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Para pensarmos o trabalho no contexto da docência compartilhada, é necessário definir o entendimento da SME/SP sobre o conceito de interdisciplinaridade. No documento: Diálogos interdisciplinares a caminho da autoria é explicitada uma definição dessa perspectiva de trabalho:

Interdisciplinaridade, como currículo em movimento, constitui-se como parte de uma política de ações que intencionalmente articulam as propostas de trabalho das diversas áreas de conhecimento, a partir da contextualização e problematização da realidade. Existem inúmeros caminhos

68 interdisciplinares. O nosso debate se dará na busca de metodologias a serem construídas, considerando a realidade contemporânea e os sujeitos envolvidos no processo educativo, assim como a experiência construída na Rede Municipal de Ensino de São Paulo. (SÃO PAULO, 2016, p. 59).

De forma genérica e sem apontamentos sobre o que se espera e como serão realizadas as atividades nesse ciclo de trabalho, a SME/SP a partir da promulgação do decreto nº 54.452/13 regulamentado pela Portaria nº 5930/13 traz em seu artigo 5º, inciso II, alínea a.2, a seguinte redação para definir na divisão em ciclos, as peculiaridades que fazem parte do Ciclo Interdisciplinar de aprendizagem:

Ciclo Interdisciplinar: compreende do 4º ao 6º ano do Ensino Fundamental, e tem como finalidade aproximar os diferentes ciclos por meio da interdisciplinaridade e permitir (ao estudante) uma passagem gradativa de uma para outra fase de desenvolvimento, bem como consolidar o processo de alfabetização/letramento e de resolução de problemas matemáticos com autonomia para a leitura e a escrita, interagindo com diferentes gêneros textuais e literários e comunicando-se com fluência e com raciocínio lógico.

(São Paulo, 2013).

Em seu artigo 8º, a referida portaria determina o trabalho de docência compartilhada nos 6º anos do ensino fundamental e em seu inciso I, esse artigo apresenta como se organizará esse trabalho:

Art. 8º: No Ciclo Interdisciplinar, os 6ºs anos do Ensino Fundamental serão ministrados pelo Professor de Ensino Fundamental II e Médio em docência compartilhada com o Professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I, observadas as seguintes regras: I – A docência compartilhada dar-se-á, preferencialmente, nas aulas de Língua Portuguesa e de Matemática. (São Paulo, 2013).

Infelizmente, essa portaria não fornece outros elementos para pensarmos a organização da gestão pedagógica quando realizada por dois professores. Ela apenas explicita que, preferencialmente, deverá ocorrer nas aulas de Língua Portuguesa e Matemática, deixando em aberto se professores de outras disciplinas possam ser beneficiados com essa forma de trabalho.

Especificamente sobre a docência compartilhada, o documento orientador traz a seguinte definição:

O princípio da docência compartilhada pressupõe o planejamento conjunto dos professores especialistas (professor do ensino fundamental II), e do professor polivalente (professor de educação infantil e ensino fundamental I), de acordo com o Projeto Político Pedagógico (PPP) de cada Unidade Educacional, articulados pelo coordenador pedagógico, de forma que o trabalho de um não se sobreponha ao do outro – eles se complementam.

Docência compartilhada é marcada pela corresponsabilidade dos professores do Ciclo Interdisciplinar (4º, 5º e 6º anos) no planejamento dos cursos, na organização da estrutura dos projetos, na abordagem interdisciplinar das diferentes atividades de sala de aula, no acompanhamento e avaliação das dinâmicas de aprendizagem do grupo-

classe e dos estudantes individualmente – fora ou dentro do espaço da sala de aula. (SÃO PAULO, 2013c, p.36).

Curi e Ultimura (2015) realizaram um trabalho de pesquisa junto a estudantes de 5º ano do ciclo interdisciplinar da rede de ensino do município de São Paulo, no contexto das aulas de figuras geométricas espaciais. Encontro, nessa investigação, aspectos que, de forma mais abrangente, sinalizam como a docência compartilhada atua no sentido das práticas pedagógicas.

Segundo as autoras:

Um dos objetivos do Projeto de Docência Compartilhada é conduzir, direcionar a passagem dos alunos dos anos iniciais para os anos finais, por meio do planejamento de um projeto realizado em conjunto entre os professores envolvidos, inserindo um professor especialista para os quartos e quintos anos, atendendo e orientando os alunos durante as aulas, e um professor dos anos iniciais para os sextos anos, visando intervenções didáticas e pedagógicas mais adequadas a esses alunos.(UTIMURA; CURI, 2016, p. 17).

As autoras salientam, ao longo da investigação, a forma colaborativa como o trabalho em conjunto deve ser realizado, em que, as decisões didáticas pedagógicas, devem ser tomadas por todos os envolvidos no processo, evitando assim, possíveis problemas no contexto da experiência educativa.

Costa (2005, apud DAMIANI, 2008, pp. 214-215) estabelece uma distinção entre trabalho cooperativo e colaborativo:

Embora tenham o mesmo prefixo (co), que significa ação conjunta, os termos se diferenciam porque o verbo cooperar é derivado da palavra operare – que, em latim, quer dizer operar, executar, fazer funcionar de acordo com o sistema – enquanto o verbo colaborar é derivado de laborare trabalhar, produzir, desenvolver atividades tendo em vista determinado fim. Assim, para esse autor, na cooperação, há ajuda mútua na execução das tarefas, embora suas finalidades geralmente não sejam fruto de negociação conjunta do grupo, podendo existir relações desiguais e hierárquicas entre os seus membros. Na colaboração, por outro lado, ao trabalharem juntos, os membros de um grupo se apoiam, visando atingir objetivos comuns negociados pelo coletivo, estabelecendo relações que tendem à não- hierarquização, liderança compartilhada, confiança mútua e corresponsabilidade pela condução das ações.

Sobre essa ótica, à docência compartilhada, deveria ser organizada colaborativamente, com dinâmicas e práticas diversificadas, acompanhando e avaliando os procedimentos de trabalho, tendo sempre em vista as aprendizagens dos estudantes. Porém muitas vezes essa situação não ocorre, e como aponta Tardif e Lessard (2004) ela é necessária para a reflexão sobre o exercício da docência.

70 A hipótese que subjaz à nossa abordagem é que os ofícios e as profissões de interação humana apresentam, por causa da natureza humana do seu

“objeto de trabalho” e das modalidades de interação que unem o trabalhador a esse objeto, características suficientemente originais e particulares que permitem distingui-las das outras formas de trabalho, sobretudo o trabalho com a matéria inerte. Além disso, à docência, enquanto trabalho de interações, apresenta ela mesma, alguns traços particulares que estruturam o processo de trabalho cotidiano no interior da organização escolar. [...], é a de lançar as bases para uma teoria da docência compreendida como trabalho interativo, trabalho sobre e com o outro. (TARDIF e LESSARD, 2004, p.11).

Passaremos a discutir como é a organização do processo avaliativo no ciclo de aprendizagem.