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Cibersociabilidade

No documento INTERNET E EDUCAÇÃO (páginas 116-124)

Mas a internet é muito mais que um repositório de hipertextos. Nela se realizam operações diversas, como transações bancárias e comércio eletrônico. Mas, provavelmente, o fenômeno de maior ineditismo que ela vem permitindo emergir seja o relacionamento com sujeitos remotos, produzindo uma nova forma de sociabilidade.

qualquer traço de sua materialidade: são sujeitos sem rosto e sem voz, que se dão a conhecer por autonarrativas. A comunicação poderá ser realizada de forma síncrona, com ferramentas como os MUDs, as salas de bate-papo (chats) e os mensageiros instantâneos, como o ICQ64 e o MSN, sendo que os primeiros privilegiam a comunicação coletiva e os últimos privilegiam a comunicação aos pares. Também poderá se dar de forma assíncrona, principalmente através das comunidades de relacionamento, como o Orkut, e os diários virtuais chamados de weblogs ou, simplesmente, blogs. Esses diversos usos da internet incessantemente nos interpelam para que assumamos identidades65 múltiplas, por vezes propositalmente sem correspondência com as narrativas nas quais nos reconhecemos e com nossa materialidade, mas sempre funcionando como mecanismos de subjetivação e de produção de significados.

Principalmente nos ambientes de comunicação síncrona, onde se realiza a troca simultânea de mensagens, a necessidade de rapidez na interlocução e as particularidades desses meios vêm produzindo um uso da linguagem inovador, que mistura características da escrita e da oralidade. Embora sempre tenha havido distintas formas de escrita (a linguagem que utilizamos para escrever uma carta pessoal é bastante diferente do tipo de linguagem utilizada num relatório técnico), parece que esse uso de uma linguagem internáutica, que não tem o menor respeito com as regras formais, ainda que permita uma comunicação eficiente e rápida, tem mostrado isso com maior clareza. O intenso uso desses recursos por uma parte dos internautas está produzindo uma ressignificação do papel da linguagem e do letramento em geral, com efeitos que ultrapassam o ciberespaço.

É sempre um sinal claro de que uma novidade “chegou” quando as pessoas em outras situações lingüísticas começam a repeti-las na fala. Portanto, é de grande interesse notar o modo como as características do netspeak já começaram a ser usadas fora das situações mediadas por computador, mesmo tendo o veículo se tornado disponível para as pessoas somente na década passada.

[...] Quantos desses desdobramentos vão se tornar uma característica permanente do inglês no século XXI é impossível dizer. O mesmo se aplica ao impacto da Internet em outras línguas (CRYSTAL, 2005, p.95-96).

64 O nome desse aplicativo é um jogo sonoro, de origem inglesa, para I Seek You – eu procuro você.

65 Tomo identidade como “as sedimentações através do tempo daquelas diferentes identificações ou posições que adotamos e procuramos ‘viver’, como se viessem de dentro, mas que, sem dúvida, são ocasionadas por um conjunto especial de circunstâncias, sentimentos, histórias e experiências única e peculiarmente nossas, como sujeitos individuais. Nossas identidades são, em resumo, formadas culturalmente” (HALL, 1997, p.26). Ou seja, a identidade é uma forma de representação do sujeito, em constante transformação e exibindo fraturas. No caso da comunicação via internet, usarei o termo identidade para designar um conjunto de características que os sujeitos se atribuem na criação de suas descrições on-line.

A linguagem sincopada dos internautas pode ser entendida como uma nova forma lingüística que entra na arena dos significados, disputando espaço e modificando os posicionamentos. São significados produzidos além dos muros escolares, mas que estão se inserindo nas salas de aula, seja por meio de posturas mais conservadoras, que temem que esse uso “não-autorizado” da linguagem destrua o “bom” uso da língua, seja por meio de posturas mais próximas aos Estudos Culturais, que entendem esse uso como uma forma de cultura e que o trazem para escola para tomá-lo como um elemento de discussão. Em geral, temos percebido que os jovens usuários de internet têm discernimento em que situações lhes é permitido o uso da linguagem internáutica e quando é conveniente o uso da linguagem culta.

A internet e seus mecanismos de comunicação contribuem para que os processos identitários se desterritorializem. A identidade é uma invenção e não um construto transcendente ligado ao sujeito. Ela nunca foi una ou estável, mas sua fragmentação e volatilidade estão se acentuando na Contemporaneidade. Algumas categorias que tradicionalmente eram representadas como doadoras de identidade vêm perdendo força e cedendo espaço para outras novas que estão sendo criadas. A localidade, um dos marcos identitários mais importantes da Modernidade, tem uma menor importância para os grupos contemporâneos que se constituem a partir de determinadas idéias, gostos e comportamentos, aos quais muitas vezes chamamos tribos66. Entretanto, se a localidade constituía um marco identitário com validade de longo prazo, as tribos são marcos identitários de curto prazo, consumíveis, como são elas próprias. Tribos aparecem e desaparecem, na maioria das vezes, em curtos períodos de tempo.

