Em tempos de guerra, todos devem lutar
3.1 CINEMA E ESTADO: AS SESSÕES DE FILMES EDUCATIVOS
O cinema, nos dias que correm, é um dos mais percucientes instrumentos de propaganda das nações civilizadas.
A Semana259
O estabelecimento das salas de projeção cinematográfica na cidade de Belém, no início do século XX, proporcionou a população citadina um novo estilo de entretenimento urbano que viria a se constituir como um importante meio de propaganda e veiculação de informações.
Na primeira metade do século XX o cinema registrou diversos acontecimentos ocorridos no mundo, servindo como instrumento de informação imagética para milhões de pessoas nos quatro cantos. Como visto nos capítulos anteriores, nos anos que se seguiram do segundo conflito mundial a veiculação de imagens dos campos de batalha foram exibidas para os freqüentadores dos cinemas brasileiros sob forma de cinejornais ou filmes que retratavam a guerra.
Com o golpe do Estado Novo, em 10 de novembro em 1937, assumiu como Interventor Federal do Estado o Dr. José Carneiro da Gama Malcher no dia 24 de novembro do mesmo ano. José Malcher exerceu o cargo até o dia 25 de janeiro de 1943, quando deixou a função para Miguel José de Almeida Pernambuco Filho. Contudo, José Pernambuco Filho ficou como Interventor Federal por um breve período, logo repassando a função para o Coronel Magalhães Barata em 09 de fevereiro de 1943, que permaneceu até outubro de 1945.260
Em relação aos Prefeitos que exerceram a função durante a Segunda Guerra, Ernesto Cruz explica:
O decreto nº 19398, de 11 de novembro de 1930, que instituiu o governo provisório da República, estabeleceu a dissolução das Câmaras municipais, passando as Intendências à denominação de Prefeituras, cabendo aos Interventores a nomeação dos respectivos Prefeitos. A 19 do mesmo mês,
259 A Semana – Belém, 25 de novembro de 1939. “O cinema brasileiro e o Dr. Getúlio Vargas”. 260 CRUZ, Ernesto. História do Pará.
em virtude dessa Lei, a Intendência passou a denominar-se Prefeitura Municipal de Belém.261
Ernesto Cruz deixa uma lacuna com relação aos prefeitos que assumiram o cargo no período da guerra. Não obstante, o historiador José Valente, em uma matéria para o jornal O Liberal, de 01 de outubro de 2000, comenta sobre as administrações municipais de Belém durante os seus 374 anos de existência. Nas suas pesquisas constatou que o prefeito municipal no período de 1935 a 1943 foi Alcindo Comba do Amaral Cacela, sendo substituído por Jerônimo Cavalcante entre os anos de 1943 a 1945.262 Contudo, podem-se contestar essas informações
fornecidas por José Valente a respeito da Prefeitura de Alcindo Cacela, pois seguindo as informações dos periódicos pesquisados, nos anos de 1939 a 1943, a Prefeitura municipal foi gerida pelo professor Abelardo Conduru.
Desde o início do conflito observou-se a atuação desses sujeitos históricos com a promoção de sessões cinematográficas para a população. Após a entrada do Brasil no conflito, em 1942, tanto as películas como as salas de projeção existentes na cidade de Belém foram utilizadas como frentes de combate na luta contra o nazismo. A relação entre o poder público paraense e os cinemas locais já existia, pois esses espaços eram aproveitados pelos governantes para a ação cultural, educativa e formativa.263
No primeiro capítulo, subitem Líbero Luxardo, discutiu-se também sobre a importância do cinema para o Estado Novo como instrumento de educação. O cinema voltado para fins instrutivos fazia parte do debate dos intelectuais e dos órgãos governamentais. Como na epígrafe citada a compreensão em relação ao cinema girava em torno do seu valor para a propaganda dos países civilizados, por isso a preocupação quanto à nacionalização e o fomento da indústria cinematográfica brasileira, para que esta viesse a atender aos interesses diversos, tanto dos produtores quanto do governo.
