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SAÚDE DOS GRUPAMENTOS SOCIAIS HUMANOS Eu não podia acreditar o quanto me tornei violento e compla-

INSTITUIÇÕES DE MORTE, (RE)ORGANIZAÇÕES DE

SAÚDE DOS GRUPAMENTOS SOCIAIS HUMANOS Eu não podia acreditar o quanto me tornei violento e compla-

cente com a corrupção e práticas condenáveis como a tortura. Hoje, um ano e meio após o término do mestrado e três anos e meio após ter deixa- do a Polícia Militar, só agora posso realmente creditar o valor que aquela pesquisa tem em termos de Saúde Coletiva11. O quadro, ou melhor, o

mosaico dos fragmentos teóricos articulados em prol daquela pesquisa; as ferramentas metodológicas testadas; o desenho de pesquisa constituído; tudo ainda muito insipiente, mas potencialmente produtivo, está a serviço de uma terapia social. Integrando áreas que mantém dificuldades no diá- logo em termos epistemológicos12.

O ecólogo humano é naturalmente um generalista muito profí- cuo em “ligar os pontos”, perceber as conexões ocultas; não lhe é salutar um olhar fixamente especialista, apesar de que sua área de origem lhe ca- racteriza como uma língua ou cultura materna, mesmo que tenha se torna- do um cosmopolita do saber. E portanto, partir da Teoria Organizacional para mim me deixou muito à vontade de circular por inúmeros campos do saber. Desde o nascedouro, a Administração é multidisciplinar e al- gumas abordagens contemporâneas já tinham nos trazido aplicações das ciências do Comportamento, da Visão Sistêmica e da Ecologia. Eu estava interessado em um recorte muito particular da Gestão Socioambiental, a responsabilidade social para com o público interno.

O que os policiais militares precisam é de compreensão. Esclarecimento das condições psicossoais, bioantropológicas e sociocul- turais que os aprisionam mental e economicamente numa delusão. Uma fantasia heroica de que para “salvar” a sociedade eles podem ultrapassar certos limites éticos, inclusive sacrificando a si mesmos, sua saúde e a salubridade de suas relações socioafetivas. Fico profundamente comovido com as vítimas que a violência causa na sociedade de forma geral, aquelas transformação para o polo integrador é muito marcante em Fritjof Capra (1996).

11 Chame de uma proposta de Medicina Social ou de Sociologia Clínica, eu tenho chamado de Ecologia Organizacional Clínica.

12 Por exemplo, eu sou oriundo da ciência da Administração e, portanto, eu parto da Teoria Organizacional num empreendimento intelectual interdisciplinar, o que é normal para um ecólogo humano, que ainda não consegue um verdadeiro pensamento transdisciplinar.

que sofreram pelas mãos de policiais e aquelas que não puderam ser pro- tegidas por eles, tendo em vista a ineficiência do sistema.

Mas quando observamos a violência como uma patologia social, a vítima é como o órgão afetado subsidiariamente, é o agressor quem está doente. E o que me preocupa, no caso da polícia brasileira, é quando os agentes do sistema imunológico estão disfuncionalmente contribuindo com a infestação do patógeno. Assim sendo, podemos dizer que doenças podem ser causadas por ideias. E se isso pode alicerçar a atividade psica- nalítica e subsidiar a psicossomática, porque não considerar que influísse na psicossociologia. Portanto, instituições sociais podem se manifestar como doenças no tecido social pelas ideias que carregam. Doenças cau- sadas por ideias são curadas igualmente por ideias. E não unicamente por introdução de drogas bioquímicas, nem por intervenção cirúrgica13.

Quando se fala de níveis profundos, as matrizes doentias po- dem ser carregadas por três vias: (1) Embutidas no conteúdo do nível da linguagem simbólica que mantém as instituições sociais humanas, ou seja, pela cultura em um processo gradual de herança histórica. (2) Compartilhadas num nível sutil de transferência de conteúdos psíquicos, num processo a-temporal de vínculo não-local, para os quais o mito é a linguagem mais consentânea para exprimi-los. (3) Inscritas nos genes ou na forma de seus arranjos (epigênese), dando cabo a tendências e instintos que contribuíram para constituir o meio fisiológico adequado ao desen- volvimento daquilo que foi obtido pelas vias anteriores.

Essa divisão em dimensões é bem propícia na ecologia dos seres humanos. Deixe-me falar sobre as “eco-lógicas”, ou seja, as diversas lógicas de compreensão de uma Ecologia abrangente, que envolva o ser humano e o meio em que ele vive. Félix Guattari14 falava das “três ecologias”: a am-

biental, a das relações sociais e a da intersubjetividade humana; Leonardo Boff15 fala das “quatro ecologias”: a ambiental, a social, a mental ou pro-

13 Portanto, no caso de organizações, nem sempre reestruturações, normatizações e atualização de processos são soluções terapêuticas eficazes. Por vezes, é preciso aprofundar-se no nível de impregnação das matrizes patogênicas.

14 Filósofo e psicanalista francês. Félix Guattari (1990). 15 Teólogo brasileiro, Leonardo Boff (2010).

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ABORDAGENS EM ECOLOGIA HUMANA: CONSTRUÇÕES EPISTÊMICO- METODOLÓGICAS INTERDISCIPLINARES

funda e a integral; Roderick J. Lawrence16, fala de uma interpretação ho-

lística e integrativa em três lógicas: “bio-logic” (organismos biológicos), “eco-logic” (constituintes inorgânicos) e a “human-logic” (ordenação de fatores humanos, culturais, sociais e individuais).

Entre essas, a Ecologia Mental parece ser o contexto propício para averiguar a presença do “patógeno” da violência institucional. Portanto, inclui-se no composto ambiental, o ambiente psíquico interno do ser hu- mano, como um peculiar espaço de convivência17. As relações ecológicas

mentais ganham relevância, quando se destaca a dinâmica coletiva de cer- tos fenômenos dessa dimensão e, portanto, concomitantemente externos e internos ao indivíduo18. Existindo, portanto, um mundo psíquico pessoal

de cada ser humano, que se correlaciona com outros por meio de uma mente coletiva materializada pelo corpo social19 e um sistema próprio de

interações, em nível sutil, conhecido como inconsciente coletivo20.

EM BUSCA DA NATUREZA INSTITUCIONAL