1 O ESTADO MODERNO E A CONSTRUÇÃO JURÍDICO-POLÍTICA DA
1.3 Cidadania, espaço público e orçamento no Estado de Bem-Estar
1.3.2 Cidadania, Estado de Bem-Estar Social e Social Democracia
Embora somente a partir da metade do século XIX possa ser verificado o processo de formalização dos direitos sociais, faz-se necessário destacar uma diferenciação feita por Liszt Vieira entre os direitos garantidos pela consolidação do Welfare State e a cidadania social.
A concepção da social-democracia acerca da cidadania é muito mais ampla porque a considera como conquistas universais da humanidade, garantidas e adquiridas pelo cidadão pelo fato de estar vinculado a uma comunidade; já a realidade dos direitos sociais estruturados no âmbito do Estado de Bem-Estar baseia-se em meios de asseguramento dos indivíduos mais vulneráveis. (VIEIRA, 2001, p. 42).
O ápice das tensões político-econômicas do século XIX produziu o denominado
“Estado-Providência”, ou Welfare State, uma forma encontrada pela burguesia para responder a um problema para o qual não estava preparada. Aliás, esse problema continua sem solução mesmo no Estado Moderno. (BOBBIO; MATTEUCI, 1997, p. 403). Segundo Marshall (1967, p. 103), a inclusão desses direitos sociais dava uma nova significação à cidadania, gerando, consequentemente, uma guerra contra a sociedade de classes capitalista. O rol de direitos fundamentais do Estado amplia-se, abrangendo não somente os direitos e garantias individuais, as chamadas “liberdades burguesas”, como também os direitos sociais, como a educação, saúde, moradia, vistos como verdadeiros direitos subjetivos, não mais como assistencialismo. Bobbio define o Estado de Bem-Estar da seguinte forma:
O Estado de bem-estar (Welfare State), ou Estado assistencial, pode ser definido, à primeira análise, como o Estado que garante tipos mínimos de renda, alimentação, saúde, habitação, educação, assegurados a todos os cidadãos, não como caridade mas como direito político. [...] Na realidade, o que distingue o Estado assistencial de outros tipos de Estado não é tanto a intervenção direta das estruturas públicas na melhoria do nível de vida da população quanto ao fato de que tal ação é reivindicada pelos cidadãos como um direito. (BOBBIO; MATTEUCCI, 1997, p. 416).
Esses direitos colidem com a dicotomia sociedade civil/Estado, própria do Estado Liberal, que pretende impedir a atuação do Estado na esfera privada, ou, mais propriamente, no mercado. (ANDRADE, 1988, p. 126). Como afirma Marshall (1967, p. 103), “[...] os direitos sociais em sua forma moderna, implicam numa invasão do contrato pelo status, na subordinação do preço de mercado à justiça social, na subordinação da barganha livre por uma declaração de direitos”.
Tem-se, assim, nos direitos civis do Estado Liberal a garantia da separação e não-intervenção do Estado na sociedade civil burguesa, ao passo que os direitos sociais promovem uma interação entre essas esferas, acarretando modificações em suas estruturas e colocando em risco a dicotomia liberal de diferenciação entre essas.
Bobbio destaca a coexistência complicada das formas do Estado de Direito liberal com o conteúdo dos direitos sociais do Estado de Bem-Estar. Segundo o filósofo italiano,
os direitos fundamentais representam a tradicional tutela das liberdades burguesas:
liberdade pessoal, política e econômica. Constituem um dique contra a intervenção do Estado. Pelo contrário, os direitos sociais representam direitos de participação no poder político e na distribuição da riqueza social produzida. A forma do Estado oscila, assim, entre a liberdade e a participação. (BOBBIO; MATTEUCCI, 1997, p. 401).
Para a efetivação desses direitos, a máquina administrativa do Estado é aumentada visando atender às demandas sociais, o que causa, consequentemente, uma voracidade fiscal.
O Estado intervém no mercado e passa a regulá-lo, ao mesmo tempo em que assume a responsabilidade de atender a algumas de suas demandas, como infraestrutura, mão-de-obra qualificada, proporcionando a expansão do sistema capitalista.
A concepção social-democrata de cidadania faz uma crítica à teoria liberal e defende uma ampliação dos direitos de cidadania a grupos historicamente excluídos. Por outro lado, enfatiza a participação da coletividade nas decisões do Estado e uma maior integração do cidadão nas instituições. Afirma, também, a necessidade de um equilíbrio entre os direitos individuais, direitos do grupo (tais como classe, gênero ou etnia), cujo resultado, segundo Vieira, “é um complexo sistema identitário, construído a partir da noção do indivíduo enquanto participante das atividades da comunidade”. (2001, p. 42).
Janoski, citado por Vieira (2001, p. 45), estabelece uma vinculação das teorias políticas com as concepções de cidadania e com os respectivos regimes estatais. Para o autor, os direitos políticos, sociais e de participação estariam ligados à social-democracia e aos regimes social-democráticos, como a Dinamarca, Noruega, Suécia, Holanda, entre outros. Já os direitos civis referem-se ao liberalismo e aos regimes liberais, típicos dos Estados Unidos, Japão, Suíça, Canadá e Austrália.39
39 Haveria, ainda, a perspectiva comunitarista, ligada a países de regime mais tradicional. No entanto, Vieira afirma que a separação entre a visão social-democrata e a comunitarista é excessivamente radical e traz algumas distorções.
