INSTITUIÇÕES DE MORTE, (RE)ORGANIZAÇÕES DE
EM BUSCA DA NATUREZA INSTITUCIONAL POLICIAL MLITAR
21 Cf Jerold E Brown Historical Dictionary of the U.S Army Greenwood Publishing, 2001, p 317.
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E assim formamos pouco a pouco a genealogia das matrizes ins- titucionais. Vendo as polícias militares como espécies organizacionais de um tronco filogenético institucional. Inspirados em Foucault, fizemos uma genealogia, começando com os primórdios da atuação policial e prosse- guimos com as matrizes específicas do modelo brasileiro: a Gendarmaria Nacional francesa, a Guarda Nacional Republicana portuguesa e a Polícia Militar do Exército norte-americano, além de outras instituições sociais típicas do contexto português colonizador. Revelando modelos mentais associados a representações sociais e históricas, que agem como ordena- dores do comportamento organizacional, tais como o capitão-do-mato, o feitor ausente, o soldado romano, o guerreiro tribal africano, os quadri- lheiros entre outros23.
Tendo vasculhado a constituição histórica da instituição, em se- guida, como que se pudesse por a “pessoa organizacional” no divã, fize- mos uma análise das manifestações do inconsciente dela, analogias que ilustram seu lado sombrio e sua anima-animus. Exercitamos a “imagini- zação”24 da instituição através de recursos metafóricos: a luta ideológica
interna como uma disputa de elementos de gênero (masculino e femini- no); corporações policiais como espécies potencialmente invasoras de um ecossistema alheio, como indutores de verticalidades; a elaboração de um pequeno ensaio que define uma casta “bioantroplógica” dos guerreiros; o exercício da atividade policial como um sacerdócio servil que cumpre um rito sacrificial; o trabalho policial como remanescência da atividade de caça das comunidades humanas primitivas e as organizações policiais (de força-vigor) como espaços de culto a deuses guerreiros. Com o desdobra- mento deste capítulo, mais modelos mentais e arquétipos fundantes da polícia militar são revelados.
Ao fim apresentamos um diagrama que demonstra a influência dessas matrizes ao longo do tempo no desenvolvimento da identidade institucional da PM e a esse diagrama denominamos de mapeamento filogenético. Numa abordagem sistêmica, o que nos resta ao fim é com- 23 Assim como já havíamos discorrido sobre a “Continuidade e persistência de comportamentos sociais: as práticas repressivas do Estado brasileiro” (Lima; Lima, 2018).
24 “Imaginização” é uma proposta de uso de figura metafóricas para refletir em melhores formas de gerir uma organização, segundo Gareth Morgan em “Imagens da Organização”, (2002).
por uma síntese integrativa, a “nova” Ecologia Humana nos pede que isso seja feito com uma visão prospectiva. Em nossa síntese final definimos a “tipologia guerreira no contexto policial militar”, uma tipologia arquetí- pica do espírito guerreiro que influencia a atividade policial, com claras inspirações na fundamentação mitológica25 e em um alinhamento com
as funções psicológicas do equipamento psíquico, segundo Carl Gustav Jung. Fizemos, portanto, uma classificação, inspirada no taoísmo, que contempla as quatro funções psíquicas: Sentimento, Sensação, Intuição e Pensamento e estabelecendo os quatro tipos policiais: pai-zeloso, herói, aventureiro e guerreiro26.
CONCLUSÕES
Chegamos a hora de olhar para o futuro e antever os destinos possíveis para a Polícia Militar. Conduzidos pela pergunta: “extinção ou reformulação institucional? ”, traçamos um cronograma de ações sugeri- das para implantar mudanças que desbanquem a hegemonia ideológica interna. Não obstante, propor mudanças, discorremos sobre circunstân- cias e peculiaridades entre as diferentes corporações estaduais, que en- sejariam mais que mudança, a própria extinção da PM. É no entremeio desse debate que temas atuais sobre a mudança institucional são tratados, tais como desmilitarização, unificação, federalização, municipalização, desconstitucionalização. Propostas de reformulação, para as quais lanço juntamente um desafio numa frase que me marcou muito nessa pesquisa: “pois bem, querem desmilitarizar a polícia, quem vai desmilitarizar a ca- beça dos policiais? ”.
Envolto do tema da sumária extinção ou reengenharia da arqui- tetura institucional, ainda resta ponderar que numa visão socioecológica, 25 Usou-se uma correspondência do quaternário proposto por Jung, a um quaternário próprio do espírito guerreiro, mediante figuras mitológicas greco-romanas, yorubá e semita.
26 Os tipos policiais definidos refletem um padrão de atitude-comportamento no exercício da atividade policial. A hegemonia ideológica de dois tipos em suas expressões sombrias(o guerreiro- caveira e o aventureiro-caçador) é identificada como a “chave guerreira”. Esse é o momento mais sensível do uso da autoetnografia, pois narrei a minha experiência de adaptação e busca por alinhamento aos perfis modelares hegemônicos.
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estamos falando de sistemas orgânico-simbólicos complexos27 e a elimi-
nação de um organismo, não resultará no expurgo automático da carga ideológica, bem como outras espécies ascenderão ao nicho predatório e no caso particular do Brasil atual, isso recairia certamente na viabilização de uma guarda municipal mais forte (já impregnada dos mesmos con- teúdos profundos) e de um crime “organizado” sem rivalidade suficiente que lhe faça contenção. Nesse ponto nos é muito infeliz como civilização, que Orwell (citado por Zizek28) esteja correto: “as pessoas dormem tran-
quilamente à noite porque existem homens brutos dispostos a praticar violência em seu nome”.
Em termos de resultados da fase exploratória básica, devolve- mos à Teoria Organizacional uma via capaz de integrar os campos da Simbologia Organizacional e da Psicodinâmica do Trabalho. Para as ci- ências sociais, está um embrião de um framework entre a Sociologia das Organizações e a Biologia. Estamos começando a vasculhar o inconscien- te institucional e testando meios de captar algo daquilo que é tão profun- do da cultura organizacional, que nem o nativo é capaz de dizer claramen- te o que lhe move a determinado comportamento. Particularmente, para mim, o desfecho da pesquisa marcou a libertação em relação ao espírito institucional. Comecei o texto com o alerta de Jung, acredito ser pertinen- te terminar expondo o pensamento de Boff, ao dizer que graves problemas do convívio harmônico do ser humano na Terra, não se encontram apenas no tipo de sociedade que atualmente temos. O problema está “no tipo de mentalidade que vigora”. E essa mentalidade tem raízes muito antigas, “incluindo a profundidade da vida psíquica humana consciente e incons- ciente, pessoal e arquetípica”.
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