IMPORTÂNCIA DO INTERCÂMBIO ENTRE SUPERVISORES E SUPERVISIONADOS
Alexandra Almeida de Oliveira Luiz Maurício Rios
“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão”.
Guimarães Rosa
Palavras Iniciais
O Centro de Línguas da Faculdade de Letras da Uni-versidade Federal de Goiás (CL/UFG) consistiu no pri-meiro “emprego” de muitos que por ali passaram, como atestam os depoimentos de egressos no Relatório de gestão 2006-2010. Com efeito, esse projeto de extensão da Faculdade de Letras (FL), criado em 1995 como “uma
iniciativa louvável no combate ao monolinguismo que prevalece no país” (SILVA, 2012, p. 160), contribuiu e continua contribuindo para a formação e qualificação de inúmeros discentes de línguas estrangeiras da FL.
Seu papel de lócus privilegiado de formação docente se deve, sobretudo, ao acompanhamento, constante e pró-ximo, que os discentes em situação de indução profis-sional1 recebem de seus orientadores. Ao ingressar no corpo docente do CL/UFG, a cada estagiário é atribuído um par mais experiente para lhe assistir em sua cami-nhada inicial nessa profissão tão complexa, mas ao mes-mo tempo tão prazerosa e gratificante, que é o ensino.
Na função de supervisores, nosso trabalho é árduo, mas recompensador e rico em aprendizados. O contato com os estagiários nos revigora, nos motiva a aprender mais e a nos atualizarmos regularmente. Aprendemos bastante com as experiências pelas quais eles passam e com as reflexões formuladas em cada encontro de supervisão. Como bem lembra Valdirene Gomes (2010, p. 07), “o trabalho de supervisão exige habilidade para orientar sem moldar, acompanhar sem tolher a liberda-de ou mudar o estilo liberda-de quem está sendo orientado”, ou seja, exercitamos continuamente nossos sensos de alte-ridade e de acolhida.
Por estarmos, nesse contexto, em uma posição hie-rarquicamente superior, temos de nos atentar para não impor nosso conjunto de valores, nosso estilo
pedagógi-co aos neófitos. Contudo, por outro lado, não podemos deixar de corrigir, de rever os rumos do percurso, de admoestar, dentre outros. Orientar requer de nós uma postura equilibrada, dialógica e de abertura para que possamos contribuir com a aquisição de autoconfiança por parte dos debutantes na carreira.
Sabemos que os primeiros passos sempre são os mais difíceis devido à insegurança que acompanha os aprendizes ao iniciá-los. Nesse sentido, constitui-se um apanágio acalentador a assessoria de um profissional mais experiente em suas trajetórias pedagógicas. Do-nald Schön (1992) e António Nóvoa (2000) preconizam que a formação docente deve se pautar pela prática, entretanto não por qualquer uma, mas por uma prática reflexiva, na qual não haja espaço apenas para a repro-dução de um modelo pedagógico, e sim de tomadas de decisão meticulosamente refletidas (antes, durante e depois da ação). Esses estudiosos defendem, além disso, que a formação inicial dos professores seja assessorada por profissionais veteranos.
Isabel Alarcão (2003), por sua vez, não confere im-portância ao professor reflexivo somente, mas ela es-tende a pertinência dessa postura a todo o ambiente escolar, ou seja, para que professores reflexivos possam ter condições de atuar com criticidade e reflexividade é recomendável trabalhar em um espaço que lhe propicie condições para tal, pois apenas em um espaço apro-priado à análise, as boas práticas de reflexão podem ser
construídas. Nessa perspectiva, ela (ibid., p. 51) elenca várias atividades que permeiam o cotidiano desse tipo de profissional, dentre elas destacamos: a pesquisa ação, análise de casos, as narrativas, os grupos de discussão ou círculos de estudo, a auto-observação e a supervisão colaborativa. Valdirene Gomes (2010), ex-coordenadora do Centro de Línguas da UFG, enfatiza o trabalho primo-roso que essa instituição de ensino de línguas estran-geiras vem promovendo ao longo dos anos com o fito de aperfeiçoar a prática pedagógica. Segundo Gomes (2010), todas as atividades de pesquisas acima arrola-das são desenvolviarrola-das no seio do CL/UFG.
