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3. O COLÉGIO PEDRO II: HISTÓRIA E MEMÓRIA

3.3 O CENTRO DE MEMÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – CEDOM

Nesta seção procuramos conhecer como surgiu a ideia de se criar um centro de memória no Colégio Pedro II. Além dos documentos levantados, foram realizadas entrevistas com membros da equipe do NUDOM (ver roteiro no anexo APÊNDICE A). Essa opção deu- se porque o NUDOM foi a primeira unidade criada com o propósito de preservar e organizar a documentação sobre a história do Colégio. Concederam entrevistas todos os membros da equipe, incluindo a diretora do NUDOM, sendo os mesmos identificados pelo codinome “entrevistado”, de modo a garantir o sigilo e o anonimato de suas falas.

A ideia de resgate e preservação da memória do Colégio Pedro II surgiu em 1987, quando o então diretor-geral, professor Tito Urbano da Silveira, incumbiu o professor emérito Roberto Bandeira Accioli de formar uma comissão para planejar os eventos comemorativos do aniversário de 150 anos de criação do Colégio.

Nos anos subsequentes, seguindo o ideal de reconhecimento da importância da memória do Colégio Pedro II, o diretor-geral, professor Antônio José Chediak, instituiu a Comissão de Atualização da Memória Histórica, criada pela portaria nº 600, de 1 de outubro de 1990, com o objetivo de elaborar o “Projeto de Atualização da Memória Histórica do Colégio Pedro II”. Além do professor emérito Roberto Bandeira Accioli, integraram a Comissão os professores Aloysio Jorge do Rio Barbosa, António Nunes Malveira, Gastão Nogueira Gorrese, Marílio Pires Domingues, Noemi Pacheco Dias Gonçalves e o museólogo Alfonso Bensabat Pinto Vieira (DORIA, 1997).

O trabalho de pesquisa realizado pela Comissão fundamentou-se na obra “Memória Histórica do Colégio de Pedro Segundo (1837-1937)”, de autoria do professor Luiz Gastão d’Escragnolle Doria, resultando em uma nova edição dessa obra, publicada em 1997, em parceria com o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos Anísio Teixeira (INEP) (NUDOM, 2010).

De acordo com as entrevistas cedidas pelos membros do NUDOM15 foi a partir do trabalho para reedição do livro comemorativo mencionado a que a Comissão de Memória

15 Ao longo da pesquisa ocorreram diversas entrevistas e conversas com os membros do NUDOM que foram

Histórica do Colégio Pedro II se estabeleceu em caráter permanente, passando por transformações ao longo do tempo, tanto em sua composição quanto nos seus objetivos, sendo atualmente composta pelas bibliotecárias Elizabeth Monteiro da Silva e Tatyana Marques de Macedo Cardoso, pelos professores Paulo Sérgio de Almeida Seabra e Vera Maria Ferreira Rodrigues, pelo museólogo Afonso Bensabat Pinto Vieira, pelo auxiliar de biblioteca Douglas Felipe de Andrade e tendo como presidente a professora Beatriz Boclin Marques dos Santos.

Ainda segundo os entrevistados, a Comissão de Memória (como é denominada atualmente) desenvolve projetos e atividades para a preservação da memória institucional, juntamente com a Biblioteca Histórica, o Museu Histórico, o Núcleo de Documentação e Memória e o Laboratório de Digitalização de Documentos Históricos.

Quando perguntados sobre a Comissão e suas atividades, recebemos as seguintes respostas:

A Comissão de Memória foi criada para dar continuidade à pesquisa iniciada pelo professor Escragnolle Dória sobre a Memória Histórica do Colégio Pedro II para a publicação do livro dos 100 primeiros anos da instituição. A Comissão não é ‘fixa’ ela se modifica de tempos em tempos conforme algum membro se aposenta, se exonera, falece ou pede para sair da Comissão, sendo que esse último caso não é comum. Os membros da Comissão costumam ficar até o fim da sua vida profissional no Colégio Pedro II. (ENTREVISTADO 1).

