POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR 127 vão da ouvidoria, feitores da armada e da cidade, físico, porteiro da alfândega e uns trezentos mais (38), desta-cados que acompanhariam a expedição, e cerca de seiscen-tos operários, especialmente de construção, entre os quai!:l uma porção de degredados, - a 1; de feV,ereiro de 1549 partia de Lisbôa, sob o comando-mor do próprio Tomé de Souza, a esquadra de três náus grandes, duas caravelas e um bergantim, em direitura á Bahia, Com excelente viagem, chegou a e.xp:edição ao seu destino em 29 março, "sem que sobreviesse nenhum contratempo e antes com muitos outros favores e graças de Deus, que bem mostrava sua a obra que agora se principiou"
(39).
As primeiras impressões dos expedicionários são as melhores. Tradú-las o Pe. Manoel da Nóbrega, o chefe do grupo de seis inacianos trazidos para empreenderem a catequése · çlo gentio: "A terra achamo-la bôa e sã. To-dos estamos de saude, Deus louvado, mais sãos do que partimos. . . A terra é fértil de tudo, ainda que algumas, por demasiado pingues só produzam a planta e não o fruto. E' muito salubre e de bons ares, de sorte que sendo muita a nossa gente e mui grandes as fadigas, e mudando de alimentação com que se nutriam, são
pou-(38) Does. hist., vol. 35, pag. 1-36.
(39) . Nóbrega, carta de 10 de agôsto de 1549 ao dr. Navar-ro, em Coimbra, in Accioli, op._ cit., I. pag. 281. Sôbre p total de gente vinda na armada. o autor do Roteiro do Brasil, de 1587, enumera 600 soldados e 400 degredados, moradores casados e outros criados d'el-rei providos de cargos, mais de mil em suma.
Frei Vicente do Salvador diz o mesmo e Varnhagen segue a ambos. Robert Southey, porém, dá somente 320 soldados, 400 degregados e 280 colonos, ao todo mil. não fazendo refer·~ncia aos funcionários públicos. aos clérigos regulares e seculares que também vieram, cfr. Sampaio, T. op. cit., pag. 172; Ruy, A., op clt., pag. 20.
128 THALES DE AZEVEDO
cos os que enfermam e êstes depressa se curam ( 40).
A região é tão grande que, dizem, de três partes em que se dividisse o mundo, ocuparia duas : é muito fresca e mais ou menos temperada, não se sentido muito o calor do estio; tem muitos frutos de diversas qualidades e mui saborosos; no mar igualmente muito peixe e bom.
( 40) Essas bôas impressões dos pes. Nóbrega e Luiz da Grã parece que não convenciam aos de Portugal, pois em 1560, escrevendo da Bahia aos irmãos de hábito, implorava o pe. Rui Pereira: "E por amor de Jesus Cristo lhes peço que .percão a má idéia que até agora tinham do Brasil, poroue lhes falo
~ verdade, que se houvesse paraíso na terra, eu diria que agora havia no Brasil", e depois de discorrer sôbre os frutos espiritua•s da catPquése e as ri<]uezas naturais, remata afirmando que "saude não há mais no mundo... E quem me não quizer crer, venha experimentar", Accioli, op. cit., V, pag. 51. Outros dois emi-nentes jesuítas entusiastas do nosso país foram o pe. Simão de Vasconcelos e o pe. Fernão Cardim. O primeiro achava oue "neste nosso clima do Brasil são tão puros os ares, que se pode dizer com razão que bebenHJS espíritos vitais, porque nem os vicia excesso de frio. nem excesso de calma, sinão que é uma primavera nerpétua, com virações tão suaves e puras quais des-creve Maffeo, e os Autores já citados: nem eu sei parte do universo. que goze o mesmo", Crônica, loc. cit. O último ass'm externava-se : " O clima do Brasil geralmente é temperado.
de bons, delicados, e salutíferos ares, donde os homens vivem muito até noventa, cento e mais anos, e a terra é cheia de velhos".
Tratado da terra e gente do Brasil, passim. Somente o pe.
