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5 OS PERFIS SOCIOECONÔMICOS DOS JOVENS APRENDIZES

5.3 CIEE X SENAI: uma breve síntese

Diante dos resultados da análise do questionário, é possível identificar alguns elementos e características em comum aos jovens aprendizes das distintas entidades formadoras, além de certos aspectos que apontam diferenças entre os perfis dos aprendizes das instituições.

Identifiquei mais mulheres do que homens, exceto nas turmas do SENAI, devido ao curso ser de uma área ocupada predominantemente pelo sexo masculino. A idade mínima dos que responderam ao questionário era de 15 anos, além de três jovens com 16 anos e dois com 17 anos, todos do CIEE. A maior parte se declarou parda, mas quando agreguei as respostas preto(a) e pardo(a), a grande maioria dos aprendizes era negra.

A grande maioria morava na RMR e com os pais e/ou familiares ou apenas com ou o pai ou a mãe. Apenas três aprendizes tinham filhos (coincidentemente, todos da mesma turma do CIEE). O grupo, entidade ou associação mais frequentada pelos aprendizes era a igreja, embora a porcentagem fosse baixa.

A maior parte dos aprendizes estudou ou estudava na rede pública nos ensinos fundamental e médio, enquanto que os universitários estudavam, predominantemente, em faculdades privadas (apenas dois aprendizes estudavam em universidades públicas).

As mães apresentaram um maior nível de escolaridade do que os pais, embora não seja uma diferença muito grande. A baixa escolaridade do pai e mãe acabava se refletindo nas ocupações e/ou profissão destes.

A renda familiar dos aprendizes se concentrava em até dois salários mínimos, sendo sua principal fonte de renda o salário como aprendiz. A grande maioria contribuía financeiramente com a família: a) dando um valor fixo mensal (em dinheiro ou vales alimentação e refeição, por exemplo); b) responsabilizando-se mensalmente pelo pagando de contas como água, luz, internet; ou c) colaborando com os pais e/ou familiares quando necessitavam de ajuda financeira, mas sem possuírem uma contribuição fixa.

A maior parte dos aprendizes nunca havia trabalhado antes ou feito trabalho voluntário e pretendia estudar e trabalhar ao término do curso de aprendizagem.

Embora a maioria dos aprendizes já tivesse escolhido a profissão que queria seguir, foi rara a afinidade desta com a área do curso de aprendizagem. Os pais tiveram muita influência em sua participação no curso de aprendizagem.

De forma geral, os jovens apresentavam essas características em comum, porém, é possível criar um ―perfil médio‖ dos jovens aprendizes por entidade formadora.

O perfil do(a) jovem aprendiz do CIEE era: do sexo feminino, com média de idade de 18,9 anos, negra, solteira, não tinha filhos e ainda morava com os pais e/ou parentes na RMR, com uma renda familiar de até dois salários mínimos, tendo como principal fonte de renda o salário como aprendiz e ainda contribuía financeiramente com a família. A aprendizagem profissional era a sua primeira experiência de trabalho e nunca havia realizado trabalho voluntário.

Quanto ao nível de escolaridade, a mãe possuía, em média, um nível de escolaridade maior que o do pai. Esse dado vai ao encontro das estatísticas oficiais no Brasil, pois de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA (BRASIL, 2016a, p. 2), ―os últimos anos consolidaram a vantagem das mulheres em relação aos homens no campo educacional‖.

Entretanto, tal vantagem não se reflete no mercado de trabalho, pois tal superioridade não se repercute nas ocupações/profissões declaradas nos questionários:

Se no caso do campo educacional, as mulheres encontram-se, em geral, em melhor posição que os homens, esta vantagem não se reflete no mercado de

trabalho, onde a maior parte dos indicadores mostra uma hierarquia estanque, na qual o topo é ocupado pelos homens brancos e a base pelas mulheres negras (BRASIL, 2016a, p.2).

Diante de tais informações é possível constatar que o perfil do público atendido pelo Programa de aprendizagem do CIEE é justamente a base da hierarquia do mercado de trabalho: mulheres negras.

No Brasil, ainda segundo o IPEA, as mulheres continuam sendo as responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado. Nessa direção, no capítulo seguinte, apresentarei a fala de Flora (perfil 15), que era uma das poucas aprendizes que faziam o curso de mecânica, quando relata que sua mãe a questionava no início do curso por acreditar que a área era para homens por trabalhar ―pegando peso‖, por exemplo.

