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ESTRATÉGIAS DE COMPLEMENTAÇÃO DE VERBOS DIRECIONAIS E DE VERBOS BITRANSITIVOS EM VARIEDADES DO PORTUGUÊS NO BRASIL E EM

2.3 A COMPLEMENTAÇÃO DE VERBOS BITRANSITIVOS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

2.3.3 Clíticos dativos e redobro no Português Brasileiro

No processo de transição do latim para as línguas românicas, além das preposições a e

para, as formas clíticas de 3P lhe passaram a ser associadas ao Caso dativo (ORDOÑEZ, 1999,

p. 1867), como verificado em (25)53. O PE tem conservado essas propriedades que expressam

canonicamente o dativo, estabelecendo-se uma estreita relação entre o uso da preposição a e o emprego obrigatório do clítico lhe (OLIVEIRA, 2005). A realização do clítico de 3P lhe, em contexto de retomada referencial, ao qual é associado o papel semântico [+humano] (34a) é restrita ao contexto em que é empregada a preposição a (38b e 38c). O uso da preposição a permite, ainda, a formação de estruturas com redobro de clítico (38d), obrigatória na variedade europeia do português (38e), sendo impossível a sua realização quando o complemento indireto é encabeçado por para (38f).

(38) Expressão dativa no português europeu a. A Maria deu-lhe um livro.

b. A Maria deu um livro ao Pedro. c. A Maria deu ao Pedro um livro

d. A Maria deu-lhe um livro a ele. [não a ela] e. *A Maria deu um livro a ele.

f. *Dei-lhe um livro para ela.

Entretanto, assim como se tem percebido uma redução no uso da preposição a no PB (ver Seção 2.2.1 neste Capítulo), a literatura tem apontado para uma baixa produtividade dos clíticos de 3P como mais uma das propriedades no conjunto de reanálises que refletem a perda da expressão do dativo nesta variedade do português (ver TORRES MORAIS; BERLINCK, 2006; TORRES MORAIS, 2007). A reconfiguração que afeta os clíticos incide na redução no uso das formas clíticas lhe, que são substituídas por duas estratégias: a realização da variante

53 Clíticos dativos

Francês (HAEGEMAN, 1994, p.188)

a. Je lui donne un livre.

I.NOM CL.DAT give a book.ACC

‘Eu lhe dou um livro.’

Português Brasileiro (TORRES MORAIS, 2007, p.105)

b. O João deu-lhe um computador.

NOM give.PAST-cl.DAT ACC

Espanhol (ORDOÑEZ, 1999, p. 215)

c. Juan le envió un libro a María.

preposicionada (pronomes fortes – ela/s, ele/s – introduzidos por uma preposição) (39a), ou a não realização (nulo anafórico) na expressão do dativo de 3P (39b), quando deveriam ocorrer as formas clíticas. Além dessas propriedades particulares do PB, a redução no uso da preposição

a parece ter motivado a ausência de estruturas com redobro de clítico (29d) (RAMOS, 1992).

(39) Configuração do dativo no português brasileiro a. Pedro deu flores para/a ela.

b. Pedro deu flores.

Resultados de pesquisas desenvolvidas à luz de abordagens teóricas diversas têm mostrado a redução no emprego da forma cliticizada lhe. Gomes (2003), em seu estudo com dados orais de falantes com escolarização fundamental e média do Rio de Janeiro, mostra que o uso do clítico não é uma estratégia adotada nas amostras analisadas, uma vez que não verifica

nenhuma ocorrência de uso do pronome em sua análise. Por sua vez, Freire (2000) mostra que,

nesta mesma localidade (Rio de Janeiro), o uso do clítico dativo de 3P lhe também não ocorre na fala de indivíduos com nível superior completo, verificando-se, assim, uma perda quase completa desses pronomes. Em lugar dessa realização, os falantes optam ou pelo pronome forte

ele/ela introduzido por preposição ou pela realização nula como estratégia de retomada

referencial. Quadro que se contrapõe aos resultados do PE, em que o pronome clítico lhe, nesse mesmo contexto de uso, apresenta uma ocorrência superior a 80%, despontando como estratégia favorita na variedade europeia do português. Essa alteração observada no PB é caracterizada por Torres Morais e Berlinck (2000) como uma das mudanças mais significativas no PB com relação ao PE.