Antonio Vieira, com a sua experiência de anos de vida no Maranhão e Pará, discrepava, considerando o clima brasileiro debilitante e enlanguescente e as doenças muito graves, Novas cartas jes., p. 324, e Calmon, P., in Sermões patri6ticos, pag. ltíO.
Entretanto na Bahia viveu muitos mais anos do que esperava.
Muito embora exagerado em seu lirismo, Sebastião da Rocha Pitta, em sua Hist6ria da América Portuguêsa, pag. 9, exprime o mesmo encantamento sôbre esta "vastíssima região, felicíssimo terreno, em cuja superfície tudo são frutos, em cujo centro tudo são tesouros, em cujas montanhas e costas tudo são aromas".
E o visconcj.e de Porto Seguro não se deixa arrebatar menos :
"E urna paragem, esta da Bahia, por muitos títulos análoga à da
POVOA:;\IENTO DA CIDADE DO SALVADOR 1.29 Similham os montes grandes jardins e pomares, que não me lembra ter visto pano de raz tão belo" ( 41 ) .
Concluídos os preparativos, combinados entre To-mé de Souza, Diogo Alvares, Paulo Dias e outros mo-radores, para o alojamento provisório de tôda a gente, a 31 de março desembarcaram os portuguêses em ordem de combate, ;para dar aos índios clara idéia da fôrça que representavam, e marcharam para Vila Velha, á frente os padres com a cruz alçada em sinal de paz.
Esperavam-nos, com demonstrações de muita alegria, quarenta a cincoenta colonos, restantes da população do tempo do donatário ( 42) ; os mais eram al!!uns
mame-lucos e mulheres índias, mancebas dos lusitanos. Nos arredores existiam, entre o rio Paraguaçú e Tatuapara, na costa norte, dez a doze mil tupinambás, dos quais cinco até seis mil homens de peleja ( 43). Os gentios tinham ainda algumas aldeias nas cercanias da futura cidade e em Itaparica e outras ilhas do recôncavo, mas não eram tão numerosos quanto noutras capitanias ( 44).
O primeiro mês ocupou-se em estabelecer a paz com o gentio da terra, em abrir roças para o plantio de antiga Grécia, e se é verdade que a impressão do lugar, em que se é creado, exerce no homem grande influência, não se deve estranhar que, em todo o Brasil os Bahianos se tenham sempre distinguido pelo engenho", op. cit., I. pag. 300.
(41) ibid.
( 42) Além de cêrca de 100 colonos vindos no comêço da sua administração, Pereira Coutinho deve ter recebido muito poucos outros portuguêses. Um navio que em 1543 lhe trazia algumas centenas de moradores, naufragou na costa do Rio Grande do Norte e o comandante os abandonou à sanha dos potiguares, que, depois de matá-los, vieram à Bahia vender as suas roupas e haveres.
(43) Regitntmto de Tomé de Souza, cap. VI.
( 44) Nóbrega, carta a Tomé de Souza, 1559, in Accioli, op.
cit., V, pag. 31.
130 THALES DE AZEVEDO
mantimentos suficientes para tanta gente, em reparar a cêrca da antiga povoação do Pereira e percorrer as re-dondezas à procura de local mais apropriado para a povoação grande e forte, enquanto se mandava vir mui-ta mercadoria das capimui-tanias próximas. Diogo Alvares, lisongeado com a deferência real e esperançado na gran-deza do novo en1preendimento, desdobrava-se em ativi-dade, viajando repetidamente a serviço do governador geral sobretudo para "confirmar as pazes" com os índios seus amigos e parentes, no que muito o ajudava o seu genro Paulo Dias Adorno ( 45). Dentro em pouco ini-ciava-se a limpeza do terreno, a abertura de alicerces, a estacada e as construções da Cidade do Salvador, nome que o rei puzera à cabeça do Brasil ; o sítio escolhido, a meia légua do ponto de desembarque, era uma colina debruçada a pique sôbre o mar, onde havia bom pôrto, e varadouro para as náus, bons ares, abundância de água e defesas naturais do lado de terra. Dos locais visitados era, indubitavelmente, o melhor para defender-se, preferível a Tapagipe cuja situação a princípio sedu-zira Tomé de Souza. Na 2.a metade de abril já os padres pregavam ao governador c aos colonos "na nova cidade que começa", e onde muitos já acampavam, en-quanto o pe. Aspicuelta Navarro, ajudado pela seme-lhança entre o seu idioma hasco e o tupi, doutrinava a gente da terra. Os índios cooperavam com os numero-sos pedreiros, carapinas, marceneiros, ferreiros, oleiros e outros operários que o mestre Luiz Dias dirigia, ani-mados todos pelo bom exemplo do governador que, se-gundo a notícia de frei Vicente do Salvador ( 46), "era
(45) Nóbrega, carta ao pe. Simão Rodrigues, in Accioli, op. cit., I, pag. 283.
