2. A CIDADANIA – ANÁLISE HISTÓRICA DA CONCEITUAÇÃO
2.3 SOBERANIA NA CONTEMPORANEIDADE
2.3.4 Cidadania como Processo
A configuração do discurso da cidadania moderna, tem sua gênese no Estado liberal constitucional, capitalista moderno; buscou apoio no Direito que, coincidentemente, se trans- forma num instrumento legitimador do “status quo”, confundindo cidadania com nacionalida- de, numa concepção sistêmico-jurídica fechada e auto-suficiente. Dentro desse panorama de visão reducionista, a cidadania era vista como um dado concedido pelo Estado e não como uma conquista, buscada com luta, do próprio cidadão6.
Uma obra clássica sobre cidadania nessa época liberal se deve a Thomas H. Marshall, que em 1949, propôs a primeira teoria sociológica de cidadania ao desenvolver os direitos e obrigações inerentes à condição de cidadão.
Com todas as suas limitações, tomando como enfoque, a experiência da Inglaterra, como o autor reconhece, estabelece uma tipologia dos direitos de cidadania, que provocou reações e novos estudos, tomando-se esse autor como referência.
Marshall estabelece uma cronologia de conquista desses direitos: os direitos civis, conquistados no século XVIII, os direitos políticos, no século XIX – ambos chamados de di- reitos de primeira geração (humanos ou fundamentais) e os direitos sociais, conquistados no século XX, chamados direitos de segunda geração.
Não se pode universalizar a distribuição cronológica dos direitos em Marshall. No Brasil mesmo, podemos afirmar que os direitos sociais precederam e até substituíram os direi-
6 T.H. Marshall em sua obra clássica, Citzenship and Social Classs, traduzida por Meton Porto Gadelha como
“Cidadania, Classe Social e status”, Rio de Janeiro, Zahar, 1997, tornou-se fonte de referência dos estudiosos sobre Cidadania, como Vera Regina de Andrade, Liszt Vieira, José Murilo de Carvalho e outros. Sua melhor contribuição foi ter identificado três tipos de direito: Civil, político e social-econômico. E que a implantação desses direitos se deu progressivamente, ao menos na Inglaterra. Quanto à cronologia adotada pelo autor, vale, se é que vale, para a Inglaterra. No Brasil não se deu da mesma maneira.
(Neste trabalho seguimos a versão de Maria Regina Andrade (ANDRADE, 1993, p. 62 e ss), pois a tradução vernácula do original se encontra esgotada).
tos civis e políticos, no período das ditaduras: tanto a do Estado Novo, quanto ao período da Ditadura Militar.
Mas as classificações entre direitos civis, políticos e sociais, é uma tipologia aceita por todos. A concepção de cidadania, como um processo de busca de direitos, pode ser considera- da a mais feliz contribuição de Marshall, dando o ponta-pé inicial para os estudiosos saírem da “camisa de força” do positivismo que, reduzindo a cidadania à relação mediática entre a sociedade civil e o Estado, identificou-a com a nacionalidade. Esta sim, é um dado, tornando- se conquista só para os cidadãos naturalizados.
Marshall, a partir da Inglaterra, fornece um referente significativo acerca do conteúdo do discurso da cidadania, dos seus direitos constitutivos e do perfil da cidadania moderna, que é genuinamente uma cidadania nacional, como o é o Estado capitalista. Nesse sentido, diz Marshall, a cidadania não é um status meramente legal, de conteúdo estático e definitivo, algo que, concedido ao indivíduo, o acompanhe para sempre, mas sim um processo social: o nú- cleo de um desenvolvimento vigoroso.
A igualdade perante a lei e os direitos civis associados a ela marcam o início desse processo. Marshall decompõe a cidadania em três elementos constitutivos: civil, político e social.
O elemento civil, erigido em torno dos direitos necessários à liberdade industrial, a- brange a liberdade de ir e vir, liberdade de imprensa, de pensamento e fé, o direito à proprie- dade e de celebrar contratos válidos e o direito à justiça. Este último é o direito de defender e afirmar todos os direitos em termos de igualdade com os outros cidadãos e do devido encami- nhamento processual.
O elemento político, concebido como o direito de participação no exercício do poder político, compreende o direito de sufrágio e o de exercer cargos públicos (bem mais amplia- dos nos dias atuais).
O elemento social é o direito de participar, plenamente, na herança social, e levar a vi- da de um ser civilizado, com os padrões que prevalecem na sociedade.
Em relação às classes sociais, a cidadania transformou-se, sob certos aspectos, no ar- cabouço da desigualdade social legitimada, paradoxalmente, permitindo e até moldando as desigualdades sociais.
Sendo uma instituição em desenvolvimento, iniciada, teoricamente, do marco em que todos os homens eram livres e capazes de gozarem direitos, a cidadania se desenvolveu pelo enriquecimento do conjunto de direitos de que eram capazes de gozar. Vera Regina Andrade não vê contraposição entre os direitos civis e as desigualdades sociais do capitalismo:
Mas esses direitos não estavam em conflito com as desigualdades da sociedade capi- talista; ao contrário, eram necessários, para a manutenção da sociedade capitalista
desta determinada forma de desigualdade. Pois o núcleo da cidadania, nesta fase, se compunha de direitos civis e os direitos civis eram indispensáveis a uma economia de mercado competitivo (ANDRADE, 1993, p. 65).
Tais direitos conferem a capacidade legal de lutar pelos objetos que o indivíduo gosta- ria de possuir, mas não garantem a posse de nenhum deles.
O discurso jurídico dogmático da lei, que reduz o significado da cidadania a seu signi- ficado legal, apresentando o Estado como seu único emissor autorizado (Monismo Jurídico), é um discurso autoritário, com função ideológica manifesta, ao procurar impedir a tematização de suas significações extranormativas7.
Trata-se de um discurso contraditório dependente das relações de poder, para definir seu sentido hegemônico, dependendo dos conflitos e lutas que constituem a sociedade.
Tudo isso implica reconhecer que, enquanto processo social dialético, a cidadania é uma história que permanece em aberto para a contemporaneidade e além desta.
O dado mais importante do estudo de Marshall é a descoberta ou constatação de que não existe “cidadania consumada”. Ela é uma conquista, em forma de processo, sempre re- formulanda e complementável.