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CAPÍTULO 2: LINHAS DE INVESTIGAÇÃO EM DIDÁCTICA EM CIÊNCIAS 2.1 Nota Introdutória

2.6. Ciência, Tecnologia e Sociedade e Ambiente (CTSA)

Os constantes desafios da sociedade moderna e pós-moderna, em contínua alteração e progresso, implicam uma crescente preocupação com a educação científica e uma mudança de mentalidade e de atitude por parte dos cidadãos. A Ciência e a Tecnologia invadem o nosso dia-a-dia implicando a, cada vez mais frequente, necessidade de tomada de decisões científicas e tecnológicas (Neto, 2004). Toda a pessoa para se constituir como um cidadão activo que intervém no seu dia-a-dia de forma responsável, consciente, empenhada e democrática, carece de uma informação, conhecimento e formação que a habilitem a assumir a sua cidadania. Como instituição crucial para formação de um cidadão, a escola tem sido impelida a desenvolver-se e a progredir, no sentido de melhor poder responder às expectativas com que hoje se confronta, quer no que se refere às necessidades da sociedade actual quer relativamente ao que se projectam como necessidades da sociedade de futuro (Unesco, 1998; Marçal Grilo, 2001). Este mundo em vertiginosa mudança implica um constante cuidado e preocupação com a necessidade de constante reajustamento e adaptação do que se admite como essencial e básico no ensino

das Ciências, particularmente no que se refere à escolaridade básica obrigatória. Segundo Cachapuz et al. (2008) “A relevância social e cultural da ciência numa sociedade sustentada na ciência e na tecnologia converge, necessariamente, para uma resultante “sócio-cívica” (…), ou “responsabilidade social”, (…) e são estes vectores que têm vindo a orientar de modo mais ou menos explícito a grande maioria das reformas educativas

desde os anos 80 e 90 do século XX” (p. 28). Segundo Vygotsky (1986), citado por Neto

(2004), o contacto da criança com conceitos científicos na escola promove a consolidação de um pensamento reflexivo na criança. No entanto, educadores e construtores de opinião pública criticam o ensino das Ciências por se ter afastado das reais necessidades da sociedade actual (Martins, 2002b). Neste contexto, e também para contrariar o crescente desinteresse dos alunos face à Ciência, sentida cada vez mais como algo separado da realidade, a linha de investigação representada pela tríada Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS) conhece um grande desenvolvimento, assumindo particular destaque nas últimas décadas (Furió e Vilches, 1997, referidos por Duarte 2000).

Embora já há bastantes anos se tenha começado a delinear uma interacção entre a Ciência e a Tecnologia, inicialmente assistiu-se a uma tendência para considerar a Tecnologia como um ramo subordinado à Ciência. Apenas nas últimas décadas se sentiu necessidade de o sistema de ensino valorizar ambas as áreas, num sentido de interacção e influência mútua (Sequeira, 2004c). Em 1974, com a finalidade de destacar o papel da Tecnologia na Sociedade, a Unesco recomendou que a iniciação à tecnologia e ao mundo do trabalho devia ser uma componente fundamental da educação geral sem a qual esta permaneceria incompleta (Unesco, 1974, citado por Sequeira, 2004c).

Por outro lado, a Ciência-Tecnologia e a Sociedade (CTS) desenvolvem-se através do estabelecimento de relações múltiplas e complexas. Os cidadãos são envolvidos na discussão e na tomada de decisão sobre questões científicas com implicações éticas, pelo que se assiste a uma influência da sociedade nas questões de índole científica-tecnológico, bem como a intervenção activa da Ciência e Tecnologia em questões eminentemente sociais (Praia, 2000, Ministério da Educação, 2001b). Neste sentido a Associação Nacional de Professores de Ciências, referida por Sequeira (2004c) considerou que a principal finalidade da educação em Ciências é formar indivíduos educados em Ciências, que compreendam a interacção entre esta, a Tecnologia e a Sociedade, e desenvolvam a capacidade de aplicar este conhecimento na tomada de decisões em situações reais com

que se deparem no seu quotidiano, compreendendo a relevância e as limitações da influência da Ciência e Tecnologia na Sociedade. Os objectivos para uma Educação em Ciência e Tecnologia, definidos em 1981, também valorizaram a aprendizagem de um conhecimento básico sobre a interacção entre a ciência e a sociedade e o contributo da ciência para a nossa herança cultural (Chisman, 1984 referido por Sequeira, 2004c). Segundo Martins (2002b) a escolaridade obrigatória deve ser conduzida por dois objectivos: i) ensinar o que é básico e ii) ensinar como esse saber é importante.

Por fim, tornou-se inevitável a articulação da tríada CTS com o ambiente pois qualquer alteração num dos seus intervenientes influencia os restantes mas também terá consequências para o meio ambiente. Assim, actualmente esta linha de investigação é referida como a articulação ente Ciência-Tecnologia-Sociedade-Ambiente (CTSA) (Praia, 2000). No âmbito de um ensino CTSA é possível explorar diferentes combinações, tais como, SCS e ACS, de acordo com os objectivos que o professor definiu e tendo em conta os alunos a que se destina. Contudo, e numa perspectiva de EPP, o processo de ensino e aprendizagem deve iniciar-se em problemas relacionados com a Sociedade e/ou Ambiente (Cachapuz, 2000). De acordo com Cachapuz (2000) um ensino CTSA permite: i) que a aprendizagem de conceitos e dos processos se imponha como uma necessidade face à resolução de situações-problema inseridos no contexto real do aluno; ii) explorar uma diversidade de áreas e temas geralmente envolvidos num problema, contribuindo para uma compreensão multidisciplinar e trandisciplinar dos problemas e iii) a utilização de situações-problema relevantes para o aluno e passíveis de futura mobilização para o seu dia-a-dia. Marques et al. (2001) salientam ainda que um ensino CTSA: i) promove a discussão sobre diferentes propostas de resolução de questões do quotidiano; ii) permite a valorização de valores humanistas no desenvolvimento da Ciência e iii) favorece o uso de estratégias diversificadas para promover discussões e debates sobre situações em que não é possível manter a neutralidade ética.

A perspectiva CTSA centra-se no ser humano, na sociedade, no ambiente e nos seus problemas, tentando responder às diferentes controvérsias sociais através de um uso inteligente da Ciência e da Tecnologia. Nesta perspectiva privilegiam-se as capacidades de decisão e Resolução de Problemas, como competências essenciais à formação do aluno como cidadão (Sequeira, 2004d).