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Aquando da chamada de atenção, pela Gestora C, para o facto de que o agrupamento de escolas da freguesia disponibilizava livros escolares, foi feita uma pesquisa para conhecer o âmbito em que a mesma era feita, como esta era conduzida e passar essa informação às proprietárias do café, de forma que elas, por sua vez, também pudessem explicar a terceiros. Ao entrar no sítio do agrupamento de escolas surgiu um aviso sobre o facto de que os cheques-dentista81, distribuídos às crianças durante o

ano letivo, teriam que ser utilizados até dia 31 de outubro de 2015.

Para perceber um pouco melhor esta questão, foi feito um telefonema para o centro de saúde, através do qual foi possível tomar conhecimento de que efetivamente poucas crianças haviam utilizado o cheque-dentista que receberam. Posto isto, foram impressas algumas cópias do comunicado e foi feita a divulgação, juntamente com um voluntário do Km². O comunicado foi afixado pelo Bairro do Rêgo e explicado o seu significado aos moradores.

Para além disso, aquando da realização do telefonema foi solicitado o envio de uma lista com todas as entidades onde os cheques poderiam ser utilizados, para informar a população e apoiar no agendamento das consultas.

Ao divulgar esta informação, os adultos referiram que também eles tinham essa necessidade, perguntando-nos se existiria a mesma possibilidade para eles. Foi explicado que não, mas que se iria tentar encontrar uma alternativa. Na realidade, poucos são os moradores do PER A que têm a dentição completa e a que têm está no geral muito degradada. As crianças têm cáries e dentes podres desde muito cedo e poucos são os hábitos de saúde oral. Foi explicado à população que o cheque-dentista destina-se apenas a públicos específicos - crianças, grávidas, idosos e portadores do vírus da imunodeficiência humana (VIH) -, e que para todos os outros grupos não existe esta possibilidade, no âmbito deste programa.

81 O cheque-dentista insere-se no Programa Nacional de Promoção de Saúde Oral (PNPSO) do Ministério da

Saúde. Este programa prevê a atribuição de cheques-dentista aos respetivos utentes beneficiários,

nomeadamente grávidas seguidas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), beneficiários do complemento solidário para idosos utentes do SNS e crianças e jovens com idade inferior a 16 anos.

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Porém, tendo a população mencionado esta necessidade e sendo ela visível, pensando não apenas na saúde, mas também na importância da dentição ao nível da imagem na procura de trabalho ou na socialização, pareceu pertinente procurar alternativas para a população adulta. Esta ação parecia fazer sentido, inclusive no âmbito da atividade do CER. Por sugestão do voluntário que acompanhou a divulgação do cheque-dentista, foi estabelecido um contato com a Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa (FMDUL), dada a sua proximidade geográfica em relação ao bairro. O contato foi feito com o objetivo de perceber quais as possibilidades de proporcionar cuidados de saúde oral e procurar incutir hábitos saudáveis à população, com custos reduzidos. Foi informado pela FMDUL que as consultas têm valores a partir dos 20€, dependendo do tratamento, se realizadas por alunos ainda por graduar. Nas consultas com alunos pós-graduados, o valor mínimo sobe para os 35€. Foi questionada a possibilidade de celebração de protocolos ou acordos e a resposta foi afirmativa, mediante uma reunião e apresentação de proposta à direção clínica.

Perante este cenário, a divulgação desta possibilidade não ia resolver nem o problema do desemprego, nem nenhum outro, mas ia dar seguimento a uma necessidade/problema legitimado pela população. Ia ser uma resolução para as questões levantadas.

Os gestores A, B e C foram informados por e-mail destas questões e respetivas possibilidades, acompanhadas da sugestão abaixo:

“Talvez se pudesse fazer um levantamento de quem realmente necessita e encontrar o número de consultas e fazer uma proposta. Ou então podemos apenas dizer que existem consultas na faculdade a partir de 20€ para os interessados.”

Foram obtidas diferentes respostas, no mesmo dia, pela ordem abaixo:

Resposta Gestor B:

“Olá Raquel bom trabalho (...) uma coisa chama a outra (...) Acho que temos de pensar melhor no assunto, se acharmos que há condições para Protocolo. Entretanto a informação pode ser passada, relativamente às consultas já existentes e a custos mais baixos, o que não impede que se conclua mais tarde por uma solução de maior compromisso.”

