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Elementos constitutivos do discurso franciscano

3.2 Clara e o Movimento Franciscano nascente

3.2.1 Elementos constitutivos do discurso franciscano

Como se percebe, havia no século XIII basicamente uma formação ideológica47 comum norteando a vida religiosa regular. No entanto, havia nessa formação ideológica

elementos característicos de cada Ordem, movimento ou corrente religiosa, de outro modo, elas não seriam distintas. Atentando para as anotações de Carney (1998) destacam-se neste tópico os pontos críticos do discurso franciscano.

3.2.1.1 A pobreza evangélica: ponto nodal e controverso da espiritualidade franciscana Segundo Carney (1998), como líder do braço recluso franciscano feminino, Clara acompanhou e sofreu as incertezas quanto ao que adviria sobre a observância da pobreza, caráter distintivo das Ordens Franciscanas. Pouco tempo depois da morte de Francisco, em 1226, os frades enfrentaram o problema da preservação da Regra48 e de como lidar com as questões da pobreza, dinheiro e recursos. Negreiros (2009) explica que os frades não compreendiam em que medida estavam obrigados a observar o Evangelho nem como era possível compaginar a pobreza absoluta com a necessidade de possuir alguns bens imprescindíveis para o progresso da Ordem. Não demorou muito para que a Ordem nascente se dividisse em dois partidos: de um lado, estavam os conventuais mais afeitos à eficiência apostólica em detrimento pobreza; do outro, os observantes exigiam que toda iniciativa apostólica fosse relacionada à observância da pobreza. Sem consenso, os frades recorreram ao papado ou aos confrades mais doutos em várias ocasiões, das quais resultaram cinco documentos.

A Quo elongati, promulgada por Gregório IX em 1230 durante o generalato de João Parenti, foi a primeira interpretação oficial acerca dos limites da observância em matéria de posses. Nela o pontífice invalidou o Testamento de Francisco limitando as obrigações dos frades à Regra Bulada. Através desse documento, ele experimentava um sistema de administração dos bens temporais inspirado nos moldes monásticos: os frades não teriam a posse, mas o uso dos bens. Como Gregório IX não disse o que devia ser feito, mas apenas o que era permitido, a qualidade da observância dos frades dependia do seu comportamento diário e da consistência das decisões dos superiores.

Durante o generalato de Haymo de Faversham, como as querelas em torno da observância persistiam e ele intentava simplificar certos aspectos da vida fraterna, buscou-se uma resposta sistemática interna para as questões em torno da Regra. Sua iniciativa resultou na Exposição dos Quatro Mestres em 1241, trabalho empreendido por Alexandre de Hales49,

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Francisco quis que sua Regra fosse observada como lhe havia sido inspirada por Deus, portanto, sem glosas.

49 Mestre da Universidade de Paris, considerado o fundador da Escola Franciscana, ao trazer elementos da

João de la Rochelle, Roberto de Bascia e Odo Rigaldo. Consoante Carney (1997), o trabalho jurídico e acadêmico, considerando a intenção de Francisco, embora não tocasse detalhes das questões mundanas e materiais da vida cotidiana, alertava para o risco de o núncio instituído por Gregório IX agisse como um banqueiro50.

Apesar dos esforços dos mestres por clarificar a compreensão e as relações dos frades, a tensão entre os dois partidos não se arrefeceu e foi ainda mais agravada durante a gestão de Crescêncio de Iesi a partir de 1244. Além de não se interessar pela implementação das orientações dos quatro mestres, ele teria desenvolvido uma ativa perseguição ao frades observantes. O Ministro teria recorrido a Inocêncio IV para obter novas diretivas a respeito da pobreza. Atendendo ao pedido, o pontífice promulgou dois documentos: 1) a Ordinem

vestrum, em 1245, na qual se apagava a distinção entre o núncio e o amigo espiritual dando

autoridade aos superiores para usar agentes para receber esmolas em dinheiro; 2) e, em 124751, com a Quanto studiosius, transferiram-se os direitos de propriedade para um único agente, um síndico apostólico com amplos poderes legais.

