4.1 ESTEREÓTIPOS DE MULHERES E HOMENS
4.1.3 Circulares sobre a Feira de Conhecimentos 2006/2007
O caráter ideológico da linguagem, como exposto por Bakhtin (2006), permite pensar na socialização de conhecimentos, valores, atitudes, pré-conceitos e construções estereotipadas sobre o ser e o fazer de mulheres e homens, na escola. O caminho da comunicação é sempre permeado por um texto de muitas vozes e sentidos, onde os olhares se encontram e se falam. Olhares recheados de funções, códigos, símbolos, significações, subjetividade, intencionalidade, enfim, prenhes de linguagens e de discursos. Analisando-os, percebi que a escola é atravessada por gênero (GUACIRA LOURO, 1997a) e que, através do simbólico, do ideológico, e de diferentes percursos (discursos), os sujeitos vêem, registram, participam e se posicionam diante da realidade. Esses percursos são, portanto políticos, simbólicos, intencionais e se utilizam da língua como código e da metáfora como sentido. Apropriam-se de marcas linguísticas e refletem historicidade, crítica, conformidade.
Nas mensagens em linguagem verbal e não verbal das circulares sobre a Feira de Conhecimentos, a presença de indícios de gênero:
“2006 - Imagem: Duas crianças num laboratório em meio a livros, tubos de ensaio, microscópios. O menino manipulando tubos de ensaio, a menina, olhando ao microscópio (Ver anexo A).
- Texto escrito: [...] Com imaginação e observação, bases da investigação científica,
nossos alunos buscam compreender e explicar os fenômenos da natureza e da vida em
sociedade.
2007 - Imagem: ‘Cientista maluco’ – homem idoso, calvo, com cabelos brancos e
despenteados nas laterais da cabeça, expressão confusa e dois tubos de ensaio borbulhantes nas mãos. Em volta dele as palavras: pesquiso, descubro, experimento, investigo, aprendo, questiono.
- Texto escrito: [...] Pensar no conhecimento científico é refletir sobre as possibilidades e riscos das Ciências para a vida da humanidade.” (Ver anexo B).
Em 2006, a imagem sugere a relação de superioridade entre meninas e meninos ao
representá-las/os: ela, numa posição secundária, olhando ao microscópio, registrando dados, coletando informações, percebendo regularidades; ele, manipulando os tubos de ensaio (função que exige concentração, destreza, equilíbrio, responsabilidade, imagem que durante muito tempo habitou o imaginário acadêmico e empírico – o homem liderando os processos
de experimentação). Esta imagem também bastante veiculada pela ciência positivista confina a mulher à subalternidade, pouca autonomia e acanhado reconhecimento na pesquisa científica (gravura bastante comum nos livros didáticos de Ciências do Ensino Fundamental).
Atrelado ao texto não-verbal, um texto em linguagem escrita que reafirma a hegemonia masculina. “Nossos alunos” (e não, nossas crianças ou nossas/os alunas/os), pesquisam, exploram, descobrem, inauguram. Ações presentes no fazer de meninas e meninos na escola e na vida e não expressas nos textos analisados. Se eles descobrem, inauguram, pesquisam, onde elas ficam?
Em 2007, a imagem de um cientista maluco (Ver anexo B) – homem idoso, com jeito
esquisito e caricato, perdido entre tubos de ensaio, microscópios e substâncias borbulhantes. Mais uma vez a sugestão de que só homens fazem ciência, espaço para pessoas esquisitas, fora dos padrões de normalidade, loucas. Estereótipo bastante distante da realidade das pesquisadoras e dos pesquisadores que fazem a ciência hoje. Este homem de aparência pouco confiável que carrega a responsabilidade de investigar, descobrir, pesquisar... E as mulheres, não fazem ciência? Ao fazerem, serão também loucas? Que representações podem fazer as crianças sobre esta imagem, sobre esta mensagem? Construções desta natureza, podem levá- las a pensar que, refletir sobre os riscos e possibilidades da ciência é tarefa exclusiva de pessoas (e principalmente homens) excêntricas e esquisitas.