Silveira (2000), ao analisar a fala de Florianópolis, registra um uso sutil do clítico dativo de 3P, apenas 2%, em oposição ao emprego do sintagma preposicionado anafórico expresso pelo pronome tônico, com 98%. A fala de Curitiba é analisada por Belinck (2001), sendo verificado apenas 1% de uso do clítico dativo nos dados analisados. Os resultados da autora mostram que à medida que a forma pronominalizada de 3P do dativo apresenta um decréscimo em seu uso, o pronome lhe em referência à segunda pessoa (2P) do discurso mostra-se bem empregada tanto em função dativa quanto acusativa (cf. RAMOS, 1998; FREIRE, 2000) (40).

(40) Generalização funcional do clítico dativo lhe (NASCIMENTO, 2011, p. 58) a. Escrevo-lhe essa carta para agradecer o amor e o carinho. (C-31JI)

b. Por isso resolvi lhe procurar. (C-16FE) CLACC2P.Sg

No PB, a literatura aponta para um uso indiscriminado do clítico lhe independente do traço de pessoa e função. Esse sincretismo entre a 2P e 3P do singular teria sido ocasionado, segundo Duarte (1993), pela inserção da forma você ao sistema pronominal do PB, por volta dos anos 1930, suplantando o uso do pronome tu54. A introdução do você ao paradigma pronominal leva o verbo a perder a marcação de 2P, conservando a expressão referente à 3P do singular da forma de origem, Vossa Mercê e, ao mesmo tempo, possui interpretação semântico- discursiva, relativa à 2P (LOPES, 2015).

Essa reorganização do quadro pronominal do PB com a inserção de você55 dá origem à multifuncionalidade do clítico lhe e incide também na complementação verbal. Em análise diatópico-diacrônica do sistema de tratamento do PB, a partir de cartas, Lopes, Rumeu e Carneiro (2012) mostram que a forma lhe concorre com te/ti, você e o senhor56 como estratégia de 2P empregada como complemento verbal na função dativa nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais (Tabela 04), assim como aparece entre as estratégias de complementação acusativa nas localidades analisadas pelas autoras (Tabela 05).

Tabela 04. Distribuição das variantes de dativo de 2P em cartas brasileiras do século XIX e XX

Localidade  RJ BA MG Pronome dativo Te 230 01 45 67% 0,8% 28% Lhe 29 84 82 8,5% 64,1% 51% A você 08 05 09 2,3% 3,8% 05% Para você 15 01 02 4,4% 0,8% 0,1% Prep+ti 12 -- 05 3,5% -- 02% Prep+o senhor -- 16 -- -- 12% --

54 Esse pronome (tu) reaparece já no final do século XX, sem concordância com a segunda pessoa. 55 E, posteriormente, a inserção de a gente.

56 O senhor, estratégia restrita aos dados da Bahia nas amostras analisadas pelas autoras, diferentemente de você,

que consiste em um pronome de tratamento, é um substantivo masculino que pode ser empregado como tratamento cerimonioso.

 49 17 16

14,3% 13% 10%

FONTE: Adaptado de Lopes, Rumeu e Carneiro, 2012, p.206.

Tabela 05. Distribuição das variantes de acusativo de 2P em cartas brasileiras do século XIX e XX

Localidade  RJ BA MG Acusativo Te 157 04 15 93,5% 12% 42% Lhe -- 17 03 -- 50% 08% Você 08 01 02 4,8% 6% 05% o/a 01 10 15 0,6% 29% 42%  02 02 -- 1,2% 6% --

FONTE: Adaptado de Lopes, Rumeu e Carneiro, 2012, p. 202.