Assim, é possível identificar nitidamente as diferenças entre a concepção liberal e a social-democrata: a primeira está na base individualista do liberalismo em contraposição à democracia social, que se baseia na participação igualitária de grupos e indivíduos; a segunda é o enfoque de direitos civis contratualmente relacionados do liberalismo e o equilíbrio de direitos e obrigações por meio de trocas restritas e generalizadas da social-democracia, o que leva à conclusão de que a terceira diferenciação básica tem ligação com o fato de, no liberalismo, o rol de direitos ser maior que as obrigações e, na social-democracia, existir um equilíbrio de direitos e obrigações, com especial ênfase na garantia dos direitos sociais.
(VIEIRA, 2001, p. 44).
Interligando essas três gerações de direitos, Marshall constrói a clássica definição de direitos de cidadania, que pode ser resumida da seguinte forma:
Primeiramente os direitos civis, correspondendo aos direitos necessários para o exercício das liberdades, originados no século XVIII; depois, os direitos políticos, consagrados no século XIX, os quais garantem a participação, tanto ativa quanto passiva, no processo político; e finalmente, já no século XX, os direitos sociais de cidadania, correspondentes à aquisição de um padrão mínimo de bem estar e segurança sociais que deve prevalecer na sociedade. (1967, p. 64).
O conceito de direitos sociais da cidadania de Marshall refere-se “[...] a tudo que vai desde o direito mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar, por completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade” (1967, p. 64). Fedozzi (1999, p. 54), ao comentar o conceito, afirma que, por mais abstrato que seja, possui a utilidade de constituir-se como um critério de
“diferenciação e avaliação ética de qualquer país ou época.”
A dimensão social da cidadania impõe, portanto, reformulações à estrutura do Estado capitalista contemporâneo, no sentido de aumentar a sua máquina administrativa e seu poder de intervenção, ou seja, a cidadania exige, nos seus moldes atuais, uma maior participação do Estado. Essas transformações começaram a ser desenvolvidas no Welfare State, pois, embora seja um modelo pensado para manter e revigorar o modo de produção capitalista, visando apenas à diminuição das desigualdades sociais por ele produzidas, acabou abrindo espaço para ações políticas e jurídicas de caráter emancipatório.
A dimensão jurídica da cidadania social transforma-se e abre novas perspectivas teóricas, pois, como afirma Sarlet (2003, p. 52), não se trata mais de liberdade perante o Estado, mas de liberdade por meio do Estado. Ao analisar o posicionamento de Jellinek,
Sarlet expõe que os direitos sociais transformam o status negativus em status positivus ou status civitatis. Essa concepção assegura, juridicamente, ao indivíduo a possibilidade de utilização de instituições estatais e de exigir ações positivas do Estado. (SARLET, 2003, p. 162).
Verifica-se uma mudança da cidadania do self interest, de predominante abstinência política para uma concepção de “status activus do cidadão, no qual este passa a ser considerado titular de competências que lhe garantem a possibilidade de participar ativamente da formação da vontade estatal”. (SARLET, 2003, p. 163).
A dimensão jurídica da cidadania social implica, necessariamente, uma mudança de concepção estatal, a qual ocorre numa perspectiva estrutural e fiscal, pois a dimensão jurídica da cidadania social não é implementada pelos tradicionais mecanismos de resolução de conflitos do normativismo liberal, ou seja, só pode ser implementada por meio de uma perspectiva redistributiva de recursos, que gera voracidade de arrecadação.
O grande problema foi que, mergulhados numa dupla crise fiscal e estrutural, houve um domínio hegemônico do processo neoliberal de globalização, que obstaculizou o processo de recuperação e também de reformulação, acontecendo, em alguns casos, até um retrocesso e, em outros, como no caso brasileiro, nunca acontecendo satisfatoriamente. (STRECK;
BOLZAN, 2000, p. 70). Por outro lado, importa salientar que não há, necessariamente, uma relação direta entre um certo grau de relativa implementação dos direitos sociais e uma real incorporação e concretização de uma concepção de cidadania universal e de ampla participação política dos cidadãos defendida pela social-democracia.
Mesmo que seja possível destacar em alguns países a efetivação dos direitos, a proposição de ampliação dos espaços democráticos defendida pela social-democracia não ocorreu. Segundo Habermas, a situação agravou-se com uma perda significativa da autonomia da esfera pública, ocasionada pela invasão sistêmica do mundo da vida.
A transformação sócio-estatal do Estado liberal de Direito precisa ser entendida a partir desta situação inicial. Ela se caracteriza pela continuidade, se não por algo como uma ruptura com as tradições liberais. O Estado social-democrata de direito não pode ser diferenciado do liberal pelo fato de que uma constituição do Estado se apresenta com a pretensão da coerção jurídica de fixar também a constituição de organizações sociais quanto a determinados princípios fundamentais, mas, muito antes pelo contrário, o que ocorre é que o Estado da social-democracia, exatamente na continuação da tradição jurídica do Estado liberal, vê-se obrigado, para estruturar as relações sociais, a fazer o avesso disso, pois também pretendia, outrora, assegurar um ordenamento jurídico global do Estado e da sociedade. Assim, avança cada vez mais no sentido de ele mesmo, tornar-se o portador da ordem social, ele precisa se assegurar, para além das definições negativas e denegatórias dos direitos liberais básicos, uma determinação positiva de como se deve realizar a “justiça” com a intervenção social do Estado. (HABERMAS, 1984, p. 261).