No que tange a essa preocupação existente em relação ao cinema, pode-se utilizar um dado importante para se refletir sobre a atração exercida pelas salas de
261 Ibid., p. 707.
262 O Liberal – Belém, 01 de outubro de 2000, p. 14 do Caderno Painel.
263 Anita Simis trabalha com os discursos apresentados por alguns intelectuais brasileiros, antes e depois da
“Revolução de 30”, a respeito da utilização do cinema como ferramenta para o desenvolvimento da educação. Para a autora o governo de Getúlio Vargas compreendeu a importância do cinema para a propaganda do Estado Novo. SIMIS, Anita. Estado e cinema no Brasil. São Paulo: ANNABLUME, 1996.
projeção no Brasil. O artigo do jornal Folha do Norte, de 14 de junho de 1940, informava a respeito da quantidade de espectadores que freqüentavam os cinemas cariocas.
RIO. 14 (A.U.) – Uma estatística publicada pela Prefeitura do Distrito Federal comprovou que, durante um anno, enquanto pouco mais de 600.000 pessoas assistiram a partidas de foot-ball, no Rio de Janeiro, 1.340.311 foram a espetáculos theatraes e 23.408.687 assistiram a sessões de cinema... A predilecção absoluta do povo carioca pelo cinema, predilecção essa que não errariamos si a extendescemos a todos os brasileiros, mostra que a creação da indústria cinematographica entre nós merece ser cuidada pelo poder público. Povo que gosta tanto de cinema precisa crear sua indústria filmesca. Seria uma obra de patriotismo, que estaria tão bem como todas as outras que, aqui e alli, se ensaiam ou se projectam ou se alicerçam e que, muitas vezes, são apenas lyricas. Pense- se nos milhões de dólares que essa preferência do público encaminha para o extrangeiro, e veja-se como seria vantajoso para o Brasil que essa caudal metálica aqui se detivesse... Mudando o circo para o cinema, o que, emblematicamente vem dar no mesmo, ter-se-ia resolvido, de uma cajadada, dois problemas.264
Trata-se de um artigo escrito sobre os cinemas na cidade do Rio de Janeiro e enviado para o jornal do Pará por telégrafo. A narrativa aponta o cinema como o preferido do público enquanto programação cultural, vindo em segundo plano o teatro e o futebol. A análise supõe a mesma preferência para o restante do Brasil. Apreende-se o destaque dado ao papel do poder público na formação de uma indústria cinematográfica lucrativa para o governo e ao papel do patriotismo, muito em evidência nos discursos de Getúlio Vargas e também dos filmes concernentes ao conflito.
Ao término, faz a comparação do circo com o cinema. Sugestivo deste o título, “Pão e... Cinema”, o artigo enfatizava não só o divertimento público, mas a política empreendida pelo Império Romano de escamotear problemas sociais e políticos de maior importância, agradando o povo com pão e, sobretudo, com distrações que impedissem qualquer forma de contestação por parte da população. Desse modo, fazendo uma analogia da política do pão e circo do Império Romano, com o governo de Getúlio o circo seria substituído pelo cinema, sendo que seriam sanados dois problemas: o financeiro e o de oposição ao regime ditatorial instituído com o Estado Novo.
Apesar do pouco investimento, o cinema brasileiro aos poucos ganhava destaque e incentivo por parte do governo. Determinadas leis foram criadas para facilitar a produção cinematográfica nacional.265 Nesse período, os filmes nacionais destacavam-se na imprensa local, conquistando o público, sendo que nos cinemas da cidade a ocorrência de filmes e cinejornais brasileiros tiveram uma participação expressiva se comparado com os anos anteriores.
Contudo, não se observa nada tão significativo quanto à quantidade de filmes vindos dos Estados Unidos. Segundo dados do DIP, os filmes nacionais ficaram em segundo lugar na lista de películas266 exibidas nos cinemas brasileiros, “(...) pelas
estatisticas, os paizes que mais forneceram foram: 1º - Estados Unidos; 2º - Brasil; 3º - França; 4º Allemanha; 5º - Itália; 6º - Argentina; 7º - Inglaterra; 8º - México. Dos films censurados, apenas seis foram interdictados”.267
Os dados fornecidos pelo DIP procuravam demonstrar o crescimento da produção cinematográfica brasileira. Aliada a esses fatores a tentativa de consolidar o projeto de alguns setores do Estado na utilização do cinema como meio de educar a população.268
Em Belém, durante a Segunda Guerra Mundial, percebe-se o reflexo dessa política na exibição de filmes educativos, em um primeiro momento promovido pela Prefeitura em conjunto com a Interventoria Federal do Estado. Em agosto de 1940 o jornal Folha do Norte noticiava a exibição do filme “III Congresso Eucharistico Nacional de Recife”.
