Os integrantes do grupo aproveitam o intervalo para conversar, fumar e recuperar as energias antes de começar as apresentações. Tirando os adereços e surrões da caminhonete, os brincantes iniciam sua caminhada em direção ao palco central da cidade, onde o mestre “puxará” as loas, que o grupo acompanhará em suas manobras. Neste percurso muitos fazem brincadeiras, reencontram amigos, abraçam as pessoas conhecidas, paqueram e são paquerados. Alguns performatizam passos de seu personagem, que será apresentado, como forma de lembrar as suas posições dentro do grupo. O jogo relacional neste contexto se torna um ingrediente agregador, que torna o folguedo uma festa aberta as diferentes formas de interagir, constituídas de questões de ordem pessoal e referidas na estrutura social. Diassis, a baiana do Estrela da Tarde, diz que “é agora que o bicho pega fogo, pois estamos livres para brincar e nos divertir sem passos marcados da brincadeira”. Ajudando Eraldo a carregar a bandeira (estandarte) do grupo até o local da apresentação, ele me contou:
Eraldo: Olha! A gente se diverte muito nas sambadas, mas é no ônibus que a gente
se solta.
Anderson: Por que só no ônibus, vocês não fazem isso em outros espaços?
E: Não! Sabe por que? Porque em outros lugares tem o olho do povo em cima da
gente. No ônibus a gente bebe e dança todas, porque só tem gente da gente. As pessoas não ligam, pois foi pra isso que ficamos o ano todo se preparando pra brincar.
Penso que esse momento de diversão e descontração dos membros do grupo é também o início de uma preparação para o momento de performatização do folguedo, que ganha sentido na forma como os integrantes se organizam dentro do grupo. Além disso, durante minha convivência com os brincantes de maracatu, percebi que a organização dos grupos está baseada na posição de gênero, que situam os homens e as mulheres no maracatu em atributos socialmente determinados para ambos os gêneros. No entanto, considero esta arrumação uma lógica pendular, pois o sujeito transita entre os atributos dos dois gêneros, determinados pelas condições e disponibilidade de pessoas para performatizar determinados personagens dentro do grupo. Isto não significa que o maracatu não seja organizado numa perspectiva de gênero, pois, segundo Moore (2000, p. 18), as diferenças do gênero num dado contexto, precisam “dar conta tanto da reprodução das categorias e discursos dominantes quando ocorrem casos de não reprodução, resistência e mudança”.
Ao sinal de Marco, os brincantes vestem suas indumentárias de apresentação ali mesmo na rua, pois já estão com uma roupa mais leve e, por isso é só locar as vestimentas pesadas que compõem seu personagem. Algumas vestimentas precisam de ajuda de outros brincantes ou dos auxiliares, que acompanham o grupo. Percebo que as baianas sempre estão preocupadas em apertar o cordão que segura as saias em suas cinturas. Assim, entra em cena os auxiliares que estão sempre a postos para ajudar as baianas se vestirem. Nesta situação também se encontram os lanceiros, que precisam de ajuda para colocar os surrões e as golas; o bandeirista, que necessitam de ajuda para posicionar os estandartes no talabarte; e o arreiamá, ajudado no momento de posicionar o cocar na sua cabeça.
No percurso do ônibus até o local, no qual os grupos se apresentam, as pessoas nas ruas observam o colorido das roupas e, alguns interagem perguntando pelo nome do grupo e a origem do mesmo. Noto que neste percurso, os grupos sempre buscam interagir com as pessoas que apreciam a brincadeira. O personagem da Catita é o mais indicado para ir fazendo brincadeiras e motivando as pessoas para observarem o grupo que passa. Isto em certa medida é um bom momento para convidar a todos para assistirem à apresentação do grupo. Nos locais que frequentei a plateia é numerosa. Nos encontros de maracatus de Nazaré da Mata, a polícia chega a contabilizar um total aproximado de mil e quinhentas pessoas nos dias de apresentação. O público sempre reage com muita alegria e admiração à presença dos maracatus. Um fato curioso que observei em Angélicas (Distrito do município de Vicência) foi que a chegada de um grupo de maracatu deixou algumas pessoas irritadas. No local estava ocorrendo o Carnaval com a apresentação de bandas de brega e de funk, então quando o maracatu rural para
apresentação, deixou muitos chateados, pois paralisaram o evento que estava ocorrendo, pois, o grupo precisava se apresentar no local para ir a outros lugares naquela noite. No entanto, isto foi uma situação pontual, pois no período que esteve no campo, não observei nenhuma repulsa do público.
