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O Poder sobre a Vida

No documento INTERNET E EDUCAÇÃO (páginas 64-69)

essência do ser humano, inventada pelos cristãos, mas como produção permanente que envolve e domina o corpo, se inscreve em sua superfície. A alma moderna é fabricada pelas vigilâncias, sanções e adestramentos. A Modernidade acreditou na existência de um Homem cuja essência deveria ser libertada. Esse Homem já era, ele próprio, um efeito de sujeição das práticas discursivas que instituíram essa verdade. “A alma, prisão do corpo” (FOUCAULT, 1999, p.29).

As disciplinas irão se multiplicar e se generalizar durante o século XVIII, formando o que Foucault chama de sociedade disciplinar. Um número crescente de instituições passa a adotar esquemas disciplinares para seu funcionamento. Esse alastramento da disciplina acontece não apenas pelo aumento de estabelecimentos com regulamentos disciplinares, como também pela tendência apresentada pelos mecanismos disciplinares a atravessarem os muros e circularem cada vez mais pelos interstícios do tecido social (FOUCAULT, 1999).

desbloqueio da arte de governar, permitindo sua inserção na prática política. As condições para que esse desbloqueio aconteça encontram-se na relativa ausência de conflitos territoriais naquela época, o que diminui a preocupação em relação à soberania, bem como uma abundância monetária conjugada com a expansão demográfica. Esses fatores tornam premente a necessidade de dar atenção ao governo da população (FOUCAULT, 2003), promovendo o aparecimento de tecnologias de previdência e regulamentação.

Conforme Lazzarato (1997), as disciplinas se estruturam sobre o espaço, ainda que rigidamente controlem o uso do tempo. É no confinamento e na separação dos corpos que as técnicas disciplinares fundamentalmente se apóiam. Já o biopoder estrutura-se sobre o tempo, um tempo-duração que será utilizado para compreender o desenrolar dos fenômenos, como as séries de eventos se comportam dentro de um determinado intervalo.

Com a estatística, os fenômenos individualmente aleatórios passam a representados com uma racionalidade própria, apresentando períodos de recorrência que podem ser avaliados.

O intenso desenvolvimento dos relógios de mola e pêndulo no século XVII proporcionou instrumentos para uma medida precisa do tempo, podendo-se pensar nesse acontecimento como uma das condições para o surgimento do biopoder. Lazzarato cita um trabalho de Gabriel de Tarde, publicado em 1901, no qual esse autor já afirmava a tendência do uso privilegiado da estatística como forma de regulação da população. Conforme Lazzarato, para Tarde a estatística traduz em séries temporais os atos sociais – morrer, nascer, comprar, vender, produzir,... —e as intenções sociais— os desejos, as crenças,... Ou seja, ela expressa as relações sociais como tendências que podem ser redirecionadas, redimensionadas, manipuladas. A estatística é um instrumento para governar. A estatística não traça uma cartografia da sociedade, visto que não apreende um sentido estático, mas uma

“curvografia”, neologismo referente a curvas que descrevem a variação relativa entre duas grandezas vinculadas em gráficos cartesianos. Nessas curvas, um dos eixos será representado pelo tempo. A estatística apreende as dinâmicas temporais.

A população irá se constituir como um problema político e científico, como finalidade e como instrumento do governo. A governamentalidade do Estado encontra suporte no biopoder, que terá por objetivo controlar os processos da vida para maximizá-la. O poder do soberano era um poder negativo em relação à vida, era o poder de matar. O biopoder é um poder positivo30, que maximiza a vida. Em outras palavras, o poder soberano “de fazer morrer ou de deixar viver” torna-se com o biopoder aquele “de fazer viver e de deixar

30 Uso positivo no sentido que Foucault atribui ao termo, ou seja, como, como aquilo que produz, incita, faz aparecer.

morrer” (FOUCAULT, 2002, p.287). Com o aparecimento do biopoder, o brilho ritualizado da morte passa a ser apagado. Ela passa a ser cada vez menos visível e discreta. A morte é o que escapa do poder.

O biopoder não irá substituir a disciplina. Pelo contrário, esse novo poder necessita da disciplina e com ela se articula, complementado-a para intensificar a governamentalização da sociedade (SOUZA; GALLO, 2002). Tampouco o poder soberano desaparece.

De modo que é preciso compreender as coisas não como a substituição de uma sociedade de soberania por uma sociedade de disciplina, depois de uma sociedade de disciplina por uma sociedade, digamos, de governo.

