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(2) 2. ANDRÉ GIULLIANO MAZINI. A estética autoral da narrativa jornalística contemporânea: Histórias de Brasileiros Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de PósGraduação em Comunicação Social, da UMESP - Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof.Dr. José Salvador Faro. Universidade Metodista de São Paulo Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo/SP, 2010.
(3) 3. FOLHA DE APROVAÇÃO A dissertação “A estética autoral da narrativa jornalística contemporânea: Histórias de Brasileiros”, elaborada por André Giulliano Mazini, foi defendida no dia ........... de................... de ............., tendo sido: ( ) Reprovada ( ) Aprovada, mas deve incorporar nos exemplares definitivos modificações sugeridas pela banca examinadora, até 60 (sessenta) dias a contar da data da defesa . ( ) Aprovada ( ) Aprovada com louvor. Banca Examinadora : _________________________________________. _________________________________________. _________________________________________. Linha de pesquisa: Processos Comunicacionais Midiáticos. Projeto temático:_________________________________________________________.
(4) 4 Dedicatória Eu me considero um devedor e muitos são meus credores. Pessoas que deram a mim absolutamente todas as ferramentas que me permitiram chegar até aqui. E como não citá-los? Minha mãe, Eva, saiu da roça, morou com os índios na fronteira do país, estudou, lutou, venceu. Meu pai, Abílio, cresceu na capital paulista, pobre, aprendeu ainda menino a lutar pra sobreviver e sobreviveu. A eles dedico este trabalho como parte de minha divida de amor e como uma pequena mostra de toda minha gratidão, orgulho e admiração. Às minhas lindas meninas, Juliana e Julia, dedico mais do que este trabalho, dedico minha vida e meu coração no sentido mais romântico que ele possa ser entendido. Vocês são responsáveis por cada sorriso que meu rosto desenhou nesses anos e que tanto me ajudaram a percorrer esse caminho de tantos obstáculos. Há ainda meus irmãos, meus amigos, familiares... Ninguém, porém, mais importante do que aquele que me deu a própria vida. A Deus e ao seu filho Jesus, a quem amo tanto, dedico este trabalho e a promessa de meu amor e de meu empenho pra anunciar sua palavra enquanto eu tiver fôlego..
(5) 5 Agradecimento Não fossem algumas pessoas e instituições este trabalho certamente não existiria. Por isso agradeço com muita sinceridade ao Prof. José Salvador Faro pela instigante forma com que conduziu a orientação, sempre fazendo pensar mais do que oferecendo pensamentos prontos. Agradeço ainda à Universidade Metodista de SP e ao corpo docente do Programa de Pós Graduação em Comunicação Social por ter disponibilizado de maneira eficaz toda a estrutura física e intelectual necessárias para a conclusão da dissertação, assim como à Capes que com a bolsa de estudos viabilizou financeiramente a realização deste trabalho..
(6) 6. Índice 1.. Introdução........................................................................................................... 11 1.1. Um breve histórico de Brasileiros..................................................................... 13. 2. A crise de paradigmas ............................................................................................. 16 2.2. Do relógio ao lead ............................................................................................ 20 2.4. O jornalismo e a representação da crise ............................................................ 23 3. Heranças da heresia modernista............................................................................... 27 4. Narrativa e Narratividade: Informação em forma de ‘estórias’................................. 31 4.3. Uma herança (im)positiva................................................................................. 35 4.5. O humano perfilado.......................................................................................... 39 5. Jornalismo e Literatura: Tão próximos quanto distantes .......................................... 41 5.1. Estética literária e estética jornalística .................................................................. 43 5.2. Do jornalismo à literatura: a rebeldia criativa dos anos 60 .................................... 44 6. Revistas: entre o sagrado e o pop............................................................................. 54 6.1. Modelos e tendências ....................................................................................... 57 6.2. Foco nas notícias (velocidade).......................................................................... 59 6.3. Foco nas reportagens (profundidade) ................................................................ 60 6.4. Publicações paradigmáticas .............................................................................. 65 6.6. A Realidade em Brasileiros: uma comparação necessária ................................. 67 7. Introdução à análise de Brasileiros.......................................................................... 73 7.1. Categorias de análise ........................................................................................ 74 8. Subnarrativas: O discurso de outrem ....................................................................... 78 8.1. Significação pela fala ....................................................................................... 80 8.2. Diálogos abertos............................................................................................... 81 8.3. A construção do personagem ............................................................................ 85 9. Autorreferência ....................................................................................................... 91 9.1. Diário de bordo (corporalização) ...................................................................... 94 9.2. Ponto de vista (caracterização enunciativa)....................................................... 98 10. Descrição Intimista ............................................................................................. 100 10.1. Tipos de descrição........................................................................................ 104 10.1.1. Descrição Indicial:................................................................................. 105 10.1.2. Descrição Qualitativa............................................................................. 107 10.1.3. Descrição episódica ............................................................................... 110.
(7) 7 11. Cenas de apoio .................................................................................................... 114 12. Conclusão: Início de novas questões ................................................................... 119 12.2. A velha busca pelo novo............................................................................... 120 12.3. Novas questões............................................................................................. 121 13. Referências Bibliográficas:.................................................................................. 123.
(8) 8. Resumo O trabalho analisa a narrativa jornalística praticada pela revista Brasileiros a partir de elementos textuais estilísticos que agregam ao texto, além da função informativa, a promoção do prazer estético da leitura. Junto à análise estética do objeto, uma especial atenção foi dada aos sinais de autoria identificados nas reportagens, onde o repórter supera a noção de transmissor isento da realidade e assume a posição mediadorautor. Para o estudo foram identificadas quatro categorias de análise que guiaram a observação das reportagens: subnarrativas (amplo espaço dedicado ao discurso do “outro”), autorreferência (a imagem “de si” do próprio repórter projetada nas reportagens), descrição intimista (detalhes de personagens, coisas ou lugares que aproximam o leitor das narrações), e cenas de apoio (momentos narrativos auxiliares à narrativa principal). Verificou-se que tais características, além de compor uma identidade editorial, permite a humanização das reportagens, dando ênfase às representações humanas, inclusive contemplando aspectos subjetivos, e não restringindo-se à transmissão de dados ou fatos pontuais, supostamente objetivos. Palavras-chave: Narrativa; Estética; Autoria; Humanização; Jornalismo.
(9) 9. Resumen El trabajo analiza la narrativa practicada en el magazine Brasileiros a partir de elementos textuais estilísticos que agregan al texto, más allá de la función informativa, la promoción del placer estético de la lectura. Junto al análisis estética del objeto, una especial atención fue dada a los signos de autoria identificados en las reportajes, dónde el reportero supera la noción de transmisor libre de la realidad y asume la posición de mediador-autor. Para el estudio se identificaron cuatro categorías de análisis que guiaron la observación de las reportajes: subnarrativas (un amplio espacio dedicado al discurso del "otro"), auto-referencia (la imagen “de si mismo” del periodista diseñado en las reportajes), la descripción íntima (los detalles de personajes, lugares o cosas que aportan cerca el lector de las historias), y las escenas de soporte (momentos narrativos auxiliar a la narración principal). Se constató que estas características, además de componer una identidad editorial, favorece la humanización de las reportajes, dando énfasis a las representaciones humanas, inclusive contenplando aspectos subjetivos, en lugar de limitarse a transmitir datos o eventos específicos, supuestamente objetivos. Palabras-clave: Narrativa; Estética; Autoria; Humanización; Periodismo.