Nas identidades que vestimos no ciberespaço não precisamos pagar tributos aos locais onde nascemos e/ou vivemos. A identidade pela qual nos damos a conhecer pode ser produzida com narrativas que não estejam nem mesmo atreladas a nosso corpo, a nosso gênero, a nossa raça, a nossa idade, a nossos atributos físicos. Às vezes, o ciberespaço dá a sensação de que “posso ser quem eu quiser”. Em determinados recursos de comunicação on-line, sendo os chats o principal exemplo, parece que podemos mudar de identidade como

66 A expressão tribos, utilizada por Maffesoli (1987) na obra O tempo das tribos e retomada pelo mesmo na obra Sobre o Nomadismo (MAFFESOLI, 2001), vem sendo amplamente utilizada, tanto em trabalhos acadêmicos como pela mídia. O sociólogo francês analisa os comportamentos dos jovens nos centros urbanos sob a égide do nomadismo, da fragmentação e de um certo tipo de consumo, mostrando a constituição de grupos marcados pela efêmeridade, com inscrição local e desprovidos de organização.

quem muda de roupa67. Gostaria de problematizar essa noção que podemos nos tornar quem desejarmos no ciberespaço. Nas narrativas que utilizamos para nos descrever nesse tipo de comunicação, a invenção da identidade se desterritorializa e permite enfraquecer os laços com a materialidade, caso desejemos. Nem por isso não encontra amarras e fronteiras. São outros limites, mais elásticos, sutis e voláteis. Mas, para que não se caia numa representação de internet como uma tecnologia autônoma (STERNE, 1999), não devemos pensar nos processos que lá ocorrem como desvinculados de outros processos sociais. A internet é mais um componente do contexto cultural onde desenvolvemos nossas experiências e construímos as representações. Mesmo que permitindo um maior espaço de criação, a invenção de uma identidade internáutica está articulada com nossa rede de significados. Ela se constitui a partir dessa rede e, simultaneamente, a modifica, numa relação de imanência.

As identidades internáuticas estão articuladas com a subjetividade, numa relação de produção mútua.

A reconstrução e transformação da identidade atinge a velocidade do transporte de dados na Contemporaneidade. Dentro dos ambientes virtuais, essa velocidade é ainda mais acentuada. Tentar classificar as identidades que habitam o ciberespaço com o binômio verdadeiro/falso é cair na armadilha do jogo da verdade moderno. Entretanto, penso ser importante marcar que seu processo de criação e os significados que são atribuídos a elas são diferentes daqueles das identidades vivenciadas no espaço material. A veloz criação e destruição de identidades internáuticas, identidades descartáveis68 das quais podemos nos livrar com certa facilidade, amplificam o sentimento de desengajamento e desterritorialização. A volatilidade das identidades e dos relacionamentos que travamos on-line aumenta aquilo que Giddens (1991) chama de desencaixe. “Por desencaixe me refiro ao

‘deslocamento’ das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço” (GIDDENS, 1991, p.29). O desencaixe

“retira a atividade social dos contextos localizados, reorganizando as relações sociais através de grandes distâncias tempo-espaciais” (GIDDENS, 1991, p.58).

Personas internáuticas são criadas para que os sujeitos possam participar das chamadas comunidades virtuais. Essas personas tornam-se parte da identidade do sujeito e

67 Aqui faço um trocadilho como uma expressão usada nos chats. Trocar de roupa num chat significa sair da sala e retornar com um novo nick, ou seja, com um novo apelido.

68 Volto a ressaltar que, mesmo altamente voláteis e fragmentárias, não se deve tomar as identidades internáuticas como falsas. Elas constituem parte da subjetividade e estão integradas àquilo que cada um entende como realidade. Ainda que os processos de criação de identidades on-line sejam distintos daqueles que tradicionalmente ocorrem na vida cotidiana, com seus processos de sedimentação, isso não significa que sejam menos reais.

estão imbricadas na produção da subjetividade. As comunidades podem ter formas diversas.

