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RIQUEZAS E REVEZES

No documento OS ANTECEDENTES (páginas 157-184)

O

século XVI encerrou-se sob as melhores esperanças.

Os ataques dos corsários foram repelidos com sucesso e a população, embora vivesse apreensiva com a possibi-lidade de novos assaltos, crescia e sobretudo prosperava graças ao desenvolvimento da indústria do açucar.

A corôa continuava interessada em favorecer o po-voamento do Brasil; por alvará régio de dezembro de 1590 concediam-se terras de sesmarias aos que viessem, com suas mulheres e filhos, fixar-se em qualquer parte da co-lônia ( 114). Nem o devassamento doutras terras des-viaria a metrópole daquelas medidas ( 115). Até êsse cuidado em preferir povoadores casados, que aumentas-sem a população e se arraigasaumentas-sem à terra, .mostra o em-penho que havia no povoamento. Não era, aliás, somen-te por isso que os :Padres e os administradores coloniais pediam insistemente que se mandassem homens com fa-mília, fossem operários e moradores, fossem governado-res. Os solteiros eram extravagantes, dizia d. Louren-ço de Almada, numa sugestão ao rei sôbre o provimento de homens casados nos cargos da governança; êstes eram

(114) Vamhagen, op. cit., 11, pag. 38.

(115) Em 1594, André Alvares de Almada, falando da Serra Leôa no Tratado breve dos rios da Guiué, assegurava que "po-voando-se viria a ser de m.aior trato que o Brasil", in Magalhães, Leite de, A restaurarão c o império colonial português, pag. 218.

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mais trabalhadores e mais disciplinados (116). Quan-do, p<>r exemplo, em 1699 se quiz limitar a produção de pó de tabaco, que era excessiva na Bahia, mandou el-rei que se reduzissem a duas as 25 fábricas existentes, "es-colhendo-se homens casados e verdadeiros" para conti-nuar com a indústria ( 117).

A Bahia era a maior e mais importante cidade da co-lônia com seus 8 mil habitantes brancos e alguns milhares de índios e pretos na cidade; o termo contava cerca de 12 mil brancos, 8 mil índios mansos e uns 4 mil negros (118). Olinda era vila de p<>uco mais de 700 brancos e São Paulo tinha uma população ainda muito reduzida (119). Em todo o Brasil havia uns 30 mil colonos e a população total, de lingua européa, cabia folgadamente em cinco algarismos ( 120) .

(116) Freyre, Gilberto, Sobrados e mocambos, Rio 1936, pag. 59. A preferência era também de sentido político: em Por-tugal o hom~m casado, sobretudo o que tinha filhos e servos, era o unico que tinha direitos políticos plenos e podia exercer certos cargos públiços, Duarte, Nestor, A ordem privada c a organização política nacionat Rio 1939, pag. 29.

(117) Cartas régias, MSS., Lo. 6, pag. 94, Arq. Publ. do Estado, Bahia.

(118) Oliveira Viana atribui à cidade do Salvador e seu termo, àquela época. 3 mil famílias üe brancos e 76 engenhos.

a Pernambuco 2 mil moradores e 60 engenhos e a Ilhéus 500 moradores e 2 engenhos, cfr. Rodrigues, F. Contreiras. op. cit., pag. 138. Taunay àava 8 mil habitantes brancos à cidade, fora os bugres mansos, em 1600, e ao recôncavo 2 mil brancos c muitos

índios, ibid., pag. 151.

(119) Calmon, Pedro, Hist. da civil, brasil., pag. 135.

(120) Handelmann, op. cit., pag. 89, atribuía ao Brasil, em 1550, apenas 5 mil colonos brancos. Rocha Pombo, entretanto, dizia que em 1600 tínhamos 30 mil bráncos e 70 mil mestiços, negros e índios, número que sofreria um acréscimo de 80% até 1660, cfr. Batista Filho, Olavo, toe. cit., pag. 170. Pelos anos de 1618, quando !'lSCrevia o autor do Diálogo das grandezas do

POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR 159 As contribuições da Bahia para a fundação do Rio de Janeiro e de Sergipe não haviam feito diferença sen-sível em sua população, que crescia tanto pela alta nata-lidade quanto pelos acréscimos de moradores vindos do reino e doutras ·capitanias, especialmente de S. Vicente (121). Quando em 1674 os moradores do Rio de Janei-ro, temendo o despovoamento de sua cidade, àmeaçavam ir arrazar uma vila que se intentava levantar nos famo-sos Campos dos Goitacazes, dizia o governador da Bahia, Afonso Fnrtado de Cast1·o do Rio ele Mendonça, ao go-vernador da futura capital : "As grandes cidades do mun-do se fizeram pop11losíssimas ele humildes princip;os.