Tem-se, de fato, um triângulo: soberania-disciplina-gestão governamental cujo alvo principal é a população, e cujos mecanismos essenciais são os dispositivos de segurança (FOUCAULT, 2003, p.302).

A eficácia do biopoder está na regulamentação da vida a partir de seu interior, fazendo com que seja aceito com naturalidade. Tanto maior sua imanência, sua articulação com a sociedade, tanto menos resistência suscita.

O biopoder é uma forma de poder que rege e regulamenta a vida social a partir de seu interior, seguindo-a, interpretando-a, assimilando-a e reformulando-a. O poder só pode obter um domínio efetivo sobre a vida inteira da população tornando-se uma função integrante e vital que todo indivíduo abrace e reative por conta própria (HARDT; NEGRI, 2000, tradução minha).

Abraçar e reativar o poder por conta própria são tarefas possíveis apenas para sujeitos que se autogovernam, ou seja, para sujeitos disciplinados. A disciplina e o biopoder aparecem com uma defasagem de um século, mas se sobrepõem e se articulam para reger um corpo individual e um corpo espécie. Essas novas técnicas de poder surgem pela inoperância do poder soberano, que deixava escapar “muitas coisas, tanto por baixo como por cima, no nível do detalhe e no nível da massa” (FOUCAULT, 2002, p.298). A disciplina recupera o detalhe e surge antes por ser uma acomodação mais fácil de se realizar, por exigir saberes mais simples. O biopoder, que irá tratar dos fenômenos da população, surge um século depois por implicar saberes mais elaborados e sofisticados, necessitando técnicas de coordenação e administração. Essas duas tecnologias de poder dão origem a duas séries:

“corpo—organismo—disciplina— instituições; e a série população—processos biológicos—

mecanismos regulamentadores—Estado” (FOUCAULT, 2002, p.298). Ainda que os mecanismos reguladores estivessem fortemente ligados ao Estado no seu surgimento, já também apareciam em instituições que Foucault chama de subestatais, como instituições médicas e caixas de auxílio.

Com o biopoder, pela primeira vez a vida como fenômeno biológico é tomada como um fato político. Produzir e reproduzir a vida, estendê-la ao máximo, é agora uma tarefa a ser planejada e realizada pelo Estado (FOUCAULT, 2001). O biopoder subjetiva ao fazer com que os indivíduos se reconheçam como seres vivos, organismos a serem cuidados, pertencentes a uma espécie.

Foucault não se limitava a dizer que o paradigma da soberania como poder de vida e de morte foi substituído por um poder concebido como gestão, crescimento e multiplicação da vida. Ele salientava que uma relação de imanência do poder em relação a seu objeto estava também instaurada – relação que conduz a encarar, de modo resolutamente tencionando e paradoxal, poder e subjetivação como as duas faces de um mesmo processo.

Se a vida se tornou não o que o poder reprime, mas aquilo do qual ele se encarrega e atualiza para forjar sua própria alavanca, é necessário dizer que os sujeitos ocupam nesse dispositivo um lugar fortemente ambivalente:

aquele de ponto de aplicação e de fonte, de campo de efetuação e de potência causal (ALLIEZ et al., 2000, tradução minha).

Mas em nome da vida, o biopoder também produz a morte. Para proteger a vida de uma população será exercido o poder de exterminar aqueles que se julgue uma ameaça.

Morte para os que possam ameaçar, de diversas formas, uma população: ameaçar a pureza de uma raça, a segurança ou a sobrevivência da espécie. “São os perigos externos ou internos, em relação à população ou para a população [...]. O imperativo de morte, só é admissível, no sistema de biopoder, se tende não à vitória sobre os adversários políticos, mas à eliminação do perigo biológico” (FOUCAULT, 2002, p306).

O elemento que irá articular o poder disciplinar com o poder regulador é a norma. A forma de exercício desses poderes “é alheio ao da regra como efeito da vontade soberana.

Portanto, as disciplinas [e o biopoder] vão trazer um discurso que será o da regra; não o da regra jurídica derivada da soberania, mas o da regra natural, isto é, da norma. Elas definirão um código que será não da lei, mas da normalização” (FOUCAULT, 2002, p.45). Isso não significa um apagamento das instituições judiciárias, mas a mudança nas leis, que passam a funcionar cada vez mais a partir de princípios normativos. Ao invés do desaparecimento, ocorre uma proliferação legislativa. O normativo expressa-se por códigos, constituições e

“toda uma atividade legislativa ruidosa” (FOUCAULT, 2001, p.135). Entretanto, o espaço legal é insuficiente para abrigar a norma. A norma transborda da lei e será quase onipresente na docilização de corpos e na regulamentação da vida.

