CAPÍTULO 2 – A PERSONAGEM EM HANNIBAL
2.5 CLARICE STARLING – O ENCONTRO COM MASON VERGER
A tomada panorâmica distante da estrada, que metaforicamente representa o caminho da vida (BAKHTIN, 2010a, p. 350), sugere que há o início de um novo tempo para Clarice. Ela própria se disse mudada em decorrência dos acontecimentos, ou seja, embora não seja aparente, a situação a que foi exposta causou-lhe um ferimento, uma cicatriz. Sua missão a partir de agora é encontrar Hannibal Lecter e para isso precisa falar com Mason Verger, pois este último afirma ter novas informações sobre o foragido.
Clarice segue a estrada em direção à propriedade de Verger e surpreende-se com uma sinalização pública indicando o caminho para o lugar. Como já havia feito anteriormente, a câmera chama a atenção do espectador para a riqueza de Mason Verger focalizando a placa que diz Estate Verger18.
O lugar recém-nomeado é mostrado pela câmera em plano panorâmico e ângulo plongée. É essa tomada do alto que possibilita ao espectador ter a visão global da propriedade de grandes proporções. Há uma casa, que mais se assemelha a um castelo, rodeada por muito verde. O tamanho do imóvel condiz com o que já foi dito sobre o patrimônio de Verger.
Com um corte da câmera, o espectador passa a acompanhar a progressão do carro de Starling em plano geral médio dentro da propriedade. A tomada da cena é diurna e a predominância da névoa sugere que seja ainda muito pela manhã, isto é, antes de o sol aquecer a atmosfera. As imagens são acompanhadas por uma melodia que parece traduzir a tristeza da personagem que silenciosamente percorre seu caminho. Além da música e do barulho do atrito do pneu do carro com os pedregulhos da estrada não se ouve nada. A névoa, a melodia, a memória recente dos acontecimentos, o local tão surpreendente, tudo isso cria uma atmosfera onírica. E esse clima permanece quase que pelo filme todo.
Ao chegar à porta da propriedade, Cordell vem cumprimentá-la e orientá-la sobre o local correto onde deve estacionar o carro. Em seguida, a câmera corta a cena e passa a fazer as tomadas de dentro da casa com o objetivo de mostrar o ambiente em que vive Mason.
Clarice segue Cordell e os dois são acompanhados de longe pela câmera e pelo espectador. Dessa maneira, pode-se apreciar o lugar onde será ambientada
boa parte da estória. Eles não se falam, porém Cordell chama a atenção para a escuridão do local dizendo que: “A vista se ajusta à escuridão” e os dois andam apressadamente.
Verger está esperando por Clarice em seus aposentos. Assim que chegam ao local, Cordell afasta as cortinas brancas e transparentes que circulam o leito. Em seguida, apresenta a visitante que permanece como pano de fundo, no escuro, aguardando sua vez de falar com Verger.
Nesse início de cena, observamos que Verger não deseja que seu médico participe do encontro com Clarice: “Cordell, pode nos deixar agora”. A câmera mostra que o médico não gostou muito da ordem e argumenta: “Achei que devia ficar (pausadamente) Talvez pudesse ser útil” (grifo nosso).
Relembramos que anteriormente, capítulo 2.1, pp. 59-66, a câmera mostrou Cordell participando ativamente da vida de Verger. Porém nesse momento, ele é impedido de permanecer no recinto. A imagem cria um clima de distanciamento, pois mostra Verger em plano geral frontal distante: “Pode ser útil (ênfase) cuidando do meu almoço”.
Por outro lado, Cordell é visto olhando fixamente para o outro enquanto se retira da sala. Relembramos que para BAKHTIN (2000, pp. 290-291) “a compreensão de uma fala viva, de um enunciado vivo é sempre acompanhada de uma atitude responsiva ativa”, quer dizer, de uma resposta. Observamos que o médico responde de maneira não-verbal e isso pode provocar “o eco no discurso” ou “no comportamento subsequente do ouvinte”. Veremos que a resposta tardia de Cordell virá em um momento de crise, quando ele acata uma sugestão de Lecter e empurra Verger para a morte.
Verger inicia a conversa com um comentário sobre o carro de Clarice, que ele identificou pelo ronco do motor, referindo-se ao consumo do veículo e também a velocidade que o mesmo pode atingir. O enunciado aparentemente despretensioso nos leva a refletir sobre a personagem desfigurada e aparentemente tão dependente do outro.