(10) 10. Abstract The paper analyzes the Brasileiros magazine’s narratives from textual stylistic elements that add to the text, beyond the reporting function, the promotion of aesthetic pleasure of reading. Next to the analysis of the aesthetic object, a special attention was paid to signs of authorship identified in the reports where the reporter goes beyond the notion of free transmitter of reality and takes the position mediator author. For the study identified four categories of analysis that guided the observation of the articles: subnarrativas (ample space dedicated to the discourse of the "other"), Self-reference (the image "of itself" the reporter himself designed the reports), intimate description (details of characters, places or things that bring the reader of the stories), and scenes of support (auxiliary narrative moments to the main narrative). It was found that these characteristics, as well as composing an editorial identity, to the humanization of reporting, focusing on human representations, including looking at the subjective, rather than being restricted to data or specific events, supposedly objective.. Key-words: Narrative; aesthetics; Author; Humanization; Journalism.
(11) 11. 1. Introdução Esta pesquisa guiou-se por parâmetros qualitativos na análise das informações colhidas sobre a Revista Brasileiros. O método adotado na coleta de dados referentes ao objeto foi o estudo de caso simples e descritivo, buscando organizar informações abrangentes no universo da comunicação jornalística impressa, sem, todavia, abrir mão do caráter unitário que há no objeto estudado descritivamente. Trata-se de uma análise intensiva de uma situação particular e, diante disso, as conclusões alcançadas não abrangem outros objetos sem que neles se faça, antes, igual pesquisa. O caso eleito para esta pesquisa requereu uma compreensão histórica tanto do objeto quanto do contexto que o cerca. Em busca dessa compreensão foi realizada, na pré-pesquisa e em seu transcorrer, pesquisa bibliográfica que embasou, especialmente, o referencial teórico construído na primeira parte desta dissertação. Antes de apresentar as reflexões construídas durante o processo de desenvolvimento dessa dissertação é necessário que se faça um pequeno histórico do contexto que envolve a escolha do tema e do objeto de pesquisa. O interesse pelas narrativas jornalísticas surgiu ainda na graduação, no projeto de Iniciação Científica “Os bastidores da arte de viver”, que buscava a humanização das reportagens culturais propondo abordagens jornalísticas que não se restringissem a falar somente sobre as manifestações artísticas em si, mas, antes disso, que apresentassem a vida do artista e os fatores objetivos e subjetivos que o levaram a produzir sua arte. Durante o projeto, desenvolvido na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, com apoio do CNPq, foi possível ter um primeiro contato com bibliografias importantes para as reflexões que se seguiriam. Já no final da graduação, a participação no grupo de pesquisa Jornalismo e construção de narrativas: em busca da subjetividade perdida, coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Kanehide Ijuim, alargou as possibilidade reflexivas sobre a narrativa contemporânea dando subsídios não só teóricos, com o compartilhar de diversas pesquisas interessantes ao tema de integrantes do grupo que se reuniam periodicamente, mas também práticos na elaboração e na aplicação de oficinas de construção de narrativas para alunos de graduação e profissionais interessados..
(12) 12 Além de desenvolver pesquisas próprias que se somavam ao entendimento mais aprofundado sobre as narrativas jornalísticas contemporâneas, o grupo de pesquisa buscava compartilhar publicações nacionais, ou reportagens, que praticassem aquilo que entendíamos – e ainda o entendemos – por jornalismo humanizado, com o ser humano no ponto de partida e de chegado de todas as mediações. Este jornalismo não era padronizado e identificado por normas definidas de construção textual, mas guardava algumas singularidades entre si, tais como constata Ijuim: (No trecho estava o termo “ferramentas”) - As técnicas jornalísticas como recursos indispensáveis; - Criação de estratégias que permitam a superação, o desenvolvimento dessas técnicas; - Exercício da cidadania, compromisso social e humanização; - Descrição e valorização de personagens; - Descrição de ambientes; - Ênfase no aprofundamento, na ampliação da visão da realidade.. (IJUIM, 2009:162) Foi durante o monitoramento de publicações brasileiras que acompanhamos, desde seu nascimento, a revista Brasileiros. Já nas primeiras edições, a publicação chamava atenção primeiramente pelo o espaço que reservava a reportagens extensas, prática dificilmente repetida em outras revistas, e chamava atenção ainda pela maneira como essas grandes reportagens eram apresentadas. As estruturas narrativas sobre as quais se construíam as principais matérias superavam a simples utilização de técnicas de reportagem; os textos apresentavam evidente preocupação estética, o que podia ser observado no frequente uso da descrição de ambientes, momentos ou personagens; e havia também um claro enfoque, assumido já no primeiro editorial e corroborado nas reportagens, no ser humano como protagonista de todas as histórias sociais. É necessário destacar que, apesar dessas características mencionadas, Brasileiros sempre se apresentou ao mercado como uma publicação jornalística, e não de entretenimento literário. Ou seja, estávamos diante de uma revista que propunha um jornalismo alternativo ao da grande mídia contemporânea. Não se pode dizer que era, nem que é, uma prática jornalística inovadora – como veremos em momento mais oportuno dessa dissertação –, mas é fato que tal proposta, principalmente no que diz respeito a sua estética narrativa, difere da maior parte das revistas ou jornais de grande circulação no Brasil..
(13) 13 Escolhido pelo tema e objeto, iniciou-se o processo de pesquisa voltado à dissertação de mestrado propriamente. O corpus selecionado para a pesquisa corresponde às 17 primeiras edições de Brasileiros desde seu lançamento, em julho de 2007, até dezembro de 2008. Depois de uma pré-análise, foram selecionadas 26 reportagens, estudadas a partir de quatro categorias de análise desenvolvidas para a pesquisa1. O tamanho dos textos foi um dos primeiros critérios adotados na escolha das reportagens que compuseram a análise. Foram selecionadas, basicamente, as maiores reportagens de cada edição. Reportagens com temas diversos que contavam com uma estrutura narrativa mais complexa, onde a figura criativa do autor fosse mais claramente evidenciada pelos recursos estético-textuais empregados na mediação. Dentre as “grandes” reportagens identificadas foram excluídas aquelas construídas em torno de um único relato de vida, ou personagem: tipo de matéria caracterizada em Brasileiros, na maior parte das vezes, como Perfil. Também foram excluídas da seleção matérias dos demais gêneros como entrevistas (pergunta-resposta), pequenas notícias, editoriais e editorias fixas como Cultura, por exemplo. Procurou-se na pré-análise selecionar reportagens cujas temáticas fossem possivelmente comuns a outros veículos jornalísticos, a fim de identificar as peculiaridades nas abordagens narrativas realizadas por Brasileiros, a partir dos principais recursos narrativos por ela empregados. Cada uma das reportagens selecionadas foi analisada com base nas quatro categorias desenvolvidas – descrição intimista; cenas de apoio; subnarrativas e autorreferência – buscando encontrar, através delas, evidências da presença criativa do autor nas mediações e os recursos narrativos por ele utilizados.. 1.1. Um breve histórico de Brasileiros O nascimento da revista se mistura com um momento de mudanças na vida de seu idealizador, Hélio Campos Mello. O fotógrafo e jornalista saiu da revista IstoÉ no início de 2006, depois de 12 anos como diretor da publicação, período em que a publicação recebeu dez prêmios Esso de jornalismo. Não houve um fator pontual para a cisão de Mello com a revista, apenas, segundo ele próprio, um desgaste natural provocado pelo tempo de trabalho, um “cansaço” acompanhado por um desejo de empreender algo novo e ideologicamente coerente com sua visão sobre a prática jornalística. 1. Capítulo 7.1..
