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CLARK E GERRIG: DISCURSO REPORTADO É UM TIPO

No documento carolinapeixotobarros (páginas 33-37)

Esquema 2 – Posições dos participantes nas audiências do PROCON

2 O DISCURSO REPORTADO

2.7 CLARK E GERRIG: DISCURSO REPORTADO É UM TIPO

língua. A teoria que os autores desenvolvem é que o discurso reportado é um tipo de demonstração. Assim como pode se demonstrar um saque de tênis ou o movimento de um pêndulo, também pode se demonstrar o que foi dito por uma pessoa.

Demonstrações e descrições são fundamentalmente diferentes métodos de comunicação. Na interação face a face as pessoas podem apresentar três maneiras de agir: indicar, descrever e demonstrar.

Em primeiro lugar, as demonstrações diferem de indicações, por exemplo, apontar para alguma coisa. As indicações trabalham para localizar essa coisa, sua função primária é de designá-la. As demonstrações procuram permitir aos outros experimentar o que foi descrito. Em segundo lugar, os autores sugerem que demonstrações diferem de descrições, pois são ações não sérias (nonserious) em oposição a ações sérias, e que elas representam em vez de descrever.

Como já dissemos, o propósito de Clark e Gerrig (op. cit.) é mostrar que discurso reportado são demonstrações que são partes constituintes do uso da língua. O discurso reportado prototípico é uma demonstração do que uma pessoa fez dizendo algo. Então, quando uma pessoa reporta a outra, ela pode representar o enunciado dessa outra. Ademais, ela pode também representar seu estado emocional, sua acentuação, sua voz e até mesmo suas ações não-linguísticas que acompanham sua fala.

Os autores apresentam duas classes de funções para discurso reportado: Separação (Detachment) e Experiência direta (Direct Experience).

● Separação

Clark e Gerrig (op. cit.) sustentam que o falante, ao descrever, assume responsabilidade por suas palavras. Porém, quando ele reporta a fala de outro sua responsabilidade é apenas a de apresentar o assunto reportado. Então, com o discurso reportado o falante pode separar parcial ou completamente o que ele mesmo disse e o que ele

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reportou. Podemos usar o discurso reportado com vários propósitos, entre eles estão reprodução literal (verbatim reproduction), dissociação de responsabilidade (dissociation of responsibility) e solidariedade (solidarity).

(a) Reprodução literal - consiste em representar literalmente a sua própria ação ou a da outra

pessoa. Para isso, é necessário usar o discurso reportado direto e também dizer ou deixar implícito que as palavras estão sendo reproduzidas literalmente. Este tipo é convencionalmente usado em jornais, no tribunal e em redações literárias.

(b) Dissociação de responsabilidade - é o falante não ser o responsável por aquilo que

reportou. Atitudes que são indelicadas ou inapropriadas para o próprio falante são completamente aceitáveis na boca do outro. Para isso, usa-se o discurso direto. Como podemos ver na narrativa abaixo de um jovem escocês:

Excerto (16)

e –eh – quando eu estava esperando o leite eh- o fazendeiro veio e ele disse „Você deixou a escola, não Andrew?‟ eu disse „é‟ ele

disse „Você estará procurando um trabalho‟ eu disse „sim‟ ele disse „Você gostaria de começar aqui?‟23 (tradução nossa)

Como vimos no excerto acima, o jovem reporta a fala do fazendeiro para mostrar que primeiro ele procurou saber se o jovem estava buscando trabalho para depois fazer a proposta de emprego. Isto prova que o discurso reportado permite ao falante transmitir informações implicitamente que deveriam ser mais difíceis de expressar explicitamente.

Falantes podem dissociar responsabilidade para com o uso da língua. Pessoas que comumente não proferem palavras tabus, palavrões, entre outras, podem o fazer contanto que elas sejam atribuídas a outra pessoa.

(c) Solidariedade - significa reportar como representação apenas de uma parte do evento

mais amplo. Esta propriedade permite ao discurso reportado direto ser usado em expressões de solidariedade ou cortesia.

Quando falantes demonstram somente uma parte de um evento, eles tacitamente assumem que seus destinatários compartilham o contexto para interpretar do mesmo modo

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and –eh – when I was waiting on the milk eh- the farmer came oot

and he says „That you left the school noo Andrew?‟ say I „It is‟ he says „You‟ll be looking for a job‟ says I „Aye‟ he says „How would you like to start here?‟ (CLARK; GERRIG, 1990, p. 792).

que o fazem os falantes. Isto quer dizer que para a pessoa interpretar corretamente o que foi dito, ela tem que ser solidária com o falante, ou seja, ela tem que cooperar com o interlocutor.

● Experiência direta

O discurso reportado difere de descrições também pela experiência que eles apresentam aos destinatários. Quando nós ouvimos um evento descrito, interpretamos as palavras do falante e imaginamos o evento descrito. Mas quando nós ouvimos um evento reportado, é como se nós experimentássemos os aspectos descritos do evento original diretamente. Assim, o discurso reportado deveria ser útil para qualquer propósito que fosse cumprido pela experiência direta. Os propósitos são:

(a) Inefabilidade (Ineffability) - muitas coisas são mais fáceis de demonstrar do que

descrever. Como, por exemplo, emoções, urgências, indecisão, sarcasmo no tom de voz, gestos, expressões faciais ou outras ações corporais, são mais fáceis de demonstrar. Geralmente os falantes tentam minimizar o esforço na comunicação, por isso, se eles vão descrever ou demonstrar um aspecto depende de qual é mais fácil para a compreensão. Inefabilidade é uma razão forte para usar o discurso reportado em vez de descrever.