Considerando o que já nos foi mostrado dele, sabemos que o mesmo não pode ir sozinho a lugar nenhum fora de sua casa. Portanto dirigir um carro em alta velocidade, isto é, ter o veículo sob controle, usufruir a sensação de liberdade que
isso proporciona é algo que lhe será negado para sempre. Embora, tenha o mundo no “toque de um dedo”, conforme já foi sugerido pela câmera, a vida nega a ele “pequenos sabores”: um biscoito, a independência e a liberdade. Dessa maneira, a vida de Mason Verger, preso a cadeira de rodas ou a cama, vai sendo carregada de pequenas frustrações e de pequenos ressentimentos.
Ainda na escuridão, a diegese progride com o depoimento de Verger para Clarice. Antes do início, ela se aproxima dele para prender o microfone e fazer a gravação19 das vozes. Nesse momento, a câmera e Verger tentam chocar Clarice, pois aquela se aproxima do rosto de Verger deixando-o em primeiro plano. E o segundo, com o controle remoto em mãos, aumenta consideravelmente a luminosidade da sala. As ações conjuntas trazem para o centro da tela o rosto iluminado de Verger. No entanto, Clarice não demonstra qualquer reação ao vê-lo e inicia seus questionamentos sobre Hannibal Lecter.
Diante da reação insensível da agente, Verger desiste de provocá-la e, com a ajuda da câmera, expõe sua vida íntima, ou seja, sua história com Lecter. As imagens da automutilação são mostradas pela câmera e ilustram a fala de Mason. Além disso, acreditamos que a câmera, como anteriormente destacamos, está tentando chocar o espectador e, dessa maneira, colocá-lo ao lado de Verger.
Ao final desse jogo da câmera em revelar e ocultar Hannibal Lecter, é com um tom de pesar que Verger afirma: “Parecia uma boa ideia!”. Esse lamento, no entanto, é passageiro, pois a seguir em tom profético e até certo ponto ameaçador ele diz que “Agradece a Deus pelo que aconteceu com ele, pois foi sua salvação” e se diz imune: no plano político, “Pelo procurador federal”; no plano espiritual, “pelo Jesus ressuscitado” e, por fim, diz que não há ninguém acima dele. Dessa maneira ele se coloca como representante da justiça divina.
Essa afirmação de Verger por diversas vezes é recuperada pela câmera, como observamos na ilustração abaixo. A personagem é mostrada pela câmera em ângulo plongée, a tomada concretiza visualmente o que a personagem disse anteriormente “ninguém está acima dele”. Assim, não há conflito entre a máscara
19 Outros gêneros do discurso semelhantes às gravações, como por exemplo, fotografias, telejornais, jornais são
utilizados na película. Pensamos que além de ser um recurso narrativo que podem ser utilizados para contar fatos passados sem que seja necessário recorrer freqüentemente ao flashback, ainda introduzem outras vozes, ou seja, outros pontos de vista no filme (grifo nosso).
interior (“o ser de desejo”) e a máscara exterior (“o eu social”) (BRAVO, 2005, p. 276), pois Verger age seguindo seus instintos, sem preocupação com o que a sociedade exige dele.
Ilustração 19 – A onipotência de Mason Verger concretizada em sua visão
Por outro lado, Clarice deseja manter seu status de Agente do FBI e sofre com o que a sociedade está fazendo com ela, pois está consciente de que fez tudo da maneira como foi ensinada.
A sequência seguinte tem início com a imagem de Hannibal e as mãos que seguram os documentos que se referem a ele. É dessa forma que a câmera sugere que Lecter está nas mãos de Clarice, ou seja, ela está de volta ao caso. Em seguida, o artefato volta-se para a entrada da sala e introduz uma nova personagem na cena. Trata-se de um rapaz que carrega algumas caixas.
O funcionário se aproxima de Clarice e isso possibilita a câmera mostrá-los no mesmo quadro. Durante o diálogo, o qual gira em torno do material que Clarice está recebendo, observamos que a câmera não está interessada nas falas. O que importa é mostrar o espaço onde a Agente irá passar a maior parte de seu tempo.
As tomadas em ângulo aberto mostram claramente que Clarice foi rebaixada, conforme já foi sugerido anteriormente no capítulo 2.4, pp. 71-75. Seu novo local de trabalho se parece com um depósito e ajudam o espectador a entender o momento em que ela se encontra, ou seja, a personagem está enclausurada em uma sala sem janelas e sem contato com outros funcionários. A única pessoa que entra e sai é o rapaz que lhe traz a correspondência e as caixas que contêm o material disponível sobre o caso Hannibal Lecter.