Ramos (1999), em análise comparativa do emprego de clíticos de 3P como acusativo no PB e no espanhol peninsular, aponta a tensão do sistema pronominal como gatilho para o fenômeno, e sustenta a ideia da existência de comportamentos sintáticos distintos do clítico lhe acusativo no PB que podem ser delineados de acordo com as regiões do país. Nessa perspectiva, a autora sugere a existência de:

(i) uma gramática do eixo Rio-São Paulo, em que você é empregado como uma expressão universal de tratamento, lhe ocorre como 2P em contextos mais formais e te para situações informais, de cunho familiar;

(ii) uma gramática que abrange os Estados de Maceió, Recife, Salvador e João Pessoa, em que você é a forma generalizada e o lhe ocorre desde um contexto mais formal ao mais informal, sendo empregado tanto como dativo quanto como acusativo, suprimindo o uso do te; e

(iii) uma gramática particular da região Norte e o Estado do Maranhão, em que a distinção tu/te é a forma padrão para tratamento íntimo/familiar e você/lhe (também

senhor/senhora) é restrito ao uso mais formal, exprimindo respeito/cortesia, não

O Nordeste, segundo os dados das Tabelas 04 e Tabela 05, aliados à proposta de Ramos (1999), especificamente no item (ii), pode ser identificado como uma área com alto índice de uso de lhe, como dativo ou acusativo, sendo o uso desse clítico com verbos transitivos diretos, nessa região, derivado, segundo Oliveira (2003), do acusativo preposicionado. Desse modo, em favor da hipótese de Oliveira (2003), pode-se cogitar que, no PB, o clítico lhe não teve sua realização apagada, mas parece ter passado por uma recategorização: como dativo, assume a segunda e terceiras pessoas do singular, e como acusativo, passa a substituir a 3P o/a.

O que se percebe, de modo geral, é que a entrada dos pronomes você, a gente e o senhor no conjunto de pronomes pessoais tem ocasionado um rearranjado no paradigma pronominal do PB que afeta, nomeadamente, o pronome clítico. Por outro lado, os pronomes me e te parecem resistir a esses rearranjos ocorrendo tanto em estruturas simples quanto em redobradas. Em análise dos dados de Helvécia, comunidade rural afro-brasileira, Barros (2008) mostra que a variante cliticizada do dativo ocorre nas amostras com a frequência de 6% (somados os nulos, sintagmas plenos ou clíticos). A forma que predomina é a nula (72%), seguida do dativo preposicionado (13%) e cliticizada (10%). Todos os dados de clíticos na amostra referem-se à primeira e segunda pessoas, não ocorrendo clíticos de 3P no corpus analisado.

À semelhança dos resultados de Helvécia, os clíticos dativos de 3P também inexistem nas Atas de ex-escravos, analisadas por Cavalcante e Figueiredo (2009). O único dado de clítico dativo localizado nas amostras refere-se à primeira pessoa, me. Segundo os autores, ao passo que esse resultado apresenta um comportamento distinto do PE, aproxima-se do PB contemporâneo, bem como das variedades afro-brasileira e moçambicana, que perderam o pronome clítico em favor da forma nula (CAVALCANTE; FIGUEIREDO, 2009, p. 130).

As reanálises no PB no que tange à expressão do dativo parecem ter afetado o redobro de clíticos no PB, sendo mais um aspecto no conjunto de mudanças gramaticais verificadas na variedade americana do português, como melhor detalhado a seguir.

2.3.3.1 Redobro de clíticos no Português Brasileiro

O redobro de clítico consiste em uma estrutura atestada em diversas línguas, em que um pronome átono proclítico ao verbo coocorre com um sintagma nominal ou preposicional como argumento interno do predicado da oração (ANAGNOSTOPOULOU, 2006). Muitas pesquisas têm se dedicado a compreender quais as propriedades que licenciam a estrutura de redobro de

clíticos. Uma proposta inicial foi a Generalização de Kayne, que restringe a estrutura de redobro à presença da preposição a em sentenças como em (41)57 e (42). Porém, estudos posteriores mostraram que esta relação não se dá de maneira direta, uma vez que línguas como o grego apresentam estruturas com redobro de clítico na ausência de preposição, contrariando a proposta de Generalização de Kayne, segundo a qual a ausência da preposição impede esta construção (43).

(41) Redobro de clíticos no Português europeu (CAVALCANTE; FIGUEIREDO, 2009, p.120)

a. Dei-lhe o livro a ela.

1P.Sg.give.PAST-Cl3PSg.DAT ACC a-DP.DAT

(42) Redobro de clíticos no Espanhol (TORREGO, 1995, p. 203)

a. Juan la ama a ella.

Juan her-loves to her.

