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2. Construindo alternativas

2.2 CIDAC: construir caminhando

O CIDAC é uma organização fundada em maio de 1974 com o intuito de ser uma “instituição não formalizada”28, com uma duração prevista relativamente

curta, que pudesse dar “uma contribuição aos movimentos e às reivindicações de

reconhecimento do direito à auto-determinação e independência das colónias” (LTP), o

que acabou por acontecer com a publicação da Lei nº 7/75 de 17 de Julho. Instituiu-se como um Centro de Informação e Documentação Anti-Colonial, de onde vem a sigla CIDAC, com base num grupo anteriormente existente de oposição ao regime do Estado Novo, que dinamizava um centro de documentação e publicava, clandestinamente, o Boletim Anti-Colonial. Nas palavras de um dos nossos entrevistados,

no final desse ano [1975], um grupo de professores veio ter connosco e disse que estava disponível, e queria contribuir, para a formação dos professores guineenses, que era na altura já o único país independente. Pediram-nos para organizarmos uma ação de cooperação nesse sentido. Nós concordámos (LTP).

Assim, a um trabalho de Educação para o Desenvolvimento, mesmo que o conceito ainda não estivesse difundido, aliou-se um trabalho de Cooperação para o Desenvolvimento, constituindo-se, assim, “a matriz que marcaria o CIDAC” (Pereira, 2004:3) e que permanece até hoje.

E, portanto, ficamos desde sempre, e continuamos, com estas duas vertentes principais: A Educação para o Desenvolvimento e a Cooperação para o Desenvolvimento, sendo que nos últimos anos as temos vindo a ligar, e isso tornou-se bastante óbvio para nós, ligar cada vez mais uma e outra (LTP).

A 20 de Janeiro de 77, aniversário do assassinato de Amílcar Cabral, os elementos do CIDAC anunciaram a sua escolha de alteração do nome - Centro

28 Utilizaremos itálico sempre que citarmos o discurso dos nossos entrevistados e colocaremos a negrito os excertos que nos parecem mais ilustrativos.

de Informação e Documentação Amílcar Cabral - uma vez que a designação anterior tinha deixado de fazer sentido com a descolonização, pós 74/75. A manutenção da expressão “Centro de Informação e Documentação” prendia-se sobretudo, com a sua vocação primeira – “disponibilizar aos cidadãos toda a

documentação coletada, recolhida durante a luta clandestina” (SL). Nas palavras de

Luísa Teotónio Pereira, isto

permitiu fazer a ligação com um pensador, um combatente africano, mas também pensador. Curiosamente, a primeira coletânea de textos de Amílcar Cabral a ser publicada em Portugal, que nós saibamos, foi ainda na clandestinidade antes do 25 de Abril, por um grupo percursor do CIDAC, o grupo do Boletim Anti-Colonial. Portanto, havia essa ligação também histórica (LTP).

Quase trinta anos mais tarde, em 2004, a sigla CIDAC volta a adquirir um novo significado, apesar de se manter enquanto sigla, uma vez que já era reconhecida - Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral.

Quando fizemos 30 anos, achámos que a denominação Informação e Documentação era já um bocadinho restrita face àquilo que fazíamos e, portanto, criamos esta nova, que nos permitiu justamente manter a sigla, mas alargar o âmbito da nossa denominação (LTP).

Nesta alteração, parece-nos visível uma mudança profunda de filosofia, a transição de uma lógica de informação e documentação, já “restrita”, nas próprias palavras de LTP, e curta para identificar todas as atividades do CIDAC, nomeadamente a noção de “intervenção”. Consideramos que esta alteração se pode ainda relacionar com as próprias alterações nos conceitos de Cooperação e de Educação para o Desenvolvimento trabalhada na teoria das cinco gerações da Manuela Mesa, que apresentamos no capítulo 3. Pensamos ser relevante este caminho “da informação” à “intervenção”, realizado pela entidade que estudamos.

Desde a fundação e até 1981, a organização funcionou enquanto associação informal, tendo-se legalizado apenas nessa data como associação sem fins

se avolumavam” (Pereira, 2004:7), num processo de institucionalização relativamente comum no contexto e em entidades similares. Em 1985, o CIDAC é uma das organizações fundadoras da Plataforma Portuguesa das ONGD, com o apoio da Comissão Europeia. Mais tarde, em 89, obteve o estatuto de instituição de utilidade pública e, em 1994, quando apareceu o primeiro diploma das ONGD29, candidatou-se e foi reconhecida como tal.

Analisando a página do CIDAC na internet, pode ler-se que a instituição assume hoje como missão

promover a solidariedade entre os povos como parte integrante de uma cidadania ativa num contexto de progressivas interdependências mundiais. Consideram-se formas de participação privilegiadas as ações de Cooperação para o Desenvolvimento e de Educação para o Desenvolvimento, assim como outras ações potenciadoras do desenvolvimento sustentado de pessoas e comunidades30.

Há aqui, claramente, o reconhecimento de um contexto de intervenção que é marcado, e que não pode ignorar, o contexto cada vez mais global, aqui definido como de “progressivas interdependências mundiais”.

Os nossos entrevistados, ambos com papéis de relevo dentro da organização, apresentam, de seguida, o seu entendimento sobre a missão da instituição:

Eu penso que a nossa principal missão continua a ser a mesma que era em 74, embora num contexto diferente e com cambiantes diferentes, e tem a ver com o contribuir para um pensamento crítico, uma capacidade de os cidadãos saberem ler o mundo em que vivemos, não só na atualidade, mas recorrendo também à história, aos velhos conhecimentos que existem, de uma forma integrada, e fazerem opções conscientes sobre o papel que querem ter, justamente, neste mundo. (…) contribuir para este desígnio de autonomização dos cidadãos e das cidadãs, do ponto de vista da capacidade de compreender, de ter um pensamento crítico e de fazer as suas opções (LTP).

29 Lei nº 19/94 de 24 de maio. Este diploma foi substituído pela Lei nº 66/98 de 24 de setembro, que continua em vigor.

A nossa missão está centrada na questão da solidariedade entre os povos. Não só entre os povos, mas na solidariedade entre as pessoas, entre grupos de pessoas, entre lutas. Na questão da justiça social, que é central, na questão da transformação social. Há uma linha de intervenção muito clara que visa transformar o substrato social em que estamos a viver, seja através da Cooperação, seja através da Educação para o Desenvolvimento. (…) O questionamento dos paradigmas dominantes que estruturam a sociedade, o seu questionamento, e a proposta de alternativas (SL).

Desta declaração de princípios do CIDAC, expressos nas palavras dos nossos entrevistados, gostaríamos de sublinhar alguns aspetos que consideramos chave para a leitura que faremos nas páginas seguintes - uma conceção de educação inequivocamente marcada pela educação popular de Paulo Freire; uma conceção dialética da história, articulada com uma dimensão presente na matriz da entidade desde o início, de dedicação a indivíduos, entendidos como não autónomos; a centralidade da justiça social e da transformação social; a Cooperação e a Educação para o Desenvolvimento como ferramentas para a prossecução dos objetivos do seu trabalho: o questionamento da realidade e a procura de alternativas.

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