Assim começaram todas as que hoje ha no Brasil, que se

Brasil e fr. Vicente do Salvador prepara1•a-se para escrever a stta História do Bra.dl. fliz Cauistrano de Abreu. a uouulacão de língua Pt•ropéa no Bra~il cabia folgadamente em 5 algarismos.

Caps. Hist. colonial. nag. 76.

O Barão do Rio Branco baseatlo em Anchieta. Gahriel So::!n·~

~" C~rdim, ratculava que a população do Brasil. nos fins dn sec.

XVI. era rle 57 mil habitantes, semlo aproximadamente ~5 mil brancos. 18.500 íuuios mansos e 14 mil africanos. distribuídos polas •aritanias uo seguinte modo:

Brancos Indios mansos Esc. africanos Itamaracá

...

250

PPrnambuco ... . . 8.000 2.000 10.000 BAHIA ... 12.000 8.000 3 a 4.000 Ilhéus .. ··· .... 750

Porto Seguro

....

750

Espírito Santo .... 750 4.500

Rio de Janeiro .. 750 3.000 100

São Vicente ... 1.500 1.000

in Varnhagen, op. cit., li, 7.

(121) Varnhagen, op. cit., II, pag. 16.

160 THALES DE AZEVEDO

asim não fôra, ainda. estivera o Brasil deserto: e nem por se fundar a cidade de Sergipe, em cujos campos está a maior parte dos gados e fazendas dos moradores desta praça, ficam êles prejudicados, e a Bahia perdida, como me dizeis ficará o Rio ele Janeiro se houver vila na Pa-raíba ... " (122).

Ao número enorme de estudantes, clérigos e frades vieram ajuntar-se, quando se estabeleceu a Relação em 1609, muitos letrados bacharéis. Atraz dos desembarga-dores, vinham advogados, rábulas e doutores, sem outra utilidade para a terra que esfolar "alguma coisa com que se fazer possam", Clamava o autor do livro Rezão do Es-tado, do que nascia "tanto trocar, tanto mentir, tanta tra-paça, que as novas delas não fazem sinão acarretar bacha-réis à pobre província ... " ( 123) . Era de esperar que ao menos casassem os que vinham solteiros, mas parece que se portaram de tal modo na Bahia que, enquanto aos desembargadores se proibia, por um aviso do ano se-guinte, casar na colônia, aos letrados que eram casados no reino se impunha trazer as esposas · ( 124), para que aqui não viessem engrossar os raptos, adultérios e mance-bias.

A riqueza e o progresso não iriam durar muito, ape-sar da confiança que se começava a ganhar no sossêgo rei-nante. Em 1604 os flamengos tornaram a bombardear a cidade durante 40 dias, quinze dias mais que em 1599.

(122) Does. hist., vol. 6, pag. 273.

( 123) in V.arnhagen, op. cit., li, pag. 129.

( 124) ibid., 127, 249. Rodo !f o Garcia, comentando essa proi-bição, lembr_a que o des. Tomaz Antonio Gonzaga esperou mais de dois anos a licença, que nunca veiu, para ~as.a,;-~e. c_om Ma-rília.

POVOAJ\IENTO DA CIDADE DO SALVADOR 161 Além dos dos gastos extraordinários com a defêsa, e dos engenhos destruidos e incendia.d-os pelo inimigo, uma grande mortandade de escravos em 1616 e 17, vítimas de sarampo e bexiga, causou enormes prejuízos à popula-ção. Morreram também muitos mamelUcos, mulatos e brancos nascidos na terra: só os extrangeiros eram pou-pados pela ~?irlemia. A escravaria foi de tal modo di-zimada que os en;<>nhos pararam de moer e muitos se-nhores empobrecFrar~ ,·om a perda dos negros e a ces-sação do fabrico ( 125).

