5. Cercamento
5.1 Cercamento dos campos, cercamento da autoria
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116 ao não comprometimento individual com a sua preservação, assim cada um tenta extrair o máximo que pode daquele recurso. Um exemplo muito comum deste tipo de atitude é a pesca predatória.
A solução aventada para o problema é o cercamento, quando o uso dos bens passa ser regulamentado e controlado, em oposição ao suposto uso descontrolado dos bens comuns. É claro que toda esta discussão está extremamente permeada por conceitos e idéias caras ao discurso liberal, como aquela do indivíduo que busca maximizar a sua utilidade, extraindo o máximo possível deste bem comum através de um comportamento competitivo, causando seu esgotamento.
Existe razoável consenso sobre a importância que teve o cercamento dos campos na Inglaterra durante o primeiro período Tudor, no entanto, também são conhecidos os impactos socialmente destrutivos desta política. Polanyi considera que muitas análises até o momento em que ele escreve pensaram a questão de um ponto de vista estritamente econômico. Como se esta transformação fosse algo inevitável, fruto do progresso econômico possibilitado pelas forças do mercado. Contudo, ele considera extremamente importante a tentativa de conter estas políticas, até para o seu sucesso. Uma vez que não importa apenas a direção da mudança, mas também o ritmo no qual ela ocorre, que pode e normalmente é determinante:
Aquilo que é ineficaz para parar uma linha de desenvolvimento não é, por isto mesmo, totalmente ineficaz. O ritmo da mudança muitas vezes não é menos importante do que a direção da própria mudança; mas enquanto esta última frequentemente não depende da nossa vontade, é justamente o ritmo no qual permitimos que mudança ocorra que pode depender de nós. A crença no progresso espontâneo pode cegar-nos quanto ao papel do governo na vida econômica. Este papel consiste, muitas vezes, em alterar o ritmo da mudança, apressando-o ou diminuindo-o, conforme o caso. (POLANYI, 2000, p. 55)
Assim, apesar de todas as conseqüências negativa trazidas pelos cercamentos, especialmente pela transformação de terras aráveis em pastagens, foi apenas devido ao desenvolvimento de uma economia de mercado que os efeitos de tal expansão não tiveram as conseqüências negativas verificadas na Espanha. Lá a
117 criação de carneiros deixou apenas terras erodidas (POLANYI, 2000). Ao contrário, na Inglaterra desenvolveu-se uma atividade artesanal que garantia renda a um bom número de pessoas, assim como fornecia emprego a posseiros e pessoas sem terra. Ainda assim, tal política é descrita de tal forma por Polanyi:
Os cercamentos foram chamado, de uma forma adequada, de revolução dos ricos contra os pobres. Os senhores e os nobres estavam perturbando a ordem social, destruindo as leis e os costumes tradicionais, às vezes pela violência, às vezes por pressão e intimidação. Eles literalmente roubavam o pobre na sua parcela de terras comuns, demolindo casas que até então, por força de antigos costumes, os pobres consideravam como suas e de seus herdeiros. (POLANYI, 2000, p. 53)
Pensar em como a propriedade, o cercamento, enfim, a suposta necessidade de haver uma posse para que possa existir uma regulação do uso dos recursos, levou a um mundo no qual estamos constantemente nos apropriando seja de terras, objetos, conhecimentos, etc. Com isso surgem instituições que visam regular a posse em si, vide a legislação de direitos autorais, por exemplo. Como coloca Marlyn Strathern: “What is not owned exists either to be owned as some future resource not yet exploited or else is notionally owned by human kind in general, including the generations to come. Ownership envelops all.”(STRATHERN, p. 270).
Para Marlyn Strathern a propriedade delimita o que poderia ser visto como uma rede de colaboração que se estende indefinidamente. Ao analisar a patente concedida à empresa capaz de isolar e detectar o vírus da Hepatite C, a antropóloga demonstra como a propriedade isolou um certo número de participantes do projeto como aqueles responsáveis pelo desenvolvimento final.
Enquanto isso, uma imensa parte da rede de pesquisadores, que já se debruçava sobre o tema durante doze anos, não recebeu nada com relação à existência daquela patente: “The long network of scientists that was formerly a such an aid to knowledge becomes hastily cut. Ownership thereby curtails relations between persons; owners exclude those who don´t belong” (STRATHERN, p. 524). Segundo ela, um elemento externo, o comercial, entrou em questão. A viabilidade em termos econômicos do projeto delimitou aqueles que pertencem e aqueles que não pertencem. Ou seja, realizou um cercamento.
118 Os cientistas reconhecem a existência de uma rede de pares que realizam pesquisas e expandem os conhecimentos a respeito de determinados assuntos.
De maneira semelhante, músicos, produtores, DJs, compositores, etc, também são parte de uma rede de colaborações mútuas. Assim como no caso analisado por Strathern, o processo de instituição da propriedade delimita a participação de cada um dos agentes no que diz respeito à constituição do material fonográfico comercialmente viável. Os direitos autorais são uma variedade de direitos que são atribuídos a cada um dos participantes de uma criação fonográfica, o interprete é diferenciado do compositor, ainda que eles sejam a mesma pessoa.
Assim como no caso da academia, com suas regras e rituais, ao “mundo da arte”
também se atribui uma certa autonomia, ou autonomia relativa para Bourdieu.
Desta forma, o comercial pode ser visto como um elemento exógeno que corta a rede de relações consideradas relativamente autônomas, estabelecendo o que cabe a cada um dos participantes no processo de produção de um material fonográfico. Ele regulariza relações que são consideradas como um mundo à parte.
Os papeis reconhecidos na indústria tradicional, e que servem de referência para a aplicação do direito autoral, como o autor, o intérprete, o instrumentista, o engenheiro de som, o produtor musical, etc, são muitas vezes organizadas em bases totalmente diferentes. No caso da Jamaica – parecendo ser este o caso também no tecnobrega e no funk - a autoria é pouco reconhecida de uma maneira geral, caso o autor não seja também intérprete. Muitas bandas eram organizadas pelos produtores jamaicanos, e eram dispensadas quando a música não agradava mais devido a mudanças no gosto. O engenheiro de som, ou aquele responsável pelo conhecimento técnico, que atualmente passa pelo domínio da computação e da utilização de sintetizadores e programadores de batidas, é muito importante, estabelecendo tendências estilísticas e selecionando ou recusando artistas.
A implementação da propriedade intelectual nos moldes conhecidos se torna dificultada. A criação e a comercialização se relacionam de tal forma que o processo de delimitação da rede feito pelo direito autoral tradicional não faz
119 muito sentido. Existe o fato da produção estar calcada no reaproveitamento de materiais existentes, o que já é conflitivo com a estética européia que privilegia o original, o autêntico e o único; assim como contraditório com a legislação autoral, já que esta também está embasada por tais valores.
A originalidade, por exemplo, não deve ser abordada no caso da música jamaicana através de considerações estéticas, mas, sim, através de uma perspectiva mais sociológica. Os DJs considerados bem sucedidos são aqueles capazes de jogar com as convenções sociais e transitar entre tipos diversos de apresentação das questões que mobilizam os jamaicanos.