Em concordancia com o secretario educacional do programma de instrucção pública adaptada pelo Estado Novo e obedecendo a instrucções do ilustre interventor federal, dr. José Malcher, o prefeito Abelardo Condurú, proporcionará aos alunos dos estabelecimentos de ensino da capital, uma
265 O Decreto-Lei de 1932 que previa a obrigatoriedade da exibição de filmes curta metragens nacionais como
complemento as sessões e o Decreto-Lei de 1939 que obrigava a exibição de pelo menos um filme longa metragem nacional por ano. Vide BERNARDET, op. cit.; ALMEIDA, op. cit.; SIMIS, op. cit.
266 É importante ressaltar que essas películas brasileiras referem-se aos cinejornais, em sua maioria, e os filmes
de longas metragens.
267 Folha do Norte – Belém, 04 de junho de 1940, p. 05. Os dados trabalhados foram fornecidos pelo DIP e
veiculado através do jornal Folha do Norte em uma coluna não muito freqüente “O Theatro, a Música e o Cinema na Cidade Maravilhosa”. Essa coluna aparecia comumente uma vez na semana, sem dia definido, e informava sobre a programação cultural que estava ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro.
268 O empenho feito pelos cineastas brasileiros para a utilização do cinema enquanto recurso educativo surtiu
efeito durante os anos iniciais da década de trinta, conseguindo “o merecido apoio do estado, esses cineastas de moral elevada conseguiram suprir o mercado com filmes educativos que ocupariam o espaço das fitas chulas, imorais e apelativas distribuídas por empresas estrangeiras ou ‘cavadores’ nacionais”. ALMEIDA, op. cit., p. 67.
sessão especial de filme religioso “III Congresso Eucharistico Nacional de Recife”, amanhã, quinta-feira pela manhã, no Cine Independencia.269
Nas informações do periódico, a exibição do filme educativo sobre o congresso religioso seguia a proposta do Estado Novo para a instrução dos alunos, utilizando o cinema como veículo de ensino patriótico e religioso dos jovens estudantes.270 Nota-se também que como interventores locais, Abelardo Conduru e
José Malcher promoveram outras sessões cinematográficas gratuitas para os alunos.
A intervenção do Estado dava-se através dos decretos-leis que favoreciam, mesmo que em pequena escala, a produção cinematográfica brasileira e a produção de cinejornais através do DIP. Em Belém, Líbero Luxardo e a Amazônia Films produziram algumas películas jornalísticas em consonância com o poder público local.271 Contudo, destacaram-se as sessões promovidas em conjunto com as
empresas proprietárias das salas de projeção.272
A repercussão da sessão promovida pelo poder público de Belém e do Estado do Pará levou a contínuas exibições do filme religioso. No dia 12 de agosto de 1940 o periódico informava sobre a continuidade do evento, destacando, novamente, a participação do Prefeito e do Interventor Federal no Estado orientados pela política do Estado Novo.
Mais de quatro mil creanças presenciaram o desdobrar da formosa fita, achando-se superlotada a casa em ambas as sessões. Grande foi o êxito do espetáculo, grande e instructivo também. E dado o enthusiasmo dos escolares pela pellícula, o governador da cidade entrou em combinação com a empresa do cine Independência para, nesse centro diversional, ser novamente passada a grande e bem feita fita, que assim será focada, ainda por três vezes: amanhã, quarta e quinta-feira.273
O interesse pela fita levou um número considerável de alunos à sala de projeção, destarte as sessões obtiveram resultados quanto a utilização do recurso
269 Folha do Norte – Belém, 07 de agosto de 1940, p. 04. “Um film educacional para os escolares de Belém”. 270 Anita Simis ressalta que durante a década de trinta a intervenção do Estado intensificou o incentivo à
produção de filmes educativos, citando o discurso do Presidente Getúlio Vargas de 1934 em que destacava o papel pedagógico do cinema. SIMIS, A. op. cit. p. 29-30.
271 Ver primeiro capítulo subitem sobre Líbero Luxardo.
272 Tanto a empresa Cinematográfica Paraense como a Cardoso & Lopes dispunham para as exibições gratuitas
promovidas pelo poder público duas salas de cinema, geralmente uma luxuosa e outra de bairro.
