• Nenhum resultado encontrado

PARTE I: O Estudo da relação Parques x Equipamentos Sanitários

Capítulo 2 – Parques: uma Solução

2.1 Olmsted, o criador de parques

2.1.1 Central Park: Um parque para o povo de Nova Iorque

Na metade do século, XIX Nova Iorque já era a maior cidade dos Estados Unidos. Em 1800 possuía cerca de 70 mil habitantes, número este que em 1850 chegou a meio milhão de pessoas. Porém, a cidade não possuía um grande parque que atendesse a essa população. Em contraste ao que se via na Europa, onde se espalhavam parques influenciados pelo movimento em prol destes do início dos 1800s, os Estados Unidos ainda não tinham um parque de grande porte. (SLAVICEK, 2009, p. 11)

No plano para o Central Park, escrito em 1858 e reimpresso em 1868, Olmsted e Vaux destacam o acelerado crescimento da cidade, que não conseguia ser acompanhado pelo planejamento de obras públicas. Eles citam ainda dados do censo, que revelam que a taxa de crescimento de Nova Iorque era sempre muito superior à projetada anteriormente:

Até este momento, no planejamento de Obras Públicas para a cidade de Nova York, em nenhuma circunstância foi feita uma provisão adequada para o aumento da população e dos negócios; Nem mesmo no aqueduto de Croton, apesar de tão bem planejado. [...] A explicação desse cálculo aparentemente ruim é dada principalmente pelo fato de que, em cada censo desde aquele de 1860, a taxa de aumento da cidade apresentada foi superior à taxa prevista. (OLMSTED; VAUX, 1868, p. 7)10

Nessa época, a ilha de Manhattan tinha dezessete parques, todos pequenos e que totalizavam uma área de 165 acres (16.500 m²). Muitos deles não passavam de praças que atendiam apenas a sua vizinhança. E alguns desses lugares, como o Gramercy Park e o St.

John’s Park eram particulares. Para ter algum contato com a natureza, a população geral

visitava o Green-Wood Cemetery, no Brooklyn. E era comum ver as pessoas recreando entre as lápides e fazendo piqueniques sob a sombra dos mausoléus. (MARTIN, 2011, p. 107)

Em 1844, o poeta e editor William Cullen Bryant, grande admirador dos parques europeus, lançou uma campanha para convencer os outros nova-iorquinos de que eles precisavam de um parque próprio, pois a Nova Iorque superpopulosa carecia desesperadamente de alguns espaços para respirar. (SLAVICEK, 2009, p. 14)

Em 1848 o movimento pela criação de um grande parque na cidade ganhou outro defensor importante, o arquiteto paisagista Andrew Jackson Downing. Ele chamou a

10 Tradução livre. Texto original: Up to this time, in planning public Works for the city of New York, in no

instance has adequate allowance been made for its increasing population and business; not even in the Croton Aqueduct, otherwise so well considered. […] The explanation of this apparently bad calculation is mainly given with the fact that, at every census since that of 1860, the city’s rate of increase has been found to be overrunning the rate previously established.

atenção, em seus ensaios, para o fato de que Londres tinha o Hyde Park, Berlim tinha o

Volkspark Friedrichshain, Viena tinha o Prater, e Paris tinha o Jardin des Tuileries, e que

Nova Iorque precisava de um grande parque para alcançar suas aspirações de se tornar uma grande cidade a nível mundial. E criou uma provocação, questionando se Nova Iorque não seria rica o suficiente ou se não havia terra suficiente na América para dar um parque a seus cidadãos. (SLAVICEK, 2009, p. 15; MARTIN, 2011, p.107)

O movimento cresceu ao longo dos anos, mas o momento decisivo foi em 1851, quando o novo prefeito, Ambrose Kingsland, formalmente manifestou seu apoio ao projeto. O Committee on Land and Places (Comitê de Terras e Lugares) apoiou a iniciativa e foi iniciada a busca por um terreno para o parque. No mesmo ano é aprovado o Jones Wood Act, definindo a área da intervenção, o que levanta várias críticas ao terreno selecionado em Jones

Wood devido ao tamanho, considerado pequeno para a demanda da cidade, e pelo apelo por

um parque mais central que atendesse a maior parte dos residentes. Em agosto de 1851 uma equipe indicada pelo Commom Council (Conselho Municipal) avaliou o terreno como inviável, tendo em vista que seu tamanho não era proporcional a uma cidade tão grande e que a sua localização era inconveniente. (SLAVICEK, 2009, p. 21; HECKSCHER, 2008, p. 12)

Em junho de 1851, o Journal of Commerce, opositor dos parques em geral e ao terreno de Jone’s Wood em particular, publicou uma correspondência entre Nicholas Dean (presidente do Croton Aqueduct Board) e Alderman Henry Shaw exaltando as possíveis vantagens de integrar o novo parque com o reservatório da cidade, completado em 1842. No ano anterior ele já havia reportado a necessidade de aumento da capacidade do reservatório, recomendando a construção de outro reservatório menor próximo do primeiro. Ele então enalteceu a economia resultante da combinação dessas obras públicas com a criação do

Central Park. (HECKSCHER, 2008, p. 15)

Após as recomendações de Dean, a localização do parque foi determinada com o reservatório de água como base, assumindo um ponto central. Para Heckscher (2008, p. 16), a união entre o Croton Aqueduct11 e o parque era muito apropriada, considerando que ambos

eram as duas primeiras grandes obras públicas da cidade, possibilitadas por atos legislatórios e com desapropriação de propriedades privadas em prol do público. Em junho de 1853, o

Central Park Act determinou a delimitação do terreno que hoje corresponde ao Central Park.

