4 O PERCURSO METODOLÓGICO
4.3 OS CONTEXTOS DE APLICAÇÃO DO QUESTIONÁRIO E DA
[...] embora a ideia possa parecer perfeita, pura e rápida, a realização empírica sempre é imperfeita, impura e lenta (LAHIRE, 2004).
O questionário foi aplicado nas turmas disponíveis durante o horário das aulas teóricas nas respectivas instituições formadoras, sendo que no caso do CIEE-PE, uma das turmas tinha aula no prédio da FAFIRE23.
O SENAI foi a primeira instituição em que apliquei o questionário. Antes da aplicação em si, me apresentei e expliquei, de forma breve e clara, quais os objetivos da pesquisa. Solicitei a colaboração dos jovens para responderem as perguntas, dei algumas instruções básicas quanto ao preenchimento e tirei dúvidas ao longo da aplicação. A recepção por parte dos educadores e aprendizes foi muito positiva. Todos os jovens do Senai se disponibilizaram em responder ao questionário e alguns, inclusive, demonstraram interesse pela pesquisa. Também expliquei que daquele questionário, selecionaria alguns aprendizes para posteriormente entrevistá-los.
Quanto ao CIEE-PE, não me deparei com a mesma rigidez do SENAI e, por isso, fiquei mais livre na aplicação do questionário. A única condição que me foi imposta era a de avisar com pelo menos um dia de antecedência, via e-mail, que eu iria visitar as turmas.
Segui o mesmo protocolo de apresentação da pesquisa e solicitação de colaboração em participar da pesquisa, sempre deixando livre essa escolha por parte dos jovens aprendizes. De forma geral, a recepção por parte deles foi muito boa, pois apenas três entre todas as turmas não quiseram participar (dois se recusaram e um pegou o questionário, mas o deixou em branco).
A pesquisa de campo foi mais longa no CIEE-PE justamente pela dificuldade em encontrar todos os aprendizes na instituição. Diante disso, no momento seguinte, qual seja, o da entrevista, senti a necessidade de ir antecipadamente não só pelo fato de perguntar se o
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O CIEE-PE possui três espaços para distribuir as turmas de aprendizes: o Centro de Desenvolvimento de Competências (CENDECOM) e o Espaço Aprendiz, pertencentes à própria instituição, além de contar com um núcleo de aprendizagem na FAFIRE, Faculdade Frassinetti do Recife, criada em 1940, através de uma parceria firmada com essa instituição de ensino.
jovem poderia ou gostaria de me conceder a entrevista, mas também pelo fato de marcá-las e confirmá-las com uma semana de antecedência para não dar viagem perdida.
As primeiras entrevistas foram realizadas no SENAI. A instituição disponibilizou uma sala climatizada para a realização da entrevista, a qual era afastada das demais salas de aula, o que permitiu a privacidade e silêncio necessários para conduzir as entrevistas de forma adequada.
Foram disponibilizados três dias seguidos para a realização das entrevistas. A ordem e a quantidade de entrevistas em cada dia ficaram a meu critério. Porém, um dos aprendizes (Fábio, perfil 1) não pôde conceder a entrevista na data marcada, pois devido a uma prova acabou deixando a instituição mais cedo. Diante disso, tive que voltar na semana seguinte para concluir as entrevistas.
No CIEE as entrevistas levaram mais tempo, pois como os aprendizes só estavam uma vez por semana na instituição, precisei de mais tempo para realizá-las, pois não foi possível entrevistar todos os aprendizes no mesmo dia, como o horário era das 8h às 12h, eu tinha pouco tempo e, para manter a qualidade da entrevista, às vezes era necessário deixar de fazer outra entrevista para deixar a vontade o entrevistado do momento.
Em geral, as entrevistas duraram entre 25 e 50 minutos, sendo que a maior parte durou 30 minutos. Alguns jovens, naturalmente, se mostraram mais desinibidos do que outros diante da situação de entrevista. Iniciamos as entrevistas com alguns esclarecimentos acerca dos objetivos desta e sobre a sua dinâmica, isto é, como a entrevista seria conduzida, além de solicitar a autorização para gravação. Todos os entrevistados concordaram com a utilização do gravador.
Optei pelo uso do gravador devido à praticidade e, consequentemente, pela maior possibilidade de conduzir mais livremente a entrevista, só anotando o que parecia mais interessante no momento e ficando livre para elaborar outras perguntas ou pedir esclarecimentos quando julgava necessário. Em todas as entrevistas realizei anotações etnográficas acerca de como se deu o contato com o aprendiz entrevistado, o local onde ocorreu e como se desenvolveu a entrevista.
Por fim, realizei uma segunda entrevista com 10 aprendizes, pois foram os que consegui retomar contato dentre os 15 já entrevistados, com o objetivo principal de identificar o percurso biográfico e as experiências socializadoras dos jovens aprendizes, ou seja, ―[...] a questão das influências socializadoras heterogêneas e de seus efeitos sobre a constituição dos patrimônios de disposições individuais‖ (LAHIRE, 2004, p. 26). Diferentemente da primeira
entrevista, que foi face-a-face, esta segunda entrevista foi realizada por telefone, mais especificamente pela rede social whatsapp.
A técnica de entrevista por telefone permite a comunicação interpessoal sem encontro face-a-face. O método é utilizado desde os anos 1960, diante dos avanços tecnológicos (GONÇALO; BARROS, 2014). Optei pelo seu uso devido às dificuldades em encontrar pessoalmente com os jovens aprendizes, pois estes possuíam pouca ou nenhuma possibilidade de tempo para um encontro presencial, ou seja, funcionou como uma efetiva alternativa à entrevista face-a-face.
Nesse sentido, Velho (2004, p. 107) aponta que a entrevista deve ―[...] captar tendências dominantes dentro de universos particulares‖, pois nela os indivíduos expressam seus pontos de vista e visão de mundo. Para o autor, visão de mundo, biografia e experiência são aspectos fundamentais.
A entrevista é importante no sentido de captar a tentativa dos indivíduos em dar sentido a sua experiência fragmentada, através da construção de projetos (VELHO, 2004).
Em suma, Velho (2004, p. 106) sugere buscar na trajetória a explicação ou base para comportamentos, preferências e aspirações, tendo em vista a percepção da trajetória como expressão de um projeto: ―ou seja, a trajetória tem um poder explicativo mas deve ser dimensionada e relativizada com a tentativa de perceber o que possibilitou essa trajetória particular e não outra. É aí que parece que a noção de projeto pode ser útil‖.
Para apreender a relação entre trajetória e projeto realizei a análise de conteúdo, a qual desenvolverei no tópico a seguir.