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A exploração do trabalho escravo, como já fartamente destacado, inegavelmente consiste em afronta sem medidas ao indivíduo enquanto pessoa, no entanto, também é de fácil percepção seus profundos reflexos na sociedade como um todo, pois transgride inúmeras regras e princípios do nosso ordenamento, impedindo a realização dos objetivos e fundamentos de nosso Estado.

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PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil: Direitos Reais. v. 4, 18. ed., Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 106.

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CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 13. ed., Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p. 593.

Neste caso, a propriedade, ainda que produtiva e socialmente útil, visto que geralmente tal prática constata-se em grandes imóveis rurais voltados à produção do agro-negócio para o mercado externo, bastante lucrativo, obviamente não atinge sua função social.

Os trabalhadores são submetidos a condições degradantes de trabalho, conforme cenário delineado no capítulo relativo ao Trabalho Escravo, realizando-se uma exploração que não só deixa de favorecer o bem-estar dos pelejadores, como os priva da expressão máxima de sua personalidade. Encontram-se ainda, tais trabalhadores, desprovidos da maior parte dos seus direitos trabalhistas, em clara não-observância das disposições que regulam as relações de trabalho.

Isabel Vaz consagra a utilização da propriedade em proveito pessoal, mas sempre tendo em vista os interesses da comunidade, destacando sua função como geradora de empregos, de forma a contemplar benefícios a empregador e empregado:

Retirar o capital, os bens de produção do estado de ócio (aspecto estático), consiste, pois, em utilizá-los em qualquer empresa proveitosa a si mesma e à comunidade. É dinamizá-los para produzirem novas riquezas, gerando empregos e sustento aos cooperadores da empresa e à comunidade. É substituir o dever individual, religioso, de dar esmola pelo dever jurídico inspirado no compromisso com a comunidade, de proporcionar-lhe trabalho útil e adequadamente remunerado. 48

Logo, percebe-se a indissociabilidade existente entre o direito de propriedade e o direito ao trabalho, até porque ambos consistem em direitos fundamentais advindos do princípio supremo da dignidade da pessoa humana. O exercício do primeiro deve dar-se em atendimento às disposições trabalhistas, conforme se infere pela redação do art. 186 da CF, e principalmente sempre tendo em conta os valores sociais do trabalho, fundamento de nosso Estado elencado no art. 1º da CF e a valorização do trabalho humano, base de nossa ordem econômica, portanto, norteadores da atuação estatal e de particulares.

Ismael Marinho Falcão reitera a profunda interligação existente entre propriedade e trabalho, destacando sua importância como fator de desenvolvimento sócio-econômico do país, mas salientando sempre a posição do labor como

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VAZ, Isabel apud BARROSO FILHO, José. Propriedade: A quem serves? Jus Navigandi, Teresina, ano 6, n. 52, nov. 2001. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2453>. Acesso em: 04 de março de 2007.

elemento propulsor de produção e, portanto, preponderante no desempenho da função social inerente à propriedade, pois, sem ele, o imóvel rural perde seu caráter de bem de produção, constituindo-se em mero objeto de comércio:

Daí verificamos que a doutrina da função social da propriedade traz consigo o objetivo primordial de dar sentido mais amplo ao conceito econômico da propriedade, encarando-a como temos afirmado até aqui, como uma riqueza, que se destina à produção de bens, para satisfação das necessidades sociais do seu proprietário, de sua família e da comunidade envolvente, em franca oposição ao velho e arcaico conceito civilista de propriedade. Vê-se, pois, que o conceito de função social está diretamente ligado ao conceito de trabalho, logo, o trabalho erige-se em esteio preponderante para a solidificação da propriedade no Direito Agrário, trazendo-nos para a realidade de “que a terra deve pertencer a quem a trabalhe”. 49

Não restam dúvidas em relação ao não-cumprimento dos requisitos do art. 186 / CF, na hipótese em discussão, logo, as propriedades em que se verifique a ocorrência dessa forma de aviltamento da dignidade humana latentemente não atendem à sua finalidade social, limite ao exercício abusivo deste direito subjetivo e constituinte do próprio conceito de direito de propriedade.