11 O Croton Aqueduct (Aqueduto Croton) foi um grande e complexo sistema de distribuição de água construído

em Nova Iorque entre 1837 e 1842, que transportava água do rio Croton, em Westchester County para os reservatórios em Manhattan, onde a água era considerada poluída e inadequada para consumo.

Porém, as desapropriações necessárias para liberação do mesmo só foram concluídas no final de 1857. O próximo passo era determinar o desenho e uso do espaço.

Na Figura 9 estão mapeadas as duas opções, sendo possível comparar o terreno escolhido inicialmente (Jone’s Park) e o determinado posteriormente (Central Park), havendo já a indicação para o novo reservatório de água, ao lado do antigo.

Figura 9: Mapa com possíveis localizações para implantação do parque (Jone’s Park e Central Park)

Fonte: Heckscher (2008, p. 15)

Em junho de 1857, o engenheiro topográfo Egbert Ludovicus Viele), contratado para fazer o levantamento topográfico do terreno, apresentou um projeto para o parque que foi rejeitado pelo conselho. Porém, Viele foi mantido como engenheiro chefe. Foi criada a posição de superintendente, responsável pela força de trabalho no parque, e que se reportaria diretamente ao engenheiro chefe. Em setembro do mesmo ano essa vaga foi ocupada por Frederick Law Olmsted.

Figura 10: O plano de Viele para o Central Park (1856)

Fonte: Heckscher (2008, p. 18)

A escolha óbvia para o projeto era Downing, mas ele falecera num acidente alguns anos antes. Ainda em 1857 foi anunciada uma competição pública para o projeto do parque, que deveria contemplar também o novo reservatório de água. O projeto vencedor era de autoria de uma dupla inesperada: Calvert Vaux – um arquiteto experiente, que trabalhou junto com Downing e de onde partira a ideia do concurso – e Frederick Law Olmsted – escritor, superintendente de trabalho nas obras de preparo do terreno do Central Park e um fazendeiro que nunca havia projetado nada em sua vida. (SLAVICEK, 2009, p. 36)

Na Figura 11 é possível comparar a primeira proposta com o projeto final, que corresponde ao que foi executado. Durante a execução foram feitas diversas modificações e até ampliações do proposto inicialmente, entretanto é possível notar que o reservatório é um elemento que permanece inalterado desde os primeiros estudos.

Figura 11: Primeiro estudo do Central Park, 1858 (acima) e Mapa do Central Park, 1868 (abaixo)

Fonte: OLMSTED; VAUX, 1868, p.36

A primeira tarefa essencial a ser realizada era a drenagem do parque. Em agosto de 1857, Viele contratou o jovem George E. Waring Jr. (1833-1898) para trabalhar no sistema de drenagem. Para Biebighauser (2007), é difícil de acreditar que a área onde hoje fica o

Central Park era um grande pântano, chegando a ser reconhecida como uma ameaça à saúde

pública. A solução de Waring utilizava o método inglês, com um sistema de tubulação subterrânea que trabalharia por gravidade, no que seria considerado o maior projeto de drenagem do seu tempo.

O novo reservatório de água foi construído entre 1858 e 1862, substituindo o reservatório menor como receptor. Ele recebia a água do Croton Aqueduct, que de lá era distribuída para Manhattan. No plano para o Central Park já estava previsto que o novo reservatório ocuparia uma área considerável do parque, porém apesar do potencial cênico que a grande extensão de água oferecia, este se encontraria num nível muito alto para ser apreciado pelos outros caminhos, assim foi proposto um passeio circundando o reservatório apenas para essa finalidade.

Um fato interessante desde o início do percurso que levou à completude do parque é o papel central que o reservatório assumiu, influenciando desde a escolha do terreno até se tornar uma diretriz do projeto. A necessidade por um parque abraçou uma outra necessidade da cidade em crescimento, numa solução mais econômica e global.

Figura 12: Tubulações de abastecimento do novo reservatório do Central Park

Fonte: <http://www.greatbuildings.com/>. Acesso: 10/05/2017 Figura 13: Vista do novo reservatório do Central Park, 1931

Um fator muito considerado por seus autores foi a necessidade de uma circulação eficiente e que tornasse o parque o mais acessível possível para a população. Foram estabelecidos dezoito acessos, evidenciando a intenção de criar uma maior integração com a cidade. Os nomes dos portões objetivavam estreitar as relações entre o parque e a comunidade, representando a diversidade de pessoas que seriam atendidas por ele. Por exemplo: Portão do Artesão, Portão do Mineiro, Portão do Estudante, etc.

Com a grande expectativa e impaciência do público, partes do parque foram sendo abertas à medida em que ficavam prontas. O lago ficou pronto para patinação bem a tempo do inverno de 1858-1859. Em 1859, uma grande extensão de vias já podia ser percorrida por carruagens. O parque continuou sendo construído e se expandindo até chegar ao que é atualmente, em 1873 (Figura 14).

Apesar de totalmente fabricado pelo homem, pode-se afirmar que o Central Park reproduz com êxito uma paisagem natural, oferecendo à população o espaço livre, salubre e agradável tão reivindicado. Embora situado numa área central e de fácil acesso, sua dimensão permite que o usuário esqueça temporariamente que se encontra dentro de uma cidade barulhenta, de ritmo acelerado e poluída pelas indústrias e experimente a tranquilidade bucólica do campo.

Figura 14: Planta do Central Park, 1860