2 PARTE 1 DIREITO CONCORRENCIAL E ARBITRAGEM NO BRASIL: O
2.2 A RESOLUÇÃO DE DISPUTAS PELA ARBITRAGEM
2.2.2 A Convenção de Arbitragem
2.2.2.1 Cláusula Compromissória e Compromisso Arbitral
A cláusula compromissória é definida no artigo 4º da Lei de Arbitragem como sendo “a convenção através da qual as partes em um contrato comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a tal contrato”. O Compromisso Arbitral, por sua vez, nos termos do artigo 9º do mesmo
255 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Sentença Estrangeira Contestada nº 6.753-7. Relator: Maurício Corrêa. Julgado em 13 de junho de 2002. Disponível em <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=265769 > Acesso em 21 jan. 2018.
256 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Agravo Regimental na Sentença Estrangeira nº 5.206-7. Relator: Ministro Sepúlveda Pertence. Julgado em 12 de dezembro de 2001. Disponível em < http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=1091267> Acesso em 26 jan. 2018.
diploma é entendido como “a convenção através da qual as partes submetem um litígio à arbitragem de uma ou mais pessoas, podendo ser judicial ou extrajudicial”. 257
A diferença que se pode destacar entre a cláusula compromissória e o compromisso arbitral, portanto, diz respeito ao momento em que a convenção é firmada, ou seja, enquanto a cláusula compromissória diz respeito a litígio futuro e incerto e o compromisso arbitral diz respeito a litígio atual e específico258. Neste
sentido:
A convenção de arbitragem, juridicamente válida, é o elemento indispensável para a instituição de um tribunal arbitral e sua competência no julgamento de uma lide. Quando refere-se a uma lide futura, decorrente de determinada relação jurídica, entre duas partes, mormente de natureza contratual, a convenção de arbitragem (convention d’arbitrage, patto de arbitrato, Schiedsvereinbarung Schiedsabrede) é denominada cláusula compromissória (clause compromissoire) ou, por vezes, também, cláusula arbitral (Schiedsklausel). Se, entretanto, a convenção de arbitragem estiver relacionada à lide já existente, costuma-se falar em compromisso arbitral (compromis, Schiedsvertrag).259
O Superior Tribunal de Justiça260, nos autos da Sentença Estrangeira
Contestada nº 1.210, sob relatoria do ministro Fernando Gonçalves, distinguiu as duas espécies de convenção da seguinte forma:
A diferença entre as duas formas de ajuste consiste no fato de que, enquanto o compromisso arbitral se destina a submeter ao juízo arbitral uma controvérsia concreta já surgida entre as partes, a cláusula compromissória objetiva submeter a processo arbitral apenas questões indeterminadas e futuras, que possam surgir no decorrer da execução do contrato.
Assim, quanto ao momento da formação e à cronologia do conflito, pode-se resumir a diferença entre as espécies da convenção de arbitragem da seguinte forma: a cláusula compromissória geralmente se antecipa; é firmada anteriormente ao surgimento da desavença, adquirindo, em certa medida, caráter preventivo; ao passo que o compromisso é necessariamente contemporâneo ou posterior à
257 BRASIL. Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996. Dispõe sobre a arbitragem. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9307.htm>. Acesso em: 20 jan. 2018.
258 FIÚZA, César. Teoria Geral da Arbitragem. Belo Horizonte: Del Rey, 1995, p. 109. No mesmo sentido, CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo um comentário à lei nº 9.307/96. 3ª ed. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2009, p. 102.
259 RECHSTEINER, Beat Walter. Arbitragem Privada Internacional no Brasil. Depois da nova Lei 9.307, de 23.09.1996. 2ª Ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2001. p. 52.
260 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Sentença Estrangeira Contestada nº 1.210. Relator: Ministro Fernando Gonçalves. Julgado em 20 de junho de 2007. Disponível em <https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=702299& num_registro=200601859186&data=20070806&formato=PDF> Acesso em 26 jan. 2018.
controvérsia, e, por isso, remediativo, podendo resultar tanto da vontade das partes quanto de determinação judicial261.
Além da distinção fundamental quanto ao momento da formação e à cronologia do conflito, a legislação estabelece uma série de diferenças entre os documentos instauradores da arbitragem que fogem ao escopo do presente estudo262.
Em que pese as diferenças apresentadas entre as duas espécies de convenção de arbitragem, tem-se em comum entre a clausula compromissória e o compromisso arbitral que, havendo sua pactuação, as partes submetem as eventuais controvérsias ao juízo arbitral, fazendo, assim, uma efetiva renúncia à jurisdição estatal, condicionada à abertura de outra via para a solução da controvérsia: o juízo arbitral263. Neste sentido, segundo Carlos Alberto Carmona:
A convenção de arbitragem tem um duplo caráter: como acordo de vontades, vincula as partes no que se refere a litígios atuais ou futuros, obrigando-as reciprocamente à submissão ao juízo arbitral; como pacto processual, seus objetivos são os de derrogar a jurisdição estatal, submetendo as partes à jurisdição dos árbitros. Portanto, basta a convenção de arbitragem (cláusula ou compromisso) para afastar a competência do juiz togado, sendo irrelevante estar ou não instaurado o juízo arbitral (art. 19)264
Quanto à eficácia da convenção arbitral, portanto, a doutrina brasileira destaca duas facetas: a eficácia negativa e a eficácia positiva. Quanto à primeira, em síntese, trata-se de uma renúncia à jurisdição estatal “condicionada à efetiva abertura de outra via para a solução da controvérsia: o juízo arbitral”265. A segunda,
261 SILVA, Rodrigo Tellechea. Sociedade Anônimas Fechadas: Direitos Individuais dos Acionistas e Cláusula Compromissória Estatutária Superveniente. Tese de doutorado. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015, p. 434.
262 o artigo 10 da Lei 9.307/96 exige que o compromisso arbitral deve, obrigatoriamente, conter: I – nome, profissão, estado civil e domicílio das partes; II – nome, profissão e domicílio do árbitro, ou dos árbitros, ou, se for o caso, a identificação da entidade à qual as partes delegaram a indicação de árbitros; III – a matéria que será objeto da arbitragem; e IV – o lugar em que será proferida a sentença arbitral. Já o art. 11 refere que o compromisso poderá conter: I – local, ou locais, onde se desenvolverá a arbitragem; II – a autorização para que o árbitro ou os árbitros julguem por equidade, se assim for convencionado pelas partes; III – o prazo para apresentação da sentença arbitral; IV – a indicação da lei nacional ou das regras corporativas aplicáveis à arbitragem, quando assim convencionarem as partes; V – a declaração da responsabilidade pelo pagamento dos honorários e das despesas com a arbitragem; e VI – a fixação dos honorários do árbitro, ou dos árbitros. BRASIL. Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996. Dispõe sobre a arbitragem. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9307.htm>. Acesso em: jan. 2018
263 RANZOLIN, Ricardo. Controle Judicial da arbitragem. Rio de Janeiro: GTZ, 2011. p. 88.
264 CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo um comentário à lei nº 9.307/96. 3ª ed. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2009, p. 79.
por seu turno, trata-se de “condição de a convenção arbitral estabelecer efetiva renúncia ao exercício da pretensão processual diante de determinadas lides envolvendo direitos patrimoniais disponíveis, previstas na mesma convenção”266.