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3 POTENCIAIS IMPACTOS DO AUMENTO DA CFEM

3.2 Simulação dos impactos do aumento da CFEM

3.2.2. Choques

A escolha de realizar simulações através de um modelo de equilíbrio geral se deu pela possibilidade de testar os impactos, sobre as economias regionais, de diferentes mudanças na carga tributária incidente sobre a indústria de mineração, dado o iminente aumento da cobrança de royalties no Brasil. Para isso, foram estimados três cenários:

Cenário 1: elevação de 1% na arrecadação tributária total incidente sobre a extração de minérios;

Cenário 2: elevação de 3% na arrecadação tributária total incidente sobre a extração de minérios; e

Cenário 3: elevação de 6% na arrecadação tributária total incidente sobre a extração de minérios.

Dado que a CFEM é apenas uma rubrica da carga tributária sobre a exploração mineral (vide seção 2.3.2), um determinado aumento percentual na tributação total do setor representa uma elevação proporcionalmente superior nas alíquotas da CFEM. Entretanto, a opção pelos cenários de aumento na carga tributária total, ao invés de um aumento apenas nos royalties, se deu por uma limitação do modelo adotado. Isto porque, apesar de discriminar a tributação incidente sobre cada setor em cada região, o modelo em tela não abre esta tributação em diferentes rubricas (por exemplo, IRPJ, ICMS, CFEM, etc.).

Antes de dar os choques no modelo, mas após sua implementação e calibragem103, recomenda-se um teste para averiguar possíveis erros computacionais e de balanceamento do banco de dados. Dada a estrutura teórica presente (homogêneo de grau zero para alterações no numerário), um teste de homogeneidade pode ser implementado aplicando-se um choque de 1% no numerário do modelo para o seu fechamento de curto prazo. O resultado esperado é

103 Sobre calibragem de modelos de equilíbrio geral computável ver Haddad (1999), Dixon e Parmenter (1996) e Dixon et al. (1992).

um aumento de 1% em todas as variáveis nominais, sem que as variáveis reais se alterem, e o modelo aqui utilizado correspondeu a esta expectativa.

Após realizado o teste e verificada a adequação do modelo, os choques foram implementados com o intuito de refletir a seguinte cadeia de fenômenos:

i. Há um aumento na carga tributária incidente sobre a indústria de mineração, conforme o cenário escolhido;

ii. A variação na arrecadação tributária do governo se deve ao aumento da cobrança de royalties sobre a exploração mineral, dado que todos os demais tributos permaneceram constantes;

iii. Esta nova arrecadação destina-se: 65% para o município onde foi extraída a substância mineral; 23% para o respectivo estado; e 12% para órgãos da União104;

iv. A nova arrecadação dos municípios e estados produtores é gasta com investimentos dentro da própria região, devido exatamente ao seu propósito de compensação financeira à sociedade por conta da extração mineral105; e

v. Esta injeção de recursos se espalha pela economia conforme os fluxos de comércio da região.

No limite, o objetivo das simulações aqui implementadas é mensurar os resultados do item ‘v’, a partir do evento ocorrido em ‘a’, vis-à-vis as potenciais perdas oriundas da menor atividade na indústria de mineração, dado o aumento do seu custo de produção. Entretanto, como a estrutura das equações do modelo não segue exatamente a lógica descrita nos itens acima, os choques que refletem esta sequencia foram, na prática, implementados de forma diferente.

Como o modelo adotado não distribui os gastos do governo com a nova arrecadação, necessariamente, através de investimentos dentro da economia local, primeiramente era preciso mensurar quanto um aumento percentual na arrecadação tributária iria gerar de

104 Vide capítulo 2.

105 Dada a arbitrariedade da escolha de quais deveriam ser os setores da economia regional contemplados com estes investimentos, considerou-se que os novos gastos do governo, apesar de ocorrerem dentro da economia local, seriam repartidos de acordo com a distribuição que já ocorria antes do aumento na arrecadação.

recursos a mais em reais para o governo. Com este intuito, adotou-se o seguinte procedimento106:

i. Foi dado um choque de aumento na arrecadação tributária do governo sobre a produção de quatro dos 110 produtos existentes no banco de dados, sendo eles, minério de ferro, carvão mineral, minerais metálicos não-ferrosos e minerais não- metálicos107; e

ii. A partir do choque anterior, foi calculada a variação, em reais, na arrecadação tributária de cada região, referente à produção destes produtos108.

Dado o aumento verificado na arrecadação tributária, era preciso mensurar quanto isto representava dos gastos dos governos regionais na sua própria economia regional. Para isso, adotou-se o seguinte procedimento109:

i. Para cada região, foi aplicado o percentual de 88% sobre o valor da variação na arrecadação do governo, referente ao montante da CFEM que é destinado aos municípios e estados produtores110;

ii. Foram levantados os valores, em reais, referentes aos gastos de cada governo regional dentro da sua própria região, antes do choque na carga tributária; e

iii. Para cada região, foi calculada a razão entre os valores encontrados nos itens ‘i’ e ‘ii’, com o intuito de mensurar quanto, em termos percentuais, o aumento da arrecadação tributária representava no gasto do governo dentro da sua região.

A partir destes resultados, é possível saber qual deve ser o choque no gasto de cada governo regional dentro da sua região com o intuito de refletir o gasto exato dos recursos oriundos do

106 Esta sequência foi implementada para cada par cenário-fechamento, considerando os três cenários existentes e os dois tipos de fechamento (curto e longo prazo).

107 A opção pelo choque na tributação sobre a produção destes quatro produtos ao invés do choque direto na tributação de um setor específico ocorreu por dois motivos: (i) não há na base de dados utilizada no modelo um setor que contemple apenas empresas de exploração mineral sujeitas ao pagamento da CFEM; e (ii) devido à configuração do banco de dados, aparecem vários setores que produzem estes quatro produtos, sendo que sobre a produção de cada um deles pode incidir a CFEM.

108 Calculado através do valor da arrecadação depois do choque menos o valor da arrecadação antes do choque. 109 Mais uma vez, esta sequência foi implementada para cada par cenário-fechamento, considerando os três cenários existentes e os dois tipos de fechamento (curto e longo prazo).

aumento na arrecadação tributária, por conta da mudança na CFEM111. Assim, identifica-se como e em qual proporção devem ser os choques para que reflitam a sequência lógica originalmente pretendida. Portanto, desfeitas as simulações anteriores e voltando ao modelo original, os choques implementados foram os descritos na Tabela 16.

Tabela 16. Choques implementados Fechamento Aumento na

carga tributária

Aumento nos gastos do governo regional

MG PA RBR

Cenário 1 Curto prazo 1% 0,82% 2,99% 0,10%

Longo Prazo 1% 0,82% 2,99% 0,10%

Cenário 2 Curto prazo 3% 2,42% 8,87% 0,29%

Longo Prazo 3% 2,40% 8,77% 0,29%

Cenário 3 Curto prazo 6% 4,74% 17,36% 0,58%

Longo Prazo 6% 4,69% 17,16% 0,57%

Elaboração do autor.

Os principais resultados das simulações são apresentados a seguir.