outros. A mediação das narrativas jornalísticas por meio de apresentação de cenas foi uma das principais ferramentas utilizadas pelo New Journalism na década de 1960. Além do reflexo estético que elas resultavam ao texto jornalístico, aproximando-se intencionalmente de uma proposta narrativa literária, este recurso levava o repórter a percorrer meandros mais profundos da informação reportada. A mediação ultrapassava a barreira da informação factual/objetiva e adentrava, muitas vezes, no terreno da subjetividade, das emoções e das passionalidades das fontes. Terreno este perigoso para os jornalistas daquele período que, mesmo apresentando ferramentas do texto literário, não abriam mão das técnicas e princípios da reportagem.
O básico era a construção cena a cena, contar a história passando de cena para cena e recorrendo o mínimo possível a mera narrativa histórica. Daí os feitos de reportagem às vezes extraordinários que os novos jornalistas empreendiam: para poder testemunhar de fato as cenas da vida das outras pessoas no momento em que ocorriam. (WOLFE, 2005:53)
As cenas narrativas costumam ter em comum, elementos que as constituem durante seu desenrolar organizado em principio, meio e fim. Elementos como lugar,
apresentação, desenvolvimento, clímax e desfecho. Diante desses elementos,
constatamos que, em contraste com a narrativa ficcional – literária ou mesmo cinematográfica –, as cenas destacadas são incompletas. Tal incompletude é intencional
à medida que as cenas não têm a pretensão de serem autossuficientes ou independentes.
Pelo contrário. Elas cumprem a função instigação ao clímax, que pode ser apresentado em outra cena narrativa no decorrer ou no final da reportagem.
A contemplação de cenas na narrativa jornalística é uma ferramenta que exige tempo a profundidade no contato com as fontes entrevistadas. Também por isso, as
cenas de apoio encontram em Brasileiros um espaço privilegiado para sua aplicação.
Edvaldo Pereira Lima, em livro Páginas Ampliadas, questiona a atualidade como critério distintivo do texto jornalístico. A obsessão pelo agora, pelo tempo presente, de acordo com Lima, transforma-se na “câmara de um labirinto que dificulta ao jornalista a ascensão a um patamar superior, de onde possa descortinar a realidade que se desdobra, em movimento, pelos diferentes círculos concêntricos temporais” (LIMA, 2004:64). Não obstante, o autor reconhece que nem toda mensagem precisa ultrapassar o limite do efêmero, especialmente quando se trata de noticias ou notas simples.
Mas quando se trata de reportagem, cujo objetivo é o aprofundamento, a definição da pauta pelo critério de atualidade pode revelar-se inócua, uma vez que muitos dos fenômenos que nos afetam escapam de uma conformação atual, no sentido restrito, tendo muito mais a ver com uma concepção um pouco mais dilatada de tempo presente. (LIMA, 2004:64)
Diante disso, a periodicidade mensal (mais dilatada) de Brasileiros, aliada a uma proposta editorial que não se regra exclusivamente pelo critério de atualidade, permite a aplicação de elementos textuais mais bem elaborados, como a mediação a partir de
cenas de apoio sejam utilizados em suas narrativas.
Os três trechos destacados abaixo exemplificam o uso de cena na introdução de fatos e personagens à trama narrativa.
Ex 1:
"Acho que você precisa saber disso", ouviu o delegado de Ribeirão Pires assim que atendeu o celular. Itamar Martins reconheceu a voz do delegado de plantão. Estranhou o tom aflito. Duas da madrugada, viu no relógio do criado-mudo. Associou o horário tardio ao sotaque da angústia e ficou em guarda. Um policial não interrompe o sono de
outro, sobretudo na madrugada de um sábado, para tratar de miudezas. Nem se perturba por pouco. Alguma coisa grave devia ter acontecido. Acontecera: "Uns garis encontraram pedaços de dois corpos no caminhão do lixo". Não dormiria direito no fim de semana, conformou-se, já mudando de roupa e ansioso por cruzar no limite da velocidade os 17,5 quilômetros que separam a casa onde mora em Santo André da delegacia de Ribeirão Pires. As frases seguintes preveniram que não se livraria de visitas da insônia em muitas outras madrugadas. "Os sacos foram recolhidos no fim da noite, numa rua da Vila Aurora."(Itamar lembrou que aqueles meninos moravam lá.) "Parecem pedaços de crianças." (São aqueles meninos, soprou-lhe o instinto aguçado no convívio com a face escura.)
O pressentimento por pouco não se tornou tangível nos 20 minutos em que o delegado viajou simultaneamente no espaço e no tempo. Enquanto os olhos vigiavam os caminhos que levam à cidade de 107 mil habitantes e a 35 quilômetros de São Paulo, a memória recuou 48 horas. Estacionada na quarta-feira, 3 de setembro, reconstituiu a noite em que o destino juntou na mesma sala o policial de 47 anos e os irmãos João Vitor dos Santos Rodrigues, 13, e Igor Giovani dos Santos Rodrigues, 12. Foi o primeiro encontro com aqueles meninos. Temia que fosse o último.
Os garis o esperavam. "A sorte é que o caminhão estava cheio", repetiu Eduardo dos Santos Andrade, 44 anos, que recolheu os sacos. "Se estivesse vazio, seria tudo triturado." Jailton Evaristo, 23, ficou intrigado quando o mecanismo emperrou. "Fui ver o que era e encontrei um pé. Pensei que era de boneco." Era de gente, confirmou a descoberta, em outros sacos, de pedaços de duas pernas e de um crânio. A coleta foi feita na entrada de uma vila na Rua Cândido Mota, mas não tinham anotado o endereço. Nem precisavam. Itamar foi para a sua sala, pegou numa gaveta a folha de papel e copiou o que havia rabiscado dois dias antes: Cândido Mota, 254, casa 6. Para lá aqueles meninos voltaram na quarta-feira. Para lá a intuição ordenara que seguisse tão logo vislumbrou, por trás de uma notícia transmitida por telefone, a anunciação do pesadelo.