Resposta Gestor A:

“Minha querida. Não vamos conseguir por agora, abrir esse dossier. Não podemos chutar para cada assunto que possa ter cabimento no Km² porque senão, não teremos mãos a medir. Temos 4 prioridades de trabalho, sendo que um deles está nas mãos da FCG. Não vamos abrir mais nenhum. Se algum dos parceiros quiser ótimo, mas nós, Km², paramos por aqui. Temos de ter cuidado com o foco e com o nosso plano de actividades. Obrigada pelo empenho :)”

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“Sem querer insistir mas insistindo a dentição é muito importante por exemplo no âmbito da procura de emprego (...) Não faço a divulgação da possibilidade destas consultas a partir de setembro? Setembro é quando se dá início à marcação de consultas (...)”

Sendo que o Gestor A responde:

“(…) e sabes qtos mais problemas são relevantes (ainda mais relevantes) e a que nós não conseguimos chegar? Se queremos ser eficientes e eficazes, num projecto complexo como o nosso, precisamos de FOCO e o nosso já é distribuído por 4. :)

Relê a nossa proposta de trabalho para este ano e canaliza a proactividade para as mil acções que nos propusemos fazer pois é para isso que somos pagas…e avaliadas :)

Bom trabalho!”

Ao que se responde:

“OK! Combinado! Vou reler e estar atenta e focada nessas linhas orientadoras. Até já e obrigada”

Já presencialmente, questionou-se o Gestor A se a proposta de trabalho a ser lida é a proposta “O Nosso Km² 2015-2017”, sendo que esse plano foi descrito pela FCG como abaixo transcrito:

“Nós ainda não temos o plano para a execução do segundo ano para O Nosso Km², nessa perspetiva que a Raquel está a pôr ainda não é um bom plano porque quantifica atividades mas não tem ambições de resultados (…) está muito centrado em atividades muitas das quais nem sequer são executadas por eles (…)”82

Nesse mesmo dia, juntamente com o Gestor A, dirigimo-nos a uma nova mercearia que tinha aberto recentemente, na rua atrás do espaço d’ O nosso Km². Nesta mercearia deparamo-nos com uma outra situação.

Por falta de dinheiro suficiente para pagar a sua conta, uma mulher de etnia cigana, decidiu abdicar de tudo o que eram legumes e fruta, mantendo os doces e guloseimas. Perante esta situação, a gestora do projeto, que anteriormente, nesse mesmo dia, me disse para eu me focar no que são os eixos do Km², afirma que seria urgente fazermos algo no âmbito da alimentação e nutrição, que não se encontra em nenhum dos eixos. Naturalmente houve concordância imediata, mas pareceu incoerente com o que tinha sido transmitido apenas horas antes, relativamente à saúde oral, em que o argumento eliminatório foi não ser o foco e não constar do plano.

Ainda no âmbito do que é ou não parte do tal plano e da metodologia de ação a FCG refere ainda “(…)

Querem fazer replicações já para o Porto e para Oeiras e eu disse (…) mas vamos replicar o quê?

82 Fonte: Entrevista não estruturada concedida pela FCG, [jun. 2015]. Entrevistador: Raquel Ortas Rodrigues.

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Quer dizer uma ideia que está dentro da nossa cabeça? A gente não sabe pôr isto a funcionar ainda (…”)83

Perante esta situação creio que devem ser feitas algumas reflexões que diz respeito aos problemas a serem geridos, às ações e ao plano estipulado.

Não estando no plano especificada nenhuma ação concreta, mas apenas linhas gerais, as questões da dentição e da saúde no geral, poderiam ser táticas, ações que na perspetiva da empregabilidade podem eventualmente aumentar a autoconfiança e a procura ativa de trabalho e até algum sucesso nessa tarefa, para além de transmitir a todas as gerações, principalmente às jovens, hábitos diferentes e mais salutares do que os existentes no bairro.

Para além disso, dado que esta foi uma necessidade explanada pelos moradores, tal como no exemplo anterior, verifica-se que é feita uma diferenciação relativamente ao plano da equipa de gestão e às necessidades evidenciadas pelos moradores propriamente ditos, dando-se primazia a um plano que também não parece ser ainda um documento assim tão aprimorado. Tal como no âmbito da recolha de livros, também aqui existe um conflito de interesses entre a população e a própria equipa de gestão.

Esta parece ser a perceção da FCG. De acordo com o veiculado em entrevista existirá alguma falta de visão84:

“Entrevistador: há falta de prática?

Entrevistado: há falta de visão (…) vivem demasiado do dia-a-dia (…) e tem que haver um pedacinho do dia que seja para projetar futuro. Para pensar no amanhã.”

É verdade que esta é, tal como a situação anteriormente apresentada, uma situação detetada a um nível micro. Contudo são as preocupações e os problemas que são levantados pela população e que de alguma forma necessitam de ser legitimados mesmo que seja a uma escala de bairro, pis é desta forma que por um lado a população vai ganhando conhecimento e vai sendo estimulada não só a legitimar os seus problemas, mas também a fazer parte das soluções.