2 HETEROGENEIDADES DO HABITUS PEQUENO-BURGUÊS
2.1 EIXOS TEMÁTICOS OU PRESSUPOSTOS DO HABITUS
2.1.3 Classe
Talvez o eixo mais importante que baliza a noção de habitus seja o de classe. O habitus não é individual, ele é compartilhado pelo grupo de atores que dividiram as mesmas condições de existência e que geraram um conjunto de condicionamentos sociais cujo valor é relacional, distintivo e hierarquizado. A fidelidade a si é a fidelidade aos que lhe deram origem, conformando uma solidariedade visceral (ligação afetiva e cognitiva) ao grupo de pertencimento (BOURDIEU, 1980; 2007a).
O aspecto relacional da identificação e diferenciação é patente aqui, pois o “valor” de uma classe de indivíduos será definido pela posse (ou falta) relativa de recursos. Pode-se dizer que os membros do mesmo grupo, seja classe social ou fração de classe, estão unidos
cognitivamente pelo compartilhamento de uma mesma perspectiva do espaço social, que se diferencia das demais, extraindo daí seu valor. Do ponto de vista da topografia do espaço social, a perspectiva é limitada pela localização diferencial, tornada possível pelo acúmulo ou escassez de capitais de todos os tipos (BOURDIEU, 2007a).
A classe é um pressuposto do habitus porque este é um sistema de disposições coletivas e compartilhadas por indivíduos que viveram sob as mesmas condições de existência. Então, o
habitus não é individual, mas sempre é habitus de classe.
As classes sociais são apreendidas por Bourdieu a partir de uma análise topológica do espaço social, sendo definidas em primeiro lugar pelo volume global de capital, e em seguida, pela estrutura desse patrimônio de capital (a qual definiria mais propriamente as frações dentro da classe).
Além da localização no espaço social em função do volume de capital, Bourdieu aborda uma estrutura de relações entre outras formas de classificação, como a etária, étnica, de gênero, matrimonial, geográfica, etc., que também seria definidora da classe social.
Tais classificações parecem conter a possibilidade de se pensar a individualização do
habitus de classe em função de propriedades secundárias, já que nem todos os agentes da mesma
classe possuem de igual maneira as características modais que estão associadas a essa. Bourdieu (2007a) sugere que as variações individuais do habitus estão relacionadas à trajetória social e à posição ocupada pelo agente no interior da sua classe, que podem ser entendidas também pelo grau em que esse manifesta as características modais da classe. Apesar disso, o movimento argumentativo do autor se estabelece no sentido de ler as características secundárias não como fontes de refração do habitus e da herança de classe ou do incremento da indeterminação. Ele vai entendê-las no sentido da sobredeterminação da posição de classe por intermédio de todas as demais classificações.
Em um sentido próximo, Bourdieu (2007a) estabelecerá a relação entre classe e campo. O campo das classes sociais englobaria todos os campos de produção cultural. O princípio explicativo das práticas sociais performatizadas nos mais diferentes campos seria o princípio da classe social. A sistematicidade das práticas e a sua homologia permitiriam falar em um princípio único por trás delas, princípio de classificação diferencial, de visão e divisão do mundo social.
Talvez uma maneira mais frutífera de pensar uma possibilidade de abertura do eixo da classe, para pensar a individualização dos habitus e das trajetórias sociais, seria refletir e
problematizar a questão da homogeneidade das classes sociais e da estabilidade da posição de classe.
A proposição de que o habitus é uma matriz geradora de práticas e percepções, produzida por condicionamentos derivados da experiência sob certas condições diferenciais de existência, parece supor tanto a estabilidade e a homogeneidade dessas condições de vida geradoras de um conjunto de disposições homogêneas e sistemáticas, mas também a existência de fronteiras identitárias e classificatórias bem delineadas entre as classes. As práticas e as disposições classificam os agentes porque elas conservam uma capacidade de diferenciá-los.
Se essa suposição de fronteiras identitárias claras é possível para as classes situadas nos dois polos sociais, para a classe média ela se complica, especialmente pelo incremento dos deslocamentos no espaço social e pela presença da dispersão de trajetórias em relação à trajetória modal da classe, mas também por manifestar disposições incoerentes e incongruentes entre si e que podem ser aproximadas, em alguns casos, das disposições da burguesia e daquelas das classes populares.
Por outro lado, os princípios-guia do habitus da classe média (ascetismo, rigorismo, malthusianismo, etc.), diferentemente dos das demais classes, não remetem, diretamente, à ideia de solidariedade e de união do grupo, na qual se assenta o habitus, ou de adesão ao passado e à origem social. Nesse caso, parece se revelar uma relação de tensão com o passado e a renúncia do presente, pois o futuro surge claramente como intenção. Daí toda uma ética do sacrifício e da virtude e, também, a presença de uma divisão identitária entre disposições possuídas e pretendidas.
A representação que Bourdieu faz da classe média e a caracterização que apresenta do seu habitus torna possível a questão a respeito da própria existência da classe média, já que é um conjunto de posições significativamente marcadas pela condição da própria instabilidade, que agrega indivíduos, igualmente, em trânsito, gerando uma situação de ambiguidade do ponto de vista da classificação de suas práticas, as quais só podem ser caraterizadas justamente por essa condição.
O princípio da boa vontade cultural, que rege o habitus pequeno burguês, confere inteligibilidade justamente à heterogeneidade disposicional dessa classe. De forma que o que parece estar sugerido no caso das classes médias é que o verdadeiro padrão revelado por suas disposições estéticas e seu consumo cultural é precisamente a falta de unidade disposicional e a clivagem entre dois universos.