(14) 14. “Um mês antes de sair, em janeiro, fui à Bahia com Patrícia Rousseaux, minha sócia, minha mulher, mãe de um dos meus filhos. De frente para o mar nos ocorreu o nome Brasileiros e as linhas gerais do que seria a revista e a editora. Após minha saída da IstoÉ, durante o ano de 2006, fiz três matérias para o Globo, junto com Ricardo Kotscho. Discutimos também sobre o projeto da revista. Antes disso Nirlando Beirão, outro jornalista e amigo tornou-se meu sócio na recém nascida editora. Como sócio ele ficou até um pouco antes do lançamento da revista quando optou por ater sua participação ao cargo de diretor, função que mantém até hoje. Patrícia, que naquele momento estava encerrando sua participação em um instituto, tornou-se sócia da Brasileiros Editora Ltda, que tem Nirlando e Kotscho como diretores.” (MELLO em entrevista, 28/10/2009). Inicialmente com esse grupo de profissionais a revista ganhou corpo e sua proposta foi apresentada no primeiro editorial de julho de 2007 e reafirmada no editorial da edição número 27 de outubro de 2009 (* ambos seguem no fim deste capítulo). Em resumo, os dois editoriais colocam o foco da publicação no ato de contar histórias de brasileiros, tendo liberdade narrativa (autoral) para isso e procurando apresentar pautas menos apocalípticas em relação ao país e as temáticas que o envolvem. O ingresso de Brasileiros no mercado, sem depender de grandes editoras, foi turbulento financeiramente, todavia, de acordo com Mello, “hoje já estamos com 27 edições e os números estão cada vez menos torturantes. Nosso equilíbrio está bem próximo”. E o desenvolvimento vai além do financeiro, como se constatou na pesquisa, apresentando no decorrer das edições uma maior maturidade editorial. “Além de tudo isso, acho importante frisar que a Brasileiros é uma revista de autor. As chamadas de capa vêm acompanhadas de assinaturas. Os autores têm seus perfis publicados. E isso é algo que está sendo seguido por outras publicações, o que nos deixa muito satisfeitos. Também faz parte da personalidade da revista um cuidado estético bastante apurado. Quase obsessivo, me permito dizer. Isso se deve, em parte, ao fato de eu, como fotojornalista, achar que para a eficiência da transmissão/publicação de uma notícia/fotografia, o cuidado com sua forma é fundamental.” (MELLO em entrevista, 28/10/2009). (*) Editoriais Número 1 (por Hélio Campos Mello, diretor de redação, jul/2007) Brasileiros revista mensal de reportagens, tem como foco o Brasil, seus grandes temas, seus grandes desafios e, principalmente, seus habitantes e suas histórias. Este é seu primeiro número e o início de um trabalho em que a saga dos personagens deste país plural será o alvo de nossos repórteres. Qualquer morador do Brasil, qualquer brasileiro fora do País, qualquer um que tenha uma boa história para contar nos interessa. Célebre ou anônimo, bonito ou feio, rico.
(15) 15 ou pobre, alegre ou triste, morador dos Jardins, de Ipanema ou dos grotões, conservador ou revolucionário. Nós iremos atrás de cada um deles para trazer o Brasil até você. Como o País, Brasileiros é uma revista plural. Não é chapa branca - não está aqui para bajular este ou aquele governo -, nem é chapa preta - não tem como missão promover o apocalipse a qualquer custo e a qualquer prêmio. Brasileiros não terá pruridos nem para elogiar, nem para criticar. Como no nascimento de um filho, esta primeira edição nos enche de orgulho e de emoção. E, como se deseja para um filho, queremos que Brasileiros seja vencedora, assim como queremos que o Brasil seja vencedor. É essa emoção e esse orgulho que temos o prazer de compartilhar com você, nosso leitor de primeira hora e personagem mais importante desta saudável empreitada. Brasileiros, uma revista que faz questão de ser influente, acredita na busca da eficiência e, principalmente, na possibilidade de ser competitivo sem ser predador. Também crê ser possível recuperar e lutar por valores como ética e justiça social, conceitos que foram banalizados e perderam significado. Vamos fazer jornalismo sem preconceitos, sem arrogância, sem perder o humor e sem constrangimento em demonstrar paixão.E faremos isso com muito entusiasmo, mas sem pieguice e sem ufanismo.. "Everybody loves Brazil" (por Hélio Campos Mello, diretor de redação, out/2009) Não é por acaso que esta revista se chama Brasileiros. Escolhemos esse nome, em fevereiro de 2007, porque defendíamos - e defendemos - o direito de olhar para o País com mais carinho. Defendemos o direito de torcer a favor dele, e não contra ele. Defendemos a dispensa da obrigação elitista de sermos "inteligentemente" irônicos, autodepreciativos e carregados de soberba ao criticar o País. Podem nos dispensar dessa obrigação. Trocamos tudo isso por torcer e, principalmente, por trabalhar para que o Brasil cresça sob todos os aspectos. Os econômicos, os sociais e os éticos. Defendemos que o Brasil precisa gostar mais do Brasil. E isso, é óbvio, não significa ignorar o que há de errado nele. E a realidade do dia a dia nos mostra que muito há de errado. Muito há por fazer. Muito há por melhorar. Mas isso não significa que não se possa comemorar o que há de bom. O que foi feito e o que está em andamento. Nós não nos furtamos da crítica. É da nossa essência. É da nossa função. Mas fugimos da prática do linchamento oportunista, calhorda e metido a besta. Assim como fugimos da pieguice. Ou pelo menos do excesso dela. Desde nossa primeira edição, em julho de 2007, defendemos o direito de demonstrar paixão e emoção no que fazemos e na maneira como olhamos para o Brasil. E, como já estava registrado no nosso número 1, isso passa bem longe de qualquer tipo de ufanismo. Por tudo isso, trazer as Olimpíadas para o Rio nos encheu de emoção. A vitória conseguida na Dinamarca provocou alegria e entusiasmo. O discurso do presidente da República foi de encher os olhos. Tanto a redação quanto sua interpretação. Pura emoção. Os vídeos feitos por Fernando Meirelles e seus parceiros foram de absoluta e notória competência. Todo o trabalho foi de emocionar. Agora, a hora, mais do que nunca, é de mãos à obra. Há muito que planejar, muito que trabalhar. A nossa imagem lá fora nunca foi tão positiva. Precisamos melhorá-la aqui dentro e, para isso, é preciso, de um lado, trabalho e, de outro, boa vontade. O Brasil precisa gostar mais do Brasil. Entre as várias entrevistas que foram feitas nos momentos em que antecederam o anúncio da escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016, uma chamou a atenção. Um jornalista de língua inglesa, perguntado pela repórter brasileira sobre qual seria a cidade escolhida, respondeu de imediato: Rio de Janeiro. Por quê? Well everybody loves Brazil!.