273 Folha do Norte – Belém, 12 de agosto de 1940, p. 04 do 2º Caderno (Folha Vespertina). “O cinema a serviço
imagético como ferramenta de instrução durante sua gestão como chefe do executivo local. Pelas informações apresentadas no jornal, as sessões surtiram efeito diante do público juvenil que apreciava o cinema como entretenimento.
Além da gratuidade das sessões para os escolares a repetição do evento durante mais três dias parecia refletir os objetivos alcançados com a utilização das salas de projeção como recurso complementar à educação da população. A participação das autoridades políticas em uma das sessões demonstrava o interesse pelo cinema educativo.
O dr. José Malcher e o professor Abelardo Conduru, bem como o dr. Pernambuco Filho, assistirão o primeiro desses espetáculos, cujos interesses, ansiosamente desejado pelo mundo infantil da nossas escolas já se acham em distribuição.274
Observa-se que outros pontos foram destacados nos artigos acerca da do Congresso Eucarístico, dentre eles o entusiasmo e o interesse causado no público escolar. No dia 15 de agosto de 1940, o periódico voltou a informar a respeito da exibição do filme.
Exhibição patrocinada pelo prefeito Abelardo Conduru, em coordenação com a Diretoria de Educação, grande interesse tem despertado a meninada escolar, que em número superior a 6000, tem assistido as sessões especiaes no Cine Independência.275
O que se pôde observar com essas atividades cinematográficas para os estudantes de Belém era o interesse desses setores políticos de manter uma estreita relação com os postulados educacionais do governo Vargas atendendo aos interesses de alguns setores que viam no cinema um importante meio de comunicação.
Esses “espetáculos” perduraram outras vezes durante o ano de 1940, sendo a prefeitura de Belém incentivadora das sessões cinematográficas. Contudo, não eram somente os filmes documentários ou os cinejornais utilizados para as sessões de cinema promovidas pelo poder público, mas também os filmes de longa metragem. Como foi noticiado em outubro de 1940 a respeito do filme “Com os
braços abertos” exibido em Belém.
O Sr. Prefeito de Belém, reconhecendo ser o film “Com os braços abertos” um espectaculo educativo e cheio de exemplos sãos para a juventude, vae offerecel-o em exhibições especiaes, gratuitamente, para as creanças das escolas e para o povo em geral.276
Diferente da proposta do filme sobre o Congresso Eucarístico essa exibição se estendeu gratuitamente ao público em geral. Com a tentativa de atingir um público maior o prefeito estendeu a sessão ao povo, para repassar, não somente um espetáculo educativo, mas também valores morais propagados pelos filmes hollywoodianos. Os exemplos sadios, expostos no artigo do jornal, serviriam para a juventude da capital paraense como referência de solidariedade e civismo difundidos pelo Estado.
O cinema enquanto espaço político e de propaganda foi incorporado no itinerário dos chefes do executivo local, viabilizando condições para que as salas de projeção e as fitas apresentadas servissem aos interesses morais e patrióticos.277 A articulação com as empresas proprietárias dos cinemas vai se estender ao longo do conflito. Nesse caso, a empresa Cinematographica Paraense era quem tinha disponibilizado as salas de projeção.
Essas exhibições terão lugar, para os collegiaes, nos cinemas Iracemas e Poeira, quinta e sexta-feira, isto é, amanhã e depois, às 2 horas da tarde, em ambos, e, na manhã de sabbado, às 9 horas, no cinema Poeira. Para o povo, em geral, haverá uma única exhibição, quinta-feira, à noite no Poeira.
O filme “Com os braços abertos” teve muita repercussão perante o público belenense e no jornal Folha do Norte, levando o periódico a promover um concurso “instituído pela Empresa Cinematographica Paranese S.A., em torno das
interpretações de Mickey Rooney e Spencer Tracy na grandiosa pellicula da ‘Metro’...”.278 Para essas exibições promovidas pela Prefeitura em conjunto com a
Cinematographica Paraense seriam usados dois cinemas, o Iracema e o Poeira. O
275 Folha do Norte – Belém, 15 de agosto de 1940, p. 05.
276 Folha do Norte – Belém, 09 de outubro de 1940, p. 05. “A Prefeitura vae offerecer, para os collegiaes e para o
povo, exhibições gratuitas do film ‘Com os braços abertos’”. O enredo do filme propiciava para uma análise educativa e incentivadora de ações solidárias, pois tratava sobre questões morais relacionadas a educação dos jovens que não tinham o amparo da família nem do Estado.
