nossa autoria42, no qual analisamos a personificação através do discurso gráfico da charge que, como poderemos observar nas charges apresentadas mais adiante, encontram respaldo na memória social da coletividade.
Apresentamos a seguir, duas charges em que a construção da intertextualidade não é estabelecida por meio direto a outros textos atrelados ao próprio jornal, mas sim à memória social de uma coletividade, ou memória discursiva dos interlocutores, como denomina Koch (1997, p. 48). Para esta análise específica, selecionamos uma charge publicada por cada um dos jornais, as quais, ao nosso ver, exemplificam bem esta estratégia a que nos referimos.
CHARGE 16
Charge 16. Correio da Paraíba, 25 de setembro de 2005
A charge 16, publicada no Correio da Paraíba em 25 de setembro de 2005, ilustra de maneira categórica esta forma de estratégia intertextual. O desenho apresenta um episódio com dois personagens, cuja referência identitária é formulada através dos recursos verbais presentes neste texto chárgico. Referimo-nos às palavras: “doutor” – esta presente na fala de um dos personagens - e “trabalhador brasileiro”, que aparece escrita numa espécie de divã, onde este se apresenta deitado. Do outro lado, está a figura
42 Referimo-nos à uma comunicação científica em que analisamos, em síntese, a charge jornalística e sua configuração enquanto instrumento de representação da identidade nacional e regional, utilizando-nos para isto de charges dos dois jornais desta pesquisa. O trabalho foi apresentado no seminário História da Mídia Regional, em outubro de 2005, na UEPB.
do “doutor” a quem este outro personagem se refere. Este é caracterizado iconograficamente pelos traços físicos e postura retratada no desenho em que aparece sentado numa cadeira giratória, com lápis e papel na mão, elementos extralingüísticos que se unem aos de natureza lingüística para complementarem a representação identitária dos sujeitos sociais a quem o chargista se refere. Analisando a cena sob um ponto de vista intertextual, observamos uma referência à imagem clássica da psicanálise freudiana, figurada através da descrição do cenário e personagens contidos na charge.
Além dos elementos descritos acima, a significação da charge está atrelada em grande parte a um outro recurso sêmico utilizado pelo enunciatário. Trata-se do tamanho do “paciente”, ora consultado, cuja figura é retratada por meio de uma miniatura. Assim como nos demais exemplos aqui analisados, os traços revelam a intenção do ato sêmico do chargista ao construir o seu enunciado, cujo diálogo interno, denuncia de forma metafórica a situação vivida pela classe trabalhadora brasileira caracterizada, sobretudo, pelo baixo salário. A união destes recursos, por sua vez, aponta para o processo de produção de sentido figurado a que o texto chárgico recorre costumeiramente e que revelam a perspectiva pragmática de que é dotada esta modalidade textual.
Neste caso, os fatores contextuais atuam de maneira fundamental no processo de significação e compreensão do texto, sinalizando determinados direcionamentos para interpretação. Entre estes fatores apresentados, está o ambiente físico, também definido de “contexto situacional”, que conforme descreve Maingueneau (2004, p. 26), está relacionado a “[...] algumas unidades do enunciado, a exemplo de marcas de pessoa e uso de determinante demonstrativo, dentre outros”. É o que vemos acontecer neste texto chárgico e, mais especificamente, no enunciado verbal do “trabalhador”, que em sua fala faz referência a si próprio, usando o presente do verbo “valorizar”: “O problema, doutor é que ninguém me valoriza”(grifo nosso).
Analisando o diálogo entre os personagens do ponto de vista polifônico, percebemos o jogo intencional do enunciador do texto chárgico ao externar sua visão particular de maneira “afastada”, utilizando-se para isto dos locutores que, conforme explica Ducrot (1987, p. 188) passam a ser os responsáveis pelo enunciado, mas não da perspectiva dos fatos, ação esta atribuída ao enunciador. Este, por sua vez, como podemos observar através do enunciado “trabalhador brasileiro”, escrito no divã, constrói um texto amplamente polifônico ao trazer para dentro do mesmo, as vozes de toda uma categoria profissional ali estereotipada por meio do pequeno paciente. Esta
característica, por outro lado, nos revela a natureza dialógica que todo enunciado traz consigo enquanto fragmento de uma totalidade mais ampla, conforme defende a teoria bakhtiniana.
A charge 17 publicada no Jornal da Paraíba em 06 de outubro de 2005, revela como o texto chárgico se dirige a outros intertextos de natureza mais complexa, situados fora do próprio jornal.
CHARGE 17
Charge 17. Jornal da Paraíba, 06 de outubro de 2005
Construído quase que totalmente através da linguagem não verbal, o desenho traz a imagem de vários personagens anônimos em torno de um jornal fixado numa banca de jornais e revistas. Neste cenário, dois detalhes iconográficos chamam a atenção para o caráter semiótico deste texto chárgico. Tratam-se das marcas de solado de sapato na traseira de cada um dos personagens, e a página do jornal pela qual estes se sentem interessados.
De um lado, como pode se verificar, o desenho das marcas de solados de sapatos nos conduz a uma leitura indicial, cuja inferência leva-nos à dedução de que as tais marcas, na verdade, representam “chutes” desferidos contra cada um dos personagens. Esta relação, por sua vez, nos coloca diante de mais um exemplo de sentido figurado representado por meio da linguagem não verbal, em que as marcas mencionadas