No mesmo ano da promulgação da Quanto studiosius, João de Parma assumiu o comando da Ordem dos Frades Menores em uma direção diametralmente oposta a Crescêncio de Iesi. Ele pretendeu retomar os mais altos ideais de pobreza e, em 1249, retomou os padrões da Quo elongati. No seu generalato, a pedido dos confrades, Hugo de Digne fez um comentário da Regra, procurando inserir, conforme Carney (1997), conceitos que resolvessem o problema do que ele identificou como „falsos ensinamentos que levavam à confusão‟. Ele identificou o coração da pobreza no capítulo VI da Regra Bulada, como a abdicação de posses: os frades não têm posses nem o direito de adquiri-las; isso também se aplicava aos contratos comerciais; o uso das coisas deveria ser conforme o padrão da pobreza, ou seja, sem abusos; na mesma linha, os irmãos deveriam evitar o espírito de apropriação; a mendicância era louvável. Além disso, segundo Lapsanski (apud CARNEY, 1997, p.101), Hugo pontuou dois elementos-chave para a manutenção da vida em pobreza: o amor mútuo, essencial para levá-la adiante e a minoridade, que impediria os frades de perder as qualidades interiores da pobreza espiritual.

Medicantes, especialmente dos franciscanos e dos dominicanos, teria contribuído para o apogeu da cultura e da ciência no século XIII. Os franciscanos teriam sido mais marcantes nas universidades de Paris, Oxford e Cambridge.

50 Na Quo elongati, Gregório IX havia instituído a figura do núncio, uma espécie de agente intermediário entre

os frades e seus benfeitores provendo suas necessidades, assim os religiosos não precisariam lidar diretamente com o dinheiro conforme Francisco havia proibido.

A pobreza, na concepção de Hugo de Digne, seria aquilo que torna os homens conscientes de sua dependência de Deus e assim os ajudaria a permanecer humildes. Encorajando-os a ser generosos com os outros, a pobreza ajudaria a manter um sentido de amor e de fraternidade entre os Frades Menores. Admitindo a hipótese de que o comentário tenha sido escrito entre 1246 e 1252, é bem provável que as interpretações de Hugo de Digne tenham exercido certa influência sobre Clara ou que, inversamente, ela tenha exercido alguma influência sobre o intelectual franciscano, considerando a informação de que, quando os mestres franciscanos intentavam interpretar a Regra Bulada a partir das intenções de Francisco, eles, que em geral não haviam conhecido Francisco pessoalmente, consultavam os primeiros companheiros do santo. Desse modo, Clara seria informante de primeira hora. Ademais, a abadessa era fiel defensora do princípio da pobreza e, na altura do trabalho de Hugo de Digne, também reagia à Forma Vitae inocenciana, especialmente no que se referia à pobreza.

3.2.1.2 A caridade mútua e a manutenção da pobreza

De acordo com Negreiros (2009) e Carney (1997), nas primeiras décadas do desenvolvimento da Ordem dos Frades Menores, expandiu-se entre os mendicantes uma estrutura social fraterna: “apesar das óbvias inversões envolvidas nas estruturas legislativas e governamentais, uma entrega básica a um sistema aberto que recrutava de todos os níveis da sociedade estava muito em evidência” (CARNEY, 1997, p.144). As relações fraternas desenvolvidas pela fraternidade franciscana seriam assentadas nos valores evangélicos, nas novas instituições sociais e na santidade pessoal de muitos irmãos.

Seguindo a premissa de Hugo de Digne de que o amor mútuo e a minoridade são elementos basilares para a preservação da pobreza, deduz-se que nos primeiros tempos das Ordens nascentes, inclusive a das Damas Pobres, não faltaram exemplos de caridade mútua entre os irmãos e as irmãs. Por outro lado, a insistência nesses fundamentos da pobreza sugere que já nos primórdios das Ordens ela já se via ameaçada, ou ao menos em vias de reformulação, haja vista a sua rápida expansão.

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