3. COMPONENTE ARTEFACTUAL
3.1.2. Cerâmica “comum” a torno
3.1.4 Cerâmica com decoração estampilhada
3.1.5 Peças coroplásticas
3.2
Breve estudo comparativo dos materiais cerâmicos
em outros sítios arqueológicos
3.2.1 Cerâmica manual
3.2.2 Cerâmica a torno
3.2.3 Cerâmica pintada
3.2.4 Cerâmica estampilhada
3.2.5 Peças coroplásticas
3.3
Materiais não cerâmicos no Depósito Votivo de
Garvão
3.3.1 Espólio metálico
3.3.2 Espólio lítico
3.3.3 Espólio de vidro ou pasta vítrea
3.3.4 Outro espólio
3 – Componente artefactual
55
Do espólio recolhido no Depósito Votivo de Garvão, destaca-se a riqueza de materiais cerâmicos que torna este conjunto particularmente excecional e único, elevando o seu valor, ainda mais considerando a sua inserção num contexto cronológico bem definido e peculiar. A identidade dos artefactos cerâmicos resulta das suas caraterísticas intrínsecas, do histórico da sua relação com o Homem, das técnicas e dos processos de transformação da matéria-prima inicial e da correspondente expressão estética final. Segundo Appadurai (1986) os objetos têm “vidas sociais” e sofrem mutações de valor e/ou significado na sua circulação, podendo ser “biografados” (Appadurai, 1986). No estudo material das cerâmicas é muito importante ter em consideração a identidade da cerâmica e as suas origens que poderão fornecer informações úteis sobre os contactos comerciais e culturais. Por outro lado, a classificação das diferentes formas de cerâmica, as suas possíveis funções e os indícios de uso proporcionarão conhecimento sobre a vida quotidiana das sociedades antigas.
3.1. A cerâmica no Deposito Votivo de Garvão
Do material inventariado até ao momento, a maioria dos recipientes observados foram produzidos a torno, com o auxílio da roda de oleiro, embora também exista um grande número de recipientes de produção manual. Ao nível das pastas existe uma diferença óbvia: a cerâmica a torno apresenta pastas mais depuradas, enquanto os recipientes de fabrico manual possuem a pasta e acabamentos, em geral, menos cuidados.
No Depósito Votivo de Garvão, os pratos são os elementos mais abundantes, coincidindo na sua abundância com o registado nos povoados e necrópoles da Idade do Ferro do Sul do país. Foi recolhido grande número de fusaiolas em muito bom estado de conservação, muitas delas completamente inteiras, e algumas delas com decoração. Este instrumento usado no âmbito das técnicas têxteis, nomeadamente na fiação também é comumente designado de cossoiro e estará associado à atividade de pastoreio, remetendo para um contexto caseiro e produção local. As cerâmicas decoradas, as cerâmicas pintadas e as decorações por matrizes “estampilhadas”, são abundantes. Mas os grandes contentores e os queimadores são talvez as peças mais emblemáticas deste sítio arqueológico, tendo estas peças sido objeto de estudo no âmbito de mestrados em Arqueologia (Faia, 2013; Feijão, 2012). De salientar que, durante o processamento do inventário foram identificados alguns queimadores que terão sido elaborados ao torno.
3 – Componente artefactual
56
Relembrando o fato de o depósito votivo não ter sido escavado na sua íntegra e também o fato de algumas peças se encontrarem por inventariar, de seguida será apresentada uma breve descrição das tipologias atribuídas até à data. Para tal, e de modo a produzir uma clara organização, procedeu-se à separação das cerâmicas em termos de técnica de execução e de decoração aplicada: cerâmica “comum” manual; cerâmica “comum” a torno; cerâmica pintada; cerâmica estampilhada e peças coroplásticas.
3.1.1. Cerâmica “comum” manual
A cerâmica “comum” manual corresponde a peças relativamente “toscas”, montadas sem ajuda de roda. A grande maioria das cerâmicas manuais apresenta evidências de cozedura em ambiente redutor, o que lhes confere uma tonalidade bastante escura, com tons de castanho-chocolate e cinzento escuro ou negro. A variação de cor quer na superfície quer no núcleo, muitas vezes na mesma peça, revela uma cozedura irregular. A pasta é pouco compacta, rica em elementos não plásticos, visíveis a olho nu e quanto ao tratamento de superfície, predominam as peças com alisamento pouco cuidado. Nas produções manuais as formas melhor representadas são os copos ovoides, recipientes troncocónicos, recipientes ovoides de colo estrangulado, taças, urnas, urnas de pé alto, assim como um conjunto de queimadores, tradicionalmente relacionados com a queima de incenso e essências. A decoração é comum, com grande variedade de motivos e técnica de execução, como: impressa (fiada(s) horizontal(ais) de impressões ovaladas, circulares, em bastonete): incisa (em espinha, ziguezagues, séries de traços curvilíneos paralelos e ondulados) e plástica, nomeadamente com a aplicação de cordões horizontais e/ou curvilíneos, de “asas cegas” e de mamilos, por vezes cruzados com incisões. Os motivos que as peças apresentam ocorrem tanto de forma isolada como em associação com outros motivos, formando composições complexas e bastante ornamentadas (Beirão et al., 1985).