Até o século XIX, norma e regra eram utilizadas como sinônimos. Nessa época irão se diferenciar. Norma passa a ser compreendida como um tipo particular de regra e um princípio de valorização que opõe o normal e o anormal ou o normal e o patológico. Estas

duplas são faces da mesma moeda: normal e anormal estão ambos na norma. A referência para esse jogo de valores será a média. O anormal é aquele cujo desvio da média é considerado excessivo (VEIGA-NETO, 2003). Embora Foucault não tenha estudado a temática da norma em si, ao estudar as relações sujeito-verdade as práticas normativas atravessaram-se seguidamente no caminho. Para compreender as características da norma deve-se proceder a um estudo transversal de suas obras (EWALD, 1993). Assim, pois, será entre o final do século XVIII e o início do século XIX que veremos a emergência dessa noção de norma que irá desempenhar um importante papel na constituição das sociedades até os dias de hoje.

A norma é medida comum, adotada por um grupo, sem apelar para exterioridades.

Na norma não há lugar para o ideal, o essencial, o universal. A individualização não acontece por uma divisão em categorias, mas no interior de uma única categoria. A norma complexifica-se e alastra-se para dar conta de todos os indivíduos. É um juízo de valores auto-referente e que se transforma continuamente para incluir a todos: o anormal faz parte da norma. Individualiza incessantemente, tornando os indivíduos comparáveis, numa relação infinita e incessante. Num mesmo movimento, a norma iguala e desiguala. Iguala quanto coloca todos indivíduos dentro de uma categoria. Os indivíduos tornam-se comparáveis, instituindo um princípio de valorização pela superfície. Ao mesmo tempo, a norma confere-lhes uma objetividade, tornando-os desiguais, pela hierarquização que obriga a cada um a reconhecer sua posição única dentro da norma. Cada indivíduo é um caso. Uma prática normativa totaliza e individualiza.

A norma jamais é absoluta e universal. Valerá apenas dentro de um grupo, num determinado tempo. É daí que ela extrai sua força, desta capacidade de constantemente acompanhar as mudanças e diferenças sociais, numa relação de imanência. O anormal e o patológico existem objetivamente no interior de uma sociedade, ainda que tenham significados contingentes. O bem e o mal são criados dentro da norma. A norma abriga polaridades. A norma inclui, pois nada lhe é exterior. Mas também exclui, ao marcar o anormal, o patológico, o deficiente, o incapaz (EWALD, 1993).

Essa noção de norma aparece quase simultânea com a emergência do biopoder, cerca de um século após o aparecimento do poder disciplinar. Desse modo, parece que aquilo que Foucault (1999) chamou de sociedade disciplinar no livro Vigiar e Punir tenha durado apenas esse período de cerca de um século, que separa o surgimento da disciplina do surgimento da norma. No século XIX, teria havido a passagem para aquilo que Foucault denominou no

curso de 1976, no Collége de France, sociedade de normalização, cuja emergência seria um efeito das tecnologias centradas na vida (FOUCAULT, 2002).

A sociedade de normalização não é, pois, nessas condições, uma espécie de sociedade disciplinar generalizada cujas instituições disciplinares teriam se alastrado e finalmente recoberto todo o espaço [...]. A sociedade de normalização é uma sociedade onde se cruzam, conforme uma articulação ortogonal, a norma da disciplina e a norma da regulamentação (FOUCAULT, 2002, p.302).

Desse modo, uma análise da obra de Foucault nos mostra que suas investigações irão distinguir três formas de organização social a partir da Idade Média, tomando como ponto central para compreendê-las o modelo hegemônico do exercício de poder. Durante o Antigo Regime, as sociedades de soberania submeteram o povo fundamentalmente pelo exercício da violência. No final do século XVII, um poder mais econômico e produtivo emerge, deslocando a hegemonia da violência, produzindo as sociedades disciplinares. No início do século XIX, quando surge a noção de norma, o biopoder vem se articular com o poder disciplinar, complexificando os mecanismos reguladores e constituindo a sociedade de normalização.

No documento INTERNET E EDUCAÇÃO (páginas 64-69)