( 46) Op. cit., pag. 151.
POVOAMF.NTO DA CIDAiiE DO SALVADOR 131 o primeiro que lançava mão do pilão para as taipas e ajudava a levar a seus ombros os caibros e madeiras· para as casas, mostrando-se a todos companheiro afável (parte mui necessária nos que governam novas povoações)".
Em agôsto já se podiam "contar umas cem casas para o mister da vida".
A cidade surgia, como nenhuma outra em seu tem-po, com a considerável população de 1 . 000 pessoas e uma completa organização judiciária, fazendária, admi-nistrativa e militar. No eclesiástico, ainda subordinada ao bispo de Funchal, era paróquia e tinha como pastor o vigário Manoel Lourenço; da catequése dos bárbaros eram encarregados os jesuítas. Vila Velha continuaria, uma espécie de subúrbio ligado à cidade pelo Camin!1o do Conselho ( 47), como residência de Caramurú e sua família e dos antigos moradores, ali dedicados à lavoura da mandioca e outros mantimentos que forneciam aos povoadores.
A população da cidade do Salva<Ü'r iria crescer rapidamente, ultrapassando os acanhados limites forti-ficados desta. A escassês de mulheres brancas, - que muito poucas famílias vieram na expedição, ia ter o efeito paradoxal de favorecer aquêle crescimento com a
e.'<:-1!raordinária natalidade resultante da união de muitos colonos com duas, três e até quatro índias, coisa que era corrente na terra entre os habitantes da vila do Pe-reira e que não tardou a ser imitada pelos que chegaram em 49. Enquanto os índios eram violentamente sub-metidos e tomados para escravos ou para mandar vender no reino ( 48), as negras eram raptadas ou prêsas para
(47) Sampaio, T. op. cit., pag. 138.
( 48) O dote promttido a Maria Corrêa, que se ia casar com Aires da Rocha Peixoto, incluía 10 peças de escravos do gentio da
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mancebas dos brancos, com os quais viviam em escan-dalosa poligamia. Cohabitando grande número de bran-cos com diversas índias cada um, é natural que tivessem muitos filhos, como verificou o pe. Nóbrega ( 49).
Quando a mulher, nessas uniões, era mameluca, é pos-sível que ainda tivesse mais filhos (50).
terra, pardos, doados por seu irmão André Rodrigues e Iria Bar-bosa, sua mulher, e mais 10 peças de escravos de serviço do gentio da terra, doação do seu outro irmão. neto como ela de Caramurú, o pe. Marçal Rodrigues, então vigário da povoacão do Pereira, cfr. escritura de 21 de agôsto de 1577 in L.0 v. tombo, pag. 138. Gabriel Soares em seu testamento, que é datado de 1584, menciona possuir "escravos, bois de carro e éguas e outros móveis e índios forros", ibid, pag. 291.