Tipo I (Figura 3.1):
Forma manual mais abundante, que pode ser designada por vaso ou copo ovoide. Corresponde a um vaso fechado de perfil redondeado ou globular, com bordo ligeiramente invertido, fundo plano ou ligeiramente côncavo.
3 – Componente artefactual
57
superior do vaso, diversas ornamentações inciso-impressas, com aplicação de cordões e mamilos. Muitos destes motivos surgem inclusive associados.
Figura 3. 1 - Desenhos de Cerâmica manual tipo I.
3 – Componente artefactual
58 Tipo II (Figura 3.2):
Taça em calote de esfera, com pé destacado e em algumas peças trípodes.
Figura 3. 2 - Desenhos de Cerâmica manual tipo II.
©DRCAlentejo, Ivone Beirão, 1982 (a) /MAEDS, Jorge Costa,1982 (b).
Tipo III (Figura 3.3):
Vaso troncocónico de paredes retilíneas, fundo plano e pé não destacado. Com ornamentações semelhantes às referidas para o tipo I.
Figura 3. 3 - Desenho de Cerâmica manual tipo III.
Fonte: Beirão et al., 1985, figura 14, nº12, p.62.
a)
3 – Componente artefactual
59 Tipo IV (Figura 3.4):
Vaso de bojo ovoide, bordo extrovertido, em alguns casos com carena alta. Esta forma apresenta uma grande diversidade em termos de pé, com a presença de algumas peças trípodes. Muitos recipientes desta forma apresentam na sua superfície, geralmente na metade superior do vaso e também na base, diversas ornamentações impressas, incisas e plásticas, muitas das vezes combinadas.
Figura 3. 4 - Desenhos de Cerâmica manual tipo IV.
3 – Componente artefactual
60 Tipo V (Figura 3.5):
Atribuído às formas correspondentes a urnas com pança globular, bordo extrovertido e pé em tronco de cone, alto e oco.
Figura 3. 5 - Desenho de cerâmica manual tipo V.
Fonte: Beirão et al. 1985, figura 17, nº16, p.64.
Tipo VI (Figuras 3.6 e 3.7):
Vasos de morfologias variadas ao nível da base dos recipientes, designados por queimadores ou vasos fenestrados (Beirão et al., 1985). As formas que ocorrem em maior número apresentam colos estrangulados e bordos extrovertidos. A decoração estende-se com frequência ao pé das peças, com motivos impressos e incisos. A aplicação dos orifícios, triangulares ou circulares, tanto ocupa apenas uma fiada horizontal como toda a parede, e a associação destes dois tipos na mesma peça manifesta-se em grande número. Alguns queimadores são trípodes, outros apresentam pé alto e oco, paralelepipédico, cúbico ou troncopiramidal, com orifícios triangulares ou retangulares. De referir ainda, a presença de asas verticais em alguns exemplares.
3 – Componente artefactual
61
Figura 3. 6 - Desenhos de Cerâmica manual tipo VI.
©DRCAlentejo, Ivone Beirão, 1982.
Figura 3. 7 - Cerâmica manual tipo VI.
3 – Componente artefactual
62 Tampas (Figura 3.8):
A grande variedade e quantidade de recipientes tipo tigela, elaborados manualmente, que parecem ter como funcionalidade tapar a boca de determinados recipientes levou ao desenvolvimento desta tipologia. Algumas das peças apresentam inclusive uma pega para tornar mais prático o uso da mesma como tampa.
Figura 3. 8 – Fotografia de algumas tampas.
©DRCAlentejo, Manuel Ribeiro (a), s.d./ CACMB, s.d. (b)
Fusaiolas (Figura 3.9):
Esta tipologia admite várias formas: anulares, cilíndricas, esféricas e bitroconcónicas, sempre com um orifício central. Algumas das fusaiolas (também denominadas de cossoiros) apresentam decoração incisa.
Figura 3. 9 - Fotografia de algumas fusaiolas. ©DRCAlentejo, Manuel Ribeiro, s.d.