A guerra entre Holanda (' Espanha teria logo depois uma de suas batalhas na Bahia. Mal se erguia das pas-sadas desgraças, a cidade teve que transformar-se em 1624 numa praça de guerra, cercada de valados e arma-da de artilharia, à espera arma-da grande esquadra flamenga en-carregada de acometer os domínios portuguêses que a co-rôa espanhola tinha em mãos. O governador Diogo de Mendonça Furtado conseguiu reunir 3.000 homens da cidade e do seu termo, distribuindo-lhes armas e tarefas, que afinal se frustraram com a demora do inimigo e com as desavenças que lavravam entre as autoridades civis e eclesiásticas. Afinal, o ataque dos herejes e a debandada da população. apanhada sem defêsa em consequência ela dissolução prematura das fôrças. A cidade, que na oca-sião estava de novo "bem habitada" ( 126), ficou entre-gue a um diminuto número de negros. Tôda a ~ente

acampava pelos arredores, atemorizada, passando priva-ções e incômodos. Quando o bispo d. Marcos Teixeira

(125) Taunay, A. de E., Subsídios, pag. 69.

(126) f\ldenburg, J, G., in Anais do Arq. fúblico da Bahia, vol. XXVI, 1938, pag. 107.

162 THALES DE AZEVEDO

conseguiu reorganizar a resistência, ainda pôde reunir na Aldeia do Espírito Santo, ao Rio Vermelho, uns mil ho-mens, rom os quais iniciou as guerrilhas que afinal liber-taram a cidade no ano seguinte, ajudadas pelos reforços mandados de Pernambuco por Matias de Albuquerque.

Mas a esquadra adversária inda estava no porto quando surgiu barra a dentro a grande frota armada, que Espa-nha, alarmada com a notícia da perda da Bahia, enviara a livrar a colônia do jugo holandês. Obtida a rendkão dos flamengos e reocupada a Cidade, d. Fradique de To-Ieda Osório, o comandante espanhol, reg-ressa à Europa deixando tuna guarni~;ão de 1.000 castelhanos na praça.

Queria o destino que os bahianos sofressem dobradamente pelas desavenças eurooéas. É assim Que aos estragos e mortes. ao saaue e à destruicão resultantes da luta contra os bátavos, não tardaram a sobrepor-se a nilhagem, o incêndio. os assassínios perpetrados pela soldadesca espa-nhola. A Bahia ficou reduzida à extrema miséria. Da metade do casaria aue restava. a tropa de ocupacão ar-rancou até as fechac'luras das portas. A escravaria fu-l!ira, os canaviais haviam sido incendiados, os enl!enhos depredados. Pobres e ricos padeciam as peores misérias.

A falta de braços para o trabalho e para a defêsa chegou a tal ponto oue a Câmara mtmicipal, em 26, dirigia-se ao rei esoanhol reauerendo autorizasse o I!Overnador elo Rio de Taneiro a aiuntar nas capitanias do sul gentio sufi-ciente para se fazerem, na Bahia, duas novas aldeias, e permitisse que se descessem doutros portos e do sertão pelo menos 1.000 índios pacíficos ( 127). O governador português e os oficiais da vereança, como "protetores do

(127) Taunay, A. de E., op. cit., pag; 70.

POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR 163 oprimido e amolestado povo", protestaram ainda contra os injustos e pesados tributos que se lançaram para o sus-tento da mesma tropa e em consequência dos {1uais arrui-nava-se o comércio e "a cidade se vái despovoando" (128)

Logo depois do dia de S. João a população foi alar-mada com a notícia de que chegara de Angola uma náu com dezenas de negros atacados de bexiga. A Câmara reuniu-se e convocou o físico, Licenciado Diogo Pereira, pedindo-lhe opinasse sôbre o que vira a bordo e as me-didas a tomar para resguardo do povo. Os casos feliz-mente não eram numerosos nem de formas malignas, in-formou o médico; em todo o caso era conveniente que as 150 peças fossem desembarcadas, como de costume, na ponta da ilha dos Frades, "té se acharem bôas" ( 129).