A mesma imagem da circular 2007 foi ampliada e colocada no mural do corredor que dá acesso às escadas. Em volta do cientista, chamadas em caixa alta sobre as “responsabilidades da ciência”, ilustradas por imagens das/os alunas/os em seu fazer diário na escola: a química na cozinha; para descobrir é preciso experimentar; o mundo do dinheiro; microorganismos, vacinas e saúde; a química na estética; poluição sonora. Pensando no predomínio do viés androcêntrico nos discursos da escola até aqui analisados e na perspectiva das construções ideológicas sobre a relação homem/ciência, questiono: Por que, nas chamadas sobre os objetivos da ciência, a alusão à Química na estética e na cozinha, sabendo-se que este espaço é majoritariamente visitado/ocupado por mulheres? Interessariam às mulheres informações sobre culinária e beleza ou esta seria uma forma (estereotipada) de incluí-las no discurso?
A análise destas circulares me levou a buscar em outros e amplos veículos de linguagem estereótipos de cientistas. Nas Histórias em Quadrinhos, a exemplo do Professor Pardal, personagem criado pela Walt Disney Company, uma mistura de homem e galo e que representa um gênio inventor; nos filmes de Hollywood, como O Professor Aloprado, comédia americana, onde um tímido e franzino professor que ensina química numa universidade descobre uma fórmula que o transforma num homem encantador; o conhecido
personagem Victor Frankenstein, criado, em 1818, por Mary Shelley, jovem estudante de Ciências Naturais que, obstinado pela ideia de descobrir os mistérios da criação, se isola de tudo e todos para construir, em seu próprio laboratório, um ser monstruoso, perigoso e violento. Estes exemplos revelam homens dotados de inteligência superior e não adaptáveis à dinâmica social (são solitários, deslocados, antissociais). Nas três representações, indivíduos do sexo masculino excêntricos, diferentes, deslocados e que fazem ciência, descobrem, inventam. Maria Lúcia Wortmann (2002, p. 29), em seu estudo sobre as representações de professoras na literatura, expressa bem esta realidade:
[...] Os estudantes – poucas vezes garotas são as personagens principais dessas aventuras –, jovens curiosos, inteligentes e argutos, envolvem-se na elucidação dessas situações auxiliados/estimulados por professores homens – cientistas/sábios extravagantes distraídos, mas curiosos e inventores.
Percebi, em todo o material analisado na Escola Experimental, profundas marcas ideológicas. Não se trata apenas da ocupação física de espaços por meninas e meninos, mulheres e homens, ou da simples escolha de linguagens ou marcas linguísticas apropriadas para a construção de textos, mas de discursos carregados de pré-concepções, estereótipos, representações, discriminações construídas, reproduzidas e atualizadas (ainda que inconscientemente), cotidianamente na escola como bem expresso no depoimento de Margarida: “[...] O homem é mais objetivo, ele realiza atividades, mas uma de cada vez; ele não consegue completar uma atividade com outra ao mesmo tempo. E acho que essas características fazem parte da estrutura dos dois. Perpassa também pela forma como eles foram educados, pelas contribuições de outras pessoas, outros tempos. Porque a gente vai construindo a educação a partir do que a família diz, do que a escola diz. De como foi a educação dos meus pais, meus avós, então eu acho que isso influencia efetivamente em você ter uma postura ou outra postura.”
A realidade vivida pelas crianças na escola, no que diz respeito a gênero, evidencia uma educação (que não se pretende, mas que é) diferenciada, com valorização do masculino e desvalorização das características femininas. Vejo que as palavras de Alicia Fernandéz (1994, p. 11) representam um alerta para a forma como se pensa e pratica a educação de meninas e meninos:
[...] O que aprenderão os alunos e as alunas junto com a leitura e a escrita? Transversalizada por qual ideologia estará o ensino da escrita e das palavras? O ensino sobre o que é homem e o que é mulher não consta no currículo da escola, mas o ocultamento, a desmentida, a omissão da identidade, penetram através do não-dito.