(16) 16. 2. A crise de paradigmas Globalização; rompimento das distâncias; relações efêmeras; circulação de informações em tempo real; individualismo; instabilidade; e crise. Crise nos quatro pilares da modernidade apontados por Outeiral: fé na razão, fé no progresso tecnológico, fé na ciência como substituta da religião na condução dos destinos humanos e fé no homem autônomo e auto-suficiente (OUTEIRAL, 2004:21). Essas características, dentre muitas outras que podemos identificar nos contornos que as relações sociais adquirem nesta passagem de milênio, colocam em pauta um tema bastante controverso: que tempo é este que estamos vivendo? Alguns, como Bauman, David Harvey, Eagleton, falam de pós-modernidade. Outros (Kelner, Sokal, Best...) rebatem que “pós-modernidade” é uma tentativa de levantar uma bandeira de “diferente” sendo que nada de realmente importante tenha mudado, ao menos uma mudança que justifique uma nova classificação teórica. Chega-se a comentar sobre uma modernidade tardia, sociedade pós-humana, modernidade líquida, dentre outros e, diante dessa infinidade de termos e suas propostas de legitimações acadêmicas, sobra a dúvida e a incerteza, e, essas sim, parecem ser unânimes. Não sabemos quem somos, pois somos muitos, como trata Stuart Hall (2005); não sabemos onde estamos, porque através das redes online, por exemplo, podemos estar em qualquer lugar a qualquer tempo; não sabemos para onde vamos, pois as previsões ambientais mais otimistas nos enchem de medo. As certezas absolutas que apesar de frágeis confortavam, praticamente desapareceram na contemporaneidade. A física quântica, por exemplo, nos surpreende com a noção de que tudo é composto por átomos e a compreensão acerca do átomo, pela própria física, se mostra abstrata, são espaços vazios, padrões de probabilidade como indica Capra. São subjetivos. No nível subatômico, os objetos materiais sólidos da Física clássica dissolvem-se em padrões de probabilidade semelhantes a ondas; esses padrões, em última instância, não representam probabilidades de coisa, mas, sim, probabilidades de interconexões. (CAPRA, 1993:58). Se as ciências duras foram confrontadas cabalmente com as incertezas do mundo que acreditávamos ser real, sólido e palpável, nas ciências humanas o choque tem sido ainda maior e mais confuso. Um dos reflexos que François Lyotard (1998:16) aponta.
(17) 17 como marco da pós-modernidade é o fim das metanarrativas. Os grandes esquemas explicativos teriam, de acordo com essa percepção, caído em descrédito e não haveria mais "garantias", posto que, mesmo a ciência já não poderia ser considerada fonte da verdade. A ilustração do lago de gelo sugerida pelo filósofo Ralph Waldo Emerson é uma das maneiras coerente de explicar a vida nisso que se conceitua por pós-modernidade. Segundo Bauman, quando patinamos sobre o gelo fino, nossa maior segurança está na velocidade. Sobre a ilustração, o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, no programa televisivo Café Filosófico, exibido pela TV Cultura em 25/05/2008, diz que:. “O mundo se transformou em um grande lago congelado. Quando você está deslizando sobre uma fina camada de gelo, se andar devagar, você morre. Se parar, o chão racha. O mundo que a gente vive é o mundo que demanda de você tamanha agilidade, tamanha aceleração, tamanha leveza, tamanha superficialidade, que qualquer profundidade pode colocar a sua vida em risco” (PONDÉ, 2008). O sentimento pós-moderno, tomando o termo com necessária cautela, nasce com o fim de um sonho onde o ser humano poderia ser “salvo” por um novo deus que não estava mais na igreja, mas na capacidade de cada um, em suas habilidades administrativas e desenvolvimentistas. As revoluções francesa e americana foram o marco inicial da modernidade. O humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções da ciência, da política e do conhecimento prometiam um futuro maravilhoso, um verdadeiro “paraíso” na terra (PONDÉ, 2008). Era um tempo iluminado, onde o passado estava enterrado e o futuro anunciava-se cada vez melhor. A modernidade era, então, um projeto racional-administrativo de se construir o “paraíso” na terra. A nova religiosidade que se desenhava não era mais em Deus: este papel foi ocupado pela ciência, pelo progresso e pela tecnologia. Esse novo “deus”, ainda que de outras formas, também carregava em si, implicitamente ou não, a promessa de livramento da morte, já que a má convivência com a finitude da vida é um elo que une toda a raça humana (PONDÉ, 2008). Mas um grande conflito surge daí, pois a impossibilidade de superar o medo da morte voltou a introduzir a morte de outras formas na sociedade. Com os campos de concentração na Alemanha nazista, caiu por terra o anseio modernista de que a ciência e seus avanços seriam capazes de produzir algum tipo de discernimento moral no ser humano. A ciência acabou tornando o mal.
(18) 18 muito mais preciso do que era antes e a tentativa de produzir um mundo muito seguro, produziu a sensação de insegurança. A pós-modernidade seria, então, o sentimento que nasce dessa frustração com as promessas modernistas: a ciência não salvou o mundo. Uma das mais fortes características deste novo tempo é que os referenciais se desmancharam em suas debilidades. Na idade média acreditava-se que a “salvação” estava em Deus, ou mais precisamente na Igreja Católica Romana; o iluminismo rejeitou essa idéia e apregoou uma salvação pela ciência. A pós-modernidade viu, sistematicamente, as falhas de todos esses deuses. E quem sobrou para oferecer “salvação” neste novo contexto? Nada. Ninguém. A vida pós-moderna é carente de referências. A ciência que gerou o progresso também criou a bomba atômica. As religiões não conseguem mais responder aos conflitos da existência e a falta de respostas acaba criando inúmeros desvios na fé (no que quer que seja). O processo de pós-modernização passa a alimentar-se do desespero diante do fracasso da organização científica da vida, orienta-se pelo sentimento de desorientação diante do excesso de informação e de conhecimento. Na vida pós-moderna não estamos condicionados por instituições tradicionais como família, igreja, ou estado. O ser humano goza de uma liberdade nunca vista, ou sequer vislumbrada em outra época. Quase tudo é permitido. Muitos caminhos são possíveis, mas não se tem a mínima idéia de qual seguir. “A liberdade traz consigo um sentimento de que nada é garantido. A liberdade pode se transformar em uma das formas mais opressivas que existem.” (PONDÉ, 2008). De acordo com o entendimento de Canclini sobre cultura, vemos que até poucas décadas atrás, pretendia-se encontrar um paradigma que organizasse o saber nas suas distintas variáveis. Mesmo quem reconhecia a coexistência de múltiplos paradigmas aspirava estabelecer algum que fosse o mais satisfatório ou o de maior capacidade explicativa.. Não se deve abandonar esta aspiração, mas o relativismo epistemológico e o pensamento pós-moderno debilitaram, por caminhos distintos, aquela preocupação com a unicidade e a universalidade do conhecimento. A própria pluralidade de culturas contribui para a diversidade de paradigmas científicos, ao condicionar a produção do saber e apresentar objetos de conhecimento com configurações muito variadas. (CANCLINI, 2005:36). Para Morin (1995:140), estamos “diante do paradoxo inédito no qual o realismo se torna utópico, e no qual o possível é impossível. Mas esse paradoxo nos diz também.