A recuperação da vida da cidade ia ser penosa. Os tapuias voltaram a atacar as fazendas. Os navios mer-cantes não entravam no porto por saberem dos altos im-postos a que ficariam sujeitos ( 130). A especulação fa-zia subir os preços de tudo. Os escravos, cada dia mais rebeldes, fugiam para os quilombos, ou se recusavam a morar em casa dos seus senhores, andando pelas ruas da cidade armados de páus e facas a cometer desordens e mortes que obrigavam o Senado a severas providências Apesar dessas dificuldades, as coisas se iam normalizan-do. Em 35 já havia, além do núcleo central da cidade, que ultrapassara de muito os antigos limites, prósperas povoações na Praia, em Itapagipe e no Rio Vermelho. A população requintava-se de novo em seus hábitos

civili-(128) Atas, I, pag. 25.

(129) ibid., pag. 39.

(130) ibid., pag. 57.

164 THAI.ES DE AZEVEDO

zados, mas por vezes até sabão faltava para os usos im-prescindíveis ( 131).

Em 38, novo cêrco por fôrças holandêsas, que, inca-pazes de penetrar nas defesas da cidade, ateiam fogo aos engenhos do recôncavo. Durante mês e meio as tropas comandadas pelo ·conde Bagnuolo lutaram contra os 7.000 invasores, matando-lhes uns 500 homens e ferindo 700, sem ceder. A tropa espanhola que defendia a cidade teve 60 mortos e 90 feridos ( 132). Todavia os tiros da artilharia flamenga, conquanto fizessem muitos estragos, não mataram um só civil (133). Mal cessou a luta, tôda a gente lançou-se ao trabalho para restaurar a economia combalida. A 1 de maio do ano seguinte, estava a Ba-hia cheia de retirados de Pernambuco; entretanto não ha-via um só vereador presente para tomar parte na pro-cissão comemorativa da restauração da cidade; estavam todos em suas fazendas e engenhos, procurando resarcir-se dos resarcir-seus prejuízos, esquecidos, no resarcir-seu particularismo bem lusitano, das obrigações públicas ( 134). Era ve-lho, aliás, êsse costume de preterir as obrigações públi-cas pelos negócios. Vereadores e almotacéis frequente-mente ausentavam-se, sem licença ou aviso, indo para o

(131) ibid., pag. 279, 302. Em 1655 o sabão foi estancado, Braz in Accioli, op. cit., II, pag. 92.

(132) ~uy, A., op. cit., pag. 163.

(133) Vieira, pe. Antonio, Sermões patriótic.os, pag. 23.

(134) Atas, I, pag. 400 ss, 488; Duarte, Nestor, op. cít., pag. 15. Em 1696 o Senado da Camara pedia ao governador que se concedessem propinas aos, vereadores que acompanhavam as procissões oJiciais, como se fazia em Pernambuco, uma vez que aquêles eram moradores fora da cidade c abandonavam seus en-genhos e fa~endas, com prejuizos, J?ara acompanhar as ditas pro-cissões, C. do Sr11ado, c. de 6.VII.1696.

POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADO!t 165 ca111po. Em 1627 o procurador da cidade teve de servir como almotacel, saindo a fiscalizar preços e pêsos pelas tavernas e vendas porque André Cavalo e Lourenço Ca-valcante de Albuquerque, "que lhes competia servir de ahnotacéis estavam muitas vêzes em suas fazendas". No ano seguinte, Diogo de Aragão Pereira vivia dez léguas ou doze da cidade, onde se não podia ir sinão pelo mar, ocupado com o seu engenho, e "por sua falta não podia o povo ser bem governado nas coisas da almotaçaria".

Chegavam êsses funcionários a alegar d<>ença para se furtar às obrigações do cargo, escapando dissuuuladamen-te para fora ( 135). Em 49, considerando importarem mais ao serviço de Sua Majestade e benefício do povo os negócios da governança do que "a perda particular que ti-veram em seus engenhos", o governador ordenou se con-vocassem os vereadores que .. com a ocasião passada do inimigo estavam em suas fazendas", e nesse ínterim fun-cionasse a Câmara como se estivessem todos presentes, de modo que "se não dilatem os despachos e resoluções que pendem dos ditos oficiais" ( 136). ·

Por ocasião da restauração de Portugal, em 1640, a população da cidade do Salvador conservava-se a mesma do comêço do século, oscilando em tôrno de 10 mil o nú-mero de brancos em todo o têrmo (137). Além da fre-guezia da Sé, - a Vila Velha e Paripe constituíam cu-ratos à parte. No recôncavo havia treze freguezias (138);

(135) lbid., pag. 67, 83, 160, 196, 272.