Enquanto o grupo se apresentava em Angélicas, busquei transitar entre as pessoas para ouvir e conversar um pouco com aquelas que estavam apreciando o grupo, e perguntei sobre o que estavam achando das apresentações dos grupos de maracatus. Sobre isso ouvi de uma mulher, o seguinte:
Ah! Isto sim é a brincadeira do povo, rapaz! É melhor isso que traz a raiz da gente do que esse povo que fica se remexendo e mostrando a bunda nestas músicas de brega. Não gosto dessas coisas. Se você olhar bem, a gente pode ver as mulheres e os homens da gente, da nossa terra se divertindo. Eles passam o ano todo se preparando para esse momento. Sei também que eles tem as diferenças deles, o homem é homem e mulher é mulher. O homem não deixa a mulher fazer o que eles fazem, mas agora tá ficando diferente, né? Isso é que bom, tá vendo? Tudo muda, é só a gente deixa um pouquinho as coisas da vida e brincar o Carnaval. O Carnaval é o remédio pra todos os maus desse mundo.
Aqui mais uma vez o gênero aparece como um elemento organizativo das relações. Mesmo no momento festivo como este manifestado pelo maracatu rural, as posições de homens e mulheres são acionadas também pelo público para entender a dinâmica do folguedo a partir das relações sociais.
1.3.3.3 A hora de entrar em cena: as apresentações e a relação com o público
Os grupos de maracatus de Nazaré da Mata seguem um calendário previamente estabelecido pelas prefeituras e pelos locais onde conseguiram inscrever seus grupos para se apresentarem durante o período carnavalesco. Geralmente, esses grupos se deslocam para esses eventos na segunda-feira e/ou terça-feira de Carnaval espalhados na Zona da Mata de Pernambuco ou na Região Metropolitana do Recife. Quando o grupo é convidado a se apresentar em algum local ou evento, eles fazem para se divertir, pois geralmente não recebem nenhuma ajuda de custo.
No que se refere a dinâmica das apresentações, os grupos seguem a ordem de chegada aos locais. Os grupos vão chegando e ficam enfileirados, aguardando o momento que são chamados pelos organizadores para que se posicionem à frente do palanque, no qual sob o comando do mestre, iniciam suas manobras.
Descrevo a seguir alguns aspectos dos meus trajetos junto aos maracatus. Para ilustrar esses percursos, destaco as minhas experiências com o Maracatu Estrela da Tarde. Penso que isso, representa uma oportunidade de pensar as posições assumidas por homens e mulheres no folguedo a partir do lugar onde acompanhei mais de perto o processo de experiências de gênero e sexualidade dentro dessa manifestação popular.
Marco (presidente e organizador do grupo) inicia o chamado junto ao apito do mestre para que os brincantes tomem seus lugares. Alguns brincantes estão conversando próximo ao terno e outros já haviam se dispersado por causa da multidão que acompanhava um trio elétrico ao longo da avenida que levaria o maracatu até o local da apresentação. Mesmo assim, Marco tentou reunir todos em suas posições para ir acompanhando a multidão até o palco principal. Aproveitou-se esse momento, de preparação inicial, para ir aquecendo o terno e para que os brincantes do corpo de baile bebessem água e pudessem se alimentar. Sobre isso, Eduardo, rei do cortejo, disse: “A prefeitura só oferece água e um copo de salada de fruta...quero uma coisa que me dê sustância”.
Às 18:30h, o Maracatu Estrela da Tarde chega na frente do palco onde se apresentaria. O mestre e seus auxiliares com o terno sobem ao palco, cumprimentam as autoridades, posicionando-se para puxar as loas, que conduziram o grupo na sua apresentação. Simultaneamente, no chão em frente ao palco estava o corpo de baile. Todos posicionados para iniciar as performances, que caracterizam cada um dos personagens.