No início, elas se resumiam a grupos de discussão. Depois, vieram as salas de bate-papo, os softwares de mensagens instantâneas e os jogos on-line. Atualmente, juntam-se a essas opções os sites de relacionamento, como o Orkut, e os diários virtuais, chamados blogs. Em todos os casos, podemos interagir com outras pessoas que nos são desconhecidas. Para poder realizar a comunicação, criamos uma persona virtual, que terá um nick69 e será descrita de uma determinada forma, tanto em relação a seu aspecto físico, quanto em relação a aspectos de sua personalidade. Criamos narrativas que nos representam para a comunidade, criamos uma identidade para usarmos no ciberespaço, que poderemos aceitar como mais ou menos representativas daquilo que pensamos ser. Na maioria das vezes, podemos destruir essa identidade com um simples clique do mouse. Nos sites de relacionamento, podemos colocar uma fotografia, mas alguns colocam imagens de personagens em quadrinho, figuras abstratas, fotografias suas na infância ou algum outro tipo de imagem, furtando-se a revelar suas características físicas atuais.

De acordo com o que vimos anteriormente, o acesso a comunidades é a subcategoria que mais tem ocupado os internautas brasileiros. Mas será possível existir comunidade quando as identidades não têm a mínima estabilidade e quando o que os sujeitos mais desejam é desengajar-se, pois ser livre é o imperativo? As comunidades virtuais certamente não se parecem com as antigas comunidades territoriais, onde os membros achavam-se ligados por compromissos éticos de longo prazo. Porém, sua existência não pode ser negada, tendo em vista que milhares de pessoas aí interagem. Para alguns, essas comunidades assumem uma importância incomensurável, podendo chegar a um extremo de serem consideradas uma realidade mais concreta do que aquela das relações presenciais. As comunidades virtuais baseiam sua existência em outros valores, distintos daqueles tradicionais, mas que expressam uma nova forma de significar a realidade. Para muitos, a contingência das comunidades virtuais constitui-se numa prova de sua pouca importância e até de sua irrealidade. Tomar o efêmero como algo falso ou de pouco valor parece-me um pensamento ainda imbuído da lógica moderna. Na Contemporaneidade, a durabilidade já não se constitui num valor. O reconhecimento do valor hoje está desvinculado da noção de duração. Tome-se como exemplo as artes plásticas: os quadros e esculturas modernos foram

69 Nick – forma abreviada de nickname (apelido). Refere-se ao nome com que nos apresentamos numa comunidade. Muito freqüentemente o nick é criado para passar uma idéia sobre a pessoa (ex: G@tinha, Lobo Solitário, Cowboy, Louco por Música,...).

substituídos pelas instalações, muitas delas feitas com materiais que se desintegram em apenas poucos dias.

As comunidades virtuais mais parecem aquilo que Bauman (2003) chama de comunidades estéticas, não exigindo compromissos de longo prazo e que podem ser abandonadas no instante em que desejarmos. Servem para dar um pouco de conforto, para confirmar que existem outros como nós. As comunidades estéticas são comunidades pertencentes à realidade e podem produzir fortes efeitos sobre a subjetividade. Mas, ao contrário das tradicionais comunidades éticas, a relação de pertença é uma relação eletiva e que pode ser cancelada com facilidade. A comunidade ética está ligada ao território e dela fazem parte todos habitantes, sem que haja a opção de estar fora, a menos que se possa evadir-se do lugar.

Para Bauman (2001), a civilidade é a arte de convivermos com os estranhos que compartilham conosco o espaço da cidade. “O encontro com estranhos é um evento sem passado. Freqüentemente é também um evento sem futuro” (BAUMAN, 2001, p.111). A civilidade é uma espécie de máscara que colocamos, permitindo uma sociabilidade liberada de sentimentos, que não venha a constranger ou sobrecarregar o outro. O espaço urbano é civil porque permite “que as pessoas [o] possam compartilhar como personas publicas – sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a tirar as máscaras e ‘deixar-se ir’, ‘expressar-se’, confessar seus sentimentos mais íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias”

(BAUMAN, 2001, p.112). Esse espaço urbano público e compartilhado por estranhos é característico da Modernidade. Os espaços urbanos públicos contemporâneos vêm deixando de ser espaços de convívio com estranhos, espaços civis. Cada vez mais podemos nos encontrar fisicamente próximo dos estranhos sem necessitar interagir com ele. Se os espaços

“públicos, mas não civis” evitam o intercâmbio, estratégias que nos livram de vez da presença de estranhos são ainda mais atraentes. O preço que pagamos é um isolamento crescente. Ironicamente, podemos nos comunicar instantaneamente com todos em todas as partes, mas parece que os laços que nos unem às outras pessoas são cada vez mais fracos70.

“As ênfases estão mudando e nunca estivemos tão perto daquela solidão que Norbert Elias descreveu para o Homo clausus” (VEIGA-NETO, 2002, p.175).

