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Os instrumentos disciplinares medievais não portavam toda a sofisticação descrita por Foucault (2010), mas foram encontrados exemplos de vigilância na Forma Vitae de Clara de Assis, embora com menor ênfase do que nas Formae Vitae de Hugolino e de Inocêncio IV:

Forma de Vida de Hugolino

[O visitador] Interrogue cuidadosamente todas em geral e cada uma em especial sobre o seu estado e a observância de sua religião. Quando encontrar alguma coisa que precise ser reformada ou corrigida, levado pelo zelo da caridade e o amor da justiça, corrija e

reforme com discrição, tanto na cabeça quanto nos membros, como melhor lhe

parecer. Mas observe o modo de falar que foi descrito acima, de maneira que fale com todas ou com muitas ao mesmo tempo, ou em particular com alguma, mas com pelo

menos duas outras sentadas não longe, à vista, para que em tudo se conserve a boa fama do mosteiro. [..]. Cuide a abadessa que não se esconda alguma coisa do visitador, por ela ou pelas outras senhoras, sobre o estado do mosteiro na observância da

Religião na unidade do amor mútuo. Pois isso, seria um mau indício, uma ofensa a ser

gravemente punida. Aliás, queremos e mandamos que sugiram diligentemente ao

visitador, em público ou em particular, como for melhor, as coisas que, de acordo com a sua forma de vida, tiverem que ser estabelecidas ou corrigidas. Mas as que agirem diferentemente, quer seja a abadessa, quer sejam outras, sejam condignamente punidas,

como for conveniente. Da mesma maneira, seja modesta e razoavelmente corrigido o capelão, se for repreensível em alguma coisa em que não for conveniente ou necessário

que seja tolerado. Mas se não quiser ou desprezar a correção, não seja mais,

absolutamente, tido como capelão. Forma de Vida de Inocêncio IV

E quando [o visitador] entrar na clausura do mosteiro para visitar, leve consigo dois

companheiros religiosos e idôneos, que permaneçam juntos e, enquanto estiverem na clausura, nunca se separem um do outro. Interrogue cuidadosamente* a todas em

geral e a cada uma em particular sobre a verdade a respeito do estado e da observância

da sua religião; e, onde encontrar alguma coisa que tenha que ser reformada ou

corrigida, corrija e reforme tanto na cabeça como nos membros, com discrição, pelo

zelo da caridade e o amor da justiça, como lhe parecer melhor. [...]. A abadessa tome cuidado para que não se esconda do visitador alguma coisa da situação do mosteiro,

tanto por parte dela como das outras irmãs, porque seria mau sinal e uma ofensa a ser

punida gravemente. [...]. As que procederem de outra maneira, tanto a abadessa como as

outras, sejam devidamente punidas pelo visitador, como convém. Da mesma forma, também o capelão, se for repreensível em alguma coisa em que não se possa

convenientemente nem se deva suportá-lo, depois de uma admoestação, seja corrigido pelo visitador modesta e razoavelmente, como for conveniente. Mas se não aceitar ou desprezar a correção, seja absolutamente removido do mosteiro pelo mesmo.

Apesar de não referir à vigilância nem ao exame nos mesmos termos das formae vitae medievais, a Regra de São Bento, texto basilar dos demais, apresenta a sansão normalizadora, de modo preciso e detalhado:

... em sua doutrina deve sempre o Abade observar aquela fórmula do Apóstolo: "Repreende, exorta, admoesta", isto é, temperando as ocasiões umas com as outras, os

carinhos com os rigores, mostre a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai, quer dizer: aos indisciplinados e inquietos deve repreender mais duramente, mas aos

obedientes, mansos e pacientes, deve exortar a que progridam ainda mais, e quanto aos negligentes e desdenhosos, advertimos que os repreenda e castigue. Não dissimule as faltas dos culpados, mas logo que começarem a brotar ampute-as pela raiz, como lhe for possível, [...]. Aos mais honestos e de ânimo compreensível, censure por palavras em primeira e segunda advertência; porém aos improbos, duros e soberbos ou desobedientes reprima com varadas ou outro castigo corporal, desde o

início da falta, sabendo que está escrito: "O estulto não se corrige com palavras". Forma de Vida de Clara

Não seja permitido às Irmãs falar no locutório ou na grade sem licença da abadessa ou de sua vigária. As que tiverem licença não ousem conversar no locutório a não ser na

presença de duas Irmãs que as possam ouvir. Mas não se atrevam a chegar à grade se não estiverem presentes pelo menos três Irmãs escolhidas pela abadessa ou por sua

vigária entre as oito eleitas por todas as Irmãs para o conselho da abadessa.

Nosso visitador seja sempre da Ordem dos Frades Menores, de acordo com a vontade e o mandato de nosso Cardeal. Sua honestidade e bons costumes devem ser muito bem conhecidos. Seu encargo será o de corrigir, tanto na cabeça como nos membros, os

excessos cometidos contra a forma de nossa profissão. Estando em lugar aberto, para poder ser visto pelos outros, poderá falar sobre o que diz respeito à visita com várias

Irmãs ou com cada uma, como lhe parecer melhor.

Nas três formae vitae em questão, há referência direta à vigilância e ao exame e fala-se em correção e punição. Observa-se que Clara é interpelada pela formação ideológica que perpassa as formações discursivas dos pontífices no que tange à disciplina no mosteiro, inclusive quando silencia as formas de punição. Esse silêncio sobre a punição não permite ao interlocutor uma noção precisa do que possa decorrer de expressões como: „não ousem‟, „não se atrevam‟, „não seja permitido‟, „seu encargo será o de corrigir‟, „uma ofensa a ser gravemente punida‟, „sejam condignamente punidas‟, „seja modesta e razoavelmente corrigido o capelão‟, „corrija e reforme com discrição, pelo zelo da caridade e o amor da justiça, como lhe parecer melhor‟, „sejam devidamente punidas pelo visitador, como convém‟.