Em pouco tempo, veremos que Clarice se cerca de imagens do passado. Entretanto, elas lhe trazem lembranças negativas, ou seja, a câmera sugere que a agente quer ter perto de si tudo o que diz respeito ao Lecter, o canibal. Para entendermos melhor esse processo, recorremos a uma citação de BAKHTIN (2000, p. 253), “o passado está ativo no presente de forma negativa. É ele que determina o presente, dá dimensão ao futuro que ele predetermina.”. Portanto, o texto do autor nos leva a concluir que a personagem sente que sua trajetória de vida está amarrada a Hannibal Lecter. É importante relembrarmos que essa ideia estabelece uma relação dialógica com a última cena do filme O Silêncio dos Inocentes, capítulo 1.6, página 57, pois a câmera sugere, por meio da ligação telefônica interrompida, que algo ficou pendente entre as duas personagens.
Com o intuito de encontrar Lecter, Clarice procura Barney, sobre ele já falamos no capítulo 2.1, páginas 59-66. Nesse momento a câmera mostra outro lado da personalidade do enfermeiro. Ele é flagrado na rua pela câmera e por Clarice ruas em plano geral e ponto de vista subjetivo num ato de extrema sensibilidade. Barney para o trânsito para recolher uma pomba caída no asfalto e livrá-la de ser esmagada pelos veículos. Ao final, ele carrega a ave consigo até sua casa.
Destacamos que há um esforço da câmera em mostrar a bondade do enfermeiro para o espectador e para Starling que acompanha tudo e aguarda que Barney chegue ao portão da residência dele antes de abordá-lo. Dentro da casa, a câmera os focaliza primeiramente em plano geral e percebe-se que o ângulo diminui conforme o clima do diálogo fica mais íntimo. Barney defende Lecter, pois ele lhe dizia que “preferia comer os indelicados. Chamava-os de indelicados que pastam soltos”. O enfermeiro afirma que sempre foi civilizado com o prisioneiro e por isso não tem medo de ser perseguido.
Para intensificar a idéia de que entre ela e Lecter havia um romance, Clarice declara pensar em Hannibal com frequência. Ao final da conversa, demonstrando sua preocupação com que o outro pensa sobre ele, o enfermeiro afirma “eu não sou uma má pessoa”, mas ele considerava Dr. Chilton era uma pessoa ruim. Nesse momento, Barney revela que o médico gravava as conversas que aconteciam na cela de Lecter. Ao final, o enfermeiro entrega as fitas que estão com ele.
O conteúdo das fitas, quer dizer, as vozes, são usadas para a transição de uma sequência para a outra. Primeiramente é Barney quem fala o que ele ouvia do prisioneiro, depois é o próprio Lecter quem fala por ele mesmo:
Hannibal: Jack Crawford mandou você para me tentar e eu acabo lhe dando uma boa ajuda. Acha que é porque gosto de olhar para você e imaginar como deve ser saborosa, Clarice? (grifo nosso)
Clarice: Não sei, é?
Nesse momento a câmera focaliza o gravador, dessa maneira desvia a atenção do espectador e o faz voltar para o presente, ou seja, para a realidade sem Hannibal. A fala seguinte pertence ao primeiro filme, mais precisamente ao terceiro encontro que aconteceu entre as personagens. Aqui ela faz a ponte entre a primeira parte do filme e a segunda parte que acontece em Florença.
Ao final da seqüência, a câmera faz uma tomada em primeiríssimo plano lateral de Clarice – seu rosto está dividido em duas partes – o efeito é causado pela luz que ilumina somente uma parte dele e intensifica a ideia de que a personagem está em conflito: gosta ou não gosta de Lecter; quer prendê-lo ou revê-lo. Sua face se mistura com a paisagem que aparecerá na próxima sequência.
O som de um piano, que é introduzido em cena, imprime um tom lírico a sequência. Hannibal faz um jogo com as palavras “Eu gosto de olhar para você e imaginar como deve ser saborosa.”. A voz dele vai ser usada para a transição da sequência: ‘‘O que eu desejo é uma vista. Eu desejo uma janela de onde eu possa ver uma árvore ou mesmo a água. Quero ficar numa instituição federal distante...”. A partir daqui, a trama vai acontecer em dois lugares: Washington e Florença. A ideia de um possível romance entre Hannibal e Clarice, provocada por Mason, faz com que a convivência com as imagens se mostre ambivalente, pois pode sugerir que Clarice sente saudade de Lecter. Porém, ela pode estar apenas se dedicando a sua missão, como é sua característica, além de se conscientizar de que Hannibal Lecter é realmente um assassino e que não deveria estar solto no mundo.