Mas a Contemporaneidade cria seus artefatos para tentar nos livrar dessa incômoda clausura, ainda que por instantes fugidios. As salas de chat são dispositivos que nos dão essa sensação de não estarmos sós, sem que necessitemos da incômoda presença física do

70 Sobre a precarização das relações afetivas em diversas dimensões (casais, família, amigos, comunidade) ver Bauman (2004).

estranho. Nesses lugares podemos desfrutar do prazer da conversação numa relação marcada pela volatilidade. Ao contrário das relações presenciais, que impõem o peso da materialidade corporal do outro, no ambiente virtual podemos escapar, sumir, desaparecer no exato instante em que desejarmos. Esse outro a quem desejamos conhecer, com quem desejamos nos relacionar, já não nos assusta com sua presença. São relações desterritorializadas, desregulamentadas e descomprometidas, que desconstroem a civilidade. Se na cidade moderna devíamos poupar os estranhos de nossa intimidade, revestindo esses contatos com rituais de cortesia impessoal, no mundo dos chats podemos falar o que desejamos, expor nossos mais íntimos segredos, pois estamos protegidos pelo anonimato e pela volatilidade da rede. Na maioria das vezes, o que interessa aos freqüentadores de chats é a comunicação, não importando muito quem seja o interlocutor. É um novo arranjo de (in)visibilidades. Sant’anna (2002, p.108) comenta as disposições da sociedade contemporânea observando que “nesse novo arranjo, a comunicação transforma-se num imperativo inquestionável e os comunicantes, transforma-seres incertos, questionáveis e rapidamente substituíveis”.

As comunidades que promovem a cibersociabilidade têm se tornado a base para a estruturação dos ambientes digitais de EaD.

7 A AULA SEM SALA

Pode-se prever que a Educação será cada vez menos um meio fechado, distinto do meio profissional – um outro meio fechado – mas que os dois desaparecerão em favor de uma terrível formação permanente, de um controle contínuo se exercendo sobre o operário-aluno ou o executivo-universitário.

(DELEUZE, 1992, p.216) Chama-se de Educação a Distância (EaD)71 os processos de ensino-aprendizagem nos quais o professor e os alunos não compartilham o mesmo lugar simultaneamente, necessitando que sua relação seja mediada por algum tipo de tecnologia. Essa modalidade educacional tornou-se virtualmente possível a partir da invenção da imprensa por Gutenberg, no século XV. Desde então havia a possibilidade de massificar a circulação da informação, separando o emissor e o receptor espacial e temporalmente, o que modificou a relação da Humanidade com o conhecimento e produziu profundas transformações no pensamento e na cultura. A imprensa foi a primeira tecnologia que tornou economicamente viável transmitir o conhecimento sem a co-presença do professor e dos alunos, tendo em vista os altos valores dos livros copiados à mão que existiam até então. Na época de sua invenção, as escolas apresentaram grande resistência ao livro impresso, pois temiam tornar sua função obsoleta e desnecessária. Pensava-se que, havendo livros com valor acessível, bastaria lê-los em casa para ter acesso à educação (ALVES, 2005). Como podemos ver, isso nunca chegou a acontecer... Entretanto, esse mesmo temor alimentou diversos professores e intelectuais quando surgiram os primeiros materiais instrucionais da telemática. De acordo com as análises do capítulo 9, nada hoje aponta para o fim da escola, nem dos professores, ainda que suas funções possam estar sofrendo deslocamentos.

71 Atualmente, diversos autores estão tratando os termos Educação a Distância e Ensino a Distância como práticas distintas. Segundo Landim (1997), Ensino a Distância refere-se a cursos cuja metodologia está centrada no ato de ensinar, ou seja, no professor, com baixa participação do aluno na construção do conhecimento. Nesses casos, o aluno recebe um material de estudo com o conteúdo a ser aprendido e realiza avaliações finais para verificar a aprendizagem do que foi apresentado, sem que haja interações e discussões com o grupo. Já na Educação a Distância, o aluno desempenha um papel ativo na construção do conhecimento, havendo uma preocupação de proporcionar uma formação de maior abrangência. Nesse tipo de prática, são previstos recursos e orientação metodológica que incentivem a participação dos alunos e promovam a interatividade. Os antigos meios utilizados em cursos a distância – correspondência, rádio e TV – permitiam, basicamente, o Ensino a Distância. A internet, com suas ferramentas de interação, tornou possível a Educação a Distância. Adotei neste trabalho a expressão Educação a Distância, tendo em vista que irei tratar, principalmente, de cursos que utilizam os recursos de interatividade. Para maior clareza, usarei esse termo indiscriminadamente, aplicando-o mesmo naqueles casos que seriam classificados como ensino.

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