No sinal dado pelo mestre para que o grupo iniciei sua apresentação, o Lambaio é a primeira parte do corpo de baile que apresenta suas performances. O Lambaio é um grupo de personagens que, segundo o Mestre João Paulo do Maracatu Leão Misterioso, se caracteriza por embolar-se pelo chão, abrindo espaço para a entrada dos outros personagens do maracatu. Este é formado pelos personagens por Mateus, pela Catita, pela Burra-Calu. As performances desses personagens chamam atenção pela sua comicidade. Brincando com o público, circulam o maracatu no sentido contrário dos caboclos de lança. Estes personagens se caracterizam por possuir uma maior interação com o público. A Catita e o Mateus fazem brincadeiras com as pessoas, afastando-as para o maracatu passar. Além disso, aproveitam para pedir dinheiro. O brincante com a Burra-Calu se movimenta entre as pessoas açoitando um chicote e o barulho produzido por esse instrumento mantém o público afastado.
A organização do cortejo do maracatu rural obedece a uma composição bem marcada. Primeiramente, percebo dois cordões externos constituídos de caboclos de lança; ao centro (um pouco recuado em relação ao primeiro caboclo) encontra-se o bandeirista com o estandarte, depois seguem os caboclos de pena, a corte (rei, rainha e carregador do guarda-sol), as baianas, a dama do passo (com a boneca). Este núcleo central permanece sempre aglutinado em torno do estandarte, nunca se afastando dele. Os lanceiros seguem um movimento de vai e volta, ritualizando a proteção, que estes devem exercer em relação à corte e ao estandarte do maracatu. Os arreia-má completam essa proteção, fazendo passos com seu arco-flecha e/ou sua machadinha, que lembram a preparação para guerra. Por estar à frente do grupo, contribuem com a proteção dos personagens que estão próximos, como as baianas e a corte real (rei, rainha e sombreiro).
Percebi em minhas observações, que os caboclos de lança também estão em contato com o público, pois seus movimentos são executados de forma circular, envolvendo os outros personagens e nessas performances sempre há um tempo para conversar com as pessoas que querem tirar foto ou curiosas em conhecer um pouco da figura do caboclo de lança, parando e fazendo perguntas. Luiz, um desses caboclos, disse: “Acho que essa curiosidade e por causa do que as pessoas pensam que a gente é mágico, que tem uma mágica por traz da gola da gente [risos].
O maracatu segue se apresentando para o público e para as pessoas do palanque, durante 20 minutos aproximadamente. A apresentação é marcada por uma coreografia na qual os personagens interagem parados na frente de um palco. O grupo não faz um desfile processional, como no Maracatu Nação, cuja movimentação dos cordões laterais não implica em mudança nos desfilar processional da corte, cujos personagens não alteram posição (Sena; Storni, 2010). Alguns brincantes de outros grupos que se apresentaram anteriormente ao Estrela da Tarde permanecem no local, observando as performances. Percebi que dois homens-baianas do Maracatu Leão Mimoso de Buenos Aires, observavam a performance das baianas do Estrela da Tarde tecendo comentários sobre a indumentária e posição do rodar as saias. Penso que Martins (2013) sinaliza para esse tema ao afirmar que a performance ganha maior significado, observando a atuação de outros que interpretam o mesmo personagem. Isto será importante para
pensar os diferentes sentidos, que as baianas no maracatu rural assumem com a inserção de homens (homossexuais) na elaboração e performatização desse personagem39.
Às 19:00h a apresentação do Maracatu Estrela da Tarde finalizou, e fazendo o caminho de volta para o ônibus por uma rua paralela, os brincantes carregam suas roupas pesadas e suadas. Seguimos para Angélicas, distrito de Vicência, localizado à 5 km de Buenos Aires, mas de difícil acesso, pois a estrada que leva a essa localidade não é asfaltada e há muitas trechos íngremes demais para acelerar o ônibus. Sentado ao lado de um dos brincantes do grupo, conversamos bastante sobre diferentes assuntos. Todavia, ele deu muitas pistas para pensar a relação masculinidade e homossexualidade dentro e fora do maracatu rural. Apontando para um homossexual presente no ônibus e sentindo-se à vontade com minha presença iniciou uma conversa bem amistosa. De acordo com ele, muitos homens de Nazaré da Mata “curtem” outros homens às escondidas. Geralmente as plantações de cana aos redores da cidade servem como local para que as relações sexuais aconteçam.