(b) Envolvimento (Engrossment) - é crucial para novelistas. Se sua meta é envolver o leitor

no mundo dos personagens, deve usar discurso direto. Agora se for envolver o leitor nos pensamentos e ações do narrador, ele deve usar discurso indireto. Por isso, podemos dizer que os discursos direto e indireto contrastam quanto à perspectiva do endereçado.

(c) Demonstrações impossíveis (Impossible demonstrations) - alguns eventos são

impossíveis de demonstrar em sua totalidade, contudo falantes podem descrever alguns de seus aspectos. Pensamentos não podem ser literalmente exibidos, no entanto, são frequentemente sujeitos ao discurso reportado. Os falantes descrevem somente aspectos seletivos de seus pensamentos.

O quadro a seguir resume as duas classes de funções e os propósitos que Clark e Gerrig (op. cit.) propõem:

Os propósitos de cada função:

Classes de Funções (a) (b) (c)

1. Separação Reprodução literal Dissociação de responsabilidade

Solidariedade 2. Experiência direta Inefabilidade Envolvimento Demonstrações

impossíveis

Quadro 1 – As funções e os propósitos de Clark e Gerrig Fonte: Da autora.

Clark e Gerrig (op. cit.) ressalvam que há uma longa tradição que assume o discurso reportado como reprodução literal do que está sendo reportado, sendo o discurso direto como uma reprodução fonográfica de pensamentos e de palavras.

Contudo, assim como vimos em Tannen (1989), os autores também afirmam que devido à memória dos falantes, estes não podem reproduzir expressões literalmente, pois as pessoas não podem repetir palavra por palavra sem que haja um esforço especial de ensaiar e memorizar o que deve dizer. Isto significa que quando reportamos a fala do outro não quer dizer que estejamos repetindo palavra por palavra do que o outro falou.

Além disso, os falantes fazem auto-reparos24, que podem ser de dois tipos: reparo de adequação (appropriateness repairs) e reparo de erro (error repairs). O primeiro é quando a pessoa se auto-repara para colocar uma palavra ou uma frase que torna a fala reportada mais clara, melhor interpretável. O segundo é quando a pessoa substitui uma palavra ou frase incorreta pela correta.

Na demonstração, os falantes descrevem somente aspectos seletivos do que eles estão demonstrando.

Os autores tratam também do discurso reportado de expressões não-verbais, que é o falante reportar um som que o outro produziu em algum momento. A produção deste discurso é problemática, pois se não há palavras para reproduzir o som, então, a pessoa vai reproduzir a sua maneira.

Os autores dizem que existem três teorias alternativas de discurso reportado:

(a) Teoria da menção (Mention theory) - a pessoa, ao reportar alguém, faz uma menção em

vez de usar uma expressão para demonstrar algo. Como, por exemplo, uma pessoa com uma aparência triste vai ser reportada como Fulano disse „Eu estou triste‟, mas essa pessoa não disse isso. O que torna o discurso reportado falso.

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O reparo para Sacks, Schegloff e Jefferson (1977) diz respeito à prática de negociar com problemas ou dificuldades em falar, ouvir e compreender a fala. É um mecanismo para modificar a fala ou suas implicações. Para os autores, o ato de alguém fazer um reparo em sua própria fala é chamado de auto-reparo.

(b) Teoria demonstrativa (Demonstrative theory) - a pessoa, ao reportar, demonstra o que o

outro fez no contexto reportado. Clark e Gerrig (op. cit) retomam Davidson (1984) que diz que o discurso reportado é uma espécie de referência demonstrativa. Apesar da similaridade dos nomes, a Teoria demonstrativa de Davidson (op. cit.) é diferente da teoria dos autores, porque, para o primeiro, a citação é um dispositivo para indicar e para Clark e Gerrig (op. cit.) indicar é diferente de demonstrar, indicar (mostrar) um lugar é diferente de demonstrar este lugar.

(c) Teoria dramatúrgica (Dramaturgical theory) - a pessoa que reporta a fala do outro

assume temporariamente o papel da outra pessoa. No discurso reportado direto, o falante não diz o conteúdo do que é reportado, isto é, o que foi dito, em vez disso ele faz o ouvinte ser capaz de ver ele mesmo o que aconteceu, ele mostra o conteúdo reportado.

Para concluir, podemos dizer que se o discurso reportado é demonstração; então, demonstrar é parte essencial do uso da língua e o uso da língua não pode ser completo sem isto.

Em nossa pesquisa, pretendemos analisar os dados com essa ideia de discurso reportado como demonstração, que para Clark e Gerrig (op. cit.) é como se a linguagem fosse um drama e o uso do discurso reportado uma encenação em interação face a face.

2.8 BUTTNY E WILLIAMS: DISCURSO REPORTADO EM CONTATOS INTER-

No documento carolinapeixotobarros (páginas 33-37)