Considerando-se algum nível de influência da Regra de São Bento sobre as referidas

formae vitae, infere-se que, ao menos em parte, suas determinações teriam sido adotadas,

inclusive na comunidade de Clara:

Se uma Irmã, por instigação do inimigo, pecar mortalmente contra a forma de nossa

profissão e, admoestada duas ou três vezes pela abadessa ou por outras Irmãs, não se

emendar, deve comer pão e água, no chão, diante de todas as Irmãs, por quantos dias for contumaz; e, se assim parecer à abadessa, seja submetida a pena mais

grave. Enquanto for contumaz, reze-se para que o Senhor ilumine seu coração para a penitência.

O discurso clariano mostra-se criativo na medida em que especifica o que vem a ser um pecado mortal na comunidade: excessos contra ‘a forma da nossa profissão’. Depois da

admoestação, ela sugere uma humilhação pública relacionada ao alimento e ao modo de se alimentar a irmã infratora em caso de persistência no erro. No entanto, a abadessa silenciou o que viria a ser uma „pena mais grave‟. Na Regra de São Bento, o castigo disciplinar é mais preciso:

Se houver algum irmão teimoso ou desobediente, soberbo ou murmurador, ou em algum modo contrário à santa Regra, e desprezador dos preceitos dos seus superiores, seja ele

admoestado, conforme o preceito de nosso Senhor, a primeira e a segunda vez, em

particular pelos seus superiores. Se não se emendar, seja repreendido publicamente, diante de todos. Se porém, nem assim se corrigir sofra a excomunhão, caso possa compreender o que seja essa pena. Se, entretanto, está de ânimo endurecido, seja

submetido a castigo corporal.

Que seja suspenso da mesa e também do oratório o irmão culpado de faltas mais

graves. Que nenhum irmão se junte a ele em nenhuma espécie de relação, nem para lhe falar [silêncio como castigo]. Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado,

permanecendo no luto da penitência, [...]. Faça a sós a sua refeição na medida e na hora que o Abade julgar convenientes, não seja abençoado por ninguém que por ele passe, nem também a comida que lhe é dada.

Se algum irmão ousar juntar-se, de qualquer modo, ao irmão excomungado sem ordem do Abade, ou de falar com ele ou mandar-lhe um recado, aplique-se-lhe o mesmo castigo de excomunhão.

Se algum irmão freqüentes vezes corrigido por qualquer culpa não se emendar, nem mesmo depois de excomungado, que incida sobre ele uma correção mais severa, isto é,

use-se o castigo das varas. Se nem assim se corrigir, ou se por acaso, o que não

aconteça, exaltado pela soberba, quiser mesmo defender suas ações, faça então o Abade como sábio médico: se aplicou as fomentações, os ungüentos das exortações, os

medicamentos das divinas Escrituras e enfim a cauterização da excomunhão e das pancadas de vara e vir que nada obtém com sua indústria, aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos por ele, para que o Senhor, que tudo pode, opere a

salvação do irmão enfermo. Se nem dessa maneira se curar, use já agora o Abade o

ferro da amputação, [...].

O abade sugere a solidão, a privação da fala pela da escuta, ou seja, ele apresenta uma política do silêncio como forma de castigo disciplinar eficaz. O castigo corporal é indicado apenas para aqueles que, segundo ele, são „incapazes‟ de compreender o sentido das palavras: os endurecidos, as crianças. Clara não menciona nenhum dos castigos disciplinares descritos por São Bento. Mas a sugestão de uma „pena mais grave‟ no caso de persistência na infração sem, contudo, especificá-la pode indicar a prática de alguns dos castigos descritos pelo abade, haja vista que, também nos mosteiros das Damas Pobres, admitia-se o ingresso de crianças e de „irmãs serventes‟93

. Ademais, ela reproduz a penúltima recomendação do abade nos seguintes termos: reze-se para que o Senhor ilumine seu coração para a penitência. As

93

Os pontífices referem essas irmãs apenas como serviçais em contraposição às „senhoras‟. As serviçais seriam uma subcategoria de religiosas. Clara ameniza a distinção entre senhoras e serviçais, chamando-as todas de „irmãs‟, Irmãs Pobres. No entanto, mesmo na sua Forma Vitae, apenas as serventes são adjetivadas.

recomendações de São Bento criam o imaginário do desobediente incauto, rude, teimoso. A desobediência é, então, associada à ignorância, ao não-entendimento da verdade, mais do que à não-aceitação, ou seja, quem não obedece não é capaz de entender a verdade, logo, não pode permanecer na comunidade.

Não parece, porém, ser esse imaginário de Clara sobre a irmã desobediente, considerando-se que, na sua Forma Vitae, ela determinou que da sua comunidade não podia fazer parte aquela que fosse “impedida de observar esta vida pela idade avançada ou alguma enfermidade ou deficiência mental” e que, antes da profissão, fosse “exposto diligentemente o teor de nossa vida” à candidata. Logo, a desobediência não aparece associada à ignorância, mas à incoerência. A religiosa desobediente, nesse sentido, é aquela que, mesmo reconhecendo a verdade, é incapaz de viver em conformidade com ela ou de a ela converter- se.

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