Neste trabalho, nos circunscreveremos à supervisão colaborativa. Neste relato, daremos voz a alguns dos esta-giários ou ex-estaesta-giários que, no decurso desses 25 anos, nos ajudaram a construir e a consolidar a boa reputação do CL. Em seus depoimentos, eles salientam a relevância da supervisão colaborativa ao longo de suas induções profissionais, refletindo, assim, a importância de suas passagens por esse centro de formação de excelência.
Supervisão colaborativa: uma via de mão dupla Atuamos como supervisores no CL/UFG há mais de quinze anos. E nesse longo caminho, ajudamos a formar vários profissionais que hoje se encontram bem posi-cionados no mercado de trabalho. Ao longo dessa tra-jetória, objetivamos, cotidianamente, ser um referencial
dade. Sabemos do compromisso e da seriedade que esse cargo exige.
Na supervisão, temos uma série de atividades: defini-ção do cronograma semestral, reuniões semanais a fim de, conjuntamente, pensarmos acerca de suas aulas re-cém ministradas e das futuras; observações de algumas das aulas sob a responsabilidade de nossos orientandos, para, posteriormente, refletirmos sobre elas, apreciação das atividades avaliativas confeccionadas por eles. E, ao final do semestre, temos de avaliar o desempenho de cada um.
Isabel Alarcão (2003, p. 66), refletindo acerca do pa-pel do supervisor, interroga: “Como é que o supervisor pedagógico pode ajudar a construir o conhecimento pe-dagógico?”. Ela apresenta como resposta:
Em primeiro lugar, pela sua presença e actuação, pelo diálogo propiciador da compreensão dos fenómenos educati-vos e das potencialidades dos profes-sores, pela monitorização avaliativa de situações e desempenhos. Ou, dito de outra forma: pelo que é e pelo que faz, pelo que sabe (ibid., p. 66).
Ou seja, o supervisor, a fim de estar apto a assessorar a práxis docente de outro, deve ele mesmo sempre estar colocando a sua própria em xeque. A reflexão tem de ser uma constante em seu percurso docente, bem como a sua atualização por meio de leituras da teoria pertinen-te, de participação em eventos acadêmicos e somando
a isso sendo ele próprio investigador de sua própria prática. Seu espírito crítico deve ser incessantemente aguçado, afinal a criticidade é desenvolvida e, nessa condição, ela carece de ser sempre estimulada. Alarcão (ibid., p. 32) nos indica como alcançar a criticidade: “O desenvolvimento do espírito crítico faz-se no diálogo, no confronto de ideias e de práticas, na capacidade de se ouvir o outro, mas também de se ouvir a si próprio e de se autocriticar”. Nesse sentido, todos os implicados nes-sa dinâmica dispõem de um papel ativo, não cabendo ao supervisor meramente transmitir instruções. Trata-se de uma construção conjunta.
A práxis reflexiva não pode vir desacompanhada da teoria, sem a qual ela concorre para tornar os alunos em tecnocratas. A teoria é imprescindível em todos os momentos da formação, tendo em vista que esta dura a vida inteira, como fica evidente na epígrafe deste texto, extraído de Grande Sertões: Veredas, de Guimarães Rosa.
“Para intervir, é preciso compreender” (ALARCÃO, 2003, p. 15). E a compreensão de um assunto tão complexo demanda reflexão, leitura e questionamentos de teorias.
Afinal, na supervisão conhecimentos são produzidos.
