4. Outros aspectos do texto dahliano
4.5 Chapeuzinho de Dahl e outras Chapeuzinhos
Neste ponto do trabalho gostaríamos de tecer breves comentários a respeito da relação hipertextual que se estabelece entre a Chapeuzinho de Dahl e a personagem em outras obras.
37 Dahl puts his own life on the table as part of the contract with his young readers, and over and above the intrinsic
appeal of the stories it is the extra element of conspiratorial trust, the sense that Dahl is placing his adult self within reach of children, breaking the rules of adult-child decorum, disclosing secrets and saying the unsayable, that largely explains his enormous popularity with children and discomfiture for adults. (HOLLINDALE, 2016, p. 279)
Assim como a personagem relaciona-se hipertextualmente com textos de Perrault e Grimm, também está em diálogo com releituras mais recentes do conto. Considerando que Dahl viveu nos Estados Unidos após recuperar-se de ferimentos de guerra, conjecturamos que tenha lido
Fables for Our Time and Famous Poems Illustrated de James Thurber. Aventamos esta hipótese
porque o volume de Thurber foi publicado entre 1939 e 1940, antes da publicação de Revolting
Rhymes, e, também, pela semelhança entre o enredo de “The Little Girl and the Wolf” de
Thurber e o enredo da versão de Dahl. Em Thurber o conto tradicional é mantido, embora de forma sucinta, até a chegada da menina à casa da avó. Quando se dá conta de que o lobo estava deitado na cama de sua avó, a garota usa uma arma que trazia escondida em sua cesta e mata o lobo. Destacamos, ainda, a moral inserida pelo autor “Moral: não é fácil enganar garotinhas hoje em dia como já foi um dia.”38 (THURBER, James, 1990, p. 3, tradução nossa). Em ambos
os casos vemos que a personagem é independente e dispõe de recursos suficientes para livrar- se do lobo sem ajuda alguma.
No que tange à ênfase ao apelo sensual comumente associado ao conto “Chapeuzinho Vermelho e o lobo”, destacamos também o trabalho de Tex Avery, criador de vários personagens de desenhos animados para os estúdios Universal, Warner Bros e MGM. Em 1943 sua Chapeuzinho apresenta-se como uma cantora de casa noturna e o lobo é um milionário seduzido por ela, conforme pode ser visto nas imagens que reproduzimos abaixo. Assim como o texto de Thurber, acreditamos que Dahl possa também ter tido contato com o trabalho de Avery, pois essa animação foi lançada em 1943 e Dahl havia se mudado para os Estados Unidos para trabalhar como Adido Militar em Washington em 1942. Devemos, entretanto, destacar que a sensualidade da personagem está presente no trabalho de Dahl de forma mais sutil em comparação com o trabalho de Avery. Na animação de Avery os personagens – Chapeuzinho, o lobo e a avó – revoltam-se logo no início da história, inconformados com o andamento do conto, e demandam um novo enredo. O roteirista, que fica subentendido, decide atender às exigências dos personagens e o lobo torna-se um milionário, Chapeuzinho uma cantora em uma casa noturna e a avó, proprietária de um apartamento luxuoso de cobertura, apaixona-se pelo lobo. A sensualidade explícita do trabalho de Avery está exemplificado nas seguintes imagens:
Citaremos, ainda, dois trabalhos relativamente mais recentes que, como os trabalhos de Dahl, Thurber e Avery, fazem parte de uma rede de hipertextualidade que certamente não se esgota nessas obras que citamos. Em 1959 Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli lançaram a música “Lobo Bobo”, incluída por João Gilberto em Chega de saudade, pela Gravadora Odeon. A mesma canção foi gravada por Wilson Simonal e lançada em 1964 em A nova dimensão do
samba. A letra de Ronaldo Bôscoli sugere malícia, como pode ser lido a seguir:
Era uma vez um lobo mau que resolveu jantar alguém estava sem vintém
mas arriscou e logo se estrepou chapeuzinho de maiô ouviu buzina e não parou mas lobo mau insiste faz cara de triste mas chapeuzinho ouviu os conselhos da vovó dizer que não pra lobo que com lobo não sai só lobo canta, pede promete tudo até amor
e diz que fraco de lobo é ver um chapeuzinho de maiô
chapeuzinho percebeu que o lobo mau se derreteu pra ver vocês que lobo também faz papel de bobo só posso lhe dizer
chapeuzinho agora traz um lobo na coleira que não janta nunca mais lobo bobo... 39
Assim como na versão dahliana, a Chapeuzinho de Lyra e Bôscoli revela-se uma moça esperta e possui recursos suficientes para lidar com o perigo que o lobo representa. Enquanto a Chapeuzinho dahliana mata o lobo e “ganha” um casaco de pele, a Chapeuzinho dos compositores brasileiros percebe que seduziu o lobo e faz dele o que quer, trazendo o animal “na coleira”, ou seja, exercendo total controle sobre suas ações.
Por fim, citamos uma campanha publicitária da empresa Grendene40 que propõe uma releitura de quatro contos tradicionais: “Cinderela”, “Branca de Neve e os sete anões”, “Rapunzel” e “Chapeuzinho Vermelho e o lobo”, que apresentamos abaixo:
Nessa campanha para sapatos femininos temos a exploração da sensualidade da personagem de forma tão explícita quanto na animação de Avery, que, como mencionado por Rosas (2002), combina dois scripts: podemos identificar o primeiro pela incorporação da floresta, onde parte da história acontece no conto tradicional; e o segundo, totalmente atualizado que inclui a motocicleta pilotada pelo Lobo levando Chapeuzinho, retratada de modo erotizado, vestindo saia curtíssima que deixa sua liga a mostra, e levando uma garrafa de espumante visível em sua cesta. Nesse caso é obvio que o público alvo da campanha publicitária não é o infantil, e a representação escolhida dialoga com a interpretação psicológica comumente associada aos contos de fadas.
39 Disponível em: https://www.letras.com.br/wilson-simonal/lobo-bobo, acesso em 13.05.2018
40 Disponível em: http://mundofabuloso.blogspot.com.br/2007/08/contos-cabulosos.html, acesso em 13.05.2018
Com esses exemplos, demonstramos que a versão dahliana dos contos tradicionais, particularmente “Chapeuzinho Vermelho e o lobo”, apresenta apelo à sensualidade, assim como o fazem outras leituras dos contos de outros autores. Pensamos que essa leitura, de teor psicológico, é igualmente válida quando consideramos a leitura de Jolles, que aponta a possibilidade de transmissão de valores às crianças por meio dos contos tradicionais. Encerramos nosso trabalho com a percepção de que também nossa leitura pode estar inserida em uma miríade de possibilidades.