A Comissão tem sido mantida até os dias atuais pelos sucessivos reitores, com mudanças em sua composição e finalidade, sendo que dois de seus membros participaram de todas elas: o professor Antonio Nunes Malveira e o museólogo Afonso Bensabat Pinto Vieira. (ENTREVISTADO 2).

Ao falarem sobre as atividades da Comissão de Memória, os entrevistados colocaram igualmente em destaque, as experiências com as pesquisas para a publicação dos livros comemorativos do Colégio Pedro II, a saber: Memória Histórica do Colégio de Pedro Segundo: 1937-1987; reedição da obra de Escragnolle Doria, acrescida de índice onomástico, em 1997; Memória Histórica do Colégio Pedro II: 180 anos de história na educação do Brasil, 2018. Um dos entrevistados relatou:

Em 2012, a Reitora, professora Vera Maria Ferreira Rodrigues, solicitou à Comissão de Memória Histórica a elaboração de uma obra referente aos 175 anos do Colégio. Mas, por questões administrativas, não foi possível sua concretização, vindo a ser lançado em 2013, embora faltando muitas informações relevantes. Em 2017, o Oscar [Halac, Reitor] junto com a coordenadora do NUDOM e com a coordenadora do CEDOM, informaram que o Colégio dispunha de recursos orçamentários para publicar um livro comemorativo dos 180 anos do Colégio Pedro II e solicitou que o

escrevessem. O lançamento do livro está previsto para dezembro desse ano. 16 (ENTREVISTADO 1).

A ênfase nas publicações dos livros comemorativos leva-nos a crer que a exposição da história e memória oficial do Colégio Pedro II é o objetivo primeiro da Comissão de Memória. O orgulho com que os entrevistados falavam das publicações, bem como da omissão das demais atividades de que participam, demonstra a importância atribuída à identidade que se quer passar da instituição, em especial para o público externo: os pesquisadores que consultam os acervos do NUDOM. As publicações têm mais destaque que ações internas de cultura e ensino envolvendo a memória institucional, apesar destas também terem relevância para a manutenção da identidade do Colégio, em especial junto aos alunos.

Segundo Le Goff (2005, p.471), “a memória, a qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro”. Enquanto geradora da identidade, a memória participa de sua construção e, uma vez institucionalizada, realiza certas seleções acerca do que é memorável, dando forma às predisposições que conduzirão o indivíduo a incorporar alguns aspectos considerados relevantes de serem lembrados, os quais garantem a coesão do grupo.

Diante das falas dos entrevistados, pudemos compreender que se iniciou um movimento de resgate da memória administrativa e acadêmica da instituição, após a reedição do livro comemorativo dos 150 anos do Colégio. Esse movimento tinha como objetivo preservar e organizar as teses dos professores catedráticos do Colégio Pedro II, sendo elaborado um catálogo com essas publicações.

Posteriormente, mas ainda na mesma década, os entrevistados relataram que a Comissão reeditou importantes obras sobre o Colégio Pedro II como, por exemplo, o “Primeiro Anuário do Colégio Pedro II”, de autoria do professor catedrático Eugênio de Barros Raja Gabaglia17 e digitalizou, junto com o Laboratório de Digitalização do Acervo Histórico (LADAH), diversos documentos e obras raras que contam a história da instituição.

Sobre essa fase, é significativa a fala de outro membro da equipe do NUDOM, ao relatar que, na década de 1990, ocorreu no Brasil um

“boom” de criação de centros de memória e a preocupação em se resguardar e contar a história de tudo: lugares institucionais, principalmente. O Colégio

16 O livro “Memória Histórica do Colégio Pedro II: 180 anos de história na educação do Brasil”, foi lançado em

12 de dezembro de 2018, no Centro Cultural da Justiça Federal, situado no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

17 O professor catedrático Eugênio de Barros Raja Gabaglia lecionou Matemática no Colégio Pedro II e foi

Pedro II, tomado por essa onda e sempre preocupado em manter viva a sua história e tradição, criou diversos setores para que sua trajetória fosse eternizada. (ENTREVISTADO 2).

