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2. Construindo alternativas

2.1 Iluminando o caminho: a metodologia

Definimos o estudo de caso como metodologia para a exploração das pontes que queremos identificar e caraterizar, uma vez que ele nos permite “o estudo da particularidade e complexidade de um único caso, conseguindo compreender a sua actividade no âmbito de circunstâncias importantes” (Stake, 2009:11), ou seja, no nosso caso, permite-nos compreender, através da análise das linhas orientadoras de uma instituição e da sua aplicação prática, o cruzamento das temáticas em estudo.

Consideramos que esta metodologia, e seguindo Robert Stake, nos permite a formulação de asserções, partindo “de entendimentos bem fundos dentro de nós, entendimentos cuja derivação pode ser uma mistura escondida de experiência pessoal, trabalho académico e asserções de outros investigadores” (2009:28).

Na linha do mesmo autor, “para alcançar a confirmação necessária, para aumentar o crédito na interpretação, para demonstrar a semelhança de uma asserção”, o investigador pode, e deve, utilizar diversas metodologias de triangulação de dados: triangulação das fontes de dados, triangulação do investigador, triangulação da teoria e triangulação metodológica (Stake, 2009:12 e 127). Consideramos ter tido estes cuidados no nosso estudo, uma vez que utilizamos fontes diversificadas – escritas e orais, mais antigas e mais recentes -, uma vez que partilhamos os nossos materiais e as asserções que fomos formulando com outros investigadores e colegas em diversas fases do processo de análise e de escrita para uma maior validação das mesmas, e uma vez que utilizamos diversas metodologias (análise bibliográfica, análise de conteúdo de entrevistas e análise de conteúdo documental).

A utilização de entrevistas semi-estruturadas como fonte de informação privilegiada prende-se igualmente com o tipo de estudo que estamos a desenvolver – um estudo de caso. De facto, consideramos que “para abordagem em profundidade do ser humano, a entrevista tornou-se um instrumento primordial” (Ruquot, 1997:84), sobretudo se queremos “delimitar os sistemas de representações, de valores, de normas veiculadas por um indivíduo” (1997:89).

Foram realizadas duas entrevistas - à responsável pela área de Educação para o Desenvolvimento, Luísa Teotónio Pereira (LTP), e ao responsável pela área de projetos na área da Economia Solidária, Stéphane Laurent (SL)23. Cada

entrevista foi realizada no contexto profissional normal dos entrevistados, nas instalações do CIDAC, e cada uma teve uma duração de cerca de 1h30. Ambos os entrevistados foram informados do âmbito da realização das entrevistas,

autorizaram a sua utilização na presente pesquisa e aceitaram a sua identificação explícita24.

Como é facilmente verificável, não utilizamos as entrevistas como método assente na representatividade numérica, mas antes pelo seu “carácter exemplar” (Ruquot, 1997:103) para a investigação – dois colaboradores da instituição selecionada com vasta experiência na área de ED e de ESS, ambos membros dos órgãos diretivos (incluindo uma das fundadoras da instituição), com representatividade de género. Ambos forneceram dados considerados relevantes e suficientes para permitir a sua análise.

Realizamos, como já afirmámos, um tipo de entrevista semi-estruturado, onde se explorou livremente o pensamento dos entrevistados, através de um guião de entrevista elaborado com base nos eixos temáticos que fazem parte da grelha de análise que se pretende utilizar na exploração do próprio conteúdo e que resultaram do trabalho de problematização teórica anteriormente desenvolvido. No curso das entrevistas existiu uma grande liberdade de exploração, dentro de um quadro de referência amplo já definido. Assim, não obstante alguma subjetividade inerente, optámos por realizá-las pela “riqueza heurística” (Blanchet, 1989:92) das mesmas.

Analisamos, ainda, documentos de candidatura de projetos a linhas de financiamento da União Europeia e do IPAD25, nas áreas do Comércio Justo

(CJ), de forma a procurar estabelecer as pontes que tentamos estabelecer com esta nossa dissertação.

Segundo Bardin (2009), a análise de conteúdo é compreendida por três etapas básicas: a pré-análise, a descrição analítica e a interpretação referencial.

No nosso trabalho, podemos considerar fase de pré-análise a organização do material, a transcrição das entrevistas e a primeira análise dos documentos dos projetos. Procedemos a uma leitura flutuante (Bardin, 2009) de todos os textos com o objetivo de obter uma ideia geral do seu conteúdo e de conhecer os

24 Consultar Anexo 4.

aspectos mais relevantes dos mesmos. Esta primeira abordagem permitiu-nos tomar algumas decisões importantes para o avanço da investigação. Após uma primeira análise das candidaturas dos projetos, por razões já explicitadas na introdução, optamos por debruçar-nos apenas sobre o projeto “Comércio Justo: Contributo para a Construção da Cidadania Global”26, uma candidatura

efetuada pelo CIDAC, enquanto parceiro do projeto (o líder é a cooperativa de consumo Mó de Vida), à linha de financiamento de ED do IPAD, em 2008. Determinámos ser relevante a análise documental deste registo, uma vez que ele próprio estabelece as pontes equacionadas – apresentação de uma candidatura a uma linha de financiamento de ED com o tema do CJ, um tema facilmente identificável com as questões da ESS27.

Na etapa de descrição analítica analisamos o material selecionado de forma aprofundada - o discurso dos nossos entrevistados e os documentos – procedendo à sua categorização, conforme as categorias pré-definidas aquando da análise bibliográfica e apresentadas no capítulo 4 da parte 1.

Por fim, na fase de Inferência, propusemos uma leitura organizada das unidades de discurso analisadas anteriormente, cruzando-as com a informação recolhida aquando da leitura da literatura da especialidade e atribuindo-lhe um significado que, enquanto investigadoras munidas de um referencial próprio, prévio e constituído durante a investigação, fomos tecendo.

“Por ser um exercício de tal profundidade, o estudo [de caso] é uma oportunidade de ver o que os outros ainda não viram, de reflectir sobre a singularidade das nossas próprias vidas, de activar a melhor parte dos nossos poderes interpretativos e de fazer, mesmo que só pela sua integridade, a defesa das coisas que prezamos.” (Stake, 2009:149 e 150).

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