Existia um morador africano no PER A com graves problemas de alcoolismo. A degradação acontecia a olhos vistos. Certa noite, ao ficar até fora de horas no espaço Km², o morador entrou dizendo que se sentia mal, vendo-me confrontada com uma situação complexa. Sabia que o morador não tinha a sua situação legalizada em Portugal e não sabia se ao chamar uma ambulância não levantaria depois problemas com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), por exemplo. Acabei por contatar a irmã do morador, que o tinha expulso recentemente de casa por este ter chegado a um estado que tornava impossível a partilha de casa; acumulava comida que apodrecia, a embriaguez em determinados dias era de tal forma que atingia um estado de quase inconsciência e acabava por defecar e urinar-se. A ambulância foi chamada e os irmãos foram para o hospital. Importa referir que este morador do PER A era agora um sem-abrigo.
Entretanto, duas Irmãs Teresianas foram residir para o PER A e começaram a trabalhar com e no bairro. Desde logo, ao conhecerem este morador, ofereceram-se para o levar e o internar porque tinham relações privilegiadas com entidades que prestam o serviço de desintoxicação. Partilhou-se esta disponibilidade das Irmãs com a equipa gestora d’ O Nosso Km², que nessa altura explicou que há já muito tempo que andavam a tratar do processo de legalização desse morador, ao mesmo tempo que tentavam encontrar uma entidade de internamento. No entanto, no período que estive presente nada mudou para melhor, apenas um piorar da situação a cada dia que passava.
Ao que parece, acabaram mesmo por ser as Irmãs que deram seguimento e acompanharam o morador. A equipa de gestão d’ O Nosso Km², marcou uma consulta para o morador, com vista a que fosse encaminhado para tratamento. O morador foi acompanhado por uma das Irmãs, no entanto, quando lá chegaram, foi-lhes dito que nada podiam fazer já que ele não tinha a sua situação legalizada. Por sua vez, a equipa de gestão tinha certeza da possibilidade do atendimento.
Todo o processo pareceu meio desconexo, com as entidades desfasadas umas das outras e parece existir uma certa relutância por parte da equipa de gestão em aceitar a intervenção de outras partes, quando a necessidade ou vontade de integração parte de externos.
Existe um outro caso neste âmbito. Chegou ao PER A um senhor, caucasiano, vestido, calçado, de braço ao peito, sem em nada aparentar que poderia vir a tornar num novo sem-abrigo. Este homem inicialmente começou por ficar na casa de um outro morador, mas que entretanto faleceu, acabando, por isso, por ficar numa situação de sem-abrigo. Tal como o caso anteriormente relatado, a degradação neste homem caucasiano era visível de dia para a dia, assim como o aumento do consumo de álcool. Confrontou-se a equipa de gestão com a necessidade de se fazer algo antes que ele se tornasse um caso mais complexo e mais difícil de resolver. Este morador vinha ter connosco para se encetarem contatos de casas e quartos para alugar e a SCML mostrou-se disponível para contribuir com parte do montante. Mas, quem iria alugar um quarto ou uma casa a alguém com a aparência de sem abrigo e
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consumidor de álcool? Procuraram-se soluções alternativas nos abrigos de Lisboa. Transmitimos-lhe que que poderíamos visitar alguns. Recusou. Procurei ajuda junto da equipa de gestão e a resposta foi que “ele era um espertalhão” e não se obteve mais resposta. A verdade é que sentia que ele de certa forma abusava da disponibilidade e recusava constantemente as soluções que lhe eram apresentadas. A dado momento não compreendia qual seria o objetivo dele. Desconheço o ponto desta situação, atualmente.
Mas parece importante refletir sobre a complexidade deste problema. Este era um homem que tinha sido empregado de mesa e, ao que parece, autossuficiente, alugava um quarto onde vivia e pagava as suas despesas. Até que se magoou no braço, deixou de trabalhar, de conseguir pagar as suas contas e começou a beber. Que tipo de intervenção deveria ser feita? Claramente não bastaria a SCML pagar- lhe parte da renda, já que este homem precisaria de um trabalho para suportar a outra parte e as restantes despesas. No entanto, ignorar uma situação que se degradava progressivamente, certamente também não parecia fazer sentido, até porque, de um momento para o outro, já existiam dois sem-abrigo no PER A, para além do caso que se passa a descrever:
Vivia num outro PER próximo do PER A um jovem africano, sempre bem vestido e de banho tomado. Ia a casa tratar da sua higiene e mudar de roupa mas dormia na rua e adotou a rua do PER A como o seu lugar para pernoitar. Ao tomar conhecimento da situação falou-se com as irmãs que de imediato se ocuparam deste jovem e, ao que parece, continuam a acompanhá-lo.
Mas existiam mais casos relacionados com álcool no PER A, por exemplo, uma mulher, africana, já de meia-idade e mãe de um muito carismático jovem, estudante e trabalhador. A sua mãe tinha sérios problemas relacionados com o consumo abusivo de álcool. Era uma mulher desempregada, de coração enorme, mas que quase sempre, a meio da tarde já estava embriagada.
Todos viam, todos sabiam, mas nada era feito.
Era uma mulher que ia buscar comida à Abraço, ou ao Refood, e de seguida partilhava com quem vivia na rua. Esta mulher ajudava todos os que não tinham casa nem o que comer. Claramente esta era uma senhora que deveria ser empoderada e ajudada porque era um excelente exemplo de uma pessoa cuidadora e que se preocupava genuína e altruistamente com os vizinhos.
Estes casos e tantos outros, como o grupo de jovens caucasianos que diariamente passavam o dia inteiro sentados, à porta do café, a beber e a fumar, representam situações reais, do dia-a-dia do PER A. Situações e pessoas reais. Serão com certeza problemas reais, mas que não estão contemplados nos estudos, nem foram legitimados, por isso, é como se não existissem.
Mas vejamos, que este problema foi desde logo desvalorizado ainda antes de a iniciativa ir para o terreno, quando a FCG aborda o Sr. Padre que lhe diz que as pessoas sem-abrigo não representam um problema na freguesia. Este é um problema à volta do qual não se reúne quórum e por isso não é um problema visível, nem legitimado na Freguesia, mas que existe e está a crescer.