A não-observância dos elementos constitucionalmente exigidos para o cumprimento da função social da propriedade rural, por si só já ensejariam a promoção da desapropriação por interesse social, para fins de reforma agrária, mediante indenização (art.184 / CF). Entretanto, a PEC em estudo propugna pela expropriação sem qualquer indenização, nos mesmos moldes da já instituída pelo art. 243 / CF por conta da verificação do cultivo ilegal de plantas psicotrópicas.

A PEC nº 438 tem como finalidade básica a repressão e a prevenção da prática de trabalho escravo, principalmente nas propriedades rurais, onde sua incidência é maior, servindo, portanto, a expropriação como instrumento para coibir a reiteração do crime tipificado no art. 149 do Código Penal (reduzir alguém a condição análoga a de escravo).

Esta modalidade de desapropriação sem indenização, justifica-se ante a relevância do bem jurídico tutelado, configurando-se mesmo como uma desapropriação-sanção, o que José dos Santos Carvalho Filho chama de

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desapropriação confiscatória.50 A jurisprudência também tem entendido desta maneira no que concerne à atual modalidade de expropriação estabelecida pelo art. 243 / CF, conforme se infere pelo trecho do acórdão a seguir:

A expropriação de terras previstas no art. 243 da Constituição Federal tem natureza jurídica de pena, visando sancionar o uso da propriedade para o cultivo de plantas ilícitas [...] TRF 5ª Região - AC n.º 171053 - PE, 2ª Turma, Rel. Desembargador Araken Mariz, D.J, 09/02/2001

Dispondo acerca do direito de propriedade e da sua função social e reafirmando o posicionamento supra-referido, José Afonso da Silva afirma que a Carta Magna de 1988 só garante o direito de propriedade que atenda sua função social, excluindo de seu âmbito de proteção aquele que se concretize em colisão com esse princípio, o que faz através da correlação entre os incisos XXII e XXIII do art. 5º:

Se diz: é garantido o direito de propriedade (art. 5º, XXII), e a propriedade

atenderá a sua função social (art. 5º, XXIII), não há como escapar ao sentido

de que só garante o direito da propriedade que atenda sua função social. A própria Constituição dá conseqüência a isso quando autoriza a desapropriação, com pagamento mediante título, de propriedade que não cumpra sua função social (arts. 182, § 4º, e 184). 51

Nestes termos, não configura qualquer afronta ao direito subjetivo de propriedade a instituição da sanção de expropriação de glebas onde se verifique a ocorrência de trabalho escravo, pois o próprio direito de propriedade constitucionalmente garantido exige o atendimento de sua função social para que lhe seja albergada toda a proteção deferida pelas normas de nossa Carta Magna. Sob este enfoque, portanto, não se apresenta qualquer colisão axiológica entre a perda do direito de propriedade e o descumprimento de sua função social, visto que ambos os conceitos são interdependentes e só este direito atrelado à sua função social é amparado pelas normas constitucionais.

Tendo-se em vista o confronto de direitos fundamentais

constitucionalmente garantidos e aparentemente discrepantes ante a proposição em comento, como o são de um lado o direito de propriedade e do outro a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho, o direito à liberdade, à igualdade

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CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 13. ed., Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.690.

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etc., a hermenêutica ensina que se deve promover o sopesamento deles, de forma a harmonizá-los.

A condição de aplicabilidade e eficácia dos princípios baseia-se no princípio da proporcionalidade, através do qual se faz a ponderação axiológica dos mesmos, chegando-se à solução do conflito aparente por meio da maior valoração atribuída a um deles no caso concreto, tendo em vista principalmente o privilégio à dignidade da pessoa humana fundamento de nosso Estado consagrado no art. 1º da Constituição Federal. Assim, Magalhães Filho estabelece que:

Havendo colisão de direitos fundamentais em um caso concreto, deve-se referi-los à noção de dignidade da pessoa humana, pois nela todos os princípios encontrarão a sua harmonização prática, descobrindo-se uma solução que considera a existência de todos os direitos fundamentais, ao mesmo tempo que se procede a uma hierarquização entre eles, em consonância com a compreensão social do que é mais relevante para se alcançar o fim coletivo e a dignificação da pessoa humana. 52

Partindo da premissa de que a dignidade da pessoa humana é o fundamento material do Direito e da unidade axiológica da Constituição, em qualquer interpretação realizada esse princípio deve ser levado em consideração e valorado com relevo, pois se trata de pressuposto do próprio conceito de Direito e fonte de

todos os direitos, particularmente dos direitos fundamentais. 53

Portanto, todas as normas, não só quando de sua aplicação, mas principalmente quando de sua elaboração, devem estar adstritas ao princípio supremo da dignidade da pessoa humana, fundamento de nosso Estado Democrático de Direito, de maneira a assegurá-lo e criar mecanismos normativos para sua promoção.

