5.1. Compras Estratégicas
5.1.5. Ciclos frequentes de transporte (Milk-Run)
Jones e Womack (2004) apontam tanto os sistemas puxados e nivelados quanto os ciclos frequentes de transporte como recomendações prioritárias na fase de desenvolvimento do Estado Futuro 2. Nesta fase do método proposto pelos autores, é que são endereçadas as oportunidades em uma cadeia de suprimentos ampliando-se o escopo além das operações internas às empresas.
Na abordagem tradicional, há caminhões cheios indo e vindo de cada fornecedor. Já nos ciclos frequentes de transporte, também conhecidos como milk-run (termo em inglês amplamente conhecido e associado à esta estratégia, por sua analogia com a entrega seqüenciada e freqüente de leite para várias casas, presente antigamente em alguns lugares), quantidades combinadas são coletadas de cada fornecedor, ou entregues para cada cliente.
A Figura 31, a seguir, traz uma comparação hipotética entre a abordagem tradicional e a abordagem tradicional e a de ciclos frequentes de transporte para itens comprados de três fornecedores.
Figura 31: Abordagem tradicional versus ciclos frequentes de transporte para itens comprados Fonte: Baudin (2004)
Um milk-run de suprimentos é a coleta seqüenciada de itens de múltiplos fornecedores em quantidades combinadas, sendo uma apropriado abordagem para: reduzir inventários globais em uma cadeia de suprimentos, trazer previsibilidade aos prazos de entrega mesmo para itens de consumo variável, nivelar o trabalho da área de recebimento, promover uma apropriada infra-estrutura para a transmissão de sinais puxados.
A aplicação de ciclos frequentes de transporte tem diversas vantagens, sendo que a principal delas é a redução do inventário e, portanto, reduzindo todos os custos associados à manutenção de estoques elevados. Jones e Womack (2004) ressaltam que, na prática, permite a eliminação de paradas de material em depósitos intermediários.
Ao mesmo tempo, ao contrário do que se pode imaginar a distância percorrida e os custos de transporte não aumenta quando se utiliza um sistema de milk-run corretamente dimensionado, pois o planejamento da rota pode ser otimizado usando-se sistemas eletrônicos de seqüenciamento, on-line ou por meio de sistemas de posicionamento global (GPS – Global
Positioning System), ou até mesmo algoritmos e planilhas eletrônicas de seqüenciamento,
conforme podemos observar em Baudin (2004).
Os ciclos frequentes de transporte também tornam os lead-times de reposição mais previsíveis e acurados, principalmente para itens frequentes e de consumo previsível. Eventuais atrasos, problemas ou faltas ficam claramente expostos, seguindo a mesma lógica de exposição de problemas e métodos estruturados de solução dos mesmos, que a produção enxuta aplica para o ambiente interno à manufatura.
Sabemos que, na prática, muitas empresas têm de lidar com centenas e milhares de itens com diferentes freqüências de entrega, e caso a entrega tenha de ser feita no sistema tradicional (individualmente e com cargas completas), isso se torna um grande problema. Com o milk-run, essa complexidade é reduzida, pois torna possível a requisição de quantidades menores sem a geração de custos enormes adicionais de transporte e/ou estoques.
Baudin (2004) ressalta que, nos casos de uso de embalagens retornáveis, quando aplicados os ciclos frequentes de transporte, pois estas terão seu uso maximizado, ou seja, assim como os produtos também terão seu giro aumentado. Uma vez que a frequencia de uso é um forte determinante da viabilidade econômica para o uso de embalagens retornáveis, as mesmas terão o seu retorno sobre investimento amplificado, pagando-se mais brevemente.
O milk-run amplia e melhora a comunicação entre fornecedor e cliente, pois as próprias visitas mais frequentes impulsionam o aparecimento de oportunidades, no mesmo sentido em que os problemas ficam mais expostos.
Alguns imaginam erroneamente que o milk-run pode ser executado por “qualquer” funcionário. Mas, na verdade, é uma função “de contato” que envolve diversas oportunidades de melhoria em termos de cadeia produtiva ao invés de melhorias isoladas.
Conforme cita Baudin (2004), as funções de um operador de milk-run podem (e devem) incluir: (1) verificar os códigos e as quantidades dos itens enviados e recebidos; (2) realizar um rápido controle de qualidade (sem necessidade de instrumentos de medição) tendo por base padrões pré-estabelecidos (vivenciando o sistema milk-run utilizado pela Toyota do Brasil, pudemos ver, por exemplo, a existência de itens “fixos” em cada contêiner cuja cor era visualmente comparada com aqueles sendo recebidos); (3) utilizar leitor de código de barras (ou outro sistema de identificação) para realizar a transação de entrega ou recebimento no próprio local de coleta ou entrega; (4) reportar qualquer problema de qualidade imediatamente ao cliente; (5) entregar as ordens de reposição aos fornecedores na forma de kanbans, caso esse sistema se aplique.
Algumas ressalvas quanto à aplicação dos ciclos frequentes de transporte podem ser: um fornecedor ou cliente geograficamente distante de qualquer outro fornecedor com o qual poderia compartilhar uma rota de milk-run; um item que é utilizado esporadicamente e em quantidades pequenas, de um fornecedor que não entrega outros itens com regularidade (transportadoras independentes seriam uma solução mais adequada nesse caso); um item utilizado em grande quantidade, em vários caminhões completos, no decorrer de um mesmo dia (faz mais sentido uma rota dedicada para este item, e até mesmo a análise de técnicas de VMI).
Em nosso entendimento, o desenvolvimento de implantação de ciclos frequentes de transporte endereçam completamente os problemas relacionados às compras
spot, assim como políticas do tipo “quanto menor o preço melhor” (para escolha de
fornecedor), pela própria determinação prévia do fornecedor.
Da mesma forma, a compra ou transferência de pedidos em grandes lotes é inibida, pois as quantidades de reposição (e seus múltiplos por embalagem) também são determinadas quando do dimensionamento do sistema. Ainda, como normalmente, estes sistemas são regidos por meio de sistemas puxados, ou ciclos de reposição, nos quais em cada ciclo é reposta a quantidade consumida no ciclo anterior, o envio de pedidos deixa de ser feito em lote, e passa a ser regido pela frequencia de acontecimento do ciclo de transporte.
Do ponto de vista do fornecedor, o problema dos pedidos sendo enviados à expedição somente quando completos deixa de existir, pois os itens são repostos a ciclo de transporte, independentemente de volume completo de quaisquer tipos de lotes “econômicos” de compras, expedição, transporte, etc.
Ainda, analisando-se do ponto de vista do fornecedor da cadeia, são extintos os problemas relacionados à previsão, tais como atribuição exagerada de peso à última demanda observada, ou utilização da previsão de vendas como meta, pois a previsão de vendas deixa de ser utilizada para propósito de programações de envio ou de vendas.
Portanto, a utilização de ciclos frequentes de transporte, além de promover o nivelamento de atividades internas às empresas, tais como expedição ou recebimento, também nivela as quantidades vendidas, compradas e produzidas ao longo do mês.