( 136) Atas, III, pag. 8.

(137) :J3otelho, Gal. Teixeira. in A restauração e o império colonial português, pag. 406.

(138) Da lista de freguezias que haviam de contribuir para a construção de 2.000 braças de muros em tôrno da cidade, cons-tam Jaguaripe, Taparica, lguape, Paraguaçú, Serezipe do Conde,

166

THALES DE AZEVEDO

Sergipe, Boipeba e Cairú, desde 1617, eram paróquias separadas (139). A agricultura enriquecia e povoava o recôncavo, enquanto a pecuária dilatava a fronteira de-mográfica e econômica, de que a cidade era apenas o centro coordenador.

A falta de casas para a população foi uma das con-sequênciass das destruições por ocasião do assalto holan-dês, crise que era agravada pelos despejos de casas parti-culares para alojamento da tropa. Desde 1624, "quase meia parte da cidade, no bairro de Nossa Senhora da Ajuda" era assim ocupada. Os proprietários prejudica-dos e a Câmara reclamavam sem nada conseguir contra essa opressão. Finalmente, em 50 o conde de Castelme-lhor resolveu construir quartéis para os três Terços da guarnições, propondo à Câmara para custeio das obras a criação dum imposto de 1/2 pataca em canada de azei-te de peixe. Porém ainda em 55 não havia aparecido quem tomasse a empreitada. No ano de 36 um oficial da guarnição de Sergipe, que viera lutar contra os fla-mengos e tivera grandes perdas, inclusive no desabamen-to de sua casa situada na Praia, pedia aux'ílio à verean-ça alegando que estava doente e não podia tomar remé·

dio pois era tão húmida e ventosa a sua casa que os mé-dicos não lhe queriam aplicar a ·salsa emquanto não se

mudas~e para uma casa melhor ( 140). Os pobres se-nhorios eram prej udicadíssimos, "havendo muitos que não tendo outro patrimônio ou bens ficam destruídos de Nossa Senhora do Socorro, Nossa Senhora do Monte. Passé, Matoim, Cotegipe, Paripe, Santo Amaro e Patatiba. Atas, II, {Jag. 64.

(139) Accioli, op. cit., V, pag. 66.

(140) Atas, I, pag. 314.

POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR 167 todo, vivendo miseravelmente''. No fim do século esta-vam construídos os quartéis mas os oficiais, acostuma-dos a ter casa de graça, continuavam em casas alheias ou em próprios do govêmo; em 1701 ordenou-lhes el-rei que se recolhessem aos quartéis ou pagassem 1 ano de alu-guel das casas ocupadas, ainda que ficassem apenas 2 ou 3 meses nelas (141). Não obstante, passados cem anos os oficiais maiores e mais abonados estavam aloja-dos, sem nada pagar, em nobres propriedades de Sua Ma-gestade, em desobediência à ordem régia de 1640 para que os oficiais de patente elevada, em atenção aos seus grandes soldos, não pudessem ter quartéis d'el-rei que só os teriam os subalternos e os soldados ( 142).

~sse tempo do seiscentos foi um tempo de contras-tes. Com o desenvolvimento da exportação do açúcar, do tabaco, dos algodões e ainda do couro e da madeira, a cidade passou de centro simplesmente administrativo a um forte núcleo de homens de negócio, em condições de acudir com grossas quantias por ocasião dos emprésti-mos para a resistência aos invasores e o sustento da tro-pa. Se bem que o maior número de contribuições, na-quelas ocasiões, fôsse de importâncias diminutas, porque havia uma porção de vendeiros, tavemeiros, oficiais me-cânicos e funcionários que ajudavam com sacrifício o pa-gamento das despesas de guerra, havia negociantes que podiam entrar com quotas de 200, de 500 mil réis, até de

(141) Braz, in Accioli, op. cit., pag. 317.

(142) Vilhena, op. cit., II, pag. 110. Sôbre as casas ocupadas pela tropa e oficiais antes da edificação dos quartéis, cfr. Atas, I, pag. 76, 79, 137, 171, 217, 222, 225, 304. 342, 347; 111, pag.