3 – Componente artefactual
63
3.1.2. Cerâmica “Comum” a Torno
De um modo geral, a cerâmica a torno é bem cozida e a pasta é compacta. As cerâmicas a torno apresentam, geralmente, uma cozedura oxidante, de cor quase sempre uniforme apresentando uma fratura de cor vermelha ou vermelho-clara e superfície de coloração laranja-avermelhada. A superfície encontra-se por vezes espatulada. Em termos de produções de cerâmicas a torno as formas melhor representadas são: os pratos, as tigelas, potes de perfil em S e grandes contentores.
Tipo I (Figura 3.10):
Designado de prato ou tigela baixa, corresponde à forma mais abundante. A maioria apresenta dois pequenos orifícios cuja utilidade deveria ser a de facilitar a suspensão da peça. Com bordo ligeiramente introvertido ou extrovertido e pé em bolacha. Esta tipologia apresenta a particularidade do uso de pasta de duas granulometrias distintas, uma pasta grosseira usada num pequeno disco disposto no fundo da peça e outra pasta de granulometria mais fina usada para a construção da restante peça. Em muitos destes pratos o nódulo central é bem visível (Figura 3.11).
Figura 3. 10 - Desenhos de cerâmica montada a torno, tipo I.
3 – Componente artefactual
64
Figura 3. 11 - Desenho e fotos de pormenores de uma peça a torno, tipo I (DGA 239).
©CACMB, Desenho: Dr.ª Françoise Mayet.
Tipo II (Figura 3.12):
Taça de bordo introvertido e pé saliente. Esta forma é abundante e existem algumas peças nas quais a pasta e a superfície são cinzentas.
Figura 3. 12 - Desenhos de peças de cerâmica montada a torno, tipo II.
Fonte: Beirão et al. 1985, figura 19, nº26 e nº27, p.66.
3 – Componente artefactual
65 Tipo III (Figura 3.13):
Taça de carena alta, pé destacado e alto.
Figura 3. 13- Desenho de peça de cerâmica montada a torno, tipo III.
Fonte: Beirão et al. 1985, figura 19, nº28, p.66.
Tipo IV (Figura 3.14):
Vaso de perfil em S, pé destacado e fundo ligeiramente côncavo.
Figura 3. 14 - Desenho de peça montada a torno, tipo IV.
Fonte: Beirão et al. 1985, figura 19, nº29, p.66.
Tipo V (Figura 3.15):
Vaso com bordo inclinado para o exterior e boca larga. Perfil em S (A), bojo globular (B) e bojo de tendência ovoide (C). Algumas peças com pé destacado (A) e casos com colo alto e bem diferenciado do bojo por um ligeiro ressalto (C).
3 – Componente artefactual
66
Figura 3. 15 - Desenhos de peças de cerâmica montada a torno, tipo V.
Fonte: Beirão et al. 1985, figura 19, nº30 (A), nº31 (C), p.66, figura 39, nº141 (B), p.103.
Grandes contentores (Figuras 3.16 e 3.17):
No contexto do enterramento deliberado das peças do depósito votivo, os contentores foram usados na arrumação de peças de menores dimensões, alguns inclusive com a parte superior partida, de forma a acomodarem um maior número de outros recipientes. Alguns destes recipientes apresentam dimensões com altura e diâmetro máximo a atingir 0,50m. Exemplares com bojo ovoide, bordo ligeiramente extrovertido, colo pouco marcado, fundo plano e sem pé destacado. A maioria apresenta duas asas de secção transversal diametralmente opostas. Alguns exemplares são decorados com pintura, motivos coroplásticos e estampilhas. Em determinados casos verifica-se a associação de várias destas decorações tecnicamente distintas no mesmo recipiente.
Figura 3. 16 - Desenhos de contentores montados a torno.
3 – Componente artefactual
67
Figura 3. 17 - Fotos de grandes contentores montados a torno, DGA 348 e DGA 349.
foto: Mariana Feijão.
Peças únicas (Figuras 3.18 e 3.19)
Jarras (oinochoes) com bojo ovoide, boca trilobulada e asa arrancando do bordo. Um exemplar com pé destacado, colo alto e estreito diferenciando-se bem do bojo (A) e outro exemplar sem pé destacado, com colo baixo e largo, mal diferenciado do bojo (B).
Figura 3. 18 - Desenhos de oinochoes (jarros de vinho) montados a torno.
3 – Componente artefactual
68
Grande almofariz de pasta rosada clara e superfície amarelada, provavelmente de importação da Bética (província do império romano, quase coincidente com a atual Andaluzia).
Figura 3. 19 - Desenho de almofariz montado a torno.
© DRCAlentejo, Ivone Beirão, 1982.