Afastar a teoria dos momentos formativos implica em taxar o ofício docente de técnico e em não reconhecer sua dimensão intelectual (PIMENTA; LIMA, 2005/2006, p. 8). Em decorrência disso, a teoria sempre perpassa as nossas reuniões, sendo evocadas pelos orientadores ou
Propor novos rumos para a dinâmica da supervisão também consiste em função de um supervisor não aco-modado. Nos últimos semestres em que temos atuado no CL, preferimos as orientações coletivas às individuais, pois acreditamos que a entreajuda pode e deve partir também dos colegas. Essa prática revelou-se acertada haja vista a participação engajada dos estagiários com o fito de contribuir com os camaradas. Esse novo for-mato de encontro mudou a dinâmica de orientação, pois agora não éramos apenas os supervisores a tecerem ob-servações das propostas dos orientados. Essa interação despertou nos alunos um senso de cuidar um do outro, eles passaram a se sentir importantes na formação do colega, o que fortaleceu o sentimento de solidariedade entre eles.
Ademais, essa nova configuração resultou em uma multiplicidade de vozes contribuindo na formação dos orientandos e tínhamos sessões dedicadas aos relatos de experiências e de quais decisões foram tomadas e com as razões para a sua adoção. Em seguida, ponderá-vamos sobre essas ações e como os integrantes do grupo agiriam se estivessem no lugar de determinado colega.
Depoimentos2
Fernanda Guimarães, licenciada em francês, mestra em Letras e Linguística pelo Programa de
Pós-Gradua-2 Todos os depoimentos nos foram encaminhados pelos egressos ou estagiários via e-mail ou WhatsApp.
ção em Letras e Linguística da UFG (PPGLL/UFG). Atual-mente, atua como professora de FLE, em Brasília, no Cooplem Idiomas e na Cultura Francesa Asa Norte. Além de ter sido aprovada recentemente para lecionar no UnB idiomas. Antes de se mudar para Brasília, trabalhou na PUC idiomas e na Escola Internacional de Goiânia como docente e foi coordenadora pedagógica da Aliança Fran-cesa da capital goiana. Em seu depoimento, Fernanda esclarece o quanto foi benéfica para seu desenvolvimen-to profissional a supervisão colaborativa:
o relacionamento entre um menos periente e um mais experiente foi ex-tremamente rico para a construção do meu perfil de professora e para todas as outras experiências no mercado de tra-balho que eu viria a ter. A oportunidade oferecida pelo CL/UFG é primordial para o enfrentamento da realidade do mercado de trabalho para um profis-sional de Letras: Francês. [...] No decor-rer dos anos descobri que a prática de orientação, feedback, dialógica e con-trastiva são primordiais para o exercício da docência e felizmente, no meu caso, foram adquiridos em uma tutoria de excelência. [...] Essa contribuição não to-cou apenas meu perfil docente ou meus alunos, mas minha postura diante da sociedade e minha compreensão sobre o
meu conhecimento e minha profissão, eu valorizo os centros de educação pú-blica e sinto saudades de tudo o que vivi naqueles anos.
Lorena Martins Guimarães Alvez, licenciada em Le-tras: Francês e professora contratada pelo Centro de Línguas. Ela permanece nos quadros do CL/UFG, mas como contratada. Ela finalizou a graduação em 2018.
Em seu ponto de vista:
A supervisão é um dos pilares da minha formação, a qual me ensinou a estar aberta para sempre aprender e trocar experiências enriquecedoras e incríveis.
Quando comecei a ser supervisionada percebi o quanto eu tinha a aprender.
[...] Nossas reuniões eram sempre muito interessantes e eu sempre compartilha-va o desenvolvimento das atividades em sala de aula e os resultados. Sempre muito atenciosa e motivadora, a super-visora me ensinou a ver o aprendizado da língua francesa de outra maneira.
Me ajudou a explorar outros caminhos, onde eu encontrei um retorno mais leve e cheio de descobertas culturais e linguísticas. A supervisão me trouxe se-gurança em sala de aula.