De acordo com Antunes (2011, p. 184), ―vivencia-se um aumento significativo do trabalho feminino, que atinge mais de 40% da força de trabalho nos países avançados, e que tem sido preferencialmente absorvido pelo capital no universo do trabalho precarizado e desregulamentado‖. Os dados do questionário vão ao encontro dessa tendência, pois entre os 70 aprendizes das cinco turmas do CIEE, 43 eram do sexo feminino, isto é, o equivalente a 61% do total. No caso do SENAI, esse índice estava abaixo do dado oficial, devido, principalmente, ao fato de a área de mecânica ainda ser predominantemente masculina. Mesmo com essa ressalva, encontramos um índice de 25% de mulheres nas três turmas do SENAI (13 em um total de 51). Quando agregamos os dados das duas instituições, temos 46% de aprendizes do sexo feminino, o que se aproxima bastante das estatísticas oficiais.

O curso de aprendizagem do CIEE tinha atendido às expectativas da maior parte dos jovens, principalmente por questões como o desenvolvimento profissional e/ou pessoal proporcionado, pelo conhecimento/aprendizado adquirido, pela experiência e pela mudança de comportamento no ambiente de trabalho. Os aprendizes do CIEE reproduziam com certa frequência a importância do curso de aprendizagem no sentido de saber se comportar ou se comportar melhor e adequadamente na empresa (―ter mais responsabilidade‖, ―nos ajudam a se desenvolver e se comunicar melhor e também a se portar e se expressar em ambiente de trabalho‖, ―meus educadores me davam uma boa estrutura comportamental‖), o que ilustra mais uma vez o foco em aspectos ético-disciplinares na formação oferecida pela instituição. Os que não tiveram suas expectativas atendidas indicaram o fato de o curso ser repetitivo e não relacionar teoria e prática.

Por outro lado, o perfil dos aprendizes do SENAI, embora tenha muitas características semelhantes, apresentava algumas diferenças, quais sejam: era do sexo masculino, tinha uma

média de idade maior do que a apresentada pelos jovens do CIEE, 20,3 anos, era negro, solteiro e sem filhos.

Também morava com os pais e/ou parentes na RMR, com uma renda familiar de até dois salários mínimos, tendo como principal fonte de renda o salário como aprendiz e ainda contribuía financeiramente com a família.

Diferentemente dos aprendizes do CIEE, para boa parte dos jovens do SENAI, a aprendizagem profissional não era a primeira experiência de trabalho, embora a maioria também nunca tivesse realizado trabalho voluntário.

Foram recorrentes as queixas de alguns aprendizes do SENAI a respeito da pouca prática ao longo do curso de aprendizagem, algo que será retomado em algumas falas dos jovens entrevistados no capítulo seguinte desta Tese.

Quanto ao nível de escolaridade dos pais, os dados eram bastante próximos dos aprendizes do CIEE, apresentando a mãe com um nível médio de escolaridade maior que o do pai.

A maioria dos jovens do SENAI havia tido suas expectativas atendidas quanto ao curso de aprendizagem devido a questões como: o conhecimento adquirido, a experiência, o desenvolvimento profissional e à qualidade do ensino oferecido. Os que se manifestaram em sentido oposto, justificaram sua opinião pela pouca prática oferecida pelo curso.

Realizando uma comparação entre os perfis, identifiquei algumas características distintivas entre os jovens das duas instituições formadoras.

As turmas do SENAI não tinham jovens com menos de 18 anos, o que acontecia em algumas turmas do CIEE.

Em relação ao ensino superior, encontrei um dado significativo: a maioria dos jovens universitários era do CIEE, enquanto que os do SENAI, em sua maioria, tinham o nível médio completo. Dos 70 jovens do CIEE que responderam ao questionário, 26 eram universitários (37%), enquanto que dentre os 51 aprendizes do SENAI, apenas seis estavam no ensino superior, o que correspondia a 11%.

O SENAI exigia como pré-requisito que o jovem estivesse no 2º ou 3º ano do ensino médio para ingressar no curso de aprendizagem, enquanto que o CIEE não fazia tal exigência. Além disso, o fato de o curso de aprendizagem do SENAI ter o nível técnico e, consequentemente, este diploma (credencial educacional, nas palavras de Bourdieu) garantir o reconhecimento como um profissional da área, fazia com que os aprendizes não buscassem, pelo menos por hora, o ensino superior, já que ao adquirirem uma profissão (―poder ter uma profissão, para me manter no futuro‖), teoricamente, estariam garantindo sua

―empregabilidade‖. Os jovens do CIEE, por sua vez, buscavam o ensino superior pelo fato de o curso de aprendizagem da instituição possuir apenas o nível de qualificação profissional e, por conseguinte, não ser tido como suficiente para conseguir um bom nível de ―empregabilidade‖ (credenciais educacionais insuficientes). Em outras palavras, no atual modelo de acumulação flexível, o mercado de trabalho é mais amplo para aqueles que têm um curso técnico do que para os que têm apenas um curso de qualificação profissional, embora, como já exposto, não haja uma relação direta entre qualificação e emprego.