Na atual formação administrativa, os espaços destinados à guarda da memória do Colégio Pedro II são:

 A Biblioteca Histórica: existente desde 1838, está definida no capítulo XVI do Primeiro Regimento do Colégio Pedro II, de 31 de janeiro de 1838, que compreende os Estatutos da Instituição.

 O Museu Histórico: criado em 1979 para ser o responsável pela divulgação e conservação de fotos, documentos e objetos que contam a história e memória da instituição.

 O Centro de Estudos Linguísticos e Biblioteca Antenor de Veras Nascentes: biblioteca especializada, criada a partir da doação, em 1990, pela família do ex-aluno e catedrático de Espanhol e de Português, composta por aproximadamente 17 mil itens (livros, artigos e periódicos, postais raros, traduções, correspondências nacionais e internacionais) que tratam, em sua maioria, sobre a literatura brasileira e internacional.

 O Laboratório de Digitalização do Acervo Histórico (LADAH): criado em 2006 para promover a digitalização de documentos históricos pertencentes ao acervo do NUDOM.  O Núcleo de Documentação e Memória do Colégio Pedro II (NUDOM), objeto dessa

pesquisa, criado em 1995 para ser o principal lugar de guarda e disseminação de documentos sobre o Colégio Pedro II. (RODRIGUES, 2016).

Atualmente o NUDOM e os demais setores supracitados pertencem ao recém criado Centro de Documentação e Memória do Colégio Pedro II (CEDOM). De acordo com o artigo 2º da portaria nº 4231, de 04 de Agosto de 2014, são objetivos do CEDOM:

I- Resgatar, organizar e divulgar o acervo manuscrito, iconográfico, bibliográfico e documental da história e memória do Colégio Pedro II; II- Preservar e tratar seu patrimônio cultural; III- Conservar e divulgar a história e a memória da instituição por meio de fotos, documentos e objetos que compõem seu valioso acervo; IV- Digitalizar acervos do Núcleo de Documentação e Memória; da Biblioteca Histórica, do Museu Histórico; do Centro de Estudos Linguísticos e Biblioteca Antenor de Veras Nascentes e de Coleções Especiais; V- Implementar uma política de preservação digital que estabeleça diretrizes para a preservação de documentos digitais e para a formação da Memória Digital do Colégio Pedro II; VI- Estimular, orientar e apoiar o trabalho de pesquisa de graduação e pós-graduação; VII- Supervisionar atividades de educação patrimonial e de iniciação científica; VIII- Apoiar pesquisas acadêmicas que visem à divulgação do patrimônio histórico-cultural.

O Centro de Documentação e Memória do Colégio Pedro II (CEDOM), foi criado com o objetivo de administrar os diversos setores de preservação da memória histórica e científica dessa instituição pública. Sua organização partiu de uma demanda da Comissão de Memória, tendo como intuito reunir sob uma única administração (ou gerência) os cinco setores que tratam da preservação da documentação e memória do Colégio Pedro II. Como mencionado, são eles: Núcleo de Documentação e Memória do Colégio Pedro II (NUDOM), Biblioteca Histórica, Museu Histórico e Laboratório de Digitalização do Acervo Histórico (LADAH).

FIGURA I – O NUDOM NA ESTRUTURA DO COLÉGIO PEDRO II ANTES DA CRIAÇÃO DO CEDOM

Fonte: pela autora (2018). Baseado no Organograma da Pro-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Cultura (PROPGEPEC).

O NUDOM foi particularmente importante para a criação do CEDOM, uma vez que, diferentemente do que usualmente ocorre nos demais centros de memória, o CEDOM foi criado para ser um área administrativa e não um setor físico. Sua função é muito mais de centralizar e organizar as atividades das demais unidades de memória e informação do que um departamento, propriamente dito. A propósito, um dos entrevistados ressaltou:

A importância do NUDOM em preservar documentos que contam a história do CPII e também de seu papel como apoiador de pesquisas sobre a história da instituição e da educação no Brasil, contribui para a consolidação do CEDOM no âmbito institucional. (Entrevistado 2).