277 A questão do patriotismo vai ser mais bem explorada com a entrada do Brasil na Guerra, mudando o estilo
Iracema tinha requintes luxuosos voltados para as classes sociais mais abastadas
da capital, diferente do cinema Poeira que estava voltado para o público dos bairros pobres da cidade, sendo que nesse cinema a exibição foi gratuita ao povo.
Em novembro de 1940 a passagem do presidente Getúlio Vargas pela cidade de Belém repercutiu perante a população. A visita foi registrada pelas câmeras cinematográficas e apresentada como uma curta reportagem no cinema Iracema, novamente promovida pela Prefeitura Municipal.
O prefeito de Belém, professor Abelardo Conduru, fez passar na tela do “Iracema” hoje, às 9 horas da manhã, em uma sessão especial, interessante reportagem fotographica da segunda e recente vinda do presidente da República à nossa capital.
Essa celulóide, embora de processamento curto, nos dá nitidamente, flagrantes expressivos de todas as visitas do grande chefe do executivo nacional. Assim, vemol-o, ao presidente Getúlio Vargas, nas casernas onde aquarteladas as forças federais, como nos quartéis das tropas estaduais, na basílica de Nazareth, no Museu Goeldi, no Instituto Agronômico do Norte, como nas oficinas do SNAPP, em Val-de-Cães, ou inaugurando o Grupo Escolar Dr. Freitas etc. E reproduz, ainda, em parte, a parada da juventude, com aspecto do desfile das normalistas, gynasianos do Instituto Gentil Bitencourt e grupos escolares.
Assistiram a exhibição da pellicula, entre outras, as seguintes pessoas – Interventor José Malcher, acompanhado de seu ajudante de ordens; general Edgar Faço, comandante da 8º Região; prefeito Abelardo Conduru; dr. Salvador de Borborema, chefe de polícia; dr. Pernambuco Filho, secretaria geral interino do Estado; Coronel Wolerand da Silveira, commandante da 26º B. C.279
A matéria transcrita do periódico paraense revela como os diversos setores da política estadual interagiam com as salas de projeção, colocando como espaços divulgadores das atividades do governo. A passagem por Belém do Presidente Getúlio Vargas foi bastante noticiada pela imprensa local e as tomadas de cena do presidente pareciam representar o poder simbólico do Estado junto ao povo da capital paraense.
Os diversos atos de solenidade da qual participou o Presidente faziam parte da proposta do Estado Novo para a política desenvolvida pelos cinematografistas que produziam as películas jornalísticas para o governo. Além disso, as autoridades compareciam as sessões compartilhando com o público das salas de projeção os postulados propagados.
278 Folha do Norte – Belém, 01 de outubro de 1940, p. 04 da Folha Vespertina. “Os vencedores do concurso do
Filme ‘Com os braços abertos’”.
279 Folha do Norte – Belém 28 de novembro de 1940, p. 04. “O ‘Film’ da visita a Belém do presidente
Ao analisar a relação entre Estado e cinema no Brasil, Simis (1996) trabalha com as teorias debatidas, desde o final da República Velha, em relação à utilização do cinema como meio de propaganda do estado brasileiro. Esse debate vai ser adensado com a participação de vários intelectuais e políticos após a implantação do governo de Getúlio Vargas, em 1930. Nesse caso, visava-se não só o cinema com função educativa para a sociedade brasileira, mas também “contribuir para unir
e entrelaçar as forças vivas da nação”.280
Como visto anteriormente, o cinema tinha como função estabelecer a comunicação entre as diversas regiões brasileiras, despertando assim o sentimento patriótico, desvinculando as diferenças de classe existentes no Brasil em prol de uma integração da nação, tendo como porta voz o Estado.
Não por acaso, durante o Estado Novo, período em que Getúlio Vargas buscou fazer-se o centro político, o único árbitro e salvador dos extremismos da direita e da esquerda, mais do que fora como presidente provisório ou presidente constitucional, a máquina da propaganda expandiu- se e aperfeiçoou o controle das informações, com a realização de filmes