Em sua fala, percebe-se a importância da supervisão colaborativa para proporcionar segurança aos estagiá-rios. Por já ter passado pelo processo de indução
pro-fissional, a docente dispõe de uma orientação menos in-tensa. Mesmo assim sabe que sempre pode contar com seu professor-orientador para qualquer situação de que precise. Lorena contribui, igualmente, com a formação de seus colegas, dando-lhes dicas e preciosas orienta-ções a partir de sua experiência.
Ana Luíza Dias Veloso Rocha ingressou no CL/UFG em 2018. Como ainda não concluiu o curso, continua exercendo o papel de estagiária. Não obstante, divide seu tempo profissional entre nossa instituição e a Alian-ça Francesa de Goiânia. Em sua apreciação:
No CL/UFG, compreendi que o aprendi-zado de uma língua é saber constituir-se como ser ativo e atuante em uma dife-rente língua e linguagem. Percebi que ser docente está muito além da antiga ideia de “transmissão de conhecimen-to” que ainda predomina, infelizmente, em nosso país. Ser docente é incutir a curiosidade e a reflexão em nossos alu-nos e intermediar o contato com uma realidade que ainda não foi por eles des-bravada: refleti que ser professora é ser mediadora, e não ditadora de axiomas.
Acredito, por fim, que o CL/UFG foi e é responsável pela constante reflexão que faço quanto à minha atuação docente, graças às supervisões que recebo de meus professores e das trocas que faço
dem à cada dia, as singularidades da profissão de docente.
Ana Luíza traz em seu depoimento vários elementos importantes para discussão. Em primeiro lugar, ela enfa-tiza o papel ativo de todos os agentes concernidos. Nessa linha, ela concebe o professor como um intermediador de conhecimentos e não transmissor, em consonância com o que pregamos no CL/UFG e nas licenciaturas da FL. Ela menciona, igualmente, a importância das trocas com os colegas de trabalho.
Os estagiários se referem, ainda, à importância que o curso de preparação para ministrar no CL tiveram em suas vidas profissionais. Tal curso compõe-se de dez módulos de 4h cada, oferecido por docentes de LE da Faculdade de Letras. Por duas vezes, compusemos a equipe que atuou nessas oficinas, com o tema sobre planejamento de curso e de aulas. Sobre esses cursos, traremos a opinião de Ana Luíza:
Em 2018, ao ser aprovada pelo processo seletivo da instituição, minha formação já começou a ser transformada por meio do Curso de Formação fornecido pelo Centro de Línguas: neste momento, a ideia que parece impregnar a maioria das mentes de pessoas que tiveram uma educação tradicional no Brasil, qual seja: aprender a gramática, começou a ser dispersada do meu cérebro.
Vitória Almeida Sá considera, igualmente, a passagem pelo CL/UFG como essencial na sua formação pedagógi-ca. Desde o primeiro ano de sua graduação, ela já estava inserida em ambiente formativo em docência de língua francesa no âmbito do Programa institucional de bolsas de iniciação à docência (PIBID), coordenado pelos autores deste relato. Atualmente, ela está assistindo a professora de língua portuguesa, na França, por meio do Programa de Assistência da embaixada francesa. Vitória, em conso-nância com as demais estagiárias, aponta a assessoria dos professores mais experientes como uma das ferramentas relevantes fornecida pelo CL/UFG. Sua experiência den-tro do Pibid se restringia ao público infanto-juvenil. Já no CL/UFG, ela vivenciaria um outro contexto de ensino, o que lhe demandaria estratégias diversificadas. Em sua visão, essa adaptação ao novo ambiente lhe foi facilitada graças ao acompanhamento de sua professora-orienta-dora, como constatamos em sua fala:
Ser supervisionado por professores da FL é muito importante para nós, estagiá-rios. O papel do professor supervisor é de nos orientar e de nos ajudar a traba-lhar as ideias dos cursos que temos. Eu tinha ideias para os cursos, mas às ve-zes eu não sabia como implementá-las.