( 49) Na mesma carta, de 1549, em que faz a observação acima, o provincial dos jesuítas diz que muitos homens não se confessavam ha sete e dez anos, e "parece-me que põem a fe-licidade em ter muitas mulheres". Doutra feita: "Nesta terra ha um grande pecado que é terem os homens quasi todos suas ne-gras por mancebas, e outras livres que pedem aos negros por mulheres, segundo o costume da terra, que é terem muitas mulhe-res. E estas deixam-nas quando lhes apraz, o que é grande es-cândalo para a nova igreja que o Senhor quer fundar. Todos se me escusam que não têm mulheres com que casem, e conheço eu que casariam si achassem com quem; em tanto que uma mulher, ama de um homem casado que veio nesta armada, pelejavam sôbre ela a quem a haveria por mulher, e uma escrava do governador lhe pediam por mulher e diziam que lha queriam forrar", Cartas da Brasil, pag. 75 ss. (Nos primeiros tempos da colonização, os portuguêses denominavam negros aos indígenas. Frei Vicente, em sua História do Brasil, assim se expressa pelo menos 19 vêzes, ao passo que aos africanos chama negros de Guiné; o pe. Nóbrega, além de outras muitas vêzes, fala no filho de um cristão, "nas-cido de umilo. negra da terra", ou que muitos cristãos, por serem pobres, "se· tem casado com as negras da terra", in Accioli, op.
cit., I, pag. 323, 325).
(50) Nos E. Unidos o antropologista Franz Boas observou qne as mestiças de indígena são mais prolíficas do que as índias puras; aquelas têm em média 7,9 filhos, estas somente 5,9, cfr.
Race, Language and Culturc, N. Y. 1940, pag. 138.
POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR
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Não se pense que para êsse estado de coisas con-corriam somente a falta de mulheres brancas, os cos-tumes indígenas ou a quantidade extraordinária de sol-. teirossol-. ~stes eram, de fato, a imensíssima maioria:
jovens e solteiros, como sucede geralmente nas levas de migrantes (51). Os casados, que vinham para o Bra-sil sem as suas famílias, entregavam-se aos mesmos des-regramentos dos demais: "Por tôda esta costa ha n:ui-tos homens casados em Portugal e vivem cá em granaes pecados com muito prejuíso de suas mulheres e filhos ...
Geralmente todos ou os mais estão amancebados das portas a dentro com suas negras, casados e solteiros ... "
(52). E não era só os padres que clamavam; o ouvidor geral, desembargador Pero Borges, escrevia para Lis-boa sôbre os "muitos homens casados lá no reino o~
quais há muitos dias andam cá. . . amancebados com um par ao menos cada um de gentias ... " (53). O sertão também se ia rapidamente povoando de mamelucos, "fi-lhos de cristãos, grandes e pequenos, machos e fêmeas, com viverem e se crearem nos costum~s do gentio"
(54). Nem todos os casados, porém, entravam na mes-tiçagem, esquecidos da família deixada em Portugal.
(51) Quase todos os estudos sôbre migrantes mostram que são os jovens adultos que mais comumente emigram e fazem-no geralmente sem as suas famílias, Ogburn e Nimkoff, in Pierson, D., Estudos de Ecol. hmnana, pag. 182. Paulo Prado, em Rc·
trato do Brasil, .assinala que o europeu vinha para a América muito jovem, as vêzes na adolescência; pensa também que "para o erotismo exagerado contribuíam como cúmplices três fatores : o clima, a terra, a mulher indígena ou a escrava africana. Na terra virgem tudo incitava ao culto do vício sexual". pag. 125, IV edição.
(52) Nóbrega, Cartas, passim.
(53) Cfr. Almeida Prado, J. F., op. cit., pag. 165 ss.
(54) Nóbrega, Cartas, pag. 124.
134 1'HALES DE AZEVEDO
Havia alguns que, "com grande saudade do reino, por-que dei..'Caram lá suas mulheres e filhos", nem por-queriam aceitar trabalho na construção da casa dos jesuítas, só pensando em voltar para a Europa logo que acabassem o compromisso com as obras da cidade (55).
Para justificar as mancebias, que era coisa, aliás, de somenos para os portuguêses (56), usavam êstes do expediente de mandar "batisar muitas escravas sob pre-texto de bom zêlo e para se amancebar com elas, cui-(55) Nóbrega, carta de 9. agôsto. 1549. in Accioli, op. cit., I, pag. 321.