A luz da televisão sumiu quando estava a sete metros da casa de cinco cômodos - dois quartos, sala, cozinha e banheiro - espremida no fundo da rua interna que separa as duas fileiras de construções tristonhas, cabisbaixas, sem viço nem cor. Ninguém respondeu às batidas. Empurrou a porta entreaberta e, às três da madrugada, entrou na casa incomodado por presságios. Saiu às quatro atormentado por certezas. Conjugadas, informavam que no dia 5 de setembro de 2008 dois irmãos foram assassinados, esquartejados e jogados no lixo por João Alexandre Rodrigues, 40, e Eliane Aparecida Antunes, 36. O pai e a madrasta.
(Brasileiros, Outubro de 2008, “Inocência esquartejada”)
A cena acima é a mais rica em elementos narrativos encontrada dentre as reportagens analisadas de Brasileiros. Ela possui organização própria em três cenas
principais: a do início (primeiro parágrafo, com o delegado recebendo a ligação); desenvolvimento (segundo e terceiro parágrafo, quando o delegado vai ao local onde estão os corpos e descobre pistas do crime); e conclusão (terceiro parágrafo, em que o personagem principal vai até a casa e conclui quem foram os assassinos). A organização narrativa é ilustrada por personagens como o delegado de plantão, os garis, os pais das crianças e descrições subjetivamente sugestivas, como quando sugere intuição, ou mesmo emoções ligadas ao crime. Apesar dessa auto-organização, a cena não esgota as possibilidades da narrativa que será desenvolvida em seguida, apresentando outros elementos e outras cenas até o seu desfecho.
Ex 2:
A Vila de Baião Grande é um conjunto de casinhas de taipa nas proximidades da cidade de Tupanatinga, sertão pernambucano. Ali vivem 20 famílias, entre elas, a de Maria Aparecida da Conceição, uma mulher de 30 anos que neste momento tenta distrair a fome dos quatro filhos contando histórias confusas de anjos e outros seres voadores. Como não consegue seu intento, vai ao improvisado fogão a lenha e mostra para a reportagem da Brasileiros as panelas praticamente vazias, resultado do verão que este ano veio mais cedo e já começa a castigar a região com uma estiagem da brava. Com o pouco de macarrão que ainda resta, ela prepara uma sopa rala para afastar da sua casa a terrível estatística mundial, segundo a qual a cada sete segundos uma criança morre de desnutrição em algum canto do planeta. Essa morte lenta e dolorosa, depois de um quadro dramático de atrofia e desidratação, ronda as redondezas. Há alguns meses, na vizinha Buíque, Fernanda Avelino, de um ano e meio, foi enterrada pela própria mãe depois que deixou de se mexer, de falar e de comer o pouco que lhe era oferecido.
(Brasileiros, Dezembro de 2008, “A vida continua seca”)
No exemplo acima a cena é reduzida em relação a do primeiro exemplo resumindo-se a três ações: 1- a personagem tenta distrair a fome dos quatro filhos
contando histórias confusas de anjos e outros seres voadores; 2- mostra para a reportagem da Brasileiros as panelas praticamente vazias, resultado do verão que este ano veio mais cedo e já começa a castigar a região com uma estiagem da brava; e 3- prepara uma sopa rala para afastar da sua casa a terrível estatística mundial, segundo a qual a cada sete segundos uma criança morre de desnutrição em algum canto do planeta. Todas as ações são narradas em modo presente e acontecem num mesmo
contexto espacial e temporal, posicionando-se o narrador. Este tipo de cena, logo no início das reportagens, é o mais encontrado durante a análise das reportagens.
Ex 3:
Já era tarde da noite, porém a aglomeração às margens do Rio Apucaraninha era grande. Mais de cem pessoas, desesperadas, esperavam que os bombeiros tirassem do fundo do rio um jovem que se afogara enquanto brincava com os amigos. Sem visibilidade e com o oxigênio dos cilindros se esgotando, as buscas seriam encerradas e só recomeçariam na manhã seguinte. Choro. Pai e mãe não arredariam o pé da barranca enquanto o corpo do filho não fosse resgatado. Assustado, Oanio Silva de Souza, 37 anos, o Aninho, abriu a porta de casa para receber alguns homens afoitos que pediam ajuda. Ele era o
único em Tamarana - cidade de 10,8 mil habitantes a 60 quilômetros
de Londrina - capaz de fazer o que os homens do Corpo de Bombeiros não conseguiram. Sem titubear, ele acordou seu pai e fiel companheiro, Joaquim Silva de Souza, 74, e foi buscar seus equipamentos guardados em um rancho perto do Tibagi, o maior rio da região.
O dia mal havia clareado e a dupla de garimpeiros já estava em ação, mas desta vez para resgatar um corpo. "Na primeira descida, já encontrei o rapaz. Nunca fiquei tão impressionado na minha vida", relembra Oanio, contando a primeira das várias histórias que relatou para a reportagem de Brasileiros. Essa do resgate se passou em 2005. (Brasileiros, Maio de 2008, “O escafandrista e os diamantes”)
Neste último exemplo a cena se movimenta em dois momentos e espaços distintos, o primeiro, posterior a um acidente com tentativas frustradas de encontrarem o corpo da vitima, e o segundo com o protagonista usando seu traje especial e concluindo a busca com sucesso. A formatação narrativa é parecida com o exemplo dois, no entanto, aqui a ação se dá no passado, como história contada.