Assim, minha professora-orientadora me ajudava a encontrar uma maneira de colocá-las em prática. Além disso,
relatórios sobre os cursos frequentados, planos de curso e suas opiniões, se ne-cessário. Consequentemente, eu sempre recebia comentários que me ajudavam a melhorar meus cursos, minha didática, bem como minha visão sobre a sala de aula. Essa vivência me abriu um mundo de possibilidades. Estou certa de que minha experiência no Centro de Línguas foi realmente importante para todos os sucessos profissionais que tive3,4.
O estudante William Andrade de Magalhães licen-ciou-se em 2020 em Letras: Espanhol e retornou à FL/
UFG para finalizar sua graduação em Letras: Francês que havia sido interrompida. Ele ingressou no CL/UFG como estagiário de espanhol por ser seu idioma na gra-duação, mas seu elevado nível linguístico de francês, adquirido autonomamente, lhe permitiu, igualmente, ministrar aulas de língua francesa. Após ter tido êxito
3 Todas as traduções são de nossa responsabilidade/autoria.
4 Lê-se no original: « Être surveillé.e.s par les professeurs de la FL est très important pour nous, les stagiaires. Le rôle du professeur sur-veillant est de nous guider et de nous aider à travailler les idées des cours que nous avons. J’avais des idées pour les cours, mais parfois je ne savais pas comment les réaliser. Ainsi, ma professeure référente m’aidait à trouver un moyen de les faire. De plus, elle était toujours là pour donner des rapports sur les cours assistés, sur les plans de cours et des avis, si c’était nécessaire. Du coup, je recevais toujours des su-ggestions et des observations qui m’aidaient à améliorer mes cours, ma didactique et aussi mon regard vers la classe. Cette expérience m’a ouvert un monde de possibilités. Je suis sûre que mon expérience au Centre de Langue a été vraiment importante pour toutes les réussites professionnelles que j’ai eues ».
na seleção, ele permaneceu cinco semestres em nosso quadro docente.
Com o tempo e através do contacto com os estudantes, comecei a mudar a minha compreensão do que eram o ensino e aprendizagem de uma língua estrangei-ra e como ter uma boa relação com os alunos era essencial para o bom funcio-namento das aulas e do semestre. Perce-bi que não devia ser demasiado exigente com os alunos e com a forma como se expressavam em francês, que bastava que o seu discurso fosse compreensível e correto tanto quanto possível.
O estágio no CL me permitiu, igual-mente, compreender que eu estava insatisfeito com os métodos franceses disponíveis no mercado e que eu tinha de preparar os meus próprios materiais e, consequentemente, ser um pouco crítico e pesar o que me ofereciam e o que eu realmente queria fazer. A este respeito, os meus supervisores sempre compreenderam a minha necessidade de testar outros métodos e abordagens na aula.
Estou convencido de que é forjando que nos tornamos ferreiros: tornamo-nos professores na e através da prática. As teorias que estudamos durante a
licen-ciamos com a prática em sala de aula e a reflexão sobre essa prática. Neste senti-do, os dois anos e meio que passei no CL foram capitais para a minha formação5.