(56) Já no tempo do mestre de Aviz. "as mancebias cons·
tituíam laços, paralelos sempre ao matrimônio". Paxeco. Fran, cp. cit., pag. 380. O concubinato simples, bem como a frequên-cia de meretriz ou mulher que facilmente se prosti1ui( vaga ven11s), não eram mencionados no direito ou na legislação portuguesa; não por serem lícitos "mas por se reputar um pecado tolerável no fôro externo por motivos políticos, e afim de se evitarem maiores desordens". As próprias aproximações com barregãs, punidas pelas Ordenações, L.0 V, t. 27, eram encaradas com aquela tole-rância, cfr. Borges Carneiro, Direito Civil Português, cit. por Mendes de Almeida, F., "O folclore nas Ordenações do Reino", Rev. Arq. Mun., S. Paulo 1939, vol. LVI, pag. 16. Por um alvará de 1521, intitulado "Das mulheres que ganham fora da mancebia", dispunha-se "que qualquer mulher que na Côrte ou na cidade de Lisbôa fôsse compreendida, e se provasse que com seu corpo ganhasse dinheiro publicamente, não se negando aos que a ela quizessem ir fora da mancebia fôsse prêsa e degra-dada por quatro mêses fora da cidade". Convém notar que, segundo Morais, A., Dicionário, II, pag. 301, "mancebia é casa onde as méretrizes se prostituíam e ganhavam, devassando seu corpo; estas çasas foram toleradas, visto que as fêmeas que ganha·
vam fora delas, tinham certas penas". Gilberto Freyre admite a possibilidade dos portugueses terem recebido dos mouros o gôsto pela concubinagem e pela poligamia, bJterprejafÕO do Brasil, pag.
70. Contribuiu para tanto o desenvolvimento do individualismo c o exemplo de outras nações, como as repúblicas italianas, de tal modo que o velho critério da legitimidade de origem veio a perder a preponderância e a bastardia deixou de ser coisa escon-dida e negativa, Sodré, N. W., op. cit., pag. 22. O homem
POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR 135 dando que por isso não seja pecado" (57). Aliás, ~ssa
mancha era só dos mais escrupulosos de consciência, por-que os outros aderiam à doutrina do Ultra equinoxialetu non peccatur, que aqui era ensinada e até praticada por clérigos, daqueles que vieram ao tempo de Pereira Cou-tinho ; e ainda viriàm depois, muitos outros, com a mes-ma errônea opinião. Outro grande motivo de escân-dalo para os padres da Companhia, quando chegaram com o governador geral, foram as "cousas feias" que ouviram dizer dos clérigos, culpados, tanto quanto os leigos, dos mais reprováveis desr<1,~ramentos. Ocasio-nava isso o fato de que os clérigos que vinham para cá eram a escória do que havia em Portugal e que,
"desligados do nexo de sujeição a um superior que os contivesse nos limites do seu dever, bem depressa se tomaran1 o flagelo da mesma cidade, por quanto, desen-volvendo a mais escandalosa imoralidade e praticando as maiores torpezas, animaram assim a repetição da prá-tica da devassidão dos colonos" que os jesuítas procura-vam reconduzir a 'costumes mais rígidos e cristãos (58).
Os apelos do Pe. Nóbrega para que se investigasse a vida dos sacerdotes que embarcavam para o Brasil e por que aqui houvesse um bispo piedoso, ou ao menos vi-gário geral que puzesse ordem na vida religiosa dos colo-nos e no modo de viver dos clérigos, não deram, colo-nos primeiros tempos os bons resultados que seria de espe-do povo, ou peão, podia ser sucediespe-do por filho bastarespe-do. con·
tanto que fôsse d'! "uma só manceba", .ao par dos legítimos; o mesmo acontecia com o filho de escrava. contanto que esta já fôsse livre ao falecer o peão. O mesmo não sucedia aos filhos de padres, produto da mula-som-cabeç:!, considerados adulterinos.
Mendes de Almeida, F., ibid. Nas classes atta!l também e na no·
breza a bastardia e o concubinato eram tolerados.
(57) Nóbreqa, ibicl., pnq, 325.
(58) Accioli, op. cit., V, pag. 13.
136
THALES DE AZEVEDorar. Os q,ue vieram com o primeiro bispo, um pouco por causa da falta de energia por parte dêste, "intro-duziram na terra estarem clérigos e dignidades aman-cebados com suas escravas, que para êsse efeito esco-lheram as melhores e de mais prêço que achavam, com achaque que haviam de ter quem os servisse, e logo começavam a fazer filhos ... " (59).
