banco lendo um jornal. O único recurso verbal utilizado na charge é a palavra: “Classificados”, que consta na parte superior do jornal, como instrumento de identificação do caderno em que é feita a leitura. Como se observa, o texto chárgico recorre à figura de um dos personagens mais conhecidos em todo o mundo, que simboliza o período natalino, em especial, a distribuição de presentes, feita lendariamente pelo “bom velhinho de barbas brancas”. Colocamo-nos diante de uma espécie de estereotipo compartilhado coletivamente por indivíduos de diversas sociedades e culturas, cujo poder de representatividade sociocultural é fixado, sobretudo, por meio do dinâmico sistema simbólico, a exemplo do que vimos nas charges 11 e 12.
CHARGE 15
Charge 15. Correio da Paraíba, 30 de outubro de 2005
No desenho, a figura de Papai Noel é representada de maneira icônica através dos detalhes pictóricos que se assemelham à sua figura, que, mesmo estando de costas, são de fácil identificação. Além dos traços físicos característicos – gordo e semi-careca - , o personagem é identificado graficamente por meio da forma tradicional de vestimenta, cuja riqueza icônica termina por suprir a ausência dos recursos da policromia, com relação a um elemento que também constitui uma das características marcantes deste personagem, a cor vermelha de sua roupa. Neste aspecto, o gorro e o saco de presentes se destacam como acessórios inconfundíveis e complementares à
imagem da figura do Papai Noel. Tais elementos, por sua vez, expressam o seu significado por meio da força da relação icônica, simbólica e também indicial estabelecida entre o signo e os objetos representativos que lhes servem como referência. Observamos esta relação através da imagem do “saco vazio”, a qual conduz o enunciatário a uma inferência que, baseada na união dos demais elementos constitutivos do episódio, induz a situação “carente” por que estaria passando o Papai Noel. Isto revela, ao mesmo tempo, a função indicial inerente a tudo o que significa, de que nos fala Santaella (1983, p. 66), ao ressaltar que, na visão da semiótica de Peirce, todo existente funciona de certa maneira como um índice, uma vez que “[...] como existente, apresenta uma conexão de fato com o todo do conjunto de que é parte”. As ferramentas expressivas descritas no processo enunciativo deste texto chárgico nos faz enxergar de maneira mais clara, a relevância dos elementos extralingüísticos que participam efetivamente das estratégias de construção de significação das charges, processo este dinamizado pelo funcionamento semiótico de tais elementos.
Numa outra perspectiva interpretativa, constatamos que, além destes aspectos de natureza semiótica, este texto chárgico revela a relação intertextual, em sentido amplo, que esta modalidade textual mantém com determinados contos populares, associando ficção e realidade, num imbricado processo dialógico. Esta relação revela o autêntico processo de polifonia de que nos fala Bakhtin (1981, p. 2) ao ressaltar o fenômeno de multiplicidade de vozes plenivalentes e das consciências eqüipolentes, por meio do qual mundos distintos se combinam numa unidade de acontecimento.
É dentro deste processo que este texto chárgico se constitui, por meio da apropriação representativa de um personagem do universo fictício que é trazido para o “mundo real”. Neste caso, ao contrário do que vimos na charge 15, é o personagem fictício que incorpora o personagem real trazendo para si as atribuições humanas Neste sentido, Papai Noel é inserido dentro do contexto sócio-econômico brasileiro, associando a sua imagem à do trabalhador desempregado à procura de emprego. Dentro deste aspecto, outro detalhe que contribui sensivelmente para a produção da significação deste texto chárgico é o uso do caderno de classificados por parte do personagem, pois, como se sabe, a leitura deste tipo específico de conteúdo jornalístico é motivado pela procura de algo. No caso específico, o chargista assinala de maneira subtendida o interesse do locutor por emprego, intenção esta complementada por outro objeto também empregado na ilustração de forma conotativa, que é o banco de praça pública, lugar registrado no imaginário coletivo com significado de ociosidade, e também
propício para a leitura de jornais. Esta estratégia revela, por outro lado, a dupla mensagem de que a imagem é ao mesmo tempo portadora, a conotativa e a denotativa, conforme descreve Barthes (apud ALEGRE, 1998, p. 78), ressaltando a cadeia flutuante de significados de que o texto visual é portador.