William, durante seu estágio, aproveitou a liberdade concedida pelo CL/UFG para fazer um laboratório de seus materiais. Ele acreditava que o material didático existente concernente ao ensino no idioma em tela não atendia a sua necessidade nem as de suas turmas, por-tanto não hesitou em preparar seus próprios materiais para sanar essa necessidade. Essa sua escolha, respal-dada por seus supervisores, afigura-se como extrema-mente relevante para o trabalho docente. Dificilextrema-mente, um professor se satisfaz totalmente com os materiais
5 Lê-se no original: « Au fil du temps et au contact des élèves, j’ai com-mencé à changer ma compréhension de ce qu’étaient l’enseignement et l’apprentissage d’une langue étrangère et comment avoir une bon-ne relation avec ses apprenant.e.s était essentiel au bon déroulement des séances de cours et du semestre. Je me suis donc aperçu qu’il ne fallait pas être trop exigeant à l’égard des apprenant.e.s et de la façon dont il/elles s’exprimaient en français, qu’il suffisait que leur parole soit compréhensible et correcte dans la mesure du possible. Le stage au CL m’a également permis de comprendre qu’à longueur de temps j’étais insatisfait de ce que proposaient les méthodes de français disponibles sur le marché et qu’il me fallait préparer mes propres matériels et, conséquemment, être un peu critique et soupeser ce que l’on me proposait et ce que je voulais vraiment faire. À cet égard, mes supérviseur.e.s ont toujours su comprendre mon besoin de tester d’autres méthodes et approches en classe. Partant, je suis persuadé que c’est en forgeant que l’on devient forgeron : on devient professeur dans et par la pratique. Les théories que l’on étudie pendant la licence sont bien évidemment importantes, mais elles n’acquièrent de sens que lorsqu’elles s’associent à la pratique de classe et à la réflexion sur cette pratique. En ce sens, les deux ans et demi passés au CL ont été capitaux pour ma formation ».
elaborados por outros, daí a imposição de, ao longo de sua trajetória profissional, criar atividades e sequências pedagógicas que convirão perfeitamente para dado gru-po daquele professor. Afora isso, produzir seu próprio material favorece a reflexão e a autonomia docente. Para conceber seus recursos de trabalho é necessária muita reflexão acerca das necessidades e de como saná-las.
Outro ponto crucial levantado por William reside na inter-relação entre prática e teoria. Donald Schön (1992) e António Nóvoa (2000) sustentam que o docen-te se forma na prática, desde que essa prática repouse na reflexão, e, por sua vez, se relacione com a teoria.
Esses consistem nos elementos essenciais da formação docente. Eles interagem entre si, se retroalimentando.
Iury Aragonez da Silva e Samuel Caetano Rufino ingres-saram na FL por meio de um convênio celebrado entre essa faculdade e a Faculdade de Ciências Sociais. Ambos são egressos da primeira turma de Relações Internacio-nais da UFG. Enquanto cursavam esse curso, aproveitaram a oportunidade firmada pelo acordo e estudaram francês em nossas turmas de graduação. Após a formatura, rein-gressaram na UFG, dessa feita, para se licenciarem em Letras: Inglês e Letras: Francês, respectivamente. Com a proficiência linguística em francês alcançada ao longo de suas formações, puderam estagiar no CL/UFG.
Iury, embora discorde parcialmente do CL/UFG no tangente à avaliação, reconhece o valor de sua
partici-O estágio no CL/UFG apresentou-me desafios que considero fundamentais para a formação docente, tais como a elaboração de materiais e o desenvol-vimento de formas de avaliação. Apesar de ter um livro didático como material de apoio, pude preparar/didatizar materiais de acordo com os objetivos pedagógicos que tinha em mente para os conteúdos propostos em cada nível.
Nesse sentido, pude trabalhar textos literários e jornalísticos, filmes, jogos e canções. A partir desses recursos, pude abordar discussões de temas críticos como racismo, migração, etno-centrismo, consumo responsável, entre outros. No que concerne à avaliação, pude negociar com os/as estudantes os componentes que integrariam as suas médias. Ressalto aqui, no entanto, a exi-gência da instituição para a aplicação de provas orais e escritas a cada bimestre, fator com o qual, particularmente, não estou de acordo. Por outro lado, pontuo que a elaboração de provas foi uma das habilidades que desenvolvi enquanto docente no CL/UFG. Além disso, pude estabelecer os critérios de avaliação que julgo pertinentes. Todas essas ativida-des docentes foram realizadas com a su-pervisão de professores/as do curso de graduação em Letras: Francês da FL, o que é um grande diferencial do CL/UFG.