(43) Redobro de clíticos no Grego (ANAGNOSTOPOULOU, 2006, p. 546)

a. *Tu edhosa to vivlio s-ton Jani.

Cl-GEN dei o livro-ACC prep-o Janis.

(Eu dei o João o livro.)

No PE, a expressão canônica do dativo requer a estrutura de redobro de clítico, obrigatoriamente na presença das formas pronominais fortes introduzidas pela preposição a (a+pronome forte = a ele/ela; a eles/elas), como mostrado em (41). De outro modo, a ausência do clítico em sentenças com o argumento introduzido pela preposição a gera uma sentença agramatical (44a), assim como a alteração da alternância da preposição a por para afetaria a construção de redobro, tornando-a agramatical (41b). Nesta variedade do português, observa- se também que a presença de um complemento lexical impede a construção de redobramento do clítico (41c).

(44) Construções agramaticais de redobro de clíticos no Português europeu

a. *A Maria Deu um livro a ele.

NOM.3st.SG give.PAST ACC a-DP.DAT

b. *A Maria Dei-lhe um livro para ele. NOM.3st.SG give.PAST-cl3PSg.DAT ACC para-DP.DAT

c. *A Maria deu-lhe um livro ao Pedro. NOM.3st.SG give.PAST-cl3PSg.DAT ACC a-DP

lex.DAT

Com as mudanças verificadas no PB, no que diz respeito à substituição da preposição a por para e a reanálise do clítico dativo lhe, foi desencadeada a impossibilidade do redobro de clítico, fato que deveria ser observado no PB em geral, uma vez que essas propriedades parecem ter se expandido por grande parte do país, conforme mostrado em pesquisas expostas nas subseções anteriores. Mas casos específicos identificados por Diniz (2007) e por Machado- Rocha (2010, 2011) no estado de Minas Gerais apontam que o redobro de clíticos persiste em alguns dialetos do Brasil.

Tanto no trabalho de Diniz, quanto no de Machado-Rocha, supracitados, não foram registrados casos de redobro com o clítico de 3P lhe, sendo essa forma considerada intuitivamente agramatical no contexto de redobramento no PB, segundo Machado-Rocha (2016, p. 20). A esse fato pode estar relacionada a perda do clítico de 3P no PB, motivada pela entrada do pronome você (e a gente) e o consequente desarranjo no sistema pronominal, como anteriormente mencionado. Entretanto, se sobressaíram nos dados do dialeto mineiro analisados estruturas com redobro de clíticos de primeira e segunda pessoas do singular, tanto com a função acusativa (45) quanto como a função dativa (46):

(45) Redobro de clítico com verbos transitivos diretos a. Eu vou tei levar vocêi lá no carro.

b. Você mei deixô eui um pouquinho preocupada. (DINIZ, 2007, p. 153) c. cê pode intrá qu’eu te ajudo ocê no qu’eu pudé.

d. aí começô a me xingá eu. (MACHADO-ROCHA, 2016, p.23)

(46) Redobro de clítico com verbos transitivos indiretos

a. O funcionário... ah... ele mei perguntou pra mimi se eu trouxe os documentos. b. Eu tei trouxe o livro procêi. (DINIZ, 2007a, p. 153) c. deixa eu te perguntar ocê um negócio.

Em análise formal do redobro de clítico no dialeto mineiro, Diniz (2007a) combina os pressupostos teóricos de fases de Chomsky (2005) com a proposta de inserção de traços-phi após Spell-Out de Bobaljik (2006) e propõe que os clíticos presentes em construções de redobros são cópias de traços-phi do D/NPOBJETO inseridas no componente pós-sintático, no

nível PF (phonological form), assumindo uma natureza afixal. Segundo Diniz (2007a, p. 101), por não serem argumentos verbais, os “clíticos não participariam das operações de valoração dos traços de Caso e da atribuição de papel temático, e, por esta razão, não participam da sintaxe estrita (narrow sintax)”.

Nessa perspectiva, a autora, resumidamente, afirma que redobros: (i) são cópias de traços-phi do D/NP no verbo; (ii) são (morfo)fonologicamente dependentes de um hospedeiro – o verbo; e (iii) não participam dos mecanismos de valoração de Caso e atribuição de papel temático (DINIZ, 2007a, p. 103) e acrescenta, ainda, que os mesmos não alteram o significado da sentença.