O conjunto de recursos e estratégias envolvendo os elementos extralingüísticos acima mencionados termina por oferecer ao leitor deste texto chárgico diretrizes interpretativas, assinalando da mesma forma a crítica que este revela e que, como se pode ver, aponta para a crise social da falta de emprego no país. Trata-se, portanto, de uma charge social que registra e ao mesmo tempo satiriza a questão do desemprego, realçada metaforicamente. Este tema, inclusive, é retratado de maneira muito freqüente pelos chargistas de ambos os jornais mencionados neste trabalho, que, para isto, também se utilizam de um outro tipo de estratégia intertextual do qual trataremos no próximo tópico.
3.5.2 As relações intertextuais da charge com intertextos de memória social e coletiva
Neste último tópico, analisamos uma outra estratégia referente à construção da relação intertextual da charge jornalística com textos situados fora do jornal e cujo processo de significação está atrelado, em grande parte, aos fatores de contextualização que, como ressaltam diversos autores, dentre eles Brait (1996), Fiorin (2003) e Maingueneau (2004), respondem pela ancoragem do texto em dada situação comunicativa. Esta estratégia também está vinculada de forma muito intensa ao fator de compartilhamento de conhecimentos e idéias entre enunciador e enunciatário, mobilizando diversos saberes anteriores ao ato enunciativo. No entanto, ao invés de personagens estereotipados oriundos de contos infantis, a construção referencial verificada neste tipo de estratégia intertextual está voltada mais especificamente à utilização da figura real do cidadão comum brasileiro que, neste caso, passa a ser o personagem central das narrativas.
Neste sentido, os chargistas recorrem costumeiramente a discussões sociais, através das quais satirizam temas específicos, a exemplo do desemprego e o baixo salário da classe trabalhadora. Para isto, ao invés de personagens lendários, estes profissionais utilizam-se da figura anônima do cidadão comum que, por sua vez, é sempre retratado como vítima do sistema socioeconômico. Trata-se de um recurso
caricatural muito comum na charge, descrito, inclusive, em outro trabalho acadêmico de nossa autoria42, no qual analisamos a personificação através do discurso gráfico da charge que, como poderemos observar nas charges apresentadas mais adiante, encontram respaldo na memória social da coletividade.
Apresentamos a seguir, duas charges em que a construção da intertextualidade não é estabelecida por meio direto a outros textos atrelados ao próprio jornal, mas sim à memória social de uma coletividade, ou memória discursiva dos interlocutores, como denomina Koch (1997, p. 48). Para esta análise específica, selecionamos uma charge publicada por cada um dos jornais, as quais, ao nosso ver, exemplificam bem esta estratégia a que nos referimos.
CHARGE 16
Charge 16. Correio da Paraíba, 25 de setembro de 2005
A charge 16, publicada no Correio da Paraíba em 25 de setembro de 2005, ilustra de maneira categórica esta forma de estratégia intertextual. O desenho apresenta um episódio com dois personagens, cuja referência identitária é formulada através dos recursos verbais presentes neste texto chárgico. Referimo-nos às palavras: “doutor” – esta presente na fala de um dos personagens - e “trabalhador brasileiro”, que aparece escrita numa espécie de divã, onde este se apresenta deitado. Do outro lado, está a figura
42 Referimo-nos à uma comunicação científica em que analisamos, em síntese, a charge jornalística e sua configuração enquanto instrumento de representação da identidade nacional e regional, utilizando-nos para isto de charges dos dois jornais desta pesquisa. O trabalho foi apresentado no seminário História da Mídia Regional, em outubro de 2005, na UEPB.