A tolerância portuguêsa por êsses costumes, a le-gislação civil, e até certo ponto a lei eclesiástica, intran-sigente em questões morais mas muito compreensiva de certas realidades sociológicas, tiveram o salutar efeito de incorporar à vida de família brasileira, que então se formava, não só muitos daqueles lares ilícitos como imensa quantidade dos que nasciam das mancebias e da poligamia. Um dos trabalhos mais eficazes dos padres foi legalizar, pelo matrimônio, grande parte das uniões irregulares, enquanto pelo batismo incorporavam à socie-dade cristã lusitana a totalisocie-dade das numerosas crias mamelucas. Ricos e pobres reconheciam e aquinhoavam em seus testamentos os filhos naturais, fazendo-os mui-tas vêzes sucessores nos seus morgados (W) e herdeiros de seus nomes.
(59) Nóbrega, cartas de 1549, 1550, 1559 in Accioli. op.
cit., I, pag. 287, 321, 325; V, pag. 27.
(60) Tôda a crônica colonial e5tá referta de casos dessa natureza. Um caso dos mais antigos e interessantes é o de Mem de Sá, o qual, com a maior semcerimônia, disse em testa·
mento de 1569 que " falecendo os ditos meus filhos sem filhos nem netos de legítimo matrimônio, se Francisco de Sá tiver algum filho de mulher solteira branca que não íôsse escrava nem preta nem da India ou do Brasil, este em tal caso herdará o morgado", Pinho, W., "Testamento de Mem de Sá", Anais do 1/I Co11gr. de Hist. Nacional, III vol, Rio 1938, pag. 18; Varnh., op. cit., I, pag. 447.
POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR 137 Horrorizados com os adultérios, os concubinatos e a laxidão geral, tanto os padres da Cia. quanto os res-ponsáveis pela administração da cidade interessavam-se por legitimar as ligações deshonestas, desfazendo-as quando não era possível legalizá-las, e .pedindo ao rei que mandasse orfãs, das que a rainha educava em um orfanato em Lisboa, e moças que já não tivessem geito de casar. Gabriel Soares, em seu testamento, destinou 500 cruzados para se partir "por cinco moças pobres, a cem cruzados por cada uma, para ajuda de seus casa-mentos", o que seria feito pelo abade dos beneditinos com informação ·do provedor da Santa Misericórdia ( 61). Mesmo mulheres que fôssem erradas, convinha que vies-sem para casar, contanto que não fôsvies-sem tais que tives-sem perdido inteiramente a vergonha a Deus e ao mundo, - dizia o pe. Nóbrega em sua afoita sugestão, ansioso por achar remédio para tantos pecados.
Enquanto a mestiçagem, estimulada pela inclinação lusa por mulheres de côr e pela diminuta coerção social num aglomerado, cuja grande parte era de indivíduos desregrados ( 62), f azia crescer a população por um
pro-(61) L.0 v. tombo, pag. 290. Nóbrega dizia que, às orfãs, os homens. J?ons e ricos dariam dotes para casar, Cartas, pag. 109.
(62) Por muito leves e insignificantes que fôssem, aos olhos dos tempos atuais, os delitos dos degredados que vieram para o Brasil em levas repetidas, é fôrça convir que, para a época, tra-tava-se de desajustados, de insubordinados, que não se conforma-vam com os padrões de costumes e portanto deveriam ter con-tribuído bastante para a desordem social na colônia. Coisa pa-cifica, entretanto, é que Portugal não cometeu nenhum crimo em remeter para cá essa espécie de gente, contra a qual deblate-r.avam N ób~ega, Duarte Coelho, }a boa tão e outros (A ceio li, op.
cit., I, pag. 285, 294, 382, 322, 401; V, pag. 5, 13), esquecidos de que não foram êles os únicos culpados dos "abortos de vícios, escândalos e desordens" que aqui reinavam. Outras nações usa·
ram o mesmo método para povoar as suas conquistas, argumentou UI