Diniz (2007b, p. 155) atesta que o redobro de clítico fornece evidências adicionais em favor da hipótese de que estaria ocorrendo, no português contemporâneo, uma reformulação no sistema pronominal que compreende as seguintes propriedades:

(i) a ocorrência de pronomes átonos do Caso acusativo para a primeira e segunda pessoas do singular apenas e “a ausência de clíticos para todas as outras pessoas” (GOMES, 2003, p. 87, 89);

(ii) O uso de a gente em lugar de nós tanto na função de complemento como na de sujeito (OMENA, 2003, p. 63);

(iii) Reinterpretação do pronome te, passando a referir-se à segunda pessoa indireta, gramaticalizada sob a forma você (GALVES, 2001, p. 155);

(iv) reanálise do pronome lhe como pronome de tratamento correspondente a você (GALVES, 2001, p. 139, 155);

(v) cliticização dos pronomes fortes ou perda do estatuto do lexema pleno decorrente da redução na forma de alguns pronomes como eu>ô, você(s)>ocê(s)>cê(s), ele>el, ei,

eles>ez, eis (cf. VITRAL, 1996, 2001, 2002; CIRÍACO, VITRAL E REIS, 2004;

CORRÊA, 1998).

Machado-Rocha (2016) se propõe, a partir do quadro teórico da sintaxe formal, a investigar a emergência de estruturas de redobro de clítico a partir de dados orais e escritos de Minas Gerais, levando em conta quatro problemas centrais: (a) a opcionalidade das construções

de redobro de clítico no português do Brasil; (b) a restrição de ocorrências dessas estruturas para a primeira e segunda pessoas pronominais, apenas; (c) a amplitude de contextos sintáticos que permitem o redobramento com as formas me e te; e (d) o estatuto categorial das formas me e te.

No que diz respeito ao problema em (a), o autor afirma se tratar de uma opcionalidade condicionada pela presença/ausência de um traço relevante na Numeração, [uautor:]. O problema em (b) está relacionado ao valor do traço [uautor:]. Se o objeto é 1ª pessoa, o traço do clítico é valorado como [uautor:+], se é 2ª pessoa, o clítico adquire o traço [uautor:-]. Sendo os pronomes de 3ª pessoa (pleno ou nulo) composto pelo traço [participante:-], a projeção do clítico não pode ser inserida. Caso seja inserida, seu traço leva a derivação a fracassar.

Com relação a (c), o autor assegura que o redobro de clítico pode ocorrer no PB dialetal com acusativos, dativos, possessivos, em construções de sujeito ECM (Exceptional Case

Marking), em miniorações (small clauses) e com objetos dentro de expressões idiomáticas,

porém, a sua estrutura básica é cl-V-DP. O autor salienta que, para que essa estrutura seja possível, há dois critérios a serem atendidos: é necessário haver um traço de [autor] valorado; e que argumento redobrado tenha seu traço de Caso valorado; critérios possíveis em todos os contextos encontrados pelo pesquisador.

No que tange ao problema em (d) as formas me e te perderam propriedades características dos clíticos – a de poderem se hospedar em raízes verbais e em auxiliares, além de não aceitarem posições variadas (ênclise/mesóclise), mas se fixando de modo exclusivo na posição proclítica, o que seria, segundo Machado-Rocha, um indício de reanálise dessas formas como marcas de concordância de objeto.

Torres Morais (2006, 2012), em análise de sentenças bitransitivas e objeto indireto no PE e no PB, a partir da teoria dos núcleos aplicativos (PYLKKÄNEN, 2002, 2008) considera a inserção do PE no conjunto de línguas que apresentam propriedades sintáticas e semânticas das construções aplicativas. A autora sugere que a diferença entre as variedades europeia e americana do português resulte de uma mudança paramétrica, definida na perda do núcleo aplicativo baixo no PB.