Continuando nosso percurso pelas apresentações do Maracatu Estrela da Tarde, chegamos em Angélicas e novamente se repete o mesmo ritual: recolocar roupas, chapéus, surrão, erguer o estandarte e caminhar até o local da apresentação. Depois do sobe e desce na rua principal de Angélicas, o grupo se apresenta em 25 minutos e finalizando suas performances se dirige novamente até o ônibus. Tiram as roupas e colocam cuidadosamente na caminhonete, que as transportam. Alguns bebem água para reidratar e outros preferem a cerveja e até a cachaça (pitu). Outros se alimentam com aquilo que o comércio local dispõe. Todos aguardam Marco, que ficou no local da apresentação para receber o valor em dinheiro combinado com os organizadores.
Todos retornam para ônibus e a viagem continua até o município de Itaquitinga. Até este município são 46 km aproximadamente. Chegamos ao centro da cidade, toda enfeitada para o Carnaval daquele ano e onde se encontrava o local de apresentação dos maracatus convidados. Como sempre um palanque montado na rua principal da cidade constituída por autoridades da cidade. Quando o ônibus parou numa rua paralela ao evento, os brincantes foram avisados por Marco, que a apresentação seria naquele momento, que não havia tempo para descanso dessa vez. Todos se prepararam e se colocam logo em cena.
Com os rostos cansados da guerra travada, buscam manter a mesma animação na última apresentação daquele dia. Alguns brincantes não aguentando mais, ficam à paisana observando o grupo se apresentar. Enquanto o grupo se apresenta para o público de Itaquitinga, noto a ausência de uma baiana (Carlos). Pergunto sobre a sua ausência no grupo e um caboclo me diz que ele estava no ônibus bêbado. “Ele bebeu tanto ao longo das viagens que não aguentava fica de pé para brincar”, disse-me o caboclo.
A pedido de Marco o mestre Bil e seus auxiliares puxaram poucas loas, pois o grupo precisava voltar para casa para descansar. Às 22:10h o maracatu Estrela da Tarde encerrou suas apresentações e iniciaram o retorno para Nazaré da Mata.
1.3.3.4 Voltando para casa
Depois de um dia de apresentações pelas cidades, vilarejos e distrito da Zona da Mata Norte de Pernambuco, o maracatu retorna a sua origem: Nazaré da Mata. Muitos apresentavam o cansaço próprio das horas entre viagens e apresentações com suas indumentárias pesadas e quente, passando pelo o período de volta do maracatu nas cadeiras cochilando. Outros continuam a festa, comemorando mais um dia do maracatu e esperando outros momentos de se apresentarem com seu colorido e alegria. Estes continuam no ônibus puxando loas e sambando. Para acompanhar a festa, bebem bastante cachaça e fazem todo tipo de brincadeira para animar a todos. O percurso de Itaquitinga exige uma descontração para aguentar os 35 quilômetros de volta a Nazaré da Mata.
Este momento é de reflexão para o coordenador do grupo, que passa o percurso de volta refletindo e conversando com os brincantes para coletar alguma informação sobre possíveis erros, problemas de relacionamento e sobre o acolhimento nos lugares onde se apresentaram. É também a hora boa para conversar besteira, como me afirmou Eraldo, o bandeirista do maracatu. Para este “tudo agora...tudo deve ser festa, pois conseguimos com a proteção de Deus, botar o nosso maracatu na rua em paz”.
