• Nenhum resultado encontrado

2 ABORDAGEM TEÓRICA

2.1 CICLO DE POLÍTICAS E O PROGRAMA MAIS EDUCAÇÃO

A abordagem do ciclo de políticas (policy cycle approach), formulada por Stephen Ball e colaboradores, comporta uma análise crítica, contextualizada de programas e políticas de educação, considerando as conjunturas macrossociais de sua elaboração até sua implantação no contexto da prática e os seus resultados correspondentes (MAINARDES, 2006).

Um dos fatores determinantes da avaliação da política pública deve ser o monitoramento e reajustamento desta, partindo de dados objetivamente mensuráveis. Ao propor que o desenvolvimento da pesquisa crítica acolha as políticas culturais da diferença e combine-as com as políticas sociais da igualdade, Ball (2006) advoga a necessidade da compreensão histórica da formulação das políticas públicas. Ao afirmar que uma pesquisa crítica referente a políticas públicas precisa requerer a compreensão do contexto social e histórico em que será aplicada ou desenvolvida, o autor agrega à esta compreensão uma investigação que perceba as políticas culturais da diferença, combinando-as com as políticas sociais da igualdade.

Para o autor, o caminho da pesquisa e análise de política pública deve ser construído pelo pesquisador, com base no conhecimento complexo da formulação da política e no conhecimento do espaço e do público a que estas se destinam e qual seu propósito. Defende ainda que as pesquisas críticas sociais precisam ser concebidas como meio de desenvolver estratégias, com a finalidade de lidar com as desigualdades produzidas em decorrência das atuais políticas.

Essas táticas são reforçadas devido ao fato de, muitas vezes, tais políticas não terem nascido da necessidade do povo, mas da concepção idealista de gestores e políticos responsáveis pela estrutura e criação dos ideais presentes no sistema político vigente. Isso pode resultar em resistências de indivíduos ou grupos às mudanças no momento de sua implementação (BALL, 2006).

É possível perceber que as políticas públicas, principalmente as educacionais, não apresentam o que é preciso fazer (metodologia), apenas estabelecem metas e criam circunstâncias, onde o espectro de soluções possíveis é restrito. Ficam implícitas, principalmente para o executor, as soluções ao cumprimento do programa de governo.

As concepções de políticas públicas não se configuram como única condição de sua análise, mas também seu processo de aplicação e implantação, que contempla o próprio conceito e compreensão como uma condição ou situação que venha do povo para o povo.

Dentre os programas educacionais no Brasil, na última década, se destaca o Programa Mais Educação (PME), concebido como uma política pública com vistas ao cumprimento de um fim e o bem-estar da população a que se destina. Foi criado com a finalidade de ser um programa indutor, representando, hoje ainda, uma estratégia para a construção de uma concepção contemporânea de educação integral.

Com a implantação do PME em 2007, coordenado pela Secretaria de Educação Básica, do Ministério da Educação (SEB/MEC), em parceria com as Secretarias Estaduais e/ou municipais, o Brasil começou a traçar um percurso diferente (mas não único ou inusitado), na busca e na expectativa de fomentar e induzir a educação integral nos diversos níveis educacionais.

A necessidade de ampliar a oferta da educação, principalmente da educação integral, surgiu em 2006, quando o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) revelou as mais profundas desigualdades nas condições de aprendizagem na educação escolar.

Com a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade e Inclusão (SECADI) em 2004, permitiu-se o desenvolvimento de uma série de propostas na busca do enfrentamento dos desafios na educação pública brasileira. Um dos principais agentes motivadores de criação dessa secretaria foi a perspectiva de universalizar o acesso, a permanência e a aprendizagem na escola pública. Essas condições de desigualdades se apresentavam caracterizadas como sendo um reflexo da estrutura social, política e econômica da sociedade brasileira. O governo federal vem procurando melhorar esses índices, buscando nas próprias instituições escolares a solução para os problemas detectados pelo IDEB.

A partir da construção de uma ação intersetorial entre as políticas públicas educacionais e sociais, com objetivos voltados para diminuição das desigualdades educacionais, o desenho de uma nova proposta de educação integral no Brasil começou a se formar, fruto de diversos setores, como poder público, comunidade escolar e a sociedade civil, assegurando o compromisso de todos com a construção

de um projeto de educação que estimule o respeito aos direitos humanos e ao exercício da cidadania (MEC/SECADI, 2009b).

O Estado, ao buscar promover a educação integral, percebeu a possibilidade de diversas conexões e aprendizagens no processo de escolarização, identificando as dimensões múltiplas dos indivíduos, com vistas à reestruturação da escola, com a finalidade de atender aos novos desafios. Esta proposta de educação integral foi construída na pretensão de valorizar a diversidade cultural brasileira e priorizar uma gestão compartilhada entre vários órgãos e setores (intersetorial, interministerial e intergovernamental

O Brasil optou como proposta de solução imediata, média e de longo prazo, a incorporação de atribuições à Escola, no que até então eram de responsabilidades da família e do estado. As competências a serem desenvolvidas pelas escolas nesta nova perspectiva são: desenvolvimento de hábitos de higiene, saúde, alimentação e socialização e principalmente as atividades de esportes e lazer, com vistas a ocupar o tempo disponível das crianças e dos adolescentes, após o cumprimento das tarefas da escola formal.

Esta tese toma como moldura a abordagem do Ciclo de Políticas, utilizando-se dos contextos de influência, produção do texto e prática para identificar as interferências na edificação do Programa Mais Educação, assim como os suportes para a produção do texto e a análise dos efeitos e resultados do momento em que a política é executada e sujeita à interpretação.