Com base na proposta de núcleos aplicativos (PYLKKÄNEN, 2002), a autora defende que, no PE, as construções de objeto duplo se diferenciam das construções de dativo preposicionado pelo fato de o objeto indireto ser realizado como um a-DP, ou seja, a preposição

a que encabeça o complemente indireto tem a natureza [+funcional], isto é, é um elemento dummy, cuja função consiste apenas em atribuir Caso dativo. Dessa mesma forma, o dativo é

expresso através da forma cliticizada lhe, sendo licenciado sintática e semanticamente por um

núcleo aplicativo baixo, em posição de especificador da projeção aplicativa (TORRES

MORAIS, 2007), especializado em estabelecer uma relação de posse entre o DP-TEMA e o DP- DAT (47).

(47) [VoiceP [DPSuj O José] [ Voice [vP [v] [ [Root enviou] [ApplP [DPDat à Maria/lhe] [ [Appl] [DPObj o livro]]]]]]]

(TORRES MORAIS, 2006, p. 256)

Nessa construção, o DP-DAT assimetricamente c-comanda o DP-TEMA complemento,

numa relação direta entre esses argumentos. Uma vez que, nesta construção, a preposição a não é considerada uma verdadeira preposição, ou seja, não possui conteúdo semântico, o argumento dativo (clítico ou elemento a-DP) recebe Caso inerente paralelamente ao papel semântico (recipiente/meta/fonte) na posição em que é gerado [Spec de ApplP]58 (TORRES MORAIS, 2007; TORRES MORAIS; SALLES, 2007). Essas estruturas fazem parte do que denominam

construções aplicativas.

A fim de ratificar a proposta de inclusão do PE no conjunto das línguas que apresentam construções aplicativas, Torres Morais (2007) sugere que o redobro de clíticos desta variedade do português é uma evidência empírica da presença dos núcleos aplicativos: o dativo redobrado (48c) é sempre um pronome forte (a ele/eles, ela/elas), com uma interpretação contrastiva.

(48) Redobro de clíticos no Português europeu

a. A Maria deu-lhe um livro.

3P.Sg. give.PAST-Cl3PSg.DAT ACC

b. *A Maria deu a ele um livro.

58 Torres Morais propõe que os clíticos dativos no portugues europeu não são a realização do núcleo da projeção

aplicativa. Segundo a autora, o núcleo aplicativo é nulo e o clítico é gerado em especificador da projeção aplicativa [Spec; ApplP].

3P.Sg. give.PAST a-DP.DAT ACC

c. A Maria deu-lhe um livro a ele. (não a...) 3P.Sg. give.PAST-Cl3PSg.DAT ACC a-DP.DAT

(TORRES MORAIS, 2007, p. 105)

Em construções de dativo preposicionado, a preposição é definida como verdadeira

preposição, com conteúdo semântico, que indica sentido direcional (meta/ fonte/ locativo/

beneficiário). Nessas construções, o DPTEMA c-comanda assimetricamente o DPcomplemento

da preposição, estabelecendo uma relação semântica entre os dois argumentos através da preposição.

(49) [VoiceP [DP O José] [ Voice [vP [v] [ [Root enviou] [ [DPtema uma carta] [PP

[P a/para] [DPmeta/fonte/locativo a Maria/Lisboa]]]]]]]

(TORRES MORAIS, 2006, p. 257)

A estrutura preposicionada em (49) projeta um sintagma preposicionado (PP), e a presença dessa construção como estratégia de complementação dativa co-ocorrendo com as construções de objeto duplo no PE, segundo Torres Morais, atribui a esta variedade linguística o estatuto de língua de alternância dativa.

Verifica-se, assim, que há uma ambiguidade morfológica relacionada à natureza da preposição a: ora é um mero marcador de Caso, nas construções de objeto duplo (47), ora é uma preposição plena/lexical, nas construções de dativo preposicionado (49). O contraste entre (47) e (49) revela também, como se verifica, a distinção entre a análise do argumento dativo como um DP (a-DP) e um PP. Assumindo que o argumento dativo em construções de objeto

duplo é um a-DP e não um PP, Torres Morais (2006) aponta para uma ambiguidade também verificada no estatuto dos clíticos dativos lhe:

“de um lado, assemelham-se ao espanhol e comportam-se como morfema de concordância. Isso fica evidenciado no redobro obrigatório com as formas pronominais fortes [...]. De outro, são argumentos DPs, gerados na posição de especificador de vAppl. Isso explica a distribuição complementar na estrutura