101, 293.

I

168 t 1I ALES bE AZlNEDO

1 cento de réis e mais ( 143). No meiado do século, nova necessidade veio pôr a prova a generosidade e a riqueza da população. Dessa vez, como o perigo era mais lon-gínquo, - o inimigo estava em Pernambuco, as contribui-ções foram muito menores mas em compensação muito mais numerosas. Enquanto em 38 e 39 apenas cento e tantos indiv'íduos puderam emprestar ao govêrno, em 48 nada menos de 400 foram arrolados para. subscrever o empréstimo. As atividades agrícolas e pecuárias !!Cs arredores eram insignificantes, como se vê pelas quanti-dades de gado fornecidas à cidade pelas fazendas ·de S.

Amaro de !pitanga, Itapoan e distritos açucareiros. Os grandes criatórios começavam em Mata de S. João, Ca-tú, Poj uca, Inhambupc, Tapicurú, e estendiam-se, cada vez mais grossos, ao rio de S. Francisco, onde havia fa-zendas com milhares e milhares de cabeças (144). Os

(143) 1$-10$

Quadro 1 - Empréstimo de 15.000 cruzados. abril de 1638, para a Juta contra a armada holandesa. A tas I . . 358.

Quadro 2 - Empréstimo de Outubro 1639, para o socorro dos soldados, Atas I, 418.

(144)

.

d-11) 12-20 25-40 50-120

.

"~~,

16 10 3 a U2

Quadro 3 - Repartição do gado etn 2.5.1642 para a cidade.

Atas li, 85 (632 cabeças, 32 fazendeiros).

POVOAMENTO DA CJDADI!. DO SALVADOR- 169

comerciantes, vendeiros, os grandes mercadores que fa-ziam a importação de panos caros, ferragens, chapéus, vinhos, azeite, aguardente, lãs, farinha ele trigo, baca-lháu, e embarcavam os "assucres" ou contratavam as

5-10 15-20 22-40 115o-wo 200 400 Total

Arredores ~

-

1() g n 1 1 30

Cachoeira 1 ~ ~ ,, 1

- -

tl

Terra Nova l ~ 1

-

-

..

Total 6 14 J2 v 1 1 ~.il

Quadro 5 - Gado para a Cidade, 22, Outubro 1642 - Atas li, 133 (1725 c~beças).

i'i-~{llio-·ru ll2-4il 50-100 200 400

J

600 To!.~ I

Arredores i! 2 12 11 1

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Terra Nova 5 7 5 :1 -

, -=l -

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Total 'i ' !I' 17 14 l ,,

-

1 49

Quadro 6 - Gado para a Cidade, Outubro 1643 - Atas, li, 193

4- 10 15-20 Tot

7 32

Quadro 7 - Gado dos arredores da Cidade, 28 Setembro, 1644 -Atas li, 240 (531 cabeças, 32 fazendeiros).

4- 10 15-20 25-4jl 50-100 200-~00 T<1ia1

Inhambupe 2 ~ 2 -

-

8

Tapicurú 25 6 lj. j l 42

- -

-Total 17 10 8 4 2 51

Quadro 8 - Gado 11, V, 1645 -Atas li, 276 (51 fazendeiros).

12

'

170 TRALES DE AZEVEDO

rendas das imposições e dos gêneros estancados como o sabão, o sal e outros, formavam com os artífices e o pe-queno funcionalismo público a legião dos contribuintes

( 145). Os senhores de engenho, os fazendeiros e os mercadores, com "ter muita fazenda", adquiriam cons-ciência de sua riqueza e poder, mostrando-se soberbos e arrogantes para os menos aquinhoados ( 146) ; os últimos

(145)

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Quadro 9 - Contribuição do povo da Cidade do Salvador, se-gundo tipos de atividades, para o empréstimo de Novembro de 1648, cfr. Atas, li, pag. 388 ss.

1) Hortaleiros

2) F une. da administração e da justiça; militares gradua-dos; 4 físicos, 1 músico, 1 mestre de dansar.

Ver na III parte a lista das profissões acima recenseadas.

(146) Antonil, op. cit., pag. 74.

