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Ciclos

No documento WAGNER MOURA LAMOUNIER (páginas 38-42)

2. METODOLOGIA

2.1.1. Movimentos de longo prazo nos preços das commodities

2.1.1.2. Ciclos

Os ciclos de preços, como também os de produção, se configuram como outro tipo de variação de longo prazo que pode estar presente nas séries temporais de preços das commodities agropecuárias. Apesar de qualquer movimento recorrente de elevação e queda nos preços poder ser apontado como um ciclo, o que se tem estabelecido como prática comum é a utilização desse termo na referência a mudanças nos preços que ocorrem ao longo dos anos, com certa regularidade e previsibilidade.

Os ciclos nos preços geralmente são inversamente correlacionados com os ciclos da produção das commodities, e vice-versa (Figura 6). Altos preços tendem a encorajar a ampliação da produção pelos produtores existentes e por novos produtores que entram nesses mercados, que praticamente não apresentam barreiras expressivas à entrada. Essa ampliação da oferta irá chegar ao mercado somente após determinado espaço de tempo, dada a inelasticidade da oferta dessas commodities. Esse intervalo de tempo poderá variar de acordo com alguns aspectos, como:

as características biológicas das diferentes commodities;

o estado da arte das tecnologias empregadas na produção;

o tipo de insumos produtivos que serão utilizados no processo produtivo para a ampliação da oferta.

P,Q

Tempo Fonte: Elaboração do autor.

Figura 6 - Representação esquemática dos ciclos de preço e produção em uma commodity fictícia.

De acordo com o proposto por DAHL e HAMMOND (1977), uma explicação genérica do comportamento cíclico que caracteriza os preços e a produção de diversas commodities agropecuárias pode ser dada pelo teorema da teia de aranha (cobweb theorem), segundo o qual a lei da oferta e demanda explica como os preços atingem níveis de equilíbrio nos pontos de interseção das curvas de oferta (S) e demanda (D) para um dado bem econômico. Contudo, para algumas commodities tem-se que os preços não se ajustam a esses pontos de equilíbrio, mas flutuam em torno deles.

Para o caso de commodities cujas quantidades demandadas e ofertadas podem instantaneamente se ajustar a um choque nos preços, os ciclos não irão ocorrer. Entretanto, esse não é o caso da maioria desse tipo de produtos, ___ Preço da commodity X ... Oferta da commodity X

particularmente para o café, que é a commodity de interesse do presente estudo, dada a inelasticidade da curva de oferta em relação às condições da demanda.

O teorema da "teia de aranha" apresenta esse nome graças ao padrão dos ajustamentos entre preços e quantidades em um diagrama de oferta e demanda para a commodity que apresenta o fenômeno cíclico. Essa teoria envolve uma modificação dos pressupostos básicos dos modelos de oferta e demanda cujos preços e quantidades são determinados simultaneamente. Por exemplo, supondo um modelo simples dado por:

St = α + βPt (oferta) (1)

Dt = δ - γPt (demanda) (2)

em que t indica o período de tempo, tem-se que o sistema será solucionado por uma única combinação de oferta (S) e demanda (D). Contudo, no modelo advindo do teorema da teia de aranha, as relações comportamentais das variáveis são diferentes, no sentido de que os preços e as quantidades da commodity não são determinados simultaneamente. A quantidade ofertada em determinado período (t) não será função dos preços praticados no mesmo período, mas sim uma função dos preços do período anterior (t-1), ou de vários períodos anteriores (t-1, t-2, t-3, ..., t-n). No caso mais simples, de apenas uma defasagem, tem-se que a nova equação de oferta da commodity será dada por:

St = λ + ψPt-1 (3)

Visto que no período t a quantidade ofertada já está determinada, os preços irão se ajustar de forma residual, de acordo com:

Pt = θ - ηSt (4)

Esse preço praticado em t será a principal base para as decisões acerca da oferta que deverá chegar ao mercado num próximo momento, t+1 por exemplo, e que resultará num outro patamar de preços. Tem-se assim um sistema recursivo de determinação de preços e quantidades, que só será estável se o preço de um

período propiciar uma oferta no próximo período que não resulte em variações nos preços praticados nesse próximo período. No entanto, se esse não for o caso, tem-se como resultado um comportamento cíclico dos preços, que poderá ser convergente, divergente (explosivo) ou estável. Na Figura 7, pode-se observar o caso em que o comportamento cíclico de preços e quantidades é convergente.

Fonte: DAHL e HAMMOND (1977).

Figura 7 - Ajustamentos cíclicos convergentes em um modelo de teia de aranha.

De acordo com o proposto por DAHL e HAMMOND (1977) e SHEPERD (1972), uma quantidade ofertada Q1 dará origem a um preço P1 no período 1; os produtores irão se basear nesse preço para ofertar Q2 num segundo período. Contudo, a essa quantidade corresponde o preço P2. Assim, a quantidade ofertada no período 3 irá cair para Q3, o que proporciona elevação do preço para P3, e assim por diante. Isso implica um movimento cíclico dos preços e das quantidades ao longo do tempo, conforme se pode observar na segunda parte do diagrama. Entretanto, esse comportamento, para o presente caso, irá convergir para um determinado nível médio de longo prazo.

P , Q

D S

Q1 Q3 Q4 Q2 P1

P3 P4 P2 P

Q

preços

quantidades

tempo

Os casos de movimentos cíclicos divergentes e estáveis podem ser derivados por analogia do proposto anteriormente. A estabilidade, convergência ou divergência dos ciclos dependem diretamente do valor absoluto das elasticidades da oferta e da demanda. Se a elasticidade de oferta for superior à elasticidade da demanda o modelo será divergente; por outro lado, se a elasticidade da oferta for menor que a elasticidade da demanda, o modelo será convergente. Finalmente, tem-se o caso em que as elasticidades são iguais, o que propicia a continuidade dos ciclos ao longo do tempo de forma, aproximadamente, constante e estável.

2.1.2. Movimentos de curto prazo nos preços das commodities agropecuárias

No documento WAGNER MOURA LAMOUNIER (páginas 38-42)