Quanto aos aprendizes do CIEE, observei que as áreas e cursos de graduação, em geral, pouco ou nada tinham a ver com as áreas dos cursos de aprendizagem nos quais estavam matriculados, salvo algumas exceções (como Paula, perfil 11, por exemplo, como apresentarei no capítulo seguinte), o que demonstra um peso pouco significativo da experiência de aprendizagem nas escolhas e projetos profissionais dos jovens dessa instituição. No caso desses aprendizes fica mais claro o aspecto da passagem pelo Programa de aprendizagem profissional como uma ―alavanca‖ ou ―trampolim‖ dentro do mercado de trabalho ou para conseguir um capital (principalmente financeiro, mas social também) necessário para o investimento em uma real área de interesse (como, por exemplo, nos casos de Diana, Maria e Larissa, perfis 7, 6 e 9, respectivamente).

Em contrapartida, os aprendizes do SENAI me pareceram ter um maior ―compromisso‖ ou ‖engajamento‖ com a área de mecânica, pois boa parte pretendia seguir pelo menos áreas afins, como as entrevistas ilustrarão muito bem.

Utilizando os termos de Bourdieu (2005), posso afirmar que os jovens do CIEE buscavam mais o capital cultural em seu estado institucionalizado, isto é, para eles, parece- me, a obtenção de títulos, diplomas, credenciais educacionais era mais importante, enquanto que para os do SENAI, para além desse estado, o capital cultural em seu estado incorporado (conhecimentos adquiridos) era mais importante devido aos planos de seguir a profissão de mecânico.

No que diz respeito à principal motivação em participar do Programa de aprendizagem, após análise de conteúdo das respostas abertas do questionário, por turma e por instituição, posso destacar as seguintes categorias temáticas que apareceram com maior frequência, quais sejam:

1) Adquirir conhecimento/aprendizado: essas respostas se referiam tanto ao aspecto do desenvolvimento/crescimento pessoal (“grande oportunidade para que eu consiga ser alguém”) quanto à esfera profissional (”saber como se comportar na empresa”), sendo esta

última mais presente nas respostas dos aprendizes do CIEE, devido ao foco nos aspectos ético-disciplinares da formação;

2) Adquirir experiência: as respostas nesse sentido mostraram o quanto é importante para os jovens adquirirem experiência profissional (―todas as portas para o início da minha carreira profissional foram abertas‖), tanto no que diz respeito ao capital cultural no estado institucionalizado, quanto no estado incorporado. Principalmente, como expus anteriormente, na atual era da acumulação flexível se propaga o discurso da necessidade de uma melhor qualificação para conseguir garantir a ―empregabilidade‖;

3) A questão financeira/salarial: algumas respostas dos jovens destacaram a relevância de conseguir independência financeira em relação aos pais (―nunca gostei de depender dos meus pais”), por exemplo, e também conseguir dinheiro para investir em outra área profissional (“investir em outra atividade”), principalmente em relação aos aprendizes do CIEE, como ficará mais claro nas falas de alguns entrevistados;

As três categorias supracitadas são comuns aos aprendizes de ambas as instituições formadoras, porém, cabe ressaltar duas categorias que apareceram com certa frequência, especificamente, nas respostas dos aprendizes do SENAI:

4) Obter um curso técnico: na concepção de boa parte dos aprendizes o fato de adquirirem um curso de nível técnico acaba ―garantindo‖ a tão almejada ―empregabilidade‖, isso porque tal formação lhes proporciona ter uma profissão, reproduzindo a visão otimista da ―crise‖, a qual acredita que a qualificação funciona como um ―antídoto‖ contra a ―não- empregabilidade‖, porém os dados indicam o contrário, como ficará claro mais à frente;

5) Ter uma profissão: a profissão de técnico em mecânica é muito bem definida e reconhecida, o que garante o capital simbólico, para além do capital cultural (estados incorporado e institucionalizado). Além disso, o capital cultural em estado institucionalizado também funciona como um reforço, devido ao reconhecimento que o diploma de uma instituição como o SENAI, de abrangência nacional e vasta experiência em qualificação profissional proporcionada ao aprendiz (como Everton, perfil 13, por exemplo, o qual havia tentado por diversas vezes ingressar na instituição).

Essas duas categorias surgiram, obviamente, pelo fato de o curso de aprendizagem do SENAI ser de nível técnico, o que, no entendimento desses jovens lhes garantia uma ―profissão reconhecida‖, o que se constituía como algo mais difícil por parte dos aprendizes do CIEE, devido aos cursos serem de qualificação profissional e estarem ligados a Arcos Ocupacionais, os quais muitas vezes tornam mais complicada a definição/atribuição de uma profissão a essa atividade, como por exemplo, o curso de ocupações administrativas, o qual

não necessariamente torna o jovem um administrador, o que, em meu ponto de vista, tem repercussão direta na questão identitária desses jovens, como mostrarei ao longo do capítulo a seguir, através das entrevistas.