'

POVOAMENTO DA CIDADE DO SALVADOR 171 já interviam francamente no govêmo, fazendo sugestões e protestos em defêsa dos seus interêsses (147), coisa a que antes não se atreveriam, embora isso de governar e opinar em coisas de govêmo coubesse aos potentados da lavoura canavieira e fumageira, os únicos que por sua fortuna e importância tinham palavra nos conselhos da governança. Os mercadores só' mais mais tarde viriam a ter força tanto que, por não desagradá-los, preferiria o rei, no século seguinte, deixar a população em crise de mantimentos a proibi-los de reexportar os gêneros ali·

mentícios importados do reino para o consumo da cidade (148). Os oficiais mecânicos, ourives da prata e do ou·

ro, armeiros, serralheiros, pintores, alfaiates, confeiteiros, padeiras, tambem vinham pobres do reino e enriqueciam na Bahia com o luxo, o gôsto das joias e baixelas, as igre·

jas ricamente decoradas, as casas nobres e os primeiros sobrados, a ostentação de armas custosas, os regabofes da burguezia, ac; procissões e as amantes negras que consu·

miam a fortuna de muita gente. E desse modo subiam socialmente, passando às rodas altas em que os bacharéis e literatos exibiam a sua linguagem cheia de preciosismo e os seus temas de retórica, de mitologia e filosofia (149).

A riqueza libertava do trabalho, que era o castigo da escravaria. Consumia-se a vida, nas rodas altas e até entre o povo, contaminado pelo exemplo dos brancos

(147) .Atas, III, pag.:... 381.

(148) Comerciantes em postos de representação política eram um extraon;linário. Quasi ao fim do século seguinte, o vice-rei como que se desculpava de haver designado alguns dêles para oficiais da Câmara do Rio de Janeiro: "como as leis de S.

M. têm nobilitado os comerciantes, dêstes escolhi para V erea-dores, nomeando-lhes sempre por companheiro um dos melhores da terra", Marquez do Lavradio, in Armitage, J., História do Brasil, ed. Rio 1943, pag. 342.

(149) Freyre, Gilberto, Casa grande e senzala, pag. 380.

172 TliALES DE AZEVEDO

(150), em jogos -de cartas mexericos e festas. A terra era "relaxada, remissa e melancólica", reclamara Anchie-ta. A preguiça, que nos primeiros tempos era sobretudo da gente da terra (151), alastrava-se por tôda a .gente.

Na segunda metade do século, quando começava a explo-ração do ouro, ainda reduzida e pouco rendosa, a Ba-hia era um centro de vida antes ociosa, com uma religio-sidade pomposa e exterior, muitas dansas, banquetes, fes-tas, academias, enquanto Minas e Pernambuco já eram focos de intensa atividade ( 152). A gente bahiana, obser-varia o conde de Sabugosa, era de índole bôa, branda e or-deira, fácil de conduzir, porém muito amante de festanças;

com um divertimento gastavam todos facilmente o que possuíam, despreocupados do dia seguinte, alheios ao es-pírito de economia e poupança. O comum do povo,. di-ria Vilhena, era serem todos ociosos, não trabalhando a maior parte dos artífices enquanto lhes durasse o comer, muito embora fossem em extremo habilidosos. Homens e mulheres deixavam crescer de maneira extraordiná-ria a unha do polegar ou indicador, cortada em ponta, e que lhes servia para desfiar fumo, tocar violão e como prova de vida ociosa, "o que nesta região é excelente re-comendação", comentava Lindlev em 1803. Conviven-tes e folgazões, os brancos que não tinham empregos pú-blicos, os mulatos e os negros libertos, não se dignavam trabalhar; preferiam assentar praça nos diversos corpos de tropa de linha ou nas milícias urbanas, o que não lhes impedia de, ao mesmo tempo, negociar. A cidade enxa-meiava de vadios, ao passo que a lavoura de mantimentos

(15!)) Vilhena, op. cit., I, pag. 141.

(151) Leite, Serafim, op. cit., pag. 83.

(152) Lima, M. Oliveira, Formação hist6rica da naciolla-lidade brasileira, Rio 1944, pag. 93. ss.; Ribeyrolles, Ch., Brasil l·itoresco, S. Paulo, II, pag. 58.

No documento OS ANTECEDENTES (páginas 157-184)

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