O CEDOM não possui uma sala, nem membros próprios, estando sua equipe formada pelos membros do NUDOM e pelos chefes de setores da Biblioteca Histórica, Museu Histórico e o LADAH.

FIGURA II - O NUDOM NA ESTRUTURA DO COLÉGIO PEDRO II APÓS A CRIAÇÃO DO CEDOM

Fonte: pela autora (2018). Baseado no Organograma da Pró-reitora de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Cultura (PROPGEPEC)

O CEDOM tem por objetivo estimular, orientar e apoiar pesquisas acadêmicas que visam à divulgação do patrimônio histórico e científico do Colégio Pedro II, desenvolvidos pelos já existentes setores que tratam da preservação da memória dessa instituição. (ANDRADE, 1999). Foi criado para integrar os setores que tratam da memória do Colégio Pedro II. Sua constituição só foi possível porque esses departamentos apresentam como característica comum a preservação e conservação de documentos relativos à instituição.

Em depoimento, quando perguntado sobre essa questão, o Entrevistado 1 disse:

A riqueza e a relevância do acervo preservado pelos setores que compõem o CEDOM [é o que] torna possível a produção dos livros, das atividades com os alunos e das reportagens que vão para o site do CPII. Por esse motivo o CEDOM desempenha tamanho papel: o de organizar e manter em coesão as atividades e ideologias desenvolvidas nesses setores.

Camargo e Goulart (2015, p. 14) explicam a vantagem da guarda em um mesmo local de “acervos heterogêneos”, indo de encontro à ideia de que esses centros são “entidades supérfluas, onerosas e condenadas à vida efêmera”.

É certo também que as organizações vislumbram, por meio da memória, a oportunidade de fazer brilhar sua imagem, já que hoje e "politicamente correto", e não só em nosso país, que entidades públicas e privadas, imprensa, partidos políticos, movimentos sindicais, de minorias e de marginalizados, associações de bairros, escolas etc. exibam seu passado, muitas vezes reformulado, esperando daí recolher dividendos com isso. (GOULART, 2002, p. 8).

Com esta pesquisa, foi possível inferir que o Colégio Pedro II, através da iniciativa de criação da Comissão de Atualização da Memória Histórica, do Núcleo de Documentação e Memória, do Laboratório de Digitalização do Acervo Histórico e, mais tarde, com a criação do Centro de Documentação e Memória do Colégio Pedro II, vem contribuindo efetivamente para a preservação de seu patrimônio histórico e cultural e para a construção e manutenção da sua identidade institucional, que se esforça para manter a forte relação com seu patrono – o Imperador Pedro II, um de seus capitais simbólicos mais valiosos.

Os mais de cento e cinquenta anos de existência do Colégio Pedro II respondem afirmativamente aos anseios de seu idealizador. Durante esse período ele tem sido a centelha viva a iluminar o aparecimento de novas instituições. Seus professores irão participar da criação do Instituto de Educação, do Colégio Militar e vieram a influenciar outros estabelecimentos académicos, como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. (DORIA, 1997, p. xii)

Para entender o presente, é necessário que o passado esteja esclarecido. Conhecer a história do Colégio Pedro II é relacionar o presente ao passado dessa instituição de forma significativa. Diante do exposto nas seções anteriores, buscou-se evidenciar o Colégio Pedro II como lugar de memória do ensino secundário brasileiro. Considera-se esse colégio um símbolo do estabelecimento do ensino secundário no país e, além disso, uma instituição consolidada, que suportou diversas reformas internas e externas e continua sendo referência no seu segmento.

Na próxima seção, apresentaremos o objeto de pesquisa - NUDOM - dando início à análise do trabalho empírico. Será abordada a forma como o Colégio Pedro II utiliza a memória coletiva para se legitimar como “colégio de excelência” diante da sociedade, sendo o seu centro de memória o irradiador desse projeto, visando à consolidação dos valores da instituição. Iremos compreender como o NUDOM, ao recriar a memória (por meio da seleção dos documentos), escreve a história do Colégio, cujo tom é: resgatar seu passado de glórias.

4. O NÚCLEO DE DOCUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II –