(19) 19 que há uma utopia realista, e que há um impossível possível. O princípio da incerteza da realidade é uma brecha tanto no realismo como no impossível”. Essa complexidade das incertezas traz consigo o entendimento de que a realidade e a utopia são duas faces de uma mesma moeda que ainda gira no ar, à espera da sorte de seu destino. Maria Ligia Rangel, refletindo sobre as idéias de Baudrillard (1992), diz que, para ele, “o princípio da incerteza é o que orienta o mundo da pós-modernidade, com o que as massas se põem diante da certeza estúpida e da banalidade inexorável dos números, encarnando esse princípio e cuidando secretamente da desordem estatística”. Segundo o autor, tal é o modo contemporâneo revolucionário do ser no mundo que, “as coisas, os signos, as ações são libertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, de sua origem e de sua finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito” (BAUDRILLARD, 1992:12). Stuart Hall, sobre as mudanças contemporâneas na identidade dos indivíduos, chama a atenção para o fato de que um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas. Segundo Hall, o cenário presente está fragmentando as paisagens culturais de classes, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais.. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um ‘sentido de si’ estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma ‘crise de identidade’ para o indivíduo (HALL, 2005:9). O crítico cultural Koberna Mercer problematiza ainda mais, dizendo que a identidade só se torna uma questão, uma pauta a ser debatida, quando está em crise, “quando o que se supõe como fixo, coerente, estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza” (MERCER, 1990:43). O entendimento que adotamos aqui a respeito de crise é o sugerido por Edgar Morin; “Um aumento da desordem e da incerteza no seio de um sistema, seja este individual, seja social” (HADJI, 2001:74). Esta desordem é provocada, ao mesmo tempo em que provoca, pelo bloqueio de dispositivos organizacionais, especialmente os reguladores (feed-back negativos), determinando neles, por um lado, rigidezes, e por outro, desbloqueios de virtualidade até então inibidas. Estas desenvolvem-se de modo desmedido (hibris), enquanto as diferenças se.
(20) 20 transformam em oposições e as complementaridades em antagonismos. A crise, de acordo com Morin, surge em um contexto de incertezas e acaba tornando insuportáveis pequenos conflitos que antes não incomodavam. É evidente a dificuldade encontrada pelos estudiosos em conceituar a identidade do individuo “pós-moderno”, de entender o que o caracteriza por essência e o que o insere no contexto social em que vive. Tal dificuldade se apresenta de forma mais evidente quando analisamos a dificuldade intelectual em dar nome a este momento, em colocar nele um rótulo, objetivo e certo, sendo que os próprios pilares da objetividade estão dentre os alvos mais criticados. No. jornalismo,. uma. atividade. essencialmente. humana. (e. idealmente. humanizadora), os reflexos dessa crise de identidade são marcantes. O homem deixa de ser tratado como alguém dotado de individualidade e passa a ser encarado como um objeto a ser explorado com fins analíticos. Há uma notável superficialidade na representação das notícias, ou uma busca e exploração, normalmente sensacionalista, do espetacular, do exótico e do mágico na escolha das pautas, mas isso será discutido mais adiante. Certamente a sociedade não caiu de pára-quedas neste contexto de intensas mudanças em suas bases identitárias. O capítulo seguinte traz uma breve contextualização histórica sobre a crise do paradigma científico das certezas, dando lugar a um entendimento complexo da organização humana em sociedade, na contemporaneidade. Os argumentos serão apresentados em um primeiro plano, macro, tratando o pensamento de uma forma abrangente, e em segundo plano, de forma mais estrita, do jornalismo inserido nesse contexto de mudança.. 2.1. Do relógio ao lead A lógica do pensamento cientificista é separar as partes para conhecer o todo por meio de um método empírico em que sujeito e objeto se distanciam para assegurar o conhecimento verdadeiro, desprovido de dúvidas, incertezas ou elementos da subjetividade humana. O saber preciso, certo e sistematizado sobre o mundo, traduzido pela linguagem universal das leis científicas, tem por objetivo, essencialmente, a aplicação prática. Conhecer para dominar e, assim, alcançar o progresso da humanidade. Eis a razão que move o tecnicismo da ciência positiva, que encara o mundo como uma máquina, um relógio funcionando sincronizada e mecanicamente..
(21) 21 Trazendo a discussão para o jornalismo, encontramos Meditsch (1992:35-44) diante do que caracteriza como o poder da morte, em referência ao domínio da ciência positiva no cotidiano social, “o jornalismo agoniza”, primeiro, na condição de espaço de representação da realidade social; segundo, enquanto forma de conhecimento dessa mesma realidade. O pensamento disjuntivo que fundamenta o cientificismo moderno acaba por ditar as normas do fazer jornalístico, especialmente durante o século XX. A notícia passa a ser concebida como um relato verdadeiro, imparcial e objetivo dos fatos redigidos pelo repórter, um mero reprodutor de informações. O homem torna-se também um objeto, sem identidade, a ser explicado pela ciência. E, como objeto, aparece retratado por um jornalismo metódico que apreende o espaço social assim como o faz o cientista em seu fazer empírico: isola o fato de seu contexto, distancia-se e, como espectador, diz retratar a realidade, atribuindo sentido à ação social como um fim em si mesma. O processo jornalístico, portanto, desumaniza-se por desvincular por completo o homem que representa, do homem que é representado. O tecnicismo e a razão tornam-se as únicas ferramentas para apreender o objeto (fato jornalístico), dissecá-lo (a partir de um pensar simplista de causa-efeito) e expressá-lo conforme esquemas determinados e préconcebidos (lead enquanto modelo pré-definido, constituído da linguagem econômica em sentido). A notícia incorpora um valor de troca, próprio da sociedade capitalista em que se desenvolve, e o processo de representação pelo jornalismo assume um caráter uniforme mediado pela técnica. Em vez de elucidação, o acúmulo de informação sem nexo com os fenômenos sociais. No lugar da narração, o registro burocrático de fatos sociais. Responsável por tornar comuns conflitos, anseios e preocupações humanas, o fazer jornalístico caminha em sentido oposto à realidade complexa. A complexidade, no sentido apresentado por Edgar Morin, surge como um outro meio de perceber e sentir a realidade social. O pensamento complexo é uma tentativa não reducionista de perceber a dinâmica do universo vivo. Complexus pode ser entendido como tecer, juntar, religar. Pensamento complexo, portanto, apresenta-se como uma estrutura de pensamento que encara o mundo como um grande sistema. Um sistema em que tudo está em relação a tudo, estabelecendo interações e trocas por meio de um princípio de interdependência das partes com o todo e do todo com as partes. O conhecimento tem seus limites ampliados, sai do campo da disciplinaridade para o da.
(22) 22 transdisciplinaridade; une, dialoga, conecta saberes e áreas que a princípio não passavam de estruturas fechadas. Em resumo, é possível conceber o conhecimento como um “saber plural”, enriquecido pelo diálogo aparentemente impossível da poesia e da física, do místico e do científico... A natureza do jornalismo é complexa, transdisciplinar, auto-organizativa e dialógica em sua essência. Sendo assim, o fazer jornalístico, em sintonia com essa concepção de mundo, incorpora a dinâmica da vida e faz dela sua fonte primeira de inspiração para construção de narrativas pela qual o personagem é o homem. O jornalista, mediador e protagonista do processo de tornar comum ações, pensamentos, medos, conquistas, derrotas, pelos recursos da narrativa, agrega valor humano, intelectual e social à informação. Um desafio que exige o exercício pleno da sensibilidade, a empatia com o mundo, o pensar crítico e reflexivo, menos individual e mais solidário. Para expressar o contexto e as relações do sistema multifacetário, aberto e complexo, o jornalista vai além do método de registro, mas compreende pela perspectiva de um pensar híbrido, constituído por uma razão inteligente que une lógica (racionalidade) à emoção (subjetividade). Compreender, então, torna-se uma prática reflexiva e formadora. Por esse princípio, quando o jornalista compreende, consegue levar a compreensão ao outro, expressando-se por meio da mais rica arte de contar histórias, a narrativa aberta, trabalhada e enriquecida por jornalistas que imprimem autoria a sua produção, única na essência e nas formas expressivas. Por detrás desse fazer, está a condição primeira que ativa o processo de compreender/refletir/expressar o mundo: a sensibilidade em toda a sua totalidade. É ela que permeia e nutre esse processo, porque se não sinto, não me aproximo de uma compreensão consistente, de uma reflexão coerente e tampouco consigo ser o narrador com habilidades capazes de contar as histórias cotidianas. A pós-modernidade nos põe à mesa diversas características que ganham força por não se apresentarem sozinhas, isoladas umas das outras, mas, antes, por estarem ligadas numa teia complexa de inter-relações, onde tudo interfere em tudo e todos interferem em todos. À primeira vista, a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Na segunda abordagem, a complexidade é.