No percurso de retorno para o município, percebi que os homens sempre acionam as posições nas quais lhe permitem experimentar sensações e relações consideradas próprias do mundo masculino. A bebedeira e o extravasamento dos comportamentos denotam virilidade e estão no rol dos aspectos, que sempre demarcam o território próprio do homem e da mulher. Esta última deve ser sempre motivada a se distanciar desses elementos considerados masculinos. Para Ednaldo, “isso mostra como as mulheres na nossa brincadeira ainda precisa
ter uma imagem daquela mulher do tempo antigo, em que a mulher era de família e não podia ficar na bagaceira, bebendo e farando com os homens. Isso ficou para as raparigas”.
Nas minhas observações, percebi que algumas mulheres interagem com alguns homens em brincadeiras e bebedeiras dentro do ônibus. Isto é considerado por alguns bastante perigoso para elas, pois podem ser confundidas com “mulheres da vida”. Mas todas as mulheres que percebi neste momento festivo de retorno para Nazaré da Mata, estavam posicionadas conforme regras e valores do mundo masculino. Embora pudessem beber, fumar e até dançar, os gestos e comportamentos devem estar circunscritos sob as normas instituídas pelas desigualdades do gênero socialmente construídas.
Noto que a cada apresentação, o maracatu foi ganhando força e, embora estivessem cansados, faziam desse um momento singular da brincadeira e da manutenção da tradição popular, que caracteriza o município. Mesmo tendo ouvido de muitos integrantes, que sua disponibilidade para brincar estava relacionada à quantia paga pelos grupos, percebi que as participações também é uma mistura de obrigação e prazer, pois há uma dedicação nas performatizações e indumentárias dos personagens e contribuem de maneira significativa, fazendo o que vai além de suas atribuições com o grupo.
Então, chegamos à Nazaré da Mata. O ônibus parou no sindicato de agricultores do município a pedido de Marcos. Foi nesse lugar que os brincantes guardaram suas indumentárias para as outras apresentações durante o Carnaval. Marco já havia organizado um jantar com os recursos e alimentos doados pela população e comerciantes de Nazaré da Mata. Esse jantar para os brincantes se constituía de macaxeira e/ou inhame com galinha cozida. Este momento foi de bastante confraternização do grupo. Durante o momento que estão juntos se alimentando conversam sobre o que viram e ouviram nos lugares onde se apresentaram. Fazem comentários sobre os erros de um ou de outro brincante e, propõem melhoras. Porém, tudo num clima de descontração e brincadeira. Alguns brincantes preferem não jantar e despedem-se do grupo e deslocando-se até o centro da cidade para participar de festas do calendário carnavalesco, organizado pela Prefeitura. Há outros que avisam que estão voltando para casa.
1.3 Entre os rituais: religiosidade e o espetáculo
Meu contato com essa dimensão do maracatu rural foi significativo para compreender como o folguedo articula ritual, brincadeira, festa e proteção. Embora se perceba uma forte
influência dos rituais católicos nas festas dos grupos de maracatu, os cultos de matriz africana ganham um destaque importante, pois dão significados aos fenômenos simbólicos elaborados pelos participantes da brincadeira e, que remontam a uma proteção espiritual da festa e do brinquedo (grupo).
Ao visitar as casas dos brincantes, ao participar dos processos de preparação dos grupos de maracatu e ao frequentar as sambadas tive a oportunidade de conhecer senhoras, senhores e jovens, que de alguma maneira praticam seus rituais de jurema com dois propósitos bem definidos. O primeiro se refere à prática de crenças transmitidas por familiares e/ou pessoas importantes na vida destes sujeitos, possibilitando-os transitar entre os espaços sagrados da jurema e do catimbó da zona da mata pernambucana. Em segundo lugar, as práticas mágicas do catimbó permitem que estes sujeitos se tornem um importante elemento de proteção dentro do grupo de maracatu.
A religiosidade no maracatu rural de Pernambuco está ligada primordialmente aos elementos das tradições ritualísticas católica e afro-brasileira. Esta última em Pernambuco, encontra-se uma variedade significativa de rituais e mais precisamente na Zona da Mata percebe-se uma forte presença de cultos de jurema, de catimbó e de xangô40. De acordo com José Roberto Sena (2009, p. 01), o estudo aprofundado da origem e das práticas religiosas, que acompanham as apresentações do maracatu rurais, é escasso e recente, mas há um consenso de