Mesmo quando em aparente confronto com outros direitos fundamentais, a exemplo do direito de propriedade, deve-se destacar a dignidade da pessoa humana como forma mesmo de concretizar a unidade e coerência da Constituição, o que só é possível por meio da ponderação de valores promovida pela aplicação do princípio da proporcionalidade.

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MAGALHÃES FILHO, Glauco Barreira. Hermenêutica e unidade axiológica da Constituição. 2. ed., Belo Horizonte: Mandamentos, 2002, p. 229.

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Neste sentido, a PEC em debalde apresenta-se em plena consonância com o ordenamento jurídico pátrio, pois privilegia sobremaneira a valorização do ser humano enquanto pessoa, servindo de desestímulo à prática de atos atentatórios à dignidade humana, no caso em discussão, redução do trabalhador à condição análoga a de escravo.

A situação em tela, além de afrontar a própria unidade axiológica da Constituição, transgride uma série de outros direitos fundamentais, conforme supracitados. Portanto, não se vislumbra outra conclusão consoante com a ordem jurídica nacional que não a de sobrelevar o leque de direitos fundamentais agredidos em detrimento do direito de propriedade, apresentando-se plenamente possível a instituição da expropriação de terras em que se constate exploração de trabalho escravo.

A intervenção do Estado na propriedade privada, portanto, justifica-se por dois fundamentos básicos: a supremacia do interesse público sobre o privado e a função social da propriedade.

Celso A. B. de Mello, considera mesmo a função social da propriedade como manifestação concreta deste princípio:

O princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado é princípio geral de Direito inerente a qualquer sociedade. É a própria condição de sua existência. Assim, não se radica em dispositivo específico algum da Constituição, ainda que inúmeros aludam ou impliquem manifestações concretas dele, como por exemplo, os princípios da função social da propriedade [...] Afinal, o princípio em causa é um pressuposto lógico do convívio social. 54

A própria concepção moderna de Estado, o qual deixou de ser mero espectador da atuação individual, ampliando o seu caráter social, procurando proteger a sociedade como um todo e não apenas uma parcela restrita de pessoas, autoriza a ingerência do Estado, por meio do seu poder de império, na esfera particular, de forma a adequar o direito de propriedade à sua finalidade social.

Não se pode negar a mácula a alguns interesses individuais, como o direito de propriedade, na busca de satisfazer o interesse público, sempre voltado para o atendimento das necessidades da coletividade, no entanto, esta mitigação

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faz-se necessária em nome de um interesse maior, o bem-estar social, alcançado por meio da harmonização dos conflitos existentes, de maneira a se proporcionar um convívio social pacífico.

De certo, se a propriedade cumpre sua função social e não prevalece interesse público inarredável, como, por exemplo, a proteção do patrimônio histórico e a redistribuição de terras, não há porque o Estado nela intervir, só sendo necessária tal atitude quando se observa transgressão aos fins dispostos em nossa Carta Política como a serem buscados pelo proprietário no gozo do seu direito. Nesse sentido, Carvalho Filho estipula que:

se o proprietário não respeita essa função, nasce para o Estado o poder jurídico de nela intervir e até de suprimi-la, se esta providência se afigurar indispensável para ajustá-la aos fins constitucionalmente assegurados. 55

O traspasse da supremacia do interesse público sobre o privado para o caso concreto, portanto, só se concretiza quando ocorre o conflito entre ambos, o que claramente se observa na situação em comento, na qual, além do não cumprimento da função social da propriedade, há afronta a inúmeros postulados básicos de nosso sistema jurídico, dentre os quais o já fartamente citado e fundamento maior de nosso Estado que é a dignidade da pessoa humana.

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CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 13. ed., Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p. 590.