(23) 23 efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal. Mas então a complexidade apresenta-se com os traços inquietantes da confusão, do inextricável, da desordem, da ambigüidade, da incerteza... Daí a necessidade, para o conhecimento, de pôr ordem nos fenômenos ao rejeitar a desordem, de afastar o incerto, isto é, de selecionar os elementos de ordem e de certeza, de retirar a ambigüidade, de clarificar, de distinguir, de hierarquizar... Mas tais operações, necessárias à inteligibilidade, correm o risco de a tornar cega se eliminarem os outros caracteres do complexus; e efetivamente, como o indiquei, elas tornam-nos cegos. (MORIN, 1991:17-19). É possível trazer ao jornalismo os desafios propostos por Morin de “clarificar”, ou de “pôr em ordem” o conhecimento. Tal tarefa não é simples, tampouco pode ser superada com fórmulas pré-concebidas. Faz-se necessária a reflexão teórica que contemple a crise causada pelo “traço de confusão” da complexidade. Nos tópicos seguintes procuraremos enxergar o jornalismo em meio ao desafio de representação das crises sociais e das crises que abalam seus próprios alicerces valorativos, enraizados fortemente no século passado, como a objetividade, a verdade, a neutralidade e, mais recentemente com o advento do webjornalismo, a instantaneidade.. 2.2. O jornalismo e a representação da crise Já vimos que o jornalismo é um espaço de representação social, é uma ferramenta de comunicação em seu sentido mais básico; o de tornar comuns os fatos de interesse público. Assim, o jornalismo incorpora os conflitos ideológicos que atingem a organização social, incorpora as crises em seu discurso. Uma das principais crises diz respeito ao tempo. A velocidade na transmissão das informações sempre foi um alvo perseguido pelo jornalismo. O aprimoramento das tecnologias que aumentam essa velocidade é prova disso. Desde a imprensa de Gutenberg até a internet, a velocidade esteve e ainda está associada à competência da informante, ainda que a mesma velocidade pudesse causar falhas na apuração das notícias. A notícia é, por sua própria natureza, uma mercadoria altamente perecível. De acordo com José Arbex Jr. “ela torna-se antiga no instante mesmo da sua divulgação, especialmente em um mundo interconectado por satélites e bombardeados, a cada segundo, por uma imensa montanha de novos dados” (ARBEX, 2001:89). Daí, segundo ele, a importância que o furo, a prerrogativa de ter sido o primeiro veículo a informar, adquire para as empresas de comunicação. Paradoxalmente, não importa se o furo será mesmo visto ou lido, ou muito menos compreendido pelos telespectadores e leitores,.
(24) 24 mas sim o fato de que uma empresa possa afirmar que ela foi mais rápida e eficaz do que as outras. Dos conflitos que a velocidade impõe à geração de notícias, um é a tênue linha que separa a velocidade da apuração (qualidade no processo de reportagem). Casos emblemáticos como o da Escola Base exemplifica claramente esse ponto conflituoso. Na ânsia de publicar o furo, de anunciar aquilo que ninguém sabe, os jornais se entregaram a um denuncismo falacioso, cometendo um dos maiores erros da imprensa brasileira em toda sua história. Nesse caso não temos só o sensacionalismo como elemento gerador do problema, temos também a busca desmedida pelo imediato, do fato novo, aqui, agora, e com exclusividade do veiculo A ou B. Esse anseio pela instantaneidade é característica marcante do nosso contexto sócio-cultural. Outro conflito emergente da busca por velocidade a qualquer custo, nesse caso de forma mais técnica, é em relação às próprias peculiaridades que identificam a linguagem de cada tipo de veículo jornalístico: impresso, televisivo, radiofônico e online: No impresso: Apesar da liberdade para utilização de recursos textuais, o jornalismo impresso, em contexto de mercado, prima pela objetividade, pelo texto desenvolvido, porém enxuto. As narrativas são escritas normalmente em terceira pessoa e não se utiliza de adjetivos que possam interferir na “imparcialidade” do relato. Formas padronizadas de construção da matéria também são adotadas no texto jornalístico impresso, as mais conhecidas são a “Pirâmide Invertida”, em que as informações são distribuídas hierarquicamente, ficando as de maior importância (a base da pirâmide) logo no início do texto e as com menos importância, decrescentemente no decorrer da narrativa. E, ainda, o Lead, onde tenta se resumir todas as informações básicas no primeiro parágrafo do texto. Responde-se no lead basicamente as perguntas: Quê? Quem? Quando? Onde? E, eventualmente... Como? Por quê? Na televisão: O texto para telejornalismo busca ser ainda mais curto e objetivo que o texto jornalístico de mídia impressa, com vocabulário mais próximo do coloquial. Os períodos narrativos são curtos e a idéia da disposição decrescente na disposição também é adotada, embora com mais flexibilidade. No rádio: Segundo normas clássicas praticadas no Brasil e em outros países, o texto para radiojornalismo busca ser ainda mais curto e objetivo que o texto jornalístico de mídia impressa e de TV, com vocabulário o mais próximo possível do coloquial..
(25) 25 Procura-se, ainda, utilizar sempre ordem direta (sujeito; verbo; predicado) e ser muito descritivo, para compensar a falta de imagens. Repetições são bem-vindas. Na internet: O jornalismo online ainda configura seus contornos. Sua versatilidade permite que se misturem elementos de todas as mídias, no entanto, alguns autores (como ROCHA, 2000; PALACIOS, 2002; MIELNICZUK, 2001) identificam que as características mais marcantes do Jornalismo online são: Instantaneidade; Interatividade; Perenidade (memória, capacidade de armazenamento de informação); Multimediação; Hipertextualidade (possibilidade de se criar links); Personalização de conteúdo (customização). Apesar de haver um natural intercâmbio entre as linguagens, há especificidades que as legitimam. A influência da TV tem sido intensa, pelo seu forte alcance e apelo popular, fortalecido nas últimas décadas. De acordo com Arbex, enquanto a televisão proporciona a ‘comunicação total’ – recebemos texto e imagem prontos –, o texto impresso solicita do leitor um acervo com o qual ele possa compor e interpretar aquilo que está sendo narrado. Isso é uma grande vantagem de acordo com Tom Wolfe: A comunicação impressa (o contrário do cinema ou do teatro) é um meio indireto que, mais do que “criar” imagens ou emoções, estimula as memórias do leitor. (...) esta operação – o disparar a memória do leitor – tem algumas vantagens singulares e maravilhosas. Se os estudiosos do cérebro estão certos, a memória humana parece feita de conjuntos de dados significativos (...) Esses conjuntos de memória frequentemente combinam inteiramente uma imagem e uma emoção. (WOLFE, 2005:23). Arbex situa que, ao contrário do que acontece com a relação do telespectador com a televisão, que trabalha com a velocidade, a profusão de imagens segundo um ritmo ditado pelos clipes publicitários, o leitor tem um controle muito maior do tempo que poderá dedicar ao texto impresso (poderá ler tudo de uma vez, interromper a leitura, retomá-la depois, reler alguns parágrafos, anotar observações, etc.).. À exceção de poucos jornais e revistas, a imprensa adotou uma série de procedimentos destinados a “competir com a televisão” (textos curtos, parágrafos pequenos, letras em corpo garrafais, fotos coloridas) de tal forma que o leitor não se sinta “cansado” e possa ler de maneira mais rápida e cômoda possível. Assim o leitor está exposto ao impacto da televisão, mesmo que não seja um telespectador. (ARBEX, 2001:37). A linguagem condiciona o homem,.de acordo com autores como Arbex, logo, a velocidade na linguagem informativa contemporânea revela um ser humano também em.
(26) 26 busca constante por velocidade. O fetiche da velocidade na informação, somado à crise da incerteza, dá vida à ilustração do lago congelado de Emerson. Não sabemos ao certo aonde estamos indo, mas temos a impressão de que é necessário “patinar” cada vez mais rápido. As informações precisam ser imediatas, ainda que rasas e superficiais, como costumeiramente o é. A fragmentação cultural na base identitária da sociedade pósmoderna permite que haja uma fácil aceitação dessa realidade comunicacional. Ciro Marcondes observa que:. Tal fragmentação (que é a forma geral de disposição do mundo na perspectiva burguesa) produz igualmente mentalidades fragmentadas, diluídas, difusas, que vêem o contexto social, a realidade, sem nenhum nexo, sem nenhum fio ordenador. Para a mentalidade fragmentada, a fragmentação noticiosa cai como uma luva. (MARCONDES, 1983:55).
(27) 27. 3. Heranças da heresia modernista Não é objetivo deste trabalho realizar uma viagem conceitual pela história da literatura em todos os seus momentos, a fim de buscar nela as proximidades possíveis com a narrativa jornalística proposta pelo objeto desta análise, a revista Brasileiros. Não podemos, todavia, deixar de analisar com especial atenção o período entre o final do século XIX e primeiras décadas do XX. O modernismo marcou a literatura da época com seu anseio pela superação de padronizações estéticas, marca que ainda hoje se manifesta em algumas vertentes do jornalismo contemporâneo, incluindo o objeto aqui analisado. Para Peter Gay é muito mais fácil exemplificar do que definir o modernismo. Essa curiosa constatação por si mesma, segundo Gay já dá sinais da riqueza, complexidade e dificuldade em se traçar uma avaliação geral do movimento modernista em todas as suas manifestações. A partir da metade do século XIX, o termo “modernismo” foi aplicado a qualquer tipo de inovação, ou a todo e qualquer objeto que mostrasse alguma dose de originalidade, ainda que, a não ser pela “novidade”, tais objetos não apresentassem, muitas vezes, nenhuma característica que os agrupassem num movimento organizado. O único ponto incontestavelmente comum entre todos os modernistas, de acordo com Gay (2009:18), era acreditarem que, muito superior ao conhecido é o desconhecido, melhor do que o comum é o raro e que o experimental é mais atraente que o rotineiro.. A despeito de todas as diferenças visíveis, os modernistas de todas as cores compartilhavam dois atributos fundamentais (...): primeiro, o fascínio pela heresia, que impulsionava suas ações a confrontar as sensibilidades convencionais; segundo, o compromisso com um exame cerrado de si mesmos por princípio. (GAY, 2009:19-20). Como já abordado em outro momento, o jornalismo dos anos 60, assim como o modernismo, também era fascinado pelo novo, por ir além dos moldes e formatações padrões. E não só o New Journalism. Por toda a história contemporânea nos deparamos com alternativas ao fazer jornalístico convencional, que rogaram para si o direito à “rebeldia criativa”, ao rompimento com o padrão estabelecido. A revista Brasileiros corrobora esse entendimento. Não é radicalmente diferente, nem se propõe a rupturas.
(28) 28 declaradas com padrões estabelecidos pelo mercado, mas apresenta uma outra maneira de conceber o jornalismo, especialmente em sua esfera estética, não se prendendo a lead, pirâmide invertida, ou textos enxutos. Ao invés disso, usa a prerrogativa do relato humanizado, da grande reportagem e da liberdade estética na composição de suas narrativas. Uma heresia moderada. O foco é diluído entre mercado, ética profissional, liberdade autoral e interesse público. Mas voltemos à literatura que, dentre todas as manifestações culturais do modernismo, foi uma das que mais rápido chegou à apreciação em larga escala. Nas artes plásticas, por exemplo, a maior parte das pessoas não detinha recursos suficientes para adquirir uma obra de arte, tampouco possuíam espaço para pendurar quadros em suas casas. A apreciação do que muitos julgavam ser o desregramento da literatura moderna, todavia, era acessível, ou vendável, a um público muito maior. O rompimento estético modernista com o romance convencional atraia para si os mais diferentes olhares. A figura do autor, até então escondida na trama romântica, passava no modernismo a chamar a atenção para si e para suas habilidades narrativas. Ele se apresentava no texto não só como o narrador participante, mas como autor autoreflexivo. Gay comenta que para os modernistas, o auto-exame, ou o exame de seus temas, se tornou essencial para os empreendimentos pouco ortodoxos a que estavam se dedicando (2009:21).. Os autores de prosa convencional não chamavam especial atenção para suas técnicas, algo que os romancistas anti-sistema faziam. Pareciam mágicos cujas maravilhosas pirotecnias não permitiam que o público esquecesse sua presença no palco. Não que os apreciadores de um autor modernista como, digamos, Robert Musil, ou Italo Svevo, nunca se sentissem envolvidos na narrativa. Envolviam-se, mas permaneciam sempre parcialmente alertas a alguma prestidigitação inventando novos truques. (GAY, 2009:183). O romance tradicional de boa parte do século XIX girava em torno de algumas estruturas comuns. Já era esperado que os personagens enfrentassem complicações interessantes ao longo da trama, que o texto nutrisse um nível adequado de suspense, dependendo do tamanho da obra, e que existissem variadas possibilidades para o desfecho narrativo, contanto que as tensões, ao final, fossem solucionadas. Gay analisa que esse desfecho deveria ser claro e inequívoco, com cada sobrevivente em seu lugar, isto fazia parte do acordo tácito entre leitores e autores. No final do século XIX, os modernistas, insatisfeitos com as gratificações do realismo dominante na literatura, romperam com as estruturas narrativas padronizadas.
(29) 29 invertendo dramaticamente a distribuição habitual do espaço, dedicando longas passagens a um só gesto, ou descartando um protagonista em menos de uma frase. “Em suma, a literatura modernista corroeu os critérios aceitos para a avaliação literária – a coerência, a cronologia, o fechamento, para não citar a reticência – e passou a se dedicar intensamente à introspecção. Os espelhos refletiam, sobretudo, o autor” (GAY, 2009:185). Para situar o objeto analisado em um contexto de transformações paradigmáticas, no tempo que se sugere chamar de pós-modernidade, é necessário olhar com atenção o desenvolvimento da prática jornalística, especialmente a partir do século XIX. Até meados do século XIX, o jornalismo viveu o período conhecido como sua “fase artesanal”. Os jornais não visavam diretamente o lucro, sua vocação primeira era política, ideológica, combativa e sua “missão” era a de conscientizar a população a respeito dos temas de interesse público. A estética do jornalismo dessa época, a forma como eram apresentados os textos, guiava-se por diretrizes éticas. A prioridade da mediação informativa não recaia sobre a forma de apresentação das matérias, antes, recaia sobre a função político-social daquilo que era mediado. O jornalista era um formador de opinião: formulava sua opinião e a transmitia ao povo com a função de fiscalizar o governo em nome da sociedade. Um papel muito próximo ao do político e que, em muitas ocasiões, com ele se entrelaçava. As folhas (como eram conhecidos os jornais) defendiam bandeiras políticas, não tinham fins lucrativos e eram impressas em pequenas gráficas (PEREIRA em MARQUES DE MELO, 2005:97). Vista por uma ótica econômica, a fase artesanal começou a se modificar já no final do século XIX, quando surgiram as primeiras empresas jornalísticas que passaram a lucrar com publicidade, inovando-se graficamente com a formatação de um jornalismo mais atrativo, vendável, “o modelo norte-americano passa a predominar” (PEREIRA em MARQUES DE MELO, 2005:97). Nesta fase, que passou a ser conhecida como “industrial”, a estética, como modo de apresentação das notícias, passou a ser orientada por diretrizes técnicas (cosméticas), visando ao mercado, à venda massiva das notícias como um produto comercializável. É possível perceber que a formatação estética dos textos, pela ótica industrial, propõe um jornalismo padronizado em que a figura do narrador, ou do contador das histórias sociais, se reduz a de um transmissor mecânico e neutro dos acontecimentos a que reporta. O que se valoriza são dados, informações.
(30) 30 objetivas em detrimento de elementos que possam conduzir o leitor a uma percepção sensorial, subjetiva, dos acontecimentos. De acordo com Itzhak Roeh, “o fenômeno mais impressionante no jornalismo ocidental, tanto na praxis como na teoria, é a fé metafísica obstinada e conservadora de que a linguagem é transparente. Ou, de outra forma: o erro assenta na recusa dos jornalistas, mas também dos estudantes de jornalismo, em situar a profissão onde esta pertence, isto é, no contexto da expressão humana da atividade expressiva. É a recusa de lidar com a escrita das notícias por aquilo que é na essência – contar ‘estórias’”. (ROEH 1989:161).
(31) 31. 4. Narrativa e Narratividade: Informação em forma de ‘estórias’ Ao refletir sobre as crises da pós-modernidade que compõem o cenário da prática jornalística contemporânea, nos deparamos com uma crise que atinge diretamente o jornalismo: a das metanarrativas. Ou, como destaca Marcondes, uma crise da própria narrativa como instrumento de organização das mediações sociais. O fim das metanarrativas tem algo a ver com a própria crise da narrativa. Filosofias, universos políticos, sistemas de pensamento sempre se construíram na forma de relato. Uma peça de teatro, uma aula universitária, uma pregação religiosa, uma notícia jornalística, um poema, todos esses modelos de discurso encerravam uma estória que alguém passava a outra(s) pessoa(s): ensinava-se. Havia uma moral implícita na narrativa, uma transmissão de mundos. Havia o prestígio da vivência e da experiência deste saber: o que se passava repercutia para a formação de novas consciências. Nesse processo, catequizava-se, manipulava-se, seduzia-se a partir de uma autoridade do contador. O que a era das novas tecnologias provoca é a aposentadoria dos velhos saber, do saber narrar e do prazer de ouvir. Desencadeia-se um movimento que redunda no desprestigio da autoridade do que narra e, de forma ampla, de qualquer autoridade, tanto de pessoas experientes quanto de “verdades”, que se deve respeitar a priori. (MARCONDES, 1993:86). Torna-se necessário situar o contexto em que esse conflito – se não surge – ganha força na mediação jornalística contemporânea. A questão primeira que inicia essa discussão, no contexto do jornalismo, é: “De que narrativa estamos falando?”. O caminho mais rápido, talvez o mais simplista, para alcançar um conceito de narrativas é o etimológico. Nos dicionários, narrativa aparece como a exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, por meio de palavras. Outro caminho de compreensão que, apesar de simples, carrega a essência da reflexão que queremos desenvolver nesse trabalho é encarar a narrativa como uma forma de contar “estórias”. Estória, com “E”, não é um verbete usado formalmente, a maior parte das citações creditam a João Ribeiro (membro da Academia Brasileira de Letras) a alcunha do neologismo quando se referia à narrativa popular, ao conto tradicional. A história com “h” é o modo legitimado de se grafar a palavra, no entanto, o registro do termo de João Ribeiro é válido para lembrarmo-nos de sua significação popularesca, de seu sentido mais primitivo, como na.
(32) 32 imagem de um avô que reúne seus netos em torno de uma cadeira de balanço para contar-lhes causos engraçados, tristes, aterrorizantes, etc. Essa narrativa, seja com “e” ou com “h”, remete, então, a um processo de organizar um acontecimento e “contá-lo” de tal maneira que ao que ouve, um novo sentido ganhe significado. No jornalismo, especialmente o ocidental, Itzhak Roeh identifica uma recusa dos profissionais em considerar o fato de que lidam diariamente com ‘estórias’ sociais e não somente a padronização formalista das notícias. “O fenômeno mais impressionante no jornalismo ocidental, tanto na práxis como na teoria, é a fé metafísica obstinada e conservadora de que a linguagem é transparente. Ou, de outra forma: o erro assenta na recusa dos jornalistas, mas também dos estuantes de jornalismo, em situa a profissão onde esta pertence, isto é, no contexto de expressão humana de atividade expressiva. É a recusa de lidar com a escrita das notícias por aquilo que é na essência – contar ‘estórias’” (ROEH, 1989:161). Culler constata que há um impulso humano básico de ouvir e contar histórias. Desde a mais tenra idade as crianças desenvolvem, segundo ele, uma competência narrativa básica, “exigindo histórias, elas sabem se você está tentando enganá-las, parando antes de chegar ao final” (CULLER, 1999:85). Ainda tomando como base o exemplo das crianças, Culler propõe uma questão: “O que sabemos sobre a configuração básica das histórias que nos permite distinguir entre uma história que acaba ‘adequadamente’ e uma que não o faz, em que as coisas são deixadas penduradas?” (CULLER, 1999:85). A maneira coloquial e profunda com que o autor faz o questionamento sugere que a organização do mundo feita de forma abstrata, e individualmente inata, é emoldurada por construções narrativas. A competência narrativa não se restringe a uma formulação textual estética, ou uma mera organização de acontecimentos encadeados, mas a toda uma maneira de compreensão do mundo em que vivemos, seja em padrões objetivos ou subjetivos. Se entendermos que a concepção de narratividade é passível de ser incorporada ao discurso jornalístico, é válido destacar três das funcionalidades da comunicação narrativa apontadas por Culler. A) as narrativas dão prazer através da imitação da vida e de seu ritmo, “o movimento da própria narrativa é impulsionado pelo desejo na forma de ’epistemofilia‘, um desejo de saber: queremos descobrir os segredos, saber o final, encontrar a verdade”; B) as narrativas têm a função de ensinar sobre o mundo, “nos mostrando como ele funciona, nos possibilitando – através dos estratagemas da focalização